sábado, setembro 12, 2015

Contardo Calligaris- Razão, crença e dúvida. Artigo de 2009.



Republico este artigo de outubro de 2009, continua atual. Concordo com Contardo. Leiam e digam o que pensam.







Razão, crença e dúvida


Contardo Callligaris

Onde se manifesta a razão? Na arrogância de certezas absolutas ou na capacidade de duvidar?


MEU PRIMEIRO contato com a história que segue foi em junho passado, no blog de Richard Dawkins ( site que se autodenomina "um oásis de pensamento claro"). Dawkins é o evolucionista britânico que se tornou apóstolo do racionalismo ateu e cético, escrevendo, entre outros livros, o best-seller mundial "Deus - Um Delírio" (Companhia das Letras, 2007).
Mas eis a história. Em 2002, na Austrália, o casal Sam, de origem indiana, perdeu a filha, Gloria, de nove meses.
A menina, a partir do quarto mês, apresentou sintomas de eczema infantil, que é uma condição alérgica que afeta mais de 10% dos bebês e, geralmente, acalma-se ou some aos seis anos ou na adolescência. As causas do eczema infantil não são bem conhecidas; a medicina administra a condição da melhor maneira possível, esperando que passe. O problema é que o eczema (pele seca com prurido) dá uma vontade de se coçar à qual as crianças não resistem, e a pele, ferida, abre-se para qualquer infecção. Foi o que aconteceu com Gloria, que morreu de septicemia.
Não foi falta de sorte: o pai de Gloria é homeopata e, em total acordo com a mulher, medicou a menina só com remédios homeopáticos (insuficientes na condição da menina). Isso até o fim, quando ela definhava pelas infecções internas e externas. Gloria foi levada a um hospital três dias antes de morrer: as bactérias já estavam destruindo suas córneas, e os médicos só puderam lhe administrar morfina para aliviar seu sofrimento.
Os pais de Gloria foram presos, acusados de homicídio por negligência e, no fim de setembro, condenados pela Justiça australiana: o pai, a oito anos de prisão, a mãe, a cinco anos e quatro meses. Segundo o juiz, Peter Johnson, ambos os pais "faltaram gravemente com suas obrigações diante da filha": o marido pela "arrogância" de sua preferência pela homeopatia e a mulher pela excessiva "deferência" às decisões do marido.
Os termos da decisão de Johnson são admiráveis. A obediência -ao marido, no caso-, seja qual for seu fundamento cultural, nunca é desculpa; ela pode ser, ao contrário, o próprio crime. E, sobretudo, o marido é condenado não por recorrer à homeopatia, mas pela "arrogância" que lhe permitiu perseverar em sua crença e em sua decisão diante do calvário pelo qual passava a menina.
A sentença de Peter Johnson é, para mim, um modelo de racionalidade, porque estigmatiza a certeza independentemente do objeto de crença. Ou seja, o juiz não discute o bem fundado da autoridade do marido e, ainda menos, os méritos respectivos da homeopatia e da medicina alopática. Tampouco ele quer limitar a liberdade de opinião, garantida pela Constituição; a sentença penaliza apenas, por assim dizer, a rigidez.
Se me coloco no lugar dos pais de Gloria, não consigo imaginar uma crença, por mais que ela possa ser crucial para mim, que resista à visão do corpinho de minha filha transformado numa ferida aberta e purulenta.
Antes disso, eu (embora confiando, a princípio, na medicina alopática) já teria convocado não só os homeopatas (o que, aliás, seria uma banalidade, visto que a homeopatia é uma especialidade médica reconhecida) mas também todos os xamãs, feiticeiros e curandeiros que me parecessem minimamente confiáveis. E, é claro, embora agnóstico, eu rezaria, sem nenhuma vergonha e sem o sentimento de trair minhas "convicções", pois a primeira delas, a que resume minha racionalidade, diz, humildemente, que há muito no mundo que minha razão não alcança.
Se fosse testemunha de Jeová, e minha filha precisasse de uma transfusão (que a religião proíbe), abriria imediatamente uma exceção. Mesma coisa se fosse cientologista, e minha filha precisasse de ajuda psiquiátrica. Sou volúvel e irracional? O fato é que tenho poucas crenças (provavelmente, nenhuma absoluta), e acontece que, para mim, a razão é uma prática concreta, específica: um jeito de pesar e decidir em cada momento da vida.
O surpreendente é que, ao ler os comentários dos leitores no blog de Dawkins, os "racionalistas" parecem tão "rígidos" quanto o pai de Gloria. "A razão" (que eles confundem com uma visão aproximativa do estado atual da arte médica) é, para eles, um objeto de fé, uma crença pela qual facilmente condenariam os "infiéis" à fogueira.
Com o juiz Johnson, pergunto: onde se manifesta a razão? Na arrogância das certezas ou na capacidade de duvidar?

domingo, julho 26, 2015

Gravidez precose, um tema que não se esgota







Gravidez precoce

Há anos, vi um programa de Serginho Grossman com a Sue Johanson  lembro que ficou espantada ao saber que as jovens, apesar de informadas, saberem que é preciso se prevenir contra a gravidez, muitas vezes engravidam. Sue ficou pasma quando o Serginho perguntou para a platéia se conheciam alguma jovem adolescente que tenha engravidado e, praticamente, todos conheciam.

O que acontece? Por que nossos jovens, apesar de informados, não usam camisinha ou outro tipo de cuidado?

Vou copiar aqui o trecho de uma palestra que faço para pais de adolescentes, eu escrevo e falo numa linguagem acessível a todos.


Gravidez precoce.


Uma mocinha que engravida aos 13/14 anos, na maior parte das vezes, não acreditava que ficaria grávida.

Vocês se lembram dos seus pais dizendo : “cuidado com a bicicleta” ou cuidado para não cair e você estar certo de que o pai ou a mãe estava exagerando, pois tinha certeza que não ia acontecer nada. Muitas vezes, não aconteceu, mas noutras aconteceu. O mesmo se dá com a gravidez, a jovem não acredita que aquela relação vá levá-la à gravidez, ou pensa que com ela não irá acontecer, este pensamento nós chamamos de mágico, onipotente, só porque pensa não irá acontecer, é assim que o jovem pensa.

O rapaz geralmente não está nem aí, para ele o problema é dela. Ele está errado, porque no caso de uma gravidez, ele também será responsabilizado, mas a sociedade coloca a responsabilidade maior na mulher. Quem não se preveniu foi ela, quem foi leviana foi ela, mas ela não estava fazendo sexo sozinha.

Muitas vezes a moça fica grávida na primeira relação, que é uma relação difícil para os dois, um encontro tenso, cheio de ansiedades. Ele sem querer usar camisinha para não falhar e ela insegura, não quer fazer nada que possa aborrecê-lo, também não quer parecer mais experiente que ele- “viu a safadinha, já sabia usar camisinha...” ou para mostrar que o quer de qualquer forma mesmo correndo risco.

Adolescente gosta de desafios e jogar com a possibilidade de engravidar ou não, pode ser uma jogada inconsciente na sorte ou o desejo de ter uma identidade própria, será mãe. Muitas vezes esta jovem é completamente invisível socialmente, a gravidez dá visibilidade a ela.

Quantos de vocês devem ter tido a primeira relação atrapalhada, apressada, às vezes em lugares improvisados?

Como resolver esta questão? Não é fácil, mas também não é impossível, tudo se resolve.

Quando acontece a gravidez geralmente fica escondida até não poder mais, tentam coisas para abortar, pulam,tomam aspirinas, coisas que as amigas ensinam.

As jovens não têm coragem de falar com os pais o que ocorre, até que fique tão evidente que não há mais como esconder. Então o que os pais devem fazer?

Tentar não se desesperar nem fazer escândalo, tudo tem saída.

Os pais geralmente gritam, esperneiam, até verem que não há outra saída a não ser tentar ser razoável.

Vem a culpa, “a culpa é tua, devia ter falado com ela!” “é tua, sempre distante, não toma conhecimento com os filhos!” e por aí vai...

Não adianta tentar encontrar os culpados, é hora de conversar, o que não foi conversado antes, procurar ajuda de gente mais esclarecida, mais madura e procurar um médico.

O pai do futuro bebê já sabe? Precisa saber, precisa ser responsável também, no caso do seu filho ser o homem, ele precisa assumir a paternidade, ser responsável. Se não se amam é melhor que não oficializem a relação, são muito jovens, terão outras relações amorosas.

Se a moça não quer o filho será necessário o apoio de um psicólogo/a, um médico para orientar.

Os avós serão sempre avós, não devem assumir o neto/a como se fosse seu filho, isto trará problemas futuros, os jovens precisam assumir suas responsabilidades, aos pais cabe ajudar no que for preciso, mas não assumir completamente a criança.

Aceitar as mudanças na vida é fundamental e todo adolescente nos colocará diante de situações novas. As crises são boas para melhorarmos, para crescermos, aproveitem as crises e se renovem.

Como vocês veem, eu não falei em aborto, nem educação sexual, deixo para outro dia.
Aborto é um tema que preciso abordar com cuidado nas palestras, é um tema tabu ainda.

Vocês concordam com o que eu disse no texto acima?

quarta-feira, abril 01, 2015

A Páscoa e a maioridade penal








Estamos na Semana Santa, domingo será Páscoa. Semana sagrada para todos nós cristãos. Vivemos mergulhados em Cristo. Vivemos, desde o nascimento, celebrando o cristianismo, você queira ou não.
Quem aqui foi batizado? Quem fez primeira comunhão? Casou na Igreja? Quase todos, um número ínfimo, não. Nós, classe média, estudamos, quase sempre em colégios religiosos, rezávamos no intervalo das aulas, íamos à missa aos domingos, obrigados ou não.
Pois é, Cristo, como todos sabemos e ouvimos repetidas vezes, nasceu e morreu na cruz para nos salvar.
Nos salvar de quê? Nos dar a graça dívina? Nos tornar melhores?
Para mim, é para nos fazer Homens cada vez melhores. O que seria isto?
Vivemos automatizados, é preciso acordar cedo, sair correndo para trabalhar para sobreviver, ou ganhar mais dinheiro, afinal o mundo demanda cada vez mais e mais.
Não paramos para refletir nunca! Não temos tempo! Quem tem cinco minutos , dez, para pensar o seu dia a dia? Quase ninguém. A maioria dirá: não tenho tempo! E não mente, ele acha que realmente não tem tempo. Tempo se cria. O tempo é elástico, sabemos, subjetivo.
A vida passa tão rápido, dizemos, é verdade,  ela escorre mesmo entre nossos dias, muitas vezes vazios.
Um dia nos descobrimos envelhecidos, não há mais tanto tempo pela frente, aquele futuro que esperávamos já chegou e dai?
Frustrados, adoecemos. Vêm todas as mazelas facilitadas pela debilidade do corpo, cada dia mais decadente.
É a vida, dizemos. A vida nem sempre é justa, quase sempre nos sentimos injustiçados. Desejamos tanto...
E ai? Como resgatar o tempo perdido? A sensibilidade adormecida...
Voltando a Cristo- nesta semana Ele está presente em nós, há apelos em todos os lugares pela Páscoa- hoje apenas uma data comercial- bom, acredito que o bom filho de Deus veio ao mundo para nos dar exemplo. A vida dele foi exemplar, com lendas ou não. Disse, em muitas ocasiões, para termos compaixão pelo outro. Pregou a igualdade entre nós- irmãos em Cristo, irmãos humanos. A humanidade nos faz irmãos. Não importa pele, credo, nada- somos todos iguais, queiramos ou não. Buda, séculos antes, disse o mesmo. Será que homens tão sábios estavam errados? Ou seremos nós os ignorantes, seres não evoluídos?
É desolador ver que caminhamos para trás como Homens em pleno século XXI!


Reduzir maioridade penal fortalece facções criminosas, Plínio Fraga








Daqui.


Mais jovens presos, mais mão de obra para facções. Foto: Educar


A redução da maioridade penal, em discussão no Congresso, tem apoio de mais de 90% dos eleitores brasileiros, de acordo com o Datafolha e o Sensus. Se criminosos utilizam hoje menores de 18 anos em seus bandos, porque podem ser beneficiados da lei, quem impediria que usassem menores de 15 anos, ou menores de 14 ou mesmo 12 anos? Criminalidade não segue a lei, qualquer que seja ela
Os grupos de defesa de direitos humanos enumeraram  razões para serem contra a redução da maioridade penal. Não custa listá-los outra vez.  Afirmam que hoje, a partir dos 12 anos, qualquer adolescente já é responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabilização é executada por meio de medidas socioeducativas, com o objetivo de ajudá-lo a recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê como medidas educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração. O problema é que na maior parte das vezes a lei que já existe não é cumprida.
Muitos adolescentes que são privados de sua liberdade não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, reproduzindo o ambiente de uma prisão comum. Pela lei atual, o adolescente pode ficar até nove anos em medidas socioeducativas, sendo três anos como interno, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com o Estado acompanhando e ajudando-o a se reinserir na sociedade. O problema é que em geral o Estado não exerce o seu papel.
A discussão sobre maioridade penal não é sobre punição ou não punição. É sobre encarceramento. No Brasil, 70% dos presos voltam a cometer crimes, um indício de que o sistema penal é mais escola do crime do que entidade de recuperação social. Não há estudo ou pesquisa que mostre que o rebaixamento da idade penal diminua a criminalidade juvenil.
Entidades do setor dizem que a reincidência de crianças e adolescentes submetidos a medidas socioeducativas está em 20%, quase três vezes menos do que a taxa de reincidência das cadeias brasileiras.
O Brasil tem a 4° maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado com 500 mil presos. Só fica atrás em número de presos para os Estados Unidos (2,2 milhões), China (1,6 milhões) e Rússia (740 mil). E a criminalidade continua em linha ascendente. Alemanha e Espanha  (com recorde de desemprego entre os jovens) elevaram recentemente para 18 anos a idade penal, sendo que os alemães criaram ainda um sistema especial para julgar os jovens na faixa de 18 a 21 anos.
De uma lista de 54 países analisados pela ONU, a maioria deles adota a idade de responsabilidade penal absoluta aos 18 anos de idade, como é o caso brasileiro. São minoria os países que definem o adulto como pessoa menor de 18 anos. Das 57 legislações analisadas, só 17% adotam idade menor do que 18 anos como critério para a definição legal de adulto.
Calcula-se que cerca de 90 mil adolescentes respondem por atos infracionais no Brasil. Destes, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O número corresponde a 0,5% da população jovem do Brasil que conta com 21 milhões de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.
Os homicídios de crianças e adolescentes brasileiros cresceram nas últimas décadas. São quase nove mil por ano, o equivalente a 24 assassinatos de crianças e adolescentes por dia. A Organização Mundial de Saúde diz que o Brasil ocupa a 4° posição entre 92 países do mundo analisados em pesquisa. Aqui são 13 homicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes; de 50 a 150 vezes maior que países como Inglaterra, Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, Egito cujas taxas mal chegam a 0,2 homicídios para a mesma quantidade de crianças e adolescentes.
A educação é fundamental para qualquer indivíduo se tornar um cidadão. Punir jovens com o encarceramento sem que o Estado assuma a própria incompetência em lhes assegurar o direito básico à educação é marca de uma sociedade cruel.
Siga-me no twitter: @pfraga

domingo, março 29, 2015

A demora- filme



Acabo de ver um filme uruguaio muito bom. Uma história dramática: mulher vive com três filhos e um pai senil com muitas dificuldades. Desesperada não aguenta mais o pai.

Vejam o filme para saber o que acontece. É tenso até o final. Uma situação limite, o que você faria?
Jamais o que ela fez, mas talvez tivesse pensado nisto. Bom para refletir sobre velhice e relação pais/ filhos.

Recomendo. Foi premiado no Festilval de Berlin e fez sucesso mundo afora. Merece.
Cru, triste e comovente.
#dica #filmes: "A demora".
Vi no site: tocadoscinefilos.

sábado, março 28, 2015

Namoro de filhos adolescentes- arquivo
























Recebi esta questão que acredito ser bastante comum entre nós.

Leiam:

"A gente pensa que está preparada pra tudo quando se depara com uma situação aparentemente fácil e simples de se lidar.
Tenho 2 filhos (17 e 15)- casal.
Nunca tive dificuldade em falar sobre sexo com êles, sempre abordando temas atuais e relevantes pra formação de ambos:DST's, gravidez, etc. Só que eu sempre via essa realidade muito distante, e agora, diante dessa realidade palpável, sinto-me perdida e apreensiva - até mesmo impotente!
Minha filha (15 anos) namora um rapaz de 19 e como todos(ou pelo menos quase todos adolescentes), pensa que já sabe tudo. Não Tenho mêdo de alguma possível desilusão dela, o que me angustia é a incapacidade (ou nâo!- tomara!!!) dela em lidar com tais sentimentos e que isso lhe cause conseqüencias desastrosas...
Difícil até escrever...
...imagine viver isso...
(alguma luz?)
T."

Eu gostaria de saber mais de T. Como é sua vida? Vive com marido e filhos? Está separada? Gosto de conhecer o ambiente onde as pessoas vivem antes de dizer algo, saber como vive, até onde este contexto influi no que possa estar sentindo.

Toda vez que surgem conflitos com adolescentes, ou causados por eles, penso no quanto a adolescência é instigante, desafiadora e difícil. É o momento mais rico de nossa existência, idealista, inovador. O adolescente vive em busca de sonhos e desafios, muitas vezes fica difícil viver perto deles por isto.

Como foi a sua adolescência? Você foi um adolescente desafiador? Ou foi quieto, tímido ou mesmo depressivo?

Como era a relação com seus pais? Era tranqüila ou foi difícil. Você tinha medo de seus pais? Respeitava-os ou temia? Podia dizer o que pensava, dialogar? Havia diálogo?

São muitas as perguntas, todas estas questões são importantes quando estamos diante de um adolescente.

Como foi sua iniciação sexual? Com quem foi?
Foi boa, tranquila ou foi traumática? Sentiu prazer com o sexo desde o início ou foi muito difícil sentir prazer? Você sentia-se pronta/o para começar uma vida sexual? Foi casual? Foi com um namorado/a?

Ficaria aqui horas fazendo perguntas. Somos todos complexos, estas perguntas vão nos ajudando a nos descobrir e entender o porquê das nossas inseguranças e angústias.

Voltando ao caso de T. fico pensando que medos a afligem: medo de que a filha venha a sofrer? Será que T. sofreu muito nesta fase? Será que teme que a filha repita “erros” que tenha cometido? Por que tem tanto medo? O namorado da filha não lhe passa segurança?
Acredito que a maioria das mães sentem medo nesta fase, as mães dos meninos, também.
Objetivamente, acho que TEM que levar a filha a um médico/a ginecologista, é o melhor caminho. Se ela quiser ir só, tudo bem, mas ela tem apenas quinze anos, você é responsável por ela, se ela não aceitar sua sugestão, diga-lhe isto e faça com que vá. Ali terá as informações seguras, talvez não se sinta à vontade com a mãe, é natural, não se sinta excluída, isto é natural no adolescente, ele/a precisa se distanciar dos pais, tem vergonha da sexualidade diante dos pais, é normal, os pais também, muitas vezes não aceitam a sexualidade dos filhos, ficam assustados, de repente seu filhinho/a ficou homem/mulher. É tudo tão rápido...

T. diz:
“Não Tenho medo de alguma possível desilusão dela, o que me angustia é a incapacidade (ou não! - tomara!!!) dela em lidar com tais sentimentos e que isso lhe cause conseqüências desastrosas...”
O que teme aqui? Quais seriam as conseqüências desastrosas? Você sofreu muito? Tem medo de que ela também venha a sofrer?
Imagino pela sua aflição que está acuada e impotente, diz isto. Converse com sua filha, mesmo que ela se recuse a conversar deixe espaço para isto, diga algo, diga que está preocupada com ela, que quer vê-la bem, se ela não quiser papo pelo menos vai te ouvir. Amor nunca é demais, ela pode te ignorar no momento, mas em algum momento vai sentir que poderá contar com você.
E boa sorte!

Agora é com vocês, nunca dou a última palavra, escrevi agora, sem deixar o texto amadurecer, pode conter erros, digam. Quero que aqui haja espaço para trocas, para que falem de suas experiências. As mães que já passaram por isto podem contar como foi.
Com a palavra vocês, leitores, e amigos blogueiros.

quarta-feira, março 11, 2015

A mínima diferença- sobre homens e mulheres





Maria Rita Kehl Diferença mínima 






Maria Rita Kehl: A mínima diferença


Publicado em 02/03/2015


Há cem anos não se fala em outra coisa.1 O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo, num tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista, quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias?
Ainda assim, parece que nada mudou muito. O escândalo e o enigma do sexo permanecem, deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir o seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como há cem anos, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.
Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e suas ressonâncias; mas o que se diz ali já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de se esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou o seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana, segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar o próprio do homem, narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos da sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “o que faço para (voltar a) ser mulher?”, “como posso (voltar a) ser homem?” – questões que me remetem à observação de Arnaldo Jabor em artigo de para a Folha de São Paulo, sobre o choro (arrependido?) de algumas mulheres da cena política e da mídia brasileiras: “O que é isso? A feminilidade como retorno?”.
Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os discursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, uma parte das exigências do superego, uma parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário –, mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma – os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? Novos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado, deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos e sim com um campo minado ainda desconhecido.
Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social (e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado (por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revistaTime americana publica em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e Mulheres: Nascem Diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nos últimos trinta anos parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer: “devagar com a louça!” – aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem à sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?
Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem que ser dissimulada com os engodos fálicos da beleza e da indiferença, tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza?
Os artistas da virada do século já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karênina2 pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o. amor não é meio de vida., o amor não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary3queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século XX, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher. O amor da mulher foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.
O destino da Nora, de Ibsen,4 nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que Ibsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de… mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e uma segunda (e a terceira e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens, e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder  às paixões masculinas sem “se desgraçar”?
No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já neste século é a história de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo5 se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em conseqüência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é ? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo uma mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí sim é que ela é mesmo uma mulher.
O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século XX sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens, não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade (s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s).  O que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento – de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou no “Mal-Estar…”,6 sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” tentando, explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais – sobretudo a que pesava sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.
No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que este “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.
A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas do demônio, assim se designavam na antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada da sua feminilidade até um limite intolerável. Só a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de põe fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.
E quem duvida de que Ana Karênina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista deste a mais que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal a mais da mulher!), a morte de um reconhecimento por parte do outro, na falta do que a mulher cai num vazio intolerável. Pois se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.
Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky, ou a Rodolphe Boulanger? Não; diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.
Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer esta mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter que se reconhecer.
Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que tratam o abandono e a solidão da mulher. Já nos primórdios dessa movimentação toda, Melanie Klein e Joan Rivière escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar, etc., etc. Ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.
E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito do nosso mal-estar, antes que esse texto se torne paranóico; mas como não ser paranóico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina?


* Texto escrito originalmente em 1992, e recuperado pela autora especialmente para o especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“, no Blog da Boitempo.





quinta-feira, dezembro 04, 2014

Como viver o luto- Contardo Calligaris






Qual é o melhor jeito de se viver o luto?
Aqui um ótimo artigo do Contardo sobre nossas perdas.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Corpo e mente- Arquivo revisitado

























Corpo e mente

Post de 2009, abril, 16

Todos nós sabemos que nosso corpo responde a fatores emocionais, muitas vezes imediatamente. Quando nos aborrecemos, ficamos tristes. Quantos de nós perdem a fome ou começam a comer exageradamente? Se somos frustrados desejamos comer um chocolate ou um doce.
Cada pessoa tem uma maneira de reagir às frustrações, quando este comportamento torna-se habitual passamos a ter problemas com o peso, além das frustrações provocadas por não poder vestir algo que gostaríamos, sentir-se feio/a ou sentir-se culpado.
Existe o lado cientifico que já comprovou que o chocolate, por exemplo, ajuda a sintetizar a serotonina, que é importante para o nosso humor evitando a depressão. Sabemos que caminhar ajuda a melhorar nosso estado de espírito, pois fabricamos mais endorfina, importante para nosso bem estar, fazendo qualquer outro exercício físico, também.

Corpo e mente estão sempre relacionados.

As mães são as primeiras provedoras de alimento, através do alimento, das primeiras mamadas temos nossas primeiras experiências de satisfação, começamos aí a lidar com a comida e com as frustrações. Se as mães privam a criança nesta fase ela terá graves problemas emocionais, se a mãe exagera no alimento teremos uma relação distorcida com os alimentos.

Aí, pensamos, mas como evitar isto?

Será que nossas mães souberam a medida certa?

Difícil responder, alguns de nós somos mais equilibrados em relação ao alimento, outros não sabem lidar bem com a comida.

A comida para o bebê é afeto também, é a maneira como ele responde à mãe , se um filho rejeita o peito a mãe fica triste, se a mãe não dá o peito o bebê grita desesperadamente, quem já viu um bebê com fome sabe o poder que ele tem na garganta. As mães se desesperam também. Identificar através do choro do bébe qual a sua necessidade nem todas as mães conseguem, levando, no que concerne à alimentação, a deformações alimentares posterirores

Naturalmente, nem só a mãe é responsável por estas deformações alimentares, também as babás, os pais, os avós muitas vezes acostumam as crianças a usarem a alimentação com muleta para satisfazer uma frustração. Crianças que sofreram abandono (físico ou emocional) quando crescem desenvolvem a necessidade de sentir o estômago cheio, são estas crianças que se tornarão adultos que bebem demais, comem demais, usam drogas...

O que fazer agora, depois que estes hábitos foram adquiridos? Precisamos separar a fome do vazio existencial, das frustrações, da ansiedade, da tristeza. Se o problema não é orgânico, pode ser, o médico clínico ou endocrinologista dirá, um especialista nos problemas da alma ajudará.

A psicologia desnuda estes sentimentos e chega ao âmago da questão. Como chegar lá? Através do diálogo com um profissional especializado você vai descobrir por que come demais ou de menos, por que não emagrece apesar de fazer dieta ou por que apesar de desejar emagrecer não consegue seguir uma dieta adequada. Aspectos subjetivos alteram o metabolismo, é preciso conhecê–los para não sermos prisioneiros, para livrar-nos dos nós que impedem de vivermos como esperamos, desejamos.

Além das questões pessoais há aspectos culturais na nossa maneira de lidar com a comida, quando recebemos alguém em nossa casa sempre oferecemos café, bolo, biscoitinhos, bebidas. É uma forma de dizer que apreciamos sua presença. É um gesto cultural, quando vamos à casa de alguém esperamos que nos receba com algo, à seco fica parecendo que não agradamos, que a visita deve ser rápida.

O receio da própria sensualidade, ou sexualidade, é outro motivo que, sem que se perceba, leva muitas pessoas a engordarem ou à anorexia. A nossa imagem corporal é a primeira que apresentamos num contato social ou profissional, exceto em relações virtuais, por exemplo. A gordura serve como um escudo que afasta paqueras e namorados. A capa de gordura faz com que você esconda suas emoções, e acabe cancelando encontros, adiando viagens, faz você usar roupas largas, não sair no final de semana... tudo por estar gorda, não querer ser vista por ninguém. Aí, insatisfeita, culpada, come sem limites, afoga as mágoas na comida ou bebida. É um circulo vicioso que precisa ser quebrado.
Este quadro é agravado se a pessoa não faz nada para mudar, a culpa aumenta a cada dia.

O que fazer para mudar?

Como aumentar a auto estima? Só uma mudança de hábitos fará você mudar. É preciso ter vontade, se esforçar. Deixando de se enganar, geralmente fazemos tudo para nos enganarmos, arranjamos desculpas para tudo e vivemos no piloto automático, esperando mudanças mágicas. Isto não existe. É preciso olhar para dentro e sentir que é possível mudar, sempre é possível mudar. Mudar a nós mesmos é possível, mudar o outro não. Depende de cada um de nós, não adianta o marido, a mulher, o médico, o terapeuta, desejar mudar você, você tem que querer mudar e isto traz os riscos de uma nova situação, tudo que é novo assusta.

Algumas vezes é necessário até aprender a ser magro, quando se acostuma a ser gordo. Ou aprender a ser forte quando se é muito magro.

É preciso reconstruir a sua imagem corporal. Saber que pode ficar diferente.

É preciso descobrir outros prazeres na vida além de comer.

É preciso dominar o impulso de comer e aprender que a compulsão provoca um prazer imediato, que não compensa porque virá com a culpa por engordar. Melhor seria a satisfação a longo prazo.

É preciso ser perseverante, já que 66% das pessoas desistem no meio do caminho.

É preciso se exercitar, andar, nadar, alongar, fazer yoga, escolha o que você gosta de fazer.

É preciso alterar comportamentos que contribuem para o aumento de peso, como, por exemplo, comer depressa demais, beber durante as refeições, exagerar no couvert do restaurante achando que como está ali tem que aproveitar. Culturalmente qualquer comemoração é acompanhada de excessos, festeja-se comendo e bebendo em excesso. Festejar comedidamente ninguém gosta, mas depois vem a culpa no dia seguinte pelo exagero.
Diante de tantas coisas prementes não desista, pois não existe fórmula mágica para se livrar de uma dependência alimentar, como não existe mágica para se livrar de drogas. Existem tratamentos, não adianta você deslocar a compulsão de comer para outra compulsão , procure enfrentar suas dificuldades de frente, procure se interiorizar e entender porque come demais ou de menos. Não é se privando de tudo numa dieta rígida que vai resolver seu problema, é se conhecendo melhor, reconhecendo os momentos onde a ansiedade está grande, desatando os nós, que terá uma relação melhor e equilibrada com os alimentos, desta forma encontrará prazer e não culpa ao comer e olhará para seu corpo com prazer.

Você sairá ganhando, basta querer. Só depende de você, vá em frente. E boa sorte!

PS: Não abordei a anorexia, nem bulimia, porque são questões mais delicadas, ficaria um texto mais longo ainda.

A filha de James Joyce







Um artigo sobre a filha de James Joyce, que sofria de esquizofrenia.
Aqui

sábado, novembro 22, 2014

A morte e o luto na psicanálise

A psicanalista Maria Rita Kehl analisa o clássico Luto e Melancolia, em tradução de Marilene Carone, que está sendo relançado pela Cosac Naify.

Luto e Melancolia é o último da série de textos resultantes do grande esforço teórico que Freud batizou de metapsicologia. Desde que estreou com A Interpretação dos Sonhos, em 1900, Freud já mostrava empenho em compreender as expressões patológicas ou normais da alma humana com base na inter-relação entre os três planos – tópico, dinâmico e econômico.
Mas foi entre 1914 e 1915 que ele produziu a série de ensaios de metapsicologia, que começam na Introdução ao Narcisismo e se estendem até Luto e Melancolia, passando pela investigação das pulsões, da natureza do recalque e do funcionamento do sistema inconsciente.
Embora a psicanálise não tenha sido construída – e nem poderia – em uma linha evolutiva sem desvios, o leitor da obra freudiana há de perceber o percurso conceitual que ali se desenha. A aposta iluminista que orientou a invenção da psicanálise como método investigativo e a consequente descoberta do inconsciente e suas diversas formações, patológicas (angústias, inibições, sintomas) ou cotidianas (sonhos, chistes, poesia) fez com que Freud prestasse conta a seus leitores a cada mudança ou avanço teórico empreendido.
Isso possibilita que o leigo ou o estreante compreenda, com um pouco de esforço e paciência, alguns textos lidos ao acaso, fora da ordem cronológica em que foram produzidos. É possível tirar algum proveito, por exemplo, da leitura do difícil e ousado Além do Princípio do Prazer, de 1920, sem ter sido iniciado a partir do livro inaugural de 1900. É possível entender em que consiste o complexo de Édipo a partir dos textos dos anos 1910, sem ter lido os Três Ensaios para uma Teoria Sexual, de 1905.
Em uma leitura menos rigorosa, é possível acompanhar os relatos clínicos de Freud sem ter lido os textos que estabelecem os alicerces teóricos da recém-fundada psicanálise. O fato é que o entendimento do projeto freudiano se aprofunda e se amplia na medida em que se acompanha, mais ou menos pela ordem, um conjunto de ensaios nos quais Freud está empenhado em resolver um problema específico. No presente caso: a investigação da psicose batizada por Kräepelin em 1883 de “maníaco-depressiva”, que Freud trouxe para o campo da psicanálise no presente.
Luto e Melancolia, não teria sido possível antes do desenvolvimento das idéias expostas emIntrodução ao Narcisismo e As Pulsões e Seus Destinos, ambos de 1914. Ou se não tivesse o apoio conceitual estabelecido em O Recalcamento O Inconsciente, ambos de 1915.
Na direção regressiva, hoje nos parece óbvio que a teoria da melancolia tenha conduzido a textos tais como Considerações Atuais sobre a Guerra e a Morte, do mesmo ano, uma investigação filosófico-científica sobre a desilusão (melancólica) que a Primeira Guerra trouxe para os habitantes das supostas civilizações evoluídas do Ocidente.
Estamos diante de um percurso de pensamento que hoje nos parece ter sido destinado a desaguar, em 1920, na importante revisão da teoria pulsional expressa em Além do Princípio do Prazer, em que a antiga oposição entre pulsões do ego e pulsões sexuais foi substituída pelo conflito – mas também por variadas soluções combinatórias – entre pulsão de vida e pulsão de morte.
A partir desse ponto, ficou impossível refletir sobre a psicopatologia sem levar em consideração o trabalho da pulsão de morte. Que por sua vez já estava em gestação desde a teoria da melancolia.
Entre as ideias que prepararam o terreno para Luto e Melancolia vale destacar, de Introdução ao Narcisismo, a importante constatação de que o autoerotismo precede o narcisismo. Nos primeiros meses de vida, o bebê ainda não constituiu “uma unidade primitiva comparável ao eu”. Seu corpo é sede de experiências fragmentadas de prazer, que aos poucos organizam os investimentos pulsionais e permitem aquilo que, no texto seguinte a este, Freud haverá de estabelecer como a possibilidade de reversão da pulsão, desde o objeto-alvo (não encontrado, ou não satisfatório), de volta ao eu. O autoerotismo participa dos modos de satisfação da libido do eu.
É claro que a criança não é autossuficiente no desenvolvimento do autoerotismo. A mãe ou um substituto seu representam para a criança este Outro superpoderoso que também haverá de comparecer, de forma negativa, na origem das melancolias. É ela quem erotiza com seus cuidados (a começar pela amamentação) o corpo do infans e colabora para estabelecer os caminhos de satisfação pulsional que o bebê saberá, faut de mieux, percorrer por conta própria ao sugar o polegar, balançar-se no berço ou, meses mais tarde, tocar seus genitais.
Mas o autoerotismo ainda não é igual ao narcisismo do eu: um novo ato psíquico deve ocorrer para que a tal unidade primitiva se forme e para que a criança se identifique com ela, ou seja, com seu próprio eu. Além da satisfação libidinal autoerótica, o infans haverá de identificar-se com o objeto privilegiado que ele representa frente ao amor e ao desejo de seus pais.
A partir desse ponto, está estabelecida a base para a formação da unidade do ego freudiano, fonte de investimento libidinal (a partir de 1915 diremos: pulsional) e dessa forma particular de amor a que chamamos narcisista. Nesse ponto da constituição psíquica Freud haverá de encontrar, em 1915, a relação narcísica com um objeto frustrante que marca a estrutura da melancolia.
O narcisismo primário forma a base para o narcisismo secundário, vulgarmente conhecido como a dose essencial de estima que o ego dedica a si mesmo. O qual, por sua vez, é tributário das desilusões sofridas pelos pais em relação às suas próprias fantasias narcisistas: os filhos representam uma renovação das velhas esperanças infantis dos adultos, contrariadas pela realidade da vida.
Outra parte do narcisismo secundário resulta de suas eventuais experiências exitosas – tanto no sentido dos investimentos em direção aos ideais do ego quanto nas buscas de satisfação da libido objetal. O maior ou menor êxito na constituição do narcisismo secundário varia, a depender de que os investimentos objetais estejam ou não em sintonia com os ideais do ego – caso contrário, estes ficarão sujeitos ao recalque.
A vicissitude bastante comum de se desejar o que não se deve, o que não se pode, o que não contribui para a valorização do ego contribui decisivamente para a diminuição da autoestima dos neuróticos, quando não conduz a inibições que impedem os caminhos de desenvolvimento do ego, ou a soluções de compromisso sintomáticas.
As reflexões de Freud sobre o narcisismo produziram uma importante mudança de enfoque na teoria. O papel dos obstáculos que o princípio de realidade impõe à plena satisfação dos impulsos do bebê passou a uma posição secundária frente à questão da perda do narcisismo primário. A paixão por “voltar a ser seu próprio ideal mais uma vez” será mais decisiva para a escolha de neurose que conclui a travessia edípica do que a frustração do impulso sexual propriamente dito, em relação à mãe. Vale observar também que essa inflexão teórica será um dos pontos decisivos para o “retorno a Freud” efetuado por Lacan.
Na obra freudiana, a retomada da ênfase sobre a questão do narcisismo amadurece  exatamente em Luto e Melancolia. A falha na constituição do narcisismo primário estabelece uma distinção entre a “neurose narcísica” da melancolia e o sofrimento que caracteriza o trabalho de luto.
O trabalho psíquico empreendido pelo enlutado, embora empobreça o ego e torne o sujeito inapetente para quaisquer outros investimentos libidinais, pode ser considerado como um trabalho da ordem da saúde psíquica. É um trabalho de paulatino desligamento da libido em relação ao objeto de prazer e satisfação narcísica que o ego perdeu, por morte ou abandono.
Ter sido arrancado de uma porção de coisas sem sair do lugar: eis uma descrição precisa e pungente do estado psíquico do enlutado. A perda de um ser amado não é apenas a perda do objeto, é também a perda do lugar que o sobrevivente ocupava junto ao morto. (…) Mas é normal, escreve Freud, que o apego do enlutado ao seu morto diminua aos poucos, e que a “psicose alucinatória de desejo” – um conceito estabelecido no texto imediatamente anterior ao nosso, o Complemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos, também de 1915 – ceda lugar à aceitação da realidade.
Embora a libido tenha enorme resistência em abandonar posições prazerosas já experimentadas, aos poucos a ausência do objeto impõe o doloroso desligamento, até que o ego se veja “novamente livre e desinibido”, pronto para novos investimentos. Pronto para voltar a viver.
Freud revela nesse texto uma disposição investigativa inesgotável. Nada, para ele, é tomado como natural, nada escapa ao seu questionamento. Mesmo que o trabalho de luto seja uma função psíquica normal, não patológica; mesmo que a dor causada pela perda de um objeto de amor nos pareça totalmente compreensível, Freud não se dá por satisfeito. O aspecto doloroso do luto só será esclarecido, escreve ele, quando a dor for explicada do ponto de vista econômico, tal como o autor já havia esboçado em A Repressão.
Mais difícil é entender o que ocorre com os melancólicos, estes que desconhecem tanto a natureza do objeto perdido como a origem da perda. Mesmo quando sabem nomear quem perderam, não sabem dizer o que foi perdido junto com o objeto. A observação clínica nos sugere que uma posição da libido nos primórdios da vida psíquica tenha sido abandonada, ou perdida.
Freud estranha também que falte ao melancólico o sentimento de vergonha comum aos arrependidos, aos que de fato se consideram indignos e sem valor. Se estes se escondem e tentam fazer calar sua culpa e seu crime, os melancólicos parecem sentir necessidade de alardear suas baixezas e sua indignidade.
Debatem-se em autoacusações delirantes sem saber que os insultos furiosos voltados contra si próprios em verdade correspondem às características de alguma outra pessoa – daí a força da expressão encontrada pela tradutora: “para eles, queixar-se é dar queixa”.
Se “a sombra do objeto” encobre o ego, isso indica a base narcísica do investimento (forte fixação; baixa resistência) e a identificação precoce do ego com o objeto perdido. A superposição desses dois aspectos traz à luz todos os tormentos característicos da ambivalência amorosa, que nos melancólicos é experimentada com grande intensidade.
Mas a identificação narcísica ainda não é suficiente para explicar o furor das autoacusações melancólicas que podem atingir o paroxismo quando o sujeito, ao tentar destruir o objeto odiado de sua identificação inconsciente, pode chegar a destruir a própria vida.
O “autotormento indubitavelmente deleitável da melancolia” aponta para uma modalidade sádica de satisfação pulsional, cuja natureza exige uma explicação do ponto de vista tópico. A satisfação sádica em insultar e humilhar o ego provém de uma de suas funções específicas, a consciência moral ou (como ficará estabelecido depois de 1920, em O Ego e o Id) o superego. Ora: o sadismo do superego não caracteriza exclusivamente a melancolia. Ele comparece também, por exemplo, nas manifestações de masoquismo moral dos neuróticos obsessivos. Se na melancolia ele se manifesta com muito mais crueldade, isso se deve também à desfusão entre Eros e Tânatos, que libera o gozo da pulsão de morte do limite imposto pelos investimentos parciais efetuados pelas pulsões de vida. Mas esse ponto só poderia ser explicado depois de Além do Princípio do Prazer, escrito também em 1920.
Luto e MelancoliaSigmund Freud
Trad.: Marilene Carone
Cosac Naify
144 páginas
R$ 39,90

    quinta-feira, agosto 21, 2014

    Como falar com nossos filhos, Contardo Calligaris














    Como mostra Diogo Bercito (na Folha de 17/8), aumenta significativamente o número de judeus europeus que emigram para Israel. Comento a notícia com um amigo, que "entende" imediatamente: crescem, na Europa, as expressões (inclusive violentas) de antissemitismo, é lógico que um jovem judeu tenha vontade de ir embora.

    Eu acho curioso que a gente entenda automaticamente o fenômeno como uma fuga dos perigos do antissemitismo europeu —como se Israel não fosse um país ameaçado. Ou seja, um jovem judeu francês pode decidir emigrar, não para fugir da França, mas para ir defender Israel.

    Cuidado, não me interessa aqui decidir quem tem razão no Oriente Médio. O que me surpreende e me interessa é o viés cínico, que nos faz pensar que alguém só possa agir para fugir do perigo —como se a covardia fosse uma sabedoria implícita.

    Não sei você, mas eu gostaria que meus filhos desejassem forte e corajosamente —não que vivessem uma vida acanhada e regida por interesses materiais imediatos. Como ensinar isso sem ser ridículo e pernóstico como um moralista?

    Pois bem, fui assistir a "Chef", de e com Jon Favreau, porque procurava uma comédia da qual uma menina de 13 anos gostasse. Acertei: o filme é divertido e tocante, com uma ressalva: não entre no cinema de estômago vazio. Eu saí de lá com uma fome desgraçada, tanto de audácias gastronômicas de alta cozinha como da comida de caminhão de beira de estrada.

    Seja como for, além de garantir o sorriso e o apetite, o filme é uma ocasião (imperdível) para pensar sobre o que transmitir para nossos filhos e como fazer isso. Sem spoilers, menciono alguns pontos.

    1) Muitos homens acima de 50 anos acham que não deveriam se tornar pais: "Serei velho demais para jogar bola com meu filho". Amigo, seu filho (ou filha, se ele/ela gostar de futebol) terá muitos amigos para jogar bola, todos mais divertidos e melhores jogadores do que você. Na verdade, seu filho só vai achar importante que você jogue bola com ele se você tiver sido jogador de futebol de verdade. E, se você repetir mais uma vez que essa era sua real vocação, e que você tinha tudo para ser Garrincha, ele vai achar você patético. Nossos filhos não querem saber quais são nossos sonhos de uma infância ideal; eles querem saber quem somos nós, hoje, adultos.
    2) É falsa a ideia de que os filhos nos pediriam sempre para "distraí-los" (levá-los à Disney, por exemplo). Quase sempre, as "distrações" que propomos às crianças revelam sobretudo nosso infantilismo.

    3) Não tem como conhecer um filho sem se deixar conhecer por ele. Isso não significa contar ao filho detalhes espinhosos de nossa vida amorosa —como se a revelação comprovasse nossa cumplicidade. Deixar-se conhecer significa falar do que é importante para nós (sim, os filhos se interessam pelo que é realmente importante para nós —e os pais que não se importam com nada, em regra, criam filhos perdidos, sem rumo).

    4) No filme, um dia, o pai explica ao menino que talvez ele não tenha sido um pai muito bom nem um marido muito bom, mas uma coisa ele sabe fazer: cozinhar para as pessoas —e nisso ele não quer e não vai falhar. O menino responde "Sim, chef", sem ironia alguma. Ou seja, você quer respeito de seu filho? Leve sua própria vida a sério.

    Lembranças. Meu pai não fez nunca um esforço para me propor uma diversão que ele supusesse apropriada à infância. No máximo, ele me incluía nas diversões dele: cinema, teatro, leituras, visitas a igrejas, museus e monumentos. Eu só entendia que a vida devia ser uma coisa muito séria.

    Ele nunca sentou para me dizer o que ele queria da vida, mas, lá pelos meus oito anos, num sábado, eu o acompanhei nas visitas que ele fazia a seus pacientes hospitalizados. No caso, o paciente estava num hospital psiquiátrico. Fiquei no carro esperando que meu pai voltasse. Alguém, ao lado do carro, aparava uma cerca viva com enormes tesouras de jardineiro. Pensei que fosse o fim: o jardineiro do hospício me olhava enviesado e ia se aproximando. Eu ouvia o clack-clack das tesouras.

    Fui salvo pela chegada do meu pai, que conversou com o jardineiro e subiu no carro. Timidamente, perguntei se o jardineiro era um louco. Meu pai comentou: "Não é maravilhoso? Você achou que ele te olhava torto, e ele achou que você era encarregado de vigiá-lo". Aquele "maravilhoso" nunca me saiu da cabeça.

    quarta-feira, agosto 06, 2014

    Amor, encontros e desencontros



    Eros e Psiquê, de Antonio Canova



    Encontros e desencontros amorosos



    Vivemos em busca de um encontro, encontro mágico que preencheria o nosso vazio existencial, acabaria com a solidão. Este encontro, encantado, não existe, porque cada um de nós vem com suas fantasias, carregamos nossos fantasmas... temos uma expectativa tão especial que, quase sempre, é frustrada.

    Somos seres complexos, não somos previsíveis. Temos momentos de generosidade, de doação, mas na maior parte do tempo estamos à espera que o outro nos dê aquilo que esperamos, sem que ele saiba o que desejamos. Nem mesmo nós, na maioria das vezes, sabemos o que desejamos do nosso parceiro, a não ser amor incondicional.

    Os encontros amorosos acontecem quando imaginamos que o outro vai suprir nossas expectativas. Quando acreditamos que o parceiro é nosso par ideal- a outra metade da maçã. Quando estamos identificados com este outro, que nem conhecemos. Apenas supomos ser. Quando percebemos aspectos que não gostamos, acreditamos que ele poderá mudar- mudará por nós- haverá a mudança mágica para sermos felizes para sempre.

    Na entrega amorosa acreditamos ser um em dois.

    Muitas vezes estamos apaixonados pela paixão, pelo estar enamorado, com toda a adrenalina que isto traz. É uma viagem maravilhosa e assustadora, cheia de ansiedades e alegrias, onde o medo de perder o objeto amado se faz constante.

    Este encanto se quebrará em algum momento, pode ser com um gesto bobo, uma palavra mal- dita, uma escolha “brega”, uma sujeirinha no antes belo sorriso.
    Uma descoberta que não se encaixa naquilo que imaginávamos do ser amado.

    Algumas pessoas, mais que outras, entram em pânico diante de incertezas, ficam dominadas pelo ciúme. Aqui, entram os fantasmas de cada um. Se você experimentou abandono na infância, viverá a espera de um novo abandono, não haverá amante, amantíssimo, que o deixe seguro. Você perdeu lá atrás. Estará à espera de um reconhecimento, que faltou quando era imaturo- quando estava em formação psíquica.

    A paixão, o estar apaixonado se quebrou, mas há afeto, há amor.

    Por que diferenciamos paixão de amor?
    O amor seria mais generoso, mais tolerante, cúmplice. Quando amamos vemos no outro defeitos, mas, mesmo assim, sentimos afeto por ele, algumas imperfeições nos comovem e nos fazem transbordar de afeto. Lembro de um casal de atores famosos franceses- Yves Montand e Simone Signoret- ele disse numa entrevista, jamais esquecerei, que quando a via colocando os óculos, depois dos 50 anos, se enchia de afeto.
    Na maioria dos casais, existe muita intolerância, cobrança, muita culpa jogada no outro pela própria infelicidade. Quando isto acontece é hora de parar e repensar a relação. Pensar o que esta relação significa. O que esta pessoa representa.
    Temos medo de mudar, medo do novo, medo de falar de assuntos delicados, de mágoas, e não percebemos que estes sentimentos vão alimentando o rancor, nos distanciando de quem amamos e nos adoecendo.

    Na década de 70, no auge do amor livre e de liberdade sexual, as pessoas passaram a viver sem limites, tudo era válido, tudo devia ser dito, confessado. Eu discordo, nem tudo deve ser dito, por que contar para o parceiro uma fantasia sexual, por exemplo? Este comportamento acabou gerando casais que se propunham “modernos”, mas que na realidade estavam confusos, quanto ao comportamento.
    Tudo pode?
    Não.
    Então por que não guardar as fantasias? Afinal é o que temos de mais intimo.

    Atualmente, temos disponível uma quantidade enorme de livros, revistas, sites, que se propõem a ensinar casais a se relacionarem. Fomos todos bombardeados por manuais, vídeos sobre sexo, como dar prazer, como obter prazer. Isto trouxe mais informações- o que não havia antes- mas também um nível de exigência muito grande, não basta um orgasmo, é preciso ser múltiplo, é preciso saber onde é o ponto G.

    Sabemos que isto tudo é irrelevante numa relação amorosa, pois cada casal tem uma
    química própria, não existem regras, na verdade. Não sabemos o que se passa entre um casal na intimidade.

    O mundo real é muito diferente do mundo criado pela mídia e pelo nosso imaginário. Vivemos com nossas imperfeições os nossos encontros e desencontros amorosos.
    E “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como diz o poeta Caetano.

    A paixão é virtual- sempre se passa via nosso imaginário- e o amor seria virtual, também?
    E os amores na internet seriam sempre virtuais? Agora você tem a palavra. O que pensa sobre isto?
    Diga o que pensa, nós o ouvimos.

    Por que o adolescente sofre? (arquivo)




    Por que o adolescente sofre?

    Elianne Diz de Abreu


    O adolescente passa por uma fase de grandes perdas- lutos.


    Todos sabemos que o adolescente é tido como difícil, rebelde. Falamos do adolescente como o cara complicado, desagradável, do contra, de humor variável- pode rir num minuto, no outro chorar.
    É a fase das mudanças hormonais que fazem mudar a voz, o corpo se transformar, deixar de ser criança.

    Mas o que acontece com o adolescente? Poucos se importam.

    Os pais se queixam, os professores reclamam...

    O que se passa com eles poucos prestam atenção. Ele anda trancado no quarto, no banheiro, fora de casa o dia todo...
    Talvez o desconforto que sinta o faça se isolar ou buscar grupos onde se identifique.


    O adolescente passa por uma fase de grandes perdas- lutos.

    Perde os pais infantis.
    Aqueles pais que cuidavam dele com carinho, deixam-no muito solto, sem atenção, na maior parte das vezes, é ele quem tem que cuidar de si. E é difícil, a vida vira um caos, esquece compromissos, perde chaves, come o que é mais fácil...

    Perde o corpo infantil.
    Rapidamente seu corpo muda, pelos crescem, formas se delineiam, não é nem adulto nem criança. Ele percebe as mudanças acontecendo e sente-se impotente- cresce, desenvolve-se: “Até onde?”, pensa.

    Perde a identidade infantil.
    Neste processo muitas vezes se volta contra os pais- que foram as figuras mais importantes e com as quais se identificou. Precisa afastar- se para ser ele mesmo, o que causa estranheza - passa a questioná-los, ser do contra. O pai deixa de ser o super herói, a mãe deixa de ser a mãe maravilhosa e linda. É o processo de desmitificação dos pais.

    A sexualidade torna-se premente- há mais desejo- e um mundo de descobertas. Há quase sempre muita insegurança. O que fazer com o corpo sexualizado pronto para compartir prazeres? É preciso ter um par. É aqui que aparecem os maiores conflitos com os pais pela dificuldade que têm em aceitar que os filhos cresceram e têm sexualidade. Os pais querem controlar o que não é possível.

    Perde o mundo infantil.
    Onde havia proteção e não sente que haja espaços para ele: para algumas coisas ainda é criança, para outras já é tido como adulto. Quantos de nós dissemos: “Você não tem ainda idade para isso!”. Ou: “Você já está bem grandinho para isso.”
    Perde dos jogos infantis.
    Nesta fase ele não pode mais brincar como na infância. A menina precisa abandonar as bonecas. O menino brincadeiras próprias da infância.

    O jovem vive na expectativa de que algo venha a acontecer e ele não sabe o que virá.
    Tudo gera conflito e angústia.
    Mas será que todos vivem a adolescência? Alguns precisam trabalhar desde muito cedo, outros são pais ou mães muito jovens, passam por estas mudanças sem terem possibilidade de entrar em crise. Sem terem tempo para sentir intensamente o que ocorre.

    É bom lembrar que os pais vivem o mesmo processo de luto: enquanto o adolescente sofre com o crescimento e mudanças- que o impelem para o mundo fora de casa- os pais sofrem por perderem o controle do filho, por sentirem-se menos amados diante de tantas críticas, por perceberem que a vida escorre diante deles- enquanto o jovem tem tudo pela frente, muitos pais sentem-se frustrados e infelizes com suas escolhas.

    Por que o sofrimento? Porque toda mudança provoca alguma crise.

    É preciso aprender, neste momento rico, e renovar-se- há tempo para pais e filhos.