sexta-feira, agosto 10, 2018

De onde você fala? Contardo Calligaris



Folha de São Paulo 09/08/2018


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Nossas supostas identidades não precisam coincidir com nossas motivações

Nos anos 1970, em Paris, não havia como se posicionar num debate sem receber a questão: "Mais d'où tu parles?", de onde você fala? E isso sobre qualquer tema que fosse.Cada um devia se perguntar quem estava "realmente" falando pela boca dele. Seguindo as ideias da época: 1) você fala "eu penso que xyz"; 2) o "eu" que diz que pensa xyz é apenas o sujeito da frase "eu penso", uma espécie de ilusão gramatical, que PARECE ser o lugar de onde sai a declaração; 3) atrás desse "eu" de "eu penso", há outro sujeito, eventualmente ignorado por quem fala: é ele, de fato, que pensa xyz, sem que o "eu" de "eu penso" sequer se dê conta disso.
Em outros termos, ao tomarmos a palavra, não conhecemos direito o próprio lugar de onde falamos —ou melhor, desconhecemos o agente que fala pela nossa boca. Somos divididos e escondemos (inclusive de nós mesmos) uma parte grande de nossas motivações.
A partir dos anos 1980 e 90, a política das identidades, nascida nos EUA, apoderou-se da pergunta "de onde você fala?".
"De onde você fala?", nos anos 1970, evocava a complexidade indefinida de nossas motivações. Hoje, a mesma pergunta parece se satisfazer com as identidades que estão na cara —tipo, você é homem ou mulher, hétero ou homo ou trans, branca ou negra, bonito ou não, rica ou pobre etc., e portanto é de lá que você fala, quer queira quer não queira.
É como se os grupos aos quais pertencemos social, histórica e geneticamente (nossas "identidades") fossem a origem essencial de nossas motivações (escondidas ou não) e, portanto, constituíssem uma espécie de viés inevitável.
Por exemplo, posso ser feminista, mas não deixo de ser homem; posso achar qualquer racismo uma idiotice, mas não deixo de ser branco; posso ser comunista, mas não deixo de ser burguês —e essas coisas todas que eu "não deixo de ser" colocam em questão o valor do que eu digo. Seja qual for nossa ideia ou militância, seríamos sempre uma quinta coluna de nossas identidades.
Essa dúvida (ou crítica) pode ter uma utilidade política, mas o fato é que as identidades às quais parecemos pertencer não coincidem necessariamente com nossas motivações.
A mente é complexa. Tem proletários que defendem políticas econômicas de direita porque, eles dizem, vai que eles ganham na Mega-Sena. Assim como há homossexuais que defendem sua própria discriminação. Interrogando a variedade das motivações, aliás, eis um clássico, para se divertir: a música/poesia de Giorgio Gaber, "Qualcuno Era Comunista".
Na minha história, a política das identidades e a pergunta "de onde você fala?" se cruzaram num estranho debate na New School de Nova York, no começo dos 1990 ou fim dos 80. A decana do departamento onde eu ensinaria era uma mulher branca que publicara livros seminais sobre o novo feminismo e, antes disso, sobre o racismo nos EUA. Isso não a impedia de se opor à ideia de considerar a raça (ou o gênero) como critérios para escolher o corpo docente do departamento. Acusada de dever sua opinião à cor de sua pele, ela declarou (de jeito propositalmente chulo e chocante) sua preferência sexual por homens negros. O que deixou a plateia estupefata e abriu, para mim, uma série de reflexões inconclusivas.
Se eu, homem ou mulher, transo com negros, o que isso diz sobre minha relação com minha "identidade" branca? Será diferente se eu preferir transar passivamente ou ativamente? Os donos de escravos que iam para a senzala para comer eram mais ou menos "brancos" do que aqueles que iam para ser comidos?
Falando de escravos, aliás, outra ideia forte da política das identidades é a das culpas que cada um carregaria consigo por causa das suas identidades.
Pareceria fácil objetar: como um branco chegado ao Brasil nos anos 1940 seria "culpado" pela escravatura no Brasil? Como um muçulmano de hoje seria responsável pela pirataria no Mediterrâneo? Mas, de fato, adoramos assumir as culpas (ou os "direitos") das nossas supostas identidades —provavelmente porque adoramos qualquer coisa que alivie nossa solidão.
Aqui, a psicanálise toma a direção oposta à da política das identidades, pois uma cura psicanalítica, em tese, serve para nos permitir de não ser apenas, neuroticamente, o fruto dos grupos onde nascemos, membros de uma família, de uma nação, de uma raça"...
Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).

segunda-feira, agosto 06, 2018

A questão do aborto- Contardo Calligaris




A dor do aborto gera consequências físicas e emocionais sobre a mulher. Foto: Shutterstock





Absorvemos uma cultura que situa na mulher e no seu desejo a origem do mal


Folha de SP- 02.08.2018 


O Supremo Tribunal Federal está ouvindo argumentos a favor e contra a descriminalização do aborto voluntário até a 12ª semana de gestação.
Na Folha de 29/6: de 2008 a 2017, no Brasil, 2,1 milhões de mulheres foram internadas por complicações de abortos clandestinos. O custo para o SUS foi de R$ 486 milhões. Que o leitor calcule o custo da morte, do desespero e do desamparo dessas mulheres.
Essa realidade à parte, tento resumir minha posição:
1. Ninguém é "a favor" do aborto —só se discute para decidir se ele tem que ser considerado um crime ou não;
2. Para alguns, o aborto é um crime contra a vida do feto. Para outros, a interdição do aborto é um crime contra a vida da mulher que engravidou contra sua vontade. Um aborto deixa cicatrizes psíquicas dolorosas na mulher que abortou, mas uma gravidez indesejada e levada obrigatoriamente a termo também deixa cicatrizes dolorosas —na mulher e no seu rebento.
3. A partir de quando há vida (e, para os religiosos, alma)? Para permitir a fecundação in vitro, decidimos que o embrião inicial não é um ser completo e pode ser descartado. A 12ª semana de gestação é o limite aceito nos países onde o aborto voluntário não é crime: tempo suficiente para a mulher descobrir que está grávida e que não deseja ter filhos (não naquele momento ou não com aquele pai).
3. Quem "defende a vida" deve se lembrar que estão em jogo aqui duas vidas: a do feto e a da mulher que engravidou.
Nesta altura da conversa, se não antes, sempre alguém comenta: "Ela devia ter pensado nas consequências antes de transar".
É bom, porque isso me leva imediatamente ao que mais me importa dizer hoje sobre a questão do aborto.
Declaro-me impedido de opinar sobre esse assunto. E acho que qualquer pessoa honesta e instruída deveria se declarar impedida de opinar sobre o assunto: todos impedidos, salvo as mulheres que abortaram ou que estão atualmente procurando um aborto.
Cuidado: não acho que, em geral, só devam legislar as pessoas interessadas na legalização de seus atos passados ou iminentes. Nada disso.
Mas o fato incontestável, no caso do aborto, é que todos, homens e mulheres, há 2.800 anos, absorvemos uma cultura que situa na mulher e no seu desejo a origem do mal, do pecado e da tentação —começou na mitologia grega, com a figura de Pandora, e piorou com a de Eva, na Bíblia judaico-cristã.
Em relação ao desejo feminino, nossa cultura adota várias estratégias de defesa.
Negamos que esse desejo exista e preferiríamos que a mulher se expressasse só na maternidade (sonhamos com uma mãe virgem, e qualquer maternidade nos parece "santa" porque "justifica" a nossa lubricidade —transamos, mas, veja bem, foi para procriar).
Paradoxalmente, para ilustrar a luxúria e sua punição no inferno, a figura que nossa cultura usa é quase sempre feminina. E a luxúria sequer é o fruto da relação da mulher com um homem, mas da mulher com um diabo (como no famoso tríptico "A Luxúria", de Bruegel, o Velho, 1538).
O desejo feminino, caso ele se manifeste, é responsável por nossa própria lubricidade, pois a mulher nos tenta —como o demônio.
Precisamos controlar o desejo feminino —pense na fantasia masculina trivial de ser aquele que "sabe" fazer gozar as mulheres, quanto, quando e como ele quiser.
Se não conseguirmos controlar o desejo feminino, precisamos reprimi-lo: os homens de nossa cultura inventaram sua "inocência" violentando, torturando e assassinando centenas de milhares de mulheres "incontroláveis". Como teria dito Adão: não fui eu, "foi a mulher que me deste por companheira".
Em 2016-17, em Paris, houve uma linda exposição da qual me chegou o catálogo: "Présumées Coupables", presumidas culpadas. Em tese, os humanos são inocentes até prova do contrário, mas as mulheres são CULPADAS até prova do contrário —pois, de partida, elas são a encarnação do mal.
A exposição de Paris propunha centenas de originais de processos contra mulheres —de Joana d'Arc até as criminosas célebres dos séculos 19 e 20. Desfilavam assim as figuras canônicas do desejo feminino culpado: a encantadora, a maléfica, a sedutora e, claro, a infanticida.
Moldados por um ódio plurimilenar ao desejo sexual feminino, que quisemos exorcizar e controlar pela maternidade, como teríamos legitimidade para opinar sobre a criminalização ou não do aborto? Por pudor, meus amigos, declarem-se impedidos.
Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de “Hello, Brasil!” e criador da série PSI (HBO).

terça-feira, outubro 25, 2016

Elisabeth Roudinesco: "psicanalistas devem se adaptar..."









Elisabeth Roudinesco: ‘psicanalistas devem se adaptar ao coaching e terapias curtas’




Leiam aqui.


domingo, julho 26, 2015

Gravidez precose, um tema que não se esgota







Gravidez precoce

Há anos, vi um programa de Serginho Grossman com a Sue Johanson  lembro que ficou espantada ao saber que as jovens, apesar de informadas, saberem que é preciso se prevenir contra a gravidez, muitas vezes engravidam. Sue ficou pasma quando o Serginho perguntou para a platéia se conheciam alguma jovem adolescente que tenha engravidado e, praticamente, todos conheciam.

O que acontece? Por que nossos jovens, apesar de informados, não usam camisinha ou outro tipo de cuidado?

Vou copiar aqui o trecho de uma palestra que faço para pais de adolescentes, eu escrevo e falo numa linguagem acessível a todos.


Gravidez precoce.


Uma mocinha que engravida aos 13/14 anos, na maior parte das vezes, não acreditava que ficaria grávida.

Vocês se lembram dos seus pais dizendo : “cuidado com a bicicleta” ou cuidado para não cair e você estar certo de que o pai ou a mãe estava exagerando, pois tinha certeza que não ia acontecer nada. Muitas vezes, não aconteceu, mas noutras aconteceu. O mesmo se dá com a gravidez, a jovem não acredita que aquela relação vá levá-la à gravidez, ou pensa que com ela não irá acontecer, este pensamento nós chamamos de mágico, onipotente, só porque pensa não irá acontecer, é assim que o jovem pensa.

O rapaz geralmente não está nem aí, para ele o problema é dela. Ele está errado, porque no caso de uma gravidez, ele também será responsabilizado, mas a sociedade coloca a responsabilidade maior na mulher. Quem não se preveniu foi ela, quem foi leviana foi ela, mas ela não estava fazendo sexo sozinha.

Muitas vezes a moça fica grávida na primeira relação, que é uma relação difícil para os dois, um encontro tenso, cheio de ansiedades. Ele sem querer usar camisinha para não falhar e ela insegura, não quer fazer nada que possa aborrecê-lo, também não quer parecer mais experiente que ele- “viu a safadinha, já sabia usar camisinha...” ou para mostrar que o quer de qualquer forma mesmo correndo risco.

Adolescente gosta de desafios e jogar com a possibilidade de engravidar ou não, pode ser uma jogada inconsciente na sorte ou o desejo de ter uma identidade própria, será mãe. Muitas vezes esta jovem é completamente invisível socialmente, a gravidez dá visibilidade a ela.

Quantos de vocês devem ter tido a primeira relação atrapalhada, apressada, às vezes em lugares improvisados?

Como resolver esta questão? Não é fácil, mas também não é impossível, tudo se resolve.

Quando acontece a gravidez geralmente fica escondida até não poder mais, tentam coisas para abortar, pulam,tomam aspirinas, coisas que as amigas ensinam.

As jovens não têm coragem de falar com os pais o que ocorre, até que fique tão evidente que não há mais como esconder. Então o que os pais devem fazer?

Tentar não se desesperar nem fazer escândalo, tudo tem saída.

Os pais geralmente gritam, esperneiam, até verem que não há outra saída a não ser tentar ser razoável.

Vem a culpa, “a culpa é tua, devia ter falado com ela!” “é tua, sempre distante, não toma conhecimento com os filhos!” e por aí vai...

Não adianta tentar encontrar os culpados, é hora de conversar, o que não foi conversado antes, procurar ajuda de gente mais esclarecida, mais madura e procurar um médico.

O pai do futuro bebê já sabe? Precisa saber, precisa ser responsável também, no caso do seu filho ser o homem, ele precisa assumir a paternidade, ser responsável. Se não se amam é melhor que não oficializem a relação, são muito jovens, terão outras relações amorosas.

Se a moça não quer o filho será necessário o apoio de um psicólogo/a, um médico para orientar.

Os avós serão sempre avós, não devem assumir o neto/a como se fosse seu filho, isto trará problemas futuros, os jovens precisam assumir suas responsabilidades, aos pais cabe ajudar no que for preciso, mas não assumir completamente a criança.

Aceitar as mudanças na vida é fundamental e todo adolescente nos colocará diante de situações novas. As crises são boas para melhorarmos, para crescermos, aproveitem as crises e se renovem.

Como vocês veem, eu não falei em aborto, nem educação sexual, deixo para outro dia.
Aborto é um tema que preciso abordar com cuidado nas palestras, é um tema tabu ainda.

Vocês concordam com o que eu disse no texto acima?

quarta-feira, abril 01, 2015

A Páscoa e a maioridade penal








Estamos na Semana Santa, domingo será Páscoa. Semana sagrada para todos nós cristãos. Vivemos mergulhados em Cristo. Vivemos, desde o nascimento, celebrando o cristianismo, você queira ou não.
Quem aqui foi batizado? Quem fez primeira comunhão? Casou na Igreja? Quase todos, um número ínfimo, não. Nós, classe média, estudamos, quase sempre em colégios religiosos, rezávamos no intervalo das aulas, íamos à missa aos domingos, obrigados ou não.
Pois é, Cristo, como todos sabemos e ouvimos repetidas vezes, nasceu e morreu na cruz para nos salvar.
Nos salvar de quê? Nos dar a graça dívina? Nos tornar melhores?
Para mim, é para nos fazer Homens cada vez melhores. O que seria isto?
Vivemos automatizados, é preciso acordar cedo, sair correndo para trabalhar para sobreviver, ou ganhar mais dinheiro, afinal o mundo demanda cada vez mais e mais.
Não paramos para refletir nunca! Não temos tempo! Quem tem cinco minutos , dez, para pensar o seu dia a dia? Quase ninguém. A maioria dirá: não tenho tempo! E não mente, ele acha que realmente não tem tempo. Tempo se cria. O tempo é elástico, sabemos, subjetivo.
A vida passa tão rápido, dizemos, é verdade,  ela escorre mesmo entre nossos dias, muitas vezes vazios.
Um dia nos descobrimos envelhecidos, não há mais tanto tempo pela frente, aquele futuro que esperávamos já chegou e dai?
Frustrados, adoecemos. Vêm todas as mazelas facilitadas pela debilidade do corpo, cada dia mais decadente.
É a vida, dizemos. A vida nem sempre é justa, quase sempre nos sentimos injustiçados. Desejamos tanto...
E ai? Como resgatar o tempo perdido? A sensibilidade adormecida...
Voltando a Cristo- nesta semana Ele está presente em nós, há apelos em todos os lugares pela Páscoa- hoje apenas uma data comercial- bom, acredito que o bom filho de Deus veio ao mundo para nos dar exemplo. A vida dele foi exemplar, com lendas ou não. Disse, em muitas ocasiões, para termos compaixão pelo outro. Pregou a igualdade entre nós- irmãos em Cristo, irmãos humanos. A humanidade nos faz irmãos. Não importa pele, credo, nada- somos todos iguais, queiramos ou não. Buda, séculos antes, disse o mesmo. Será que homens tão sábios estavam errados? Ou seremos nós os ignorantes, seres não evoluídos?
É desolador ver que caminhamos para trás como Homens em pleno século XXI!


Reduzir maioridade penal fortalece facções criminosas, Plínio Fraga








Daqui.


Mais jovens presos, mais mão de obra para facções. Foto: Educar


A redução da maioridade penal, em discussão no Congresso, tem apoio de mais de 90% dos eleitores brasileiros, de acordo com o Datafolha e o Sensus. Se criminosos utilizam hoje menores de 18 anos em seus bandos, porque podem ser beneficiados da lei, quem impediria que usassem menores de 15 anos, ou menores de 14 ou mesmo 12 anos? Criminalidade não segue a lei, qualquer que seja ela
Os grupos de defesa de direitos humanos enumeraram  razões para serem contra a redução da maioridade penal. Não custa listá-los outra vez.  Afirmam que hoje, a partir dos 12 anos, qualquer adolescente já é responsabilizado pelo ato cometido contra a lei. Essa responsabilização é executada por meio de medidas socioeducativas, com o objetivo de ajudá-lo a recomeçar e a prepará-lo para uma vida adulta. O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê como medidas educativas: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade, liberdade assistida, semiliberdade e internação. Recomenda que a medida seja aplicada de acordo com a capacidade de cumpri-la, as circunstâncias do fato e a gravidade da infração. O problema é que na maior parte das vezes a lei que já existe não é cumprida.
Muitos adolescentes que são privados de sua liberdade não ficam em instituições preparadas para sua reeducação, reproduzindo o ambiente de uma prisão comum. Pela lei atual, o adolescente pode ficar até nove anos em medidas socioeducativas, sendo três anos como interno, três em semiliberdade e três em liberdade assistida, com o Estado acompanhando e ajudando-o a se reinserir na sociedade. O problema é que em geral o Estado não exerce o seu papel.
A discussão sobre maioridade penal não é sobre punição ou não punição. É sobre encarceramento. No Brasil, 70% dos presos voltam a cometer crimes, um indício de que o sistema penal é mais escola do crime do que entidade de recuperação social. Não há estudo ou pesquisa que mostre que o rebaixamento da idade penal diminua a criminalidade juvenil.
Entidades do setor dizem que a reincidência de crianças e adolescentes submetidos a medidas socioeducativas está em 20%, quase três vezes menos do que a taxa de reincidência das cadeias brasileiras.
O Brasil tem a 4° maior população carcerária do mundo e um sistema prisional superlotado com 500 mil presos. Só fica atrás em número de presos para os Estados Unidos (2,2 milhões), China (1,6 milhões) e Rússia (740 mil). E a criminalidade continua em linha ascendente. Alemanha e Espanha  (com recorde de desemprego entre os jovens) elevaram recentemente para 18 anos a idade penal, sendo que os alemães criaram ainda um sistema especial para julgar os jovens na faixa de 18 a 21 anos.
De uma lista de 54 países analisados pela ONU, a maioria deles adota a idade de responsabilidade penal absoluta aos 18 anos de idade, como é o caso brasileiro. São minoria os países que definem o adulto como pessoa menor de 18 anos. Das 57 legislações analisadas, só 17% adotam idade menor do que 18 anos como critério para a definição legal de adulto.
Calcula-se que cerca de 90 mil adolescentes respondem por atos infracionais no Brasil. Destes, cerca de 30 mil cumprem medidas socioeducativas. O número corresponde a 0,5% da população jovem do Brasil que conta com 21 milhões de meninos e meninas entre 12 e 18 anos.
Os homicídios de crianças e adolescentes brasileiros cresceram nas últimas décadas. São quase nove mil por ano, o equivalente a 24 assassinatos de crianças e adolescentes por dia. A Organização Mundial de Saúde diz que o Brasil ocupa a 4° posição entre 92 países do mundo analisados em pesquisa. Aqui são 13 homicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes; de 50 a 150 vezes maior que países como Inglaterra, Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, Egito cujas taxas mal chegam a 0,2 homicídios para a mesma quantidade de crianças e adolescentes.
A educação é fundamental para qualquer indivíduo se tornar um cidadão. Punir jovens com o encarceramento sem que o Estado assuma a própria incompetência em lhes assegurar o direito básico à educação é marca de uma sociedade cruel.
Siga-me no twitter: @pfraga

domingo, março 29, 2015

A demora- filme



Acabo de ver um filme uruguaio muito bom. Uma história dramática: mulher vive com três filhos e um pai senil com muitas dificuldades. Desesperada não aguenta mais o pai.

Vejam o filme para saber o que acontece. É tenso até o final. Uma situação limite, o que você faria?
Jamais o que ela fez, mas talvez tivesse pensado nisto. Bom para refletir sobre velhice e relação pais/ filhos.

Recomendo. Foi premiado no Festilval de Berlin e fez sucesso mundo afora. Merece.
Cru, triste e comovente.
#dica #filmes: "A demora".
Vi no site: tocadoscinefilos.

sábado, março 28, 2015

Namoro de filhos adolescentes- arquivo
























Recebi esta questão que acredito ser bastante comum entre nós.

Leiam:

"A gente pensa que está preparada pra tudo quando se depara com uma situação aparentemente fácil e simples de se lidar.
Tenho 2 filhos (17 e 15)- casal.
Nunca tive dificuldade em falar sobre sexo com êles, sempre abordando temas atuais e relevantes pra formação de ambos:DST's, gravidez, etc. Só que eu sempre via essa realidade muito distante, e agora, diante dessa realidade palpável, sinto-me perdida e apreensiva - até mesmo impotente!
Minha filha (15 anos) namora um rapaz de 19 e como todos(ou pelo menos quase todos adolescentes), pensa que já sabe tudo. Não Tenho mêdo de alguma possível desilusão dela, o que me angustia é a incapacidade (ou nâo!- tomara!!!) dela em lidar com tais sentimentos e que isso lhe cause conseqüencias desastrosas...
Difícil até escrever...
...imagine viver isso...
(alguma luz?)
T."

Eu gostaria de saber mais de T. Como é sua vida? Vive com marido e filhos? Está separada? Gosto de conhecer o ambiente onde as pessoas vivem antes de dizer algo, saber como vive, até onde este contexto influi no que possa estar sentindo.

Toda vez que surgem conflitos com adolescentes, ou causados por eles, penso no quanto a adolescência é instigante, desafiadora e difícil. É o momento mais rico de nossa existência, idealista, inovador. O adolescente vive em busca de sonhos e desafios, muitas vezes fica difícil viver perto deles por isto.

Como foi a sua adolescência? Você foi um adolescente desafiador? Ou foi quieto, tímido ou mesmo depressivo?

Como era a relação com seus pais? Era tranqüila ou foi difícil. Você tinha medo de seus pais? Respeitava-os ou temia? Podia dizer o que pensava, dialogar? Havia diálogo?

São muitas as perguntas, todas estas questões são importantes quando estamos diante de um adolescente.

Como foi sua iniciação sexual? Com quem foi?
Foi boa, tranquila ou foi traumática? Sentiu prazer com o sexo desde o início ou foi muito difícil sentir prazer? Você sentia-se pronta/o para começar uma vida sexual? Foi casual? Foi com um namorado/a?

Ficaria aqui horas fazendo perguntas. Somos todos complexos, estas perguntas vão nos ajudando a nos descobrir e entender o porquê das nossas inseguranças e angústias.

Voltando ao caso de T. fico pensando que medos a afligem: medo de que a filha venha a sofrer? Será que T. sofreu muito nesta fase? Será que teme que a filha repita “erros” que tenha cometido? Por que tem tanto medo? O namorado da filha não lhe passa segurança?
Acredito que a maioria das mães sentem medo nesta fase, as mães dos meninos, também.
Objetivamente, acho que TEM que levar a filha a um médico/a ginecologista, é o melhor caminho. Se ela quiser ir só, tudo bem, mas ela tem apenas quinze anos, você é responsável por ela, se ela não aceitar sua sugestão, diga-lhe isto e faça com que vá. Ali terá as informações seguras, talvez não se sinta à vontade com a mãe, é natural, não se sinta excluída, isto é natural no adolescente, ele/a precisa se distanciar dos pais, tem vergonha da sexualidade diante dos pais, é normal, os pais também, muitas vezes não aceitam a sexualidade dos filhos, ficam assustados, de repente seu filhinho/a ficou homem/mulher. É tudo tão rápido...

T. diz:
“Não Tenho medo de alguma possível desilusão dela, o que me angustia é a incapacidade (ou não! - tomara!!!) dela em lidar com tais sentimentos e que isso lhe cause conseqüências desastrosas...”
O que teme aqui? Quais seriam as conseqüências desastrosas? Você sofreu muito? Tem medo de que ela também venha a sofrer?
Imagino pela sua aflição que está acuada e impotente, diz isto. Converse com sua filha, mesmo que ela se recuse a conversar deixe espaço para isto, diga algo, diga que está preocupada com ela, que quer vê-la bem, se ela não quiser papo pelo menos vai te ouvir. Amor nunca é demais, ela pode te ignorar no momento, mas em algum momento vai sentir que poderá contar com você.
E boa sorte!

Agora é com vocês, nunca dou a última palavra, escrevi agora, sem deixar o texto amadurecer, pode conter erros, digam. Quero que aqui haja espaço para trocas, para que falem de suas experiências. As mães que já passaram por isto podem contar como foi.
Com a palavra vocês, leitores, e amigos blogueiros.

quarta-feira, março 11, 2015

A mínima diferença- sobre homens e mulheres





Maria Rita Kehl Diferença mínima 






Maria Rita Kehl: A mínima diferença


Publicado em 02/03/2015


Há cem anos não se fala em outra coisa.1 O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo, num tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista, quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias?
Ainda assim, parece que nada mudou muito. O escândalo e o enigma do sexo permanecem, deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir o seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como há cem anos, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.
Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e suas ressonâncias; mas o que se diz ali já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de se esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou o seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana, segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar o próprio do homem, narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos da sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “o que faço para (voltar a) ser mulher?”, “como posso (voltar a) ser homem?” – questões que me remetem à observação de Arnaldo Jabor em artigo de para a Folha de São Paulo, sobre o choro (arrependido?) de algumas mulheres da cena política e da mídia brasileiras: “O que é isso? A feminilidade como retorno?”.
Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os discursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, uma parte das exigências do superego, uma parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário –, mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma – os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? Novos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado, deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos e sim com um campo minado ainda desconhecido.
Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social (e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado (por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revistaTime americana publica em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e Mulheres: Nascem Diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nos últimos trinta anos parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer: “devagar com a louça!” – aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem à sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?
Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem que ser dissimulada com os engodos fálicos da beleza e da indiferença, tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza?
Os artistas da virada do século já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karênina2 pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o. amor não é meio de vida., o amor não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary3queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século XX, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher. O amor da mulher foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.
O destino da Nora, de Ibsen,4 nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que Ibsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de… mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e uma segunda (e a terceira e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens, e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder  às paixões masculinas sem “se desgraçar”?
No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já neste século é a história de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo5 se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em conseqüência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é ? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo uma mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí sim é que ela é mesmo uma mulher.
O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século XX sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens, não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade (s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s).  O que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento – de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou no “Mal-Estar…”,6 sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” tentando, explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais – sobretudo a que pesava sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.
No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que este “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade.
A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas do demônio, assim se designavam na antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada da sua feminilidade até um limite intolerável. Só a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de põe fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.
E quem duvida de que Ana Karênina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista deste a mais que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal a mais da mulher!), a morte de um reconhecimento por parte do outro, na falta do que a mulher cai num vazio intolerável. Pois se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.
Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky, ou a Rodolphe Boulanger? Não; diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.
Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer esta mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter que se reconhecer.
Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que tratam o abandono e a solidão da mulher. Já nos primórdios dessa movimentação toda, Melanie Klein e Joan Rivière escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar, etc., etc. Ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.
E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito do nosso mal-estar, antes que esse texto se torne paranóico; mas como não ser paranóico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina?


* Texto escrito originalmente em 1992, e recuperado pela autora especialmente para o especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“, no Blog da Boitempo.





quinta-feira, dezembro 04, 2014

Como viver o luto- Contardo Calligaris






Qual é o melhor jeito de se viver o luto?
Aqui um ótimo artigo do Contardo sobre nossas perdas.

quinta-feira, novembro 27, 2014

Corpo e mente- Arquivo revisitado

























Corpo e mente

Post de 2009, abril, 16

Todos nós sabemos que nosso corpo responde a fatores emocionais, muitas vezes imediatamente. Quando nos aborrecemos, ficamos tristes. Quantos de nós perdem a fome ou começam a comer exageradamente? Se somos frustrados desejamos comer um chocolate ou um doce.
Cada pessoa tem uma maneira de reagir às frustrações, quando este comportamento torna-se habitual passamos a ter problemas com o peso, além das frustrações provocadas por não poder vestir algo que gostaríamos, sentir-se feio/a ou sentir-se culpado.
Existe o lado cientifico que já comprovou que o chocolate, por exemplo, ajuda a sintetizar a serotonina, que é importante para o nosso humor evitando a depressão. Sabemos que caminhar ajuda a melhorar nosso estado de espírito, pois fabricamos mais endorfina, importante para nosso bem estar, fazendo qualquer outro exercício físico, também.

Corpo e mente estão sempre relacionados.

As mães são as primeiras provedoras de alimento, através do alimento, das primeiras mamadas temos nossas primeiras experiências de satisfação, começamos aí a lidar com a comida e com as frustrações. Se as mães privam a criança nesta fase ela terá graves problemas emocionais, se a mãe exagera no alimento teremos uma relação distorcida com os alimentos.

Aí, pensamos, mas como evitar isto?

Será que nossas mães souberam a medida certa?

Difícil responder, alguns de nós somos mais equilibrados em relação ao alimento, outros não sabem lidar bem com a comida.

A comida para o bebê é afeto também, é a maneira como ele responde à mãe , se um filho rejeita o peito a mãe fica triste, se a mãe não dá o peito o bebê grita desesperadamente, quem já viu um bebê com fome sabe o poder que ele tem na garganta. As mães se desesperam também. Identificar através do choro do bébe qual a sua necessidade nem todas as mães conseguem, levando, no que concerne à alimentação, a deformações alimentares posterirores

Naturalmente, nem só a mãe é responsável por estas deformações alimentares, também as babás, os pais, os avós muitas vezes acostumam as crianças a usarem a alimentação com muleta para satisfazer uma frustração. Crianças que sofreram abandono (físico ou emocional) quando crescem desenvolvem a necessidade de sentir o estômago cheio, são estas crianças que se tornarão adultos que bebem demais, comem demais, usam drogas...

O que fazer agora, depois que estes hábitos foram adquiridos? Precisamos separar a fome do vazio existencial, das frustrações, da ansiedade, da tristeza. Se o problema não é orgânico, pode ser, o médico clínico ou endocrinologista dirá, um especialista nos problemas da alma ajudará.

A psicologia desnuda estes sentimentos e chega ao âmago da questão. Como chegar lá? Através do diálogo com um profissional especializado você vai descobrir por que come demais ou de menos, por que não emagrece apesar de fazer dieta ou por que apesar de desejar emagrecer não consegue seguir uma dieta adequada. Aspectos subjetivos alteram o metabolismo, é preciso conhecê–los para não sermos prisioneiros, para livrar-nos dos nós que impedem de vivermos como esperamos, desejamos.

Além das questões pessoais há aspectos culturais na nossa maneira de lidar com a comida, quando recebemos alguém em nossa casa sempre oferecemos café, bolo, biscoitinhos, bebidas. É uma forma de dizer que apreciamos sua presença. É um gesto cultural, quando vamos à casa de alguém esperamos que nos receba com algo, à seco fica parecendo que não agradamos, que a visita deve ser rápida.

O receio da própria sensualidade, ou sexualidade, é outro motivo que, sem que se perceba, leva muitas pessoas a engordarem ou à anorexia. A nossa imagem corporal é a primeira que apresentamos num contato social ou profissional, exceto em relações virtuais, por exemplo. A gordura serve como um escudo que afasta paqueras e namorados. A capa de gordura faz com que você esconda suas emoções, e acabe cancelando encontros, adiando viagens, faz você usar roupas largas, não sair no final de semana... tudo por estar gorda, não querer ser vista por ninguém. Aí, insatisfeita, culpada, come sem limites, afoga as mágoas na comida ou bebida. É um circulo vicioso que precisa ser quebrado.
Este quadro é agravado se a pessoa não faz nada para mudar, a culpa aumenta a cada dia.

O que fazer para mudar?

Como aumentar a auto estima? Só uma mudança de hábitos fará você mudar. É preciso ter vontade, se esforçar. Deixando de se enganar, geralmente fazemos tudo para nos enganarmos, arranjamos desculpas para tudo e vivemos no piloto automático, esperando mudanças mágicas. Isto não existe. É preciso olhar para dentro e sentir que é possível mudar, sempre é possível mudar. Mudar a nós mesmos é possível, mudar o outro não. Depende de cada um de nós, não adianta o marido, a mulher, o médico, o terapeuta, desejar mudar você, você tem que querer mudar e isto traz os riscos de uma nova situação, tudo que é novo assusta.

Algumas vezes é necessário até aprender a ser magro, quando se acostuma a ser gordo. Ou aprender a ser forte quando se é muito magro.

É preciso reconstruir a sua imagem corporal. Saber que pode ficar diferente.

É preciso descobrir outros prazeres na vida além de comer.

É preciso dominar o impulso de comer e aprender que a compulsão provoca um prazer imediato, que não compensa porque virá com a culpa por engordar. Melhor seria a satisfação a longo prazo.

É preciso ser perseverante, já que 66% das pessoas desistem no meio do caminho.

É preciso se exercitar, andar, nadar, alongar, fazer yoga, escolha o que você gosta de fazer.

É preciso alterar comportamentos que contribuem para o aumento de peso, como, por exemplo, comer depressa demais, beber durante as refeições, exagerar no couvert do restaurante achando que como está ali tem que aproveitar. Culturalmente qualquer comemoração é acompanhada de excessos, festeja-se comendo e bebendo em excesso. Festejar comedidamente ninguém gosta, mas depois vem a culpa no dia seguinte pelo exagero.
Diante de tantas coisas prementes não desista, pois não existe fórmula mágica para se livrar de uma dependência alimentar, como não existe mágica para se livrar de drogas. Existem tratamentos, não adianta você deslocar a compulsão de comer para outra compulsão , procure enfrentar suas dificuldades de frente, procure se interiorizar e entender porque come demais ou de menos. Não é se privando de tudo numa dieta rígida que vai resolver seu problema, é se conhecendo melhor, reconhecendo os momentos onde a ansiedade está grande, desatando os nós, que terá uma relação melhor e equilibrada com os alimentos, desta forma encontrará prazer e não culpa ao comer e olhará para seu corpo com prazer.

Você sairá ganhando, basta querer. Só depende de você, vá em frente. E boa sorte!

PS: Não abordei a anorexia, nem bulimia, porque são questões mais delicadas, ficaria um texto mais longo ainda.

A filha de James Joyce







Um artigo sobre a filha de James Joyce, que sofria de esquizofrenia.
Aqui

sábado, novembro 22, 2014

A morte e o luto na psicanálise

A psicanalista Maria Rita Kehl analisa o clássico Luto e Melancolia, em tradução de Marilene Carone, que está sendo relançado pela Cosac Naify.

Luto e Melancolia é o último da série de textos resultantes do grande esforço teórico que Freud batizou de metapsicologia. Desde que estreou com A Interpretação dos Sonhos, em 1900, Freud já mostrava empenho em compreender as expressões patológicas ou normais da alma humana com base na inter-relação entre os três planos – tópico, dinâmico e econômico.
Mas foi entre 1914 e 1915 que ele produziu a série de ensaios de metapsicologia, que começam na Introdução ao Narcisismo e se estendem até Luto e Melancolia, passando pela investigação das pulsões, da natureza do recalque e do funcionamento do sistema inconsciente.
Embora a psicanálise não tenha sido construída – e nem poderia – em uma linha evolutiva sem desvios, o leitor da obra freudiana há de perceber o percurso conceitual que ali se desenha. A aposta iluminista que orientou a invenção da psicanálise como método investigativo e a consequente descoberta do inconsciente e suas diversas formações, patológicas (angústias, inibições, sintomas) ou cotidianas (sonhos, chistes, poesia) fez com que Freud prestasse conta a seus leitores a cada mudança ou avanço teórico empreendido.
Isso possibilita que o leigo ou o estreante compreenda, com um pouco de esforço e paciência, alguns textos lidos ao acaso, fora da ordem cronológica em que foram produzidos. É possível tirar algum proveito, por exemplo, da leitura do difícil e ousado Além do Princípio do Prazer, de 1920, sem ter sido iniciado a partir do livro inaugural de 1900. É possível entender em que consiste o complexo de Édipo a partir dos textos dos anos 1910, sem ter lido os Três Ensaios para uma Teoria Sexual, de 1905.
Em uma leitura menos rigorosa, é possível acompanhar os relatos clínicos de Freud sem ter lido os textos que estabelecem os alicerces teóricos da recém-fundada psicanálise. O fato é que o entendimento do projeto freudiano se aprofunda e se amplia na medida em que se acompanha, mais ou menos pela ordem, um conjunto de ensaios nos quais Freud está empenhado em resolver um problema específico. No presente caso: a investigação da psicose batizada por Kräepelin em 1883 de “maníaco-depressiva”, que Freud trouxe para o campo da psicanálise no presente.
Luto e Melancolia, não teria sido possível antes do desenvolvimento das idéias expostas emIntrodução ao Narcisismo e As Pulsões e Seus Destinos, ambos de 1914. Ou se não tivesse o apoio conceitual estabelecido em O Recalcamento O Inconsciente, ambos de 1915.
Na direção regressiva, hoje nos parece óbvio que a teoria da melancolia tenha conduzido a textos tais como Considerações Atuais sobre a Guerra e a Morte, do mesmo ano, uma investigação filosófico-científica sobre a desilusão (melancólica) que a Primeira Guerra trouxe para os habitantes das supostas civilizações evoluídas do Ocidente.
Estamos diante de um percurso de pensamento que hoje nos parece ter sido destinado a desaguar, em 1920, na importante revisão da teoria pulsional expressa em Além do Princípio do Prazer, em que a antiga oposição entre pulsões do ego e pulsões sexuais foi substituída pelo conflito – mas também por variadas soluções combinatórias – entre pulsão de vida e pulsão de morte.
A partir desse ponto, ficou impossível refletir sobre a psicopatologia sem levar em consideração o trabalho da pulsão de morte. Que por sua vez já estava em gestação desde a teoria da melancolia.
Entre as ideias que prepararam o terreno para Luto e Melancolia vale destacar, de Introdução ao Narcisismo, a importante constatação de que o autoerotismo precede o narcisismo. Nos primeiros meses de vida, o bebê ainda não constituiu “uma unidade primitiva comparável ao eu”. Seu corpo é sede de experiências fragmentadas de prazer, que aos poucos organizam os investimentos pulsionais e permitem aquilo que, no texto seguinte a este, Freud haverá de estabelecer como a possibilidade de reversão da pulsão, desde o objeto-alvo (não encontrado, ou não satisfatório), de volta ao eu. O autoerotismo participa dos modos de satisfação da libido do eu.
É claro que a criança não é autossuficiente no desenvolvimento do autoerotismo. A mãe ou um substituto seu representam para a criança este Outro superpoderoso que também haverá de comparecer, de forma negativa, na origem das melancolias. É ela quem erotiza com seus cuidados (a começar pela amamentação) o corpo do infans e colabora para estabelecer os caminhos de satisfação pulsional que o bebê saberá, faut de mieux, percorrer por conta própria ao sugar o polegar, balançar-se no berço ou, meses mais tarde, tocar seus genitais.
Mas o autoerotismo ainda não é igual ao narcisismo do eu: um novo ato psíquico deve ocorrer para que a tal unidade primitiva se forme e para que a criança se identifique com ela, ou seja, com seu próprio eu. Além da satisfação libidinal autoerótica, o infans haverá de identificar-se com o objeto privilegiado que ele representa frente ao amor e ao desejo de seus pais.
A partir desse ponto, está estabelecida a base para a formação da unidade do ego freudiano, fonte de investimento libidinal (a partir de 1915 diremos: pulsional) e dessa forma particular de amor a que chamamos narcisista. Nesse ponto da constituição psíquica Freud haverá de encontrar, em 1915, a relação narcísica com um objeto frustrante que marca a estrutura da melancolia.
O narcisismo primário forma a base para o narcisismo secundário, vulgarmente conhecido como a dose essencial de estima que o ego dedica a si mesmo. O qual, por sua vez, é tributário das desilusões sofridas pelos pais em relação às suas próprias fantasias narcisistas: os filhos representam uma renovação das velhas esperanças infantis dos adultos, contrariadas pela realidade da vida.
Outra parte do narcisismo secundário resulta de suas eventuais experiências exitosas – tanto no sentido dos investimentos em direção aos ideais do ego quanto nas buscas de satisfação da libido objetal. O maior ou menor êxito na constituição do narcisismo secundário varia, a depender de que os investimentos objetais estejam ou não em sintonia com os ideais do ego – caso contrário, estes ficarão sujeitos ao recalque.
A vicissitude bastante comum de se desejar o que não se deve, o que não se pode, o que não contribui para a valorização do ego contribui decisivamente para a diminuição da autoestima dos neuróticos, quando não conduz a inibições que impedem os caminhos de desenvolvimento do ego, ou a soluções de compromisso sintomáticas.
As reflexões de Freud sobre o narcisismo produziram uma importante mudança de enfoque na teoria. O papel dos obstáculos que o princípio de realidade impõe à plena satisfação dos impulsos do bebê passou a uma posição secundária frente à questão da perda do narcisismo primário. A paixão por “voltar a ser seu próprio ideal mais uma vez” será mais decisiva para a escolha de neurose que conclui a travessia edípica do que a frustração do impulso sexual propriamente dito, em relação à mãe. Vale observar também que essa inflexão teórica será um dos pontos decisivos para o “retorno a Freud” efetuado por Lacan.
Na obra freudiana, a retomada da ênfase sobre a questão do narcisismo amadurece  exatamente em Luto e Melancolia. A falha na constituição do narcisismo primário estabelece uma distinção entre a “neurose narcísica” da melancolia e o sofrimento que caracteriza o trabalho de luto.
O trabalho psíquico empreendido pelo enlutado, embora empobreça o ego e torne o sujeito inapetente para quaisquer outros investimentos libidinais, pode ser considerado como um trabalho da ordem da saúde psíquica. É um trabalho de paulatino desligamento da libido em relação ao objeto de prazer e satisfação narcísica que o ego perdeu, por morte ou abandono.
Ter sido arrancado de uma porção de coisas sem sair do lugar: eis uma descrição precisa e pungente do estado psíquico do enlutado. A perda de um ser amado não é apenas a perda do objeto, é também a perda do lugar que o sobrevivente ocupava junto ao morto. (…) Mas é normal, escreve Freud, que o apego do enlutado ao seu morto diminua aos poucos, e que a “psicose alucinatória de desejo” – um conceito estabelecido no texto imediatamente anterior ao nosso, o Complemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos, também de 1915 – ceda lugar à aceitação da realidade.
Embora a libido tenha enorme resistência em abandonar posições prazerosas já experimentadas, aos poucos a ausência do objeto impõe o doloroso desligamento, até que o ego se veja “novamente livre e desinibido”, pronto para novos investimentos. Pronto para voltar a viver.
Freud revela nesse texto uma disposição investigativa inesgotável. Nada, para ele, é tomado como natural, nada escapa ao seu questionamento. Mesmo que o trabalho de luto seja uma função psíquica normal, não patológica; mesmo que a dor causada pela perda de um objeto de amor nos pareça totalmente compreensível, Freud não se dá por satisfeito. O aspecto doloroso do luto só será esclarecido, escreve ele, quando a dor for explicada do ponto de vista econômico, tal como o autor já havia esboçado em A Repressão.
Mais difícil é entender o que ocorre com os melancólicos, estes que desconhecem tanto a natureza do objeto perdido como a origem da perda. Mesmo quando sabem nomear quem perderam, não sabem dizer o que foi perdido junto com o objeto. A observação clínica nos sugere que uma posição da libido nos primórdios da vida psíquica tenha sido abandonada, ou perdida.
Freud estranha também que falte ao melancólico o sentimento de vergonha comum aos arrependidos, aos que de fato se consideram indignos e sem valor. Se estes se escondem e tentam fazer calar sua culpa e seu crime, os melancólicos parecem sentir necessidade de alardear suas baixezas e sua indignidade.
Debatem-se em autoacusações delirantes sem saber que os insultos furiosos voltados contra si próprios em verdade correspondem às características de alguma outra pessoa – daí a força da expressão encontrada pela tradutora: “para eles, queixar-se é dar queixa”.
Se “a sombra do objeto” encobre o ego, isso indica a base narcísica do investimento (forte fixação; baixa resistência) e a identificação precoce do ego com o objeto perdido. A superposição desses dois aspectos traz à luz todos os tormentos característicos da ambivalência amorosa, que nos melancólicos é experimentada com grande intensidade.
Mas a identificação narcísica ainda não é suficiente para explicar o furor das autoacusações melancólicas que podem atingir o paroxismo quando o sujeito, ao tentar destruir o objeto odiado de sua identificação inconsciente, pode chegar a destruir a própria vida.
O “autotormento indubitavelmente deleitável da melancolia” aponta para uma modalidade sádica de satisfação pulsional, cuja natureza exige uma explicação do ponto de vista tópico. A satisfação sádica em insultar e humilhar o ego provém de uma de suas funções específicas, a consciência moral ou (como ficará estabelecido depois de 1920, em O Ego e o Id) o superego. Ora: o sadismo do superego não caracteriza exclusivamente a melancolia. Ele comparece também, por exemplo, nas manifestações de masoquismo moral dos neuróticos obsessivos. Se na melancolia ele se manifesta com muito mais crueldade, isso se deve também à desfusão entre Eros e Tânatos, que libera o gozo da pulsão de morte do limite imposto pelos investimentos parciais efetuados pelas pulsões de vida. Mas esse ponto só poderia ser explicado depois de Além do Princípio do Prazer, escrito também em 1920.
Luto e MelancoliaSigmund Freud
Trad.: Marilene Carone
Cosac Naify
144 páginas
R$ 39,90