segunda-feira, novembro 26, 2007

Lançamento de livro 2



Esta foi a imagem que Ângela enviou para que fizéssemos um conto, ou ensaio. Fiz um continho, que é o que eu gosto.


Como uma das colaboradoras do livro- fiz um conto- tenho o prazer de convidá-los para:


Exposição
:

Um amor (sertão) que já nasce estrangulado de saudade

No dia 28 de novembro (numa quarta-feira), no Solar Bela Vista (aquele belo prédio que fica na Cidade Alta olhando a Ribeira e que está comemorando seus 100 anos); lá, eu estarei expondo os meus mais recentes trabalhos.

São dez obras ao todo, com técnica de pintura com pigmento, bordados, aplicações com tecidos e linhas; cinco delas nos tamanhos de 1,90 x 1,50m. Essas levam o tema Cartas de Diadorim. Tomei a personagem de Guimarães Rosa, quando, no romance, ela já se encontra morta e mulher, e, assim, passa a escrever cartas para Riobaldo, confessando um amor nunca revelado.

Os outros cinco trabalhos têm a mesma técnica, porém muda a personagem. São Cartas de Solidão de uma personagem de um conto que escrevi no ano 2000, e os tamanhos vão de 1,00 x 1,30m, aproximadamente.

Compõe também a exposição um livro de artista com textos de poetas e ensaístas convidados. O livro tem 37 páginas de 50 x 50cm em papel e tecido, com texturas, pinturas e textos.

Essa exposição é um dos eventos dentro das comemorações dos 100 anos do Solar Bela Vista, que atualmente está sob a direção da artista plástica Selma Bezerra.

Livro

Dentro dessa exposição haverá também o lançamento do livro Um amor (sertão) que já nasce estrangulado de saudade, de minha autoria. O livro faz parte da Coleção Metamorfose do Grecom-UFRN e é o quinto volume da coleção e lançado pela editora Flecha do Tempo.

Exposição de Dimas

Expõe, na mesma noite, o escultor Dimas de Acari, RN, suas esculturas maravilhosas e enigmáticas.

Tudo começa a partir das 18h00.

Selma, a diretora do Solar Bela Vista, promete um bom vinho e eu muito alfinim.

Um abraço e até lá.

Angela Almeida

* Responsabilidade Social *




Repassem, não custa nada.
A Luma conta:

Recebi um e-mail da Karla Andrade, que assim diz:

"Amigos,
Em nov de 2007, foi encontrado na rua, uma criança de aproximadamente 2 anos muito bem cuidada e muito bem vestida, e, disse se chamar Tiago. Levado ao juizado, foi encaminhado ao 'Nosso Lar', onde trabalho. Temos informações de que diligências foram feitas na região onde a criança foi encontrada, e nada. Todas as delegacias notificadas, e nada.

Não foi possível nenhum tipo de informação dessa criança. Como o tempo está passando, ela logo será encaminhada para adoção, mas não acredito que ela não tenha ninguém nesse mundo, pois quando ele chegou chorava muito e apresentava bons costumes.

Já tentei com um amigo na Globo veicular a sua imagem, na tentativa de localizarmos a sua família, mas não é possível pois a política da Globo não permite a divulgação de crianças desaparecidas, o que não é o caso, pois essa é 'aparecida'.

Eu, Soraya Pereira, Presidente do Projeto Aconchego, Grupo de apoio à Adoção e ao Apadrinhamento de Brasília, após constatar a veracidade do fato com a diretoria do Abrigo 'Nosso Lar', venho pedir a vocês que divulguem essa notícia.

Meu obrigada,
Soraya Kátia Rodrigues Pereira
Amigos estamos fazendo apenas a nossa parte social.
SEGUE A FOTO DA CRIANÇA, REPASSEM, POR FAVOR."

CENTRO COMERCIAL DO CRUZEIRO, BLOCO D-20, SALA 403
Bairro: CRUZEIRO VELHO
Cidade: BRASÍLIA
Estado: DF - Cep: 70640-515

Copiei daqui.

domingo, novembro 25, 2007

Encontrei este vídeo via blog de Glória Perez. O espaço dela é bom, vão conferir.

Surge 3º caso de mulher presa em cela com homens no Pará

Mulher presa entre homens


Inacreditável!!!!!!!!!!!!!!!
Há dias venho acompanhando o crime cometido contra uma jovem que foi presa entre homens e recebia comida em troca de sexo. Chocante!!!! É inacreditável que isto aconteça no Brasil HOJE. É inadmissível assistirmos impassíveis a um crime desta ordem. Ok, vemos tanta violência por aí, já banalizou, mas por favor... é possível passar por cima disto?
Não choca apenas por ser uma menina ainda, mas por ser uma mulher presa entre homens. A lei proíbe isto. Por que os responsáveis pela prisão da moça deixaram acontecer? Ela foi presa, precisou de um mandato de prisão. Ninguém sabia????? Cadê o delegado, o carcereiro, a juíza (foi uma juíza que a colocou lá)?
Hoje li que os presos- homens- cortaram seu cabelo para despistar os que da rua pudessem ver- a prisão é num galpão separado da rua por um portão de grades, apenas, visível de quem passa.
É demais!
Acho que todos devemos bocar a boca no trombone, não dá para ficar em silêncio. NÃO pode acontecer de novo! Se ficarmos de olho quem sabe este tipo de violência diminui? Há discriminação contra mulheres, gays, índios, negros. Vamos mudar isto. Chega!!!!!


Surge 3º caso de mulher presa em cela com homens no Pará


Está no O Globo
23/11/2007 - 01h47 - Atualizado em 23/11/2007 - 08h47

Crise na Polícia Civil se estende até Tucuruí.
Pais de menina de 15 anos, que dividiu cela com 20 homens, ganham proteção especial.
Um movimento ligado à defesa de mulheres no Pará denunciou, nesta quinta-feira (22), um terceiro caso de jovem presa e colocada em uma cela com homens. A denúncia surgiu em Tucuruí. A governadora Ana Júlia Carepa (PT) disse que esses casos não irão se repetir e que está concluindo a construção de delegacias para receber mulheres.

Veja o site do Jornal da Globo

Já a família da menina de 15 anos, detida e deixada em uma cela com 20 homens, cujo caso detonou uma crise na Polícia Civil de Abaetetuba, foi incluída, por segurança, no programa de proteção a testemunhas.

A cada dia, surge uma nova denúncia de mulheres que dividem cela com homens no Pará. Em Tucuruí, um movimento de mulheres afirma que é comum presas serem colocadas junto dos homens.

“Nós queremos que as nossas mulheres paguem para a sociedade o que elas devem, mas com dignidade”, disse Maria Valente, coordenadora do movimento.

Uma mulher, que não quer se identificar e que diz estar grávida de cinco meses, contou que passou duas semanas presa por tentativa de homicídio. “Sempre com homens”, afirmou.

Em Parauapebas, mulheres também têm dividido celas com homens, de acordo com um promotor. Na quarta-feira (21), uma delas foi transferida para outra cadeia. “Já tivemos outros casos”, disse.



Ameaças
O pai da garota de 15 anos que ficou na mesma cela com 20 homens, em Abaetetuba, diz que foi ameaçado pela polícia para forjar uma certidão de nascimento falsa para a filha. A adolescente confirmou à Corregedoria da Polícia Civil que sofreu abuso sexual e que era obrigada a manter relações com os presos em troca de comida.

“Ela confirmou que em determinado momento recebeu essa proposta. Em princípio, não aceitou. Posteriormente, teve que aceitar por conta da fome”, afirmou Maria Pereira, corregedora-geral da Polícia Civil do Pará.

A certidão de nascimento da menor prova que ela tem 15 anos. Nesta quinta, o pai biológico da menina procurou a Corregedoria da Polícia Civil. Ele disse que três policiais o ameaçaram. “Se eu não cooperasse, poderia ser preso”, afirmou o lavrador.


Investigação
O delegado-geral Justiniano Alves Jr promete investigar. “Isso é grave. Vamos chamar, ouvir o pai. Se algum policial estiver fazendo isso vai responder civil e penalmente”.

Por conta da repercussão do caso e por segurança, a família da adolescente foi incluída no programa de proteção a testemunhas.


Governadora
A governadora do Pará, Ana Júlia, não respondeu se conhecia a prática de que mulheres eram colocadas em celas com homens. Ela prometeu que o caso não irá se repetir. “Determinei, através de decreto, que se estiver numa prisão em flagrante, seja menor, seja mulher, tem que seguir o Estatuto da Criança e do Adolescente. No caso das mulheres cela com condição digna, e, se não tiver, que comunique ao juiz pedindo transferência para outra comarca ou município.”

Ana Júlia afirmou ainda que o estado terá celas para mulheres no futuro. “Como as nossas delegacias não estão todas prontas, o projeto é que as delegacias que vamos inaugurar tenham locais adequados para mulheres”.


JORNAL DA GLOBO

Pai de presa denuncia ameaças

O pai da menina que ficou presa com 20 homens no Pará diz que sofreu ameaças da polícia para forjar uma certidão de nascimento da filha. Entidades dizem que a prática é comum no estado
Veja vídeo aqui
Data: 22/11/07 | Duração: 3m15s|

Leia post anterior.

Um crime diante de todos

Deu na "Folha de São Paulo":

"Todos sabiam que menina estava no meio dos homens"

Moradores dizem que jovem aproveitava proximidade da cela com a rua para pedir ajuda

Segundo tia de um dos presos que foi transferido após caso ser descoberto, população tinha medo de denunciar a situação

LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A BELÉM (PA)

MARLENE BERGAMO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICA

Da rua em frente à delegacia de polícia de Abaetetuba, 130 km de Belém, tem-se visão ampla da carceragem, um galpão de 80 metros quadrados, três banheiros minúsculos e uma cela de segurança, separados da cidade livre apenas por um portão de grades enferrujadas.
Foi lá que, durante pelo menos 20 dias, uma menina de 15 anos, L., acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no dia 15.
"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.
"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento.
"Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.
Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
O mais constrangedor, porém, é que todo esse horror foi patrocinado por instituição do Estado (a Polícia Civil) comandada pela petista Ana Júlia Carepa, governadora do Pará.
L. não poderia estar no sistema penitenciário, menos ainda sob acusação de tentativa de furto e, pior, presa entre homens. "Só se pode internar um adolescente por violência, grave ameaça ou prática reiterada de delito grave, o que não era o caso", diz a advogada Márcia Ustra Soares, 42, da subsecretaria de promoção dos direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República.
Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. "Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas", diz a mãe biológica. "Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha." Mas não funcionou.
L. continuou vestindo as roupas que usava ao ser presa -sainha curta e blusinha que deixava evidentes os seios adolescentes. Seu corpo mirrado, com menos de 1,40 m, tampouco permitia que ela fosse enfiada nas roupas de seus companheiros de cela.
A carceragem onde a menina ficou trancada agora está quase vazia -os homens presos que conviveram com ela foram todos removidos para penitenciárias próximas. Apenas um jovem de 19 anos, Landrisson André Santos Mauegi, acusado de tentativa de furto de uma bicicleta, estava detido no local na sexta-feira (ele foi parar lá depois da libertação de L.). A mãe de Landrisson, Maria Santos, 75, vai ao local todos os dias para levar sanduíches, cigarros e conforto ao seu caçula. Nem precisa passar pelo carcereiro. Basta esticar o braço.
Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"
A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade.
No dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima. A delegada foi afastada de suas funções no dia 20 e a juíza está sendo investigada pela Corregedoria de Justiça. A Folha tentou sem sucesso contatar ambas por telefone na sexta.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Lançamento de Livro




ADOTE- Associação de Orientação aos Deficientes,
convida para as comemorações de seus 25 anos, lançando o livro "Pedaços de vida" de Shirley Carvalho- uma de suas fundadoras.
Data: 23 de novembro de 2007
Horário: 17 hs
Local: Av. Perimetral Sul, 270
Cidade da Esperança
Natal
RN

quarta-feira, novembro 14, 2007

Dia Mundial do Diabetes



Dia Mundial do Diabetes: mal atinge cada vez mais crianças e adolescentes


A estátua do Cristo Redentor foi iluminada de azul para lembrar a luta contra o diabetes, nesta quarta-feira, no parque da floresta da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro
Copiei daqui.

sábado, novembro 10, 2007

Women In Art


Maravilhoso!!!!
Uma das coisas mais bonitas que vi na internet.

A árvore do Tom e as outras árvores...



Vi na Tv, ao acaso, um professor da UFRN falando sobre isto.
Uma das coisas que mais estranho aqui é a falta de árvores. A rua onde morei no Rio era arborizada, em Curitiba também. Aqui dizem que não gostam de árvores, porque sujam as ruas e trazem morcegos- juro que já ouvi mais de uma vez isto! Morcegos não fazem mal a ninguém, Ipanema é cheia de morcegos naquelas árvores grandes e velhas.
Deus meu!!!!!
Por favor, vamos nos mover, conscientizar as pessoas sobre a importância da árvores.
Estamos em perigo.
Vejam aqui o plano diretor para a cidade de Natal.

Sigamos o caminho do Tom Jobim, que amava as árvores, a natureza.


Esta é a árvore 'dele', que está no Jardim Botânico do Rio.

Estamira comove

Difícil falar nela, é uma pessoa especial, uma mulher, que se tivesse sido tratada, como nós, teria tido uma vida extraordinária, com certeza teria dado muitas contribuições. Há lucidez na fala dela, e muita. Aqui tem mais Estamira.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Contardo Calligaris












Estamira e "Transamérica"


CONTARDO CALLIGARIS

Odiamos o outro não por ele ser diferente, mas para ignorar que ele é parecido conosco

DURANTE QUATRO anos, Marcos Prado escutou Estamira, uma senhora de mais de 60 anos que vivia entre seu barraco (habitado e cuidado com a dignidade devida a uma casa) e seu lugar de trabalho (um aterro de lixo, onde ela passava dias e noites a fio).
Dessa experiência, Prado fez um filme, "Estamira", que é um extraordinário documento sobre a humanidade da loucura. Ele nos apresenta o território de Estamira (o mundo físico pelo qual ela anda), suas relações (de família e de amizade) e seu mundo íntimo, ou seja, o sentido que ela atribui ao seu ser.
Alguns psicólogos reconhecerão nessa tríade (mundo físico, relações e intimidade) as três categorias da psicologia existencial de Ludwig Binswanger. Pensei em Binswanger e na generosidade de sua clínica e de seu pensamento quando, comentando o filme, uma amiga e colega me disse: "Estamira é delirante, mas suas palavras, poéticas, fantásticas ou brutais, são coisas que ela diz não porque é psicótica, mas porque é ela, Estamira".
Que falemos lugares-comuns (como a maioria dos neuróticos) ou expressemos curiosas visões do mundo (como quem parece delirar), de qualquer forma, não há quadro clínico que possa (e deva) anular a unicidade de nossa presença no mundo, a dignidade do que se chamava, tempo atrás, nossa "pessoa". Marcos Prado permitiu que Estamira lhe (e nos) falasse porque quis e soube escutá-la como se escuta, em princípio, um semelhante. Com isso, o filme é absolutamente imperdível para quem, "psi" ou não, esteja disposto a se aproximar da loucura, ou melhor, a descobrir que o "louco" é estranhamente próximo da gente.
A cosmologia de Estamira (o além, o além do além, o mundo abarrotado que transborda) e sua religião (uma briga constante com Deus e com o Trocadilho, face diabólica e maldita do mesmo) não são menos verossímeis do que muitas de nossas crenças. A diferença é que nossas crenças são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria.
Estamira (esse talvez seja o drama fundamental da loucura) deve inventar sozinha os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela consegue essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê.
O Trocadilho, ao persegui-la, lhe deu uma missão, que é (como esperar outra coisa de um deus com esse nome?) um jogo de palavras: Estamira é esta mira, o olhar que tudo vê e tudo deve revelar. Missão cumprida, graças a Marcos Prado.
Corolário: quem não acredita na reforma psiquiátrica veja o filme e se pergunte: será que nossa sociedade pode tolerar a loucura só na margem extrema (o além do além) do lixão ou na clausura dos hospícios?
Quero mencionar um outro filme, antes que saia de cartaz. "Transamérica", de Duncan Tucker, é uma ficção e, à primeira vista, pouco tem a ver com "Estamira". Salvo que ambos os filmes nos forçam a descobrir destinos e jeitos de estar no mundo que são, no melhor dos casos, objetos de nossos olhares compassivos ou, mais freqüentemente, de exclusão, zombaria e ódio. O ódio, nesses casos, é o índice de uma cegueira proposital: odiamos o outro não por ele ser diferente de nós, mas para poder ignorar que ele é parecido conosco.
O herói (ou a heroína) de "Transamérica" é um transexual que, na hora em que obtém, enfim, o direito de ser operado e mudar de gênero, descobre que é pai de um filho adolescente. Difícil assistir ao filme sem entender de vez o seguinte: o drama de quem vive num corpo que lhe parece estrangeiro (por ser de um gênero no qual ele não se reconhece) tem pouco a ver com os avatares do desejo sexual. É um drama de identidade.
Algumas leituras para a fila do cinema. A Martins Fontes publica os seminários de Michel Foucault: no ano passado, "Os Anormais" e, neste ano, "O Poder Psiquiátrico". O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos acaba de publicar "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade, Pesquisa na Nona Parada do Orgulho GLBT São Paulo 2005", de Carrara, Ramos, Simões e Facchini. A pesquisa confirma que, em matéria de discriminação, o transexual, que discorda de seu próprio gênero, é a vítima preferida.
É difícil abandonar o conforto da crença de que nós somos os "normais". Mais difícil ainda é admitir que a anatomia de nosso corpo possa não bastar para nos dar a certeza de que somos homem ou mulher.


Mais "Estamira", e mais aqui.


















PS: As fotos são do filme Estamira.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Estamira, a excluída


Foto maravilhosa de Marcos Prado, vejam a expressão desta mulher, que olhos! Quem disse que eles são os loucos e não nós? Posted by Picasa
Leiam o texto no post abaixo.
E vocês conhecem o filme sobre o Museu do Inconsciente de Leon Hirszman? eu vi faz tantos anos... é muito bonito e comovente.

terça-feira, novembro 06, 2007

Que ato falho!



Que saia justa! Ato falho dos brabos. O tal Sérgio existiu mesmo, é só conferir no Google, está lá. O sujeito que encomendou a anúncio devia querê-lo fora do seu caminho.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Somos o que comemos?




Descobri um livro jóia agora. Um fotógrafo, Peter Menzel fotografou 30 famílias de 24 países e o que elas comem em uma semana. Vejam estas duas fotos e o site aqui

Esqueceram de nos colocar na lista...seria interessante...

Ah! a ração brasileira seria: refrigerantes, cervejas, batatas fritas, pizzas, carnes, enlatados, biscoitos- todo tipo.
Chocolate em pó, chocolate em pacote, chocolate em barra, bombons, o que mais?
Leite, arroz, feijão, pão, poucas verduras, poucos legumes, quase nada de frutas...
Acertei?




sábado, novembro 03, 2007

A África sob o olhar de Sebastião



Da 'Folha':

Salgado compila suas viagens à África

Fotógrafo reúne cerca de 300 imagens feitas ao longo de 30 anos no continente e apresenta pela primeira vez fotos de natureza

Sebastião Salgado prepara oito livros com 30 grandes reportagens sobre o planeta; regiões do Brasil serão tema de três delas...
Mais na Folha

quinta-feira, novembro 01, 2007

Hoje tem Contardo



"O Passado"

Contardo Calligaris


Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével, sobretudo em se tratando de amor



"O PASSADO
", de Hector Babenco, estreou na última sexta-feira. O filme, que, antes disso, abriu a Mostra de Cinema de São Paulo, é inspirado no romance homônimo de Alan Pauls (Cosac Naify).
Resumindo a história ao osso, para não estragar o prazer dos espectadores futuros: Rímini e Sofía se juntam muito jovens e se separam, amistosamente, depois de 12 anos. De uma maneira ou de outra, a relação que eles viveram não os deixa tranqüilos.
Na saída do cinema, a conversa era animada. Os amigos (homens) achavam o filme tão apavorador quanto "Atração Fatal", de Adrian Lyne: para eles, Analía Couceyro, como Sofia, era mais inquietante que Glenn Close, justamente por parecer menos louca. Nossos objetos de amor talvez sejam sempre assim, familiares até o dia em que, na hora de uma separação, a própria paixão os torna totalmente estranhos.
As amigas respondiam que a causa do problema era a fraqueza do protagonista masculino. De fato, Rímini (Gael García Bernal) parece seguir o desejo de todas as mulheres que ele encontra, sem nunca descobrir e afirmar o seu.
Outra discussão dizia respeito ao fim do filme: será que Rímini conseguira se livrar do passado, de vez? Eu pensei que não, que talvez ele tivesse conseguido se livrar das atenções incômodas de sua antiga companheira, mas não há amnésia que possa acalmar o passado.
A história de Rímini e Sofía me evocou um trecho da autobiografia de Tchecov ("Minha Vida", ed. Nova Alexandria), em que o escritor comenta que o ditado "tudo vai passar" pode tanto aliviar nossa tristeza com a idéia de que dias melhores virão quanto mitigar nossa euforia com a idéia de que as vacas magras voltarão. Mas, por útil que seja, essa sabedoria é falsa: nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével.
Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.
A estética do filme de Babenco me tocou tanto quanto a história de Rímini e Sofía. Por exemplo, os personagens circulam por interiores abarrotados de restos do passado: livros, fotografias, quadros, os inúmeros objetos que, a cada mudança de casa, confirmam que nunca conseguimos deixar para trás os vestígios de nossa vida pregressa. Num momento do filme, Rímini se fecha, desesperado, num apartamento vazio; rapidamente, ele se encontra imerso numa montanha de restos: o lixo se acumula como prova irrefutável de que nem na derrelição é possível começar do zero.
À primeira vista, isso pode parecer estranho. Afinal, estamos acostumados a pensar que, na modernidade, os indivíduos são definidos por suas potencialidades futuras mais do que pelo passado. Não é assim?
Pois é, não exatamente. A modernidade começa quando paramos de deixar que a tradição diga quem somos. Não terei necessariamente a mesma profissão que meu pai, não serei nobre porque ele foi, não viverei no mesmo lugar dos meus antepassados, não escolherei meus amores para preservar a integridade de minha casta, religião ou raça e por aí vai.
Mas se o legado da tradição se torna menos relevante, é justamente porque o que me constitui é minha história -não apenas a intensidade do momento e a audácia de meus planos, mas o conjunto das experiências que vivi.
No começo da Revolução Francesa, o povo queria fazer tábua rasa: eliminar os nobres pela guilhotina e seus vestígios pelo fogo. Após um vigoroso debate, os vestígios foram poupados, e foram inventados os museus públicos. Poucas décadas depois, nasciam os conceitos de patrimônio histórico e de preservação dos monumentos. Ao mesmo tempo, surgia um interesse, que nunca mais se desmentiu, pela narração e pela compreensão da história.
Não funcionamos diferente: é possível guilhotinar os amores do passado ou (menos radical) apagar seus números de nosso celular, é possível até queimar fotografias -embora dificilmente sacrificaremos aquele desenho que compramos juntos, num sábado, na praça Benedito Calixto. De qualquer forma, mais que a lembrança, os rastros do passado sempre assombram o presente e o futuro.
Quando decretamos novos começos, ilusórios ou não, nem por isso conseguimos apagar nossa história: podemos apenas contá-la mais uma vez, quem sabe revisá-la ou corrigi-la, para pior ou para melhor.

sábado, outubro 27, 2007

Juarez no domingo às 20 hs no "Conexão"



Eu gosto especialmente dos quadros 'nonsense' dele.


Ontem vi a segunda parte da entrevista com "Conexão Roberto D'Ávila" com Juarez Machado. Será reprisado no domingo(às 20h pela TVE Brasil), vejam no link. Há anos não vejo o Juarez, vendo-o falar, com tanto charme e inteligência, entendi porque eu era encantada por ele. Nos conhecemos quando eu tinha uns 15 anos, sei que se não o conhecesse talvez nunca tivesse desenhado. Tenho influência dele nos desenhos- as figuras não têm pupilas, como as dele. O traço contínuo também é marca de Ju.
Ele é muito divertido.
Contou ontem que o diretor do filme "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain"', Jean-Pierre Jeunet, é seu vizinho em Montmartre e é fascinado pelas cores da palheta dele- vermelho e verde, principalmente. Pediu permissão para usar estas cores no filme, que é todo nestes tons- os tons da palheta do Ju. Disse que a Amélie(personagem principal) não tem os olhos como os nossos, falta o branco, que o diretor fez de propósito, para lembrar as figuras de Juarez. Legal, né?
Eu conheci Juarez em Curitiba, no meio de uma praça onde havia o meu colégio, eu já contei antes aqui esta historinha. Fiquei encantada pelos lindos olhinhos azuis dele. Depois fui morar no Rio e ele também estava ali, o procurei no atelier do Sérgio Rodrigues, em cima da Oca, na praça Gal Osório e nos víamos de vez em quando- eu ia vê-lo pintar. Depois ele foi para a rua Maria Angélica, naquela época fazia análise com Katarina Kemper, me indicou um analista, disse:
"Você vai se apaixonar de cara, ele é lindo." Acertou, o homem era muito lindo, Eduardo Requião, foi um dos homens mais belos que eu vi. Hoje está gordo, mas ainda assim é bonito- é irmão do Roberto, do Paraná. A vida é engraçada... Fiz análise 5 anos com Eduardo.
Juarez casou com uma fazendeira rica no Rio, foi morar em Paris, mas está sempre no Rio, eu o encontrava na rua de vez em quando, da última vez me perguntou quando irei visitá-lo em Paris. Respondi: "Um dia". E vou mesmo. Na época vivia preocupada com os filhos, como o pai é ausente eu tenho que ser pai e mãe, não é fácil. Ainda não é fácil. Um dia será? Acho que sim. O mais velho é super tranqüilo, mas o dan ainda me dá trabalho- é absolutamente indisciplinado em tudo- inteligente demais, curioso demais- aí se perde.
Mas voltando ao Juarez, a entrevista dele é muito boa, quem não o conhece veja e fique conhecendo- conta muitas historinhas ótimas, tem até uma teoria do porquê dos pintores brasileiros não serem valorizados fora daqui: acredita que como fomos colonizados por portugueses, que sabiam navegar, mas não pintar, os pintores de língua espanhola- aqui da América são mais valorizados na Europa- por estarem inseridos na cultura hispânica. Acho que faz sentido. A gente sabe o quanto eles- pintores, artistas- sofrem por um reconhecimento lá fora- pouquíssimos têm. E um Botero, que é colombiano, faz sucesso- eu não gosto dos quadros dele.
Não dá pra repetir o que ele conta, é muito bom, fazia tempo não via uma entrevista tão boa, vejam o programa.
*
Horário alternativo: aos domingos às 20h pela TVE Brasil.




sexta-feira, outubro 26, 2007

Juarez Machado no "Conexão Roberto D'Ávila"


Juarez era assim quando o conheci. Ele é o loirinho em pé, era uma graça.
Foto daqui.


Hoje, dia 26, tem "Conexão Roberto D'Ávila" com a segunda parte da entrevista com Juarez Machado. Vai ser reprisado no domingo, vejam no link. Está uma delícia o programa, Ju está super à vontade, eles são amigos, conta muitas historinhas. Muitas eu já conhecia, eu o conheço desde adolescente.
Aqui uma historinha que ele conta no site também:



Abbesses St. Workshop

Edifício construído em 1896, projetado pelo arquiteto Besnard, especialmente para a função de atelier de artista. Situado nas colinas de Montmartre, na rue des Abbesses, onde ilustres moradores viveram, como Theo e o seu irmão Van Gogh. Toulouse Lautrec, Picasso, Modigliani, Van Dogen, Max Jacob e tantos outros que também nesta região viveram, deram ao quartier, a fama e o prestígio da "Cidade Luz", onde as pedras falam de arte.

Após incessante procura de um verdadeiro "atelier d'artiste" em 1991 o encontrei, e consegui adquiri-lo. A partir do pós-guerra estes atelieres, que são um símbolo de um tempo em Paris, tornaram-se cada vez mais raros no mercado imobiliário, pois deixaram a sua função original e passaram a ser a habitação de pessoas que buscavam um lugar especial para viver. Com alta janelas voltadas para a fachada norte onde a luz é ideal, por ser constante, grandes espaços com volumes de seis metros de pé direito se intercalam por mezzaninos.

No 2º e 3ª andar onde trabalho, tenho os meus cavaletes, tintas, livros telas e um rádio que jamais é desligado, mesmo quando saio.Muitas pessoas acendem velas ou incenso, eu uso a música para purificar. Lá pintei tantos quadros, para tantas exposições, entre eles a coleção

Copacabana, inspirado na poesia e na música de seus anos dourados, especialmente para as comemorações de seu Centenário em 1992. Esta exposição foi mostrada nas principais capitais brasileiras e ainda em Paris, Nova York e Miami. Moro nos 4º, 5º e 6º andares do edifício. No último andar, por isso não jogo pedra no telhado do vizinho, o teto é de vidro. De lá se vêem os telhados da velha Montmartre, com sol, chuva ou neve, é sempre um prazer se olhar.

Da janela grito ao Mr. Frédéric, do restaurante em frente "La Mascotte" que me traga as ostras, "Fine Claire nº3", que o champagne já está no gelo. Lá embaixo a rua é viva e musical. Com som próprio, orquestrada com os gritos dos comerciante anunciando suas ofertas, a conversa animada nos bistrôs, o choro de acordeons e a melodia dos "chansonniers". Por entre bancas de frutas, legumes, queijos, flores e peixes seus moradores circulam com a baguete debaixo do braço e na sacola o bom vinho.

Numa esquina, algum pintor com seu cavalete registra o "Village Lepic-Abbesses" para qualquer dia ser visto em algum museuo, o retrato da continuação deste tempo, que é assim há cem anos, pois muitas vezes olho no calendário para ter certeza do ano em que estou.

Quando compro o sagrado pão nosso de cada dia, a jovem padeira, gentil me cumprimenta: "bonjour monsieur le peintre", como certamente fazia sua avó para algum pintor do bairro na sua época. Feliz, sinto que juntos estamos apenas cumprindo a bela tarefa de dar continuidade à história da vida.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Hoje é dia de Contardo





"Infiel"

A tolerância não impede de reconhecer e recusar a diferença quando ela é inimiga de nossos valores

A COMPANHIA das Letras acaba de publicar a autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, "Infiel - A História de Uma Mulher que Desafiou o Islã".
Hirsi Ali nasceu na Somália (país muçulmano) em 1969, viveu o horror da guerra civil e da luta entre clãs que levaram o país da pobreza à miséria, passou partes da infância e da adolescência na Arábia Saudita e no Quênia e, enfim, adulta, fugiu para o Ocidente. Na Holanda, ela se tornou cidadã e, logo depois, foi eleita deputada. Pela sua história e pela coragem de suas palavras, ela continua sendo alvo de um fanatismo assassino.
O livro, além de tocante, é imprescindível para quem queira, hoje, perguntar: "Vigia, como está a noite?".
As primeiras 300 páginas tratam da progressiva metamorfose de Ali: uma menina definida pela sua ascendência e pela obediência aos homens e ao Alcorão se transforma numa jovem pessoa atormentada por dúvidas sobre sua fé e pela vontade de escutar seus sentimentos e de escolher livremente seus objetos de amor.
Essas páginas deveriam estar nas bibliografias de introdução à antropologia cultural: elas explicam perfeitamente quem somos nós, ocidentais. Na história da jovem somali, a oposição à autoridade tradicional do clã e do texto sagrado não está nos grandes textos do Ocidente -está nos romances.
Fragilidade e grandeza de nossa cultura: a liberdade do indivíduo moderno é, antes de mais nada, liberdade de amar e de romancear o amor. "Romeu e Julieta" e Barbara Cartland nos definem melhor do que "O Contrato Social".
Li as últimas 200 páginas do livro na noite de sábado, sem parar, madrugada adentro. Nelas, Ali, ao contar as peripécias de sua vida na Holanda, expõe sua crítica do Islã.
Depois de 11 de setembro de 2001, talvez você tenha lido "Choque de Civilizações?", de Samuel Huntington, e, como eu, tenha resistido à idéia de que o terceiro milênio seja destinado a encenar um conflito cultural sangrento entre o Ocidente e o Islã. Talvez você, como eu, sem examinar de perto os textos e os fatos, tenha se juntado ao coro da tolerância e à visão otimista do Islã paz-e-amor, convencido de que aceitar a diferença seja (como é, de fato) uma prerrogativa crucial e gloriosa de nossa cultura.
Só a tolerância -você pode ter pensado, como eu- permitirá a integração que confirmará a humanidade comum de todos, realizando o sonho ocidental moderno. Pois bem, Ali pensa diferente.
Para ela, o fundamentalismo e o terrorismo islâmicos de hoje não se fundam numa distorção do Islã, eles estão inscritos na letra do Alcorão e do Hadith.
Só será possível evitar um embate frontal se o mundo islâmico passar por uma revolução interna comparável com a que sacudiu o cristianismo no começo da modernidade, quando o indivíduo (com sua liberdade e seu foro íntimo) se tornou um valor bem mais importante do que a instituição e o texto religiosos.
Portanto, para Ali, sobretudo nos lugares de maior fricção entre o Islã e o Ocidente, como na Europa, a estratégia de uma convivência possível não passa pela simples tolerância, mas pela exigência ativa de uma integração dos imigrantes na cultura para onde se mudaram ou fugiram. Essa exigência inclui a capacidade de recusar a diferença quando ela for inimiga de nossos valores.
Não há espaço, no Ocidente, para a submissão das mulheres, o ostracismo das minorias sexuais, o poder patriarcal indiscriminado e, sobretudo, não há espaço para a confusão entre religião e Estado de direito.
Theo Van Gogh, holandês, dirigiu um documentário, escrito por Ali, sobre a submissão da mulher no Islã. Ele foi assassinado e degolado por um fundamentalista islâmico, que cravou no peito de sua vítima uma mensagem para Ali, perguntando se ela estava disposta a morrer por suas idéias como ele, o assassino, estava pronto a se sacrificar pelas suas.
É um argumento freqüente nos comunicados exaltados dos terroristas: o Ocidente estaria fadado a desaparecer porque preza a vida do indivíduo.
Ora, Van Gogh, diante de seu assassino, antes de ser morto, perguntou: "Será que a gente não pode conversar?". O assassino deve ter pensado que se tratava de mais uma demonstração da fraqueza e da covardia ocidentais. Ele se enganou. Era a maior demonstração de fé nos valores do Ocidente e, portanto, de força.

PS: Mais aqui
sobre a autora.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Teste seu cérebro


Achei este teste hoje no blog do Fernando Stickel.
A boneca rodava no sentido horário, aí eu pensei:"Como faço para copiar o endereço?" Ela passou a rodar para o outro lado. Incrível!
O nosso cérebro...tantas coisas desconhecemos...

domingo, setembro 23, 2007

O sétim selo/ Teresa Sampaio comenta




Trailer do filme aqui.

O Sétimo Selo


Ingmar Bergman

Dia 28 de Setembro de 2007, às 20:00 hs, na Casa da Ribeira, Natal.

Ficha Técnica

Título Original: Det Sjunde Inseglet
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em peça de Ingmar Bergman
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (Suécia): 1956
Atores: Max Von Sydon

Bibi Andersson

Gunnar Björnstrand

Bengt Ekerot

Nils Poppe

Inga Gill

Estúdio: Svensk Filmindustri
Produção: Allan Ekelund
Música: Erik Nordgren
Direção de Fotografia: Gunnar Fischer
Figurino: Manne Lindholm


Comentário de
Tereza Sampaio*


Este é um filme sobre o silêncio de Deus e as tentativas de respostas dos homens frente às trevas e ao caos apocalíptico que reinam na Idade Média. Entretanto, ele também tem elementos de comédia em diversas seqüências e muitos contrastes entre o sombrio e o burlesco. O roteiro do filme é fascinante, tendo merecido um emocionado prefácio de Bergman, que o considerava o seu filme favorito.



Na seqüência da abertura ouvimos o Dies irae e em seguida vemos uma ave negra sobrevoando a praia em meio a densas nuvens, enquanto uma voz serena narra uma passagem do Apocalipse. Isso faz com que o filme comece com beleza e suspense.



“Quando o cordeiro abriu o sétimo selo... houve um silêncio no céu por cerca de meia hora. Eu vi sete anjos diante de Deus... e a eles foram dadas sete trombetas.



O cavaleiro Antonius Block e Jons, seu escudeiro, retornam de uma desastrosa Cruzada e dormem na praia. Ao lado deles, um jogo de xadrez. Com sobriedade, compenetração e lentidão nos gestos, Antonius Block lava o rosto e ora ao som forte das ondas batendo nas pedras. Ao se voltar, o silêncio se faz e ele se depara com a figura da Morte.



Utilizando-se de uma alegoria, Bergman materializa a Morte numa personagem que vai se revelando um tanto patética, trapaceira e próxima aos humanos, principalmente no que diz respeito à ignorância . Ela acompanha Antonius Block há muito tempo e vem avisá-lo de que é chegada a sua hora. Então ele propõe à Morte uma partida de xadrez. ‘Como sabe que jogo xadrez?’, pergunta a Morte. Ele responde: ‘Vi nas pinturas e escutei nas canções’ . Um toque de humor é colocado no sorteio das peças. A Morte sorteia as pretas e diz: ‘bem apropriado, não acha?’.



Antonius Block tenta adiar o seu fim, esperando obter respostas e compreender o silêncio de Deus.: ‘Quero conhecimento, não fé ou presunções. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre o seu rosto, que fale comigo. Mas ele fica em silêncio.’ E a Morte retruca: ‘talvez não haja ninguém’.



Assim, Antonius Block coloca a sua questão; o silêncio de Deus diante da morte e do caos o angustia, ele acha que a Morte tem essas respostas, embora desde o início da partida de xadrez ela tenha dado sinais de que, assim como os humanos, ela também nada sabe; ela é apenas silêncio e escuridão.



Muitos acreditam que há um Outro, no caso Deus, que tudo sabe a respeito da vida e da morte, e tentam interpretar o silêncio diante disso na tentativa de preencher esse indizível, de dar uma consistência imaginária a Deus, tamponando o seu silêncio. Para estes não há enigma; Deus envia sinais, fala o tempo inteiro, tem os seus desígnios, o que faz da religião um delírio compartilhado, como sublinha Freud.



Antonius Block é aquele que não pára de questionar, como lhe diz a Morte. Vindo das Cruzadas, tendo tudo perdido, vendo a população ser dizimada pela peste, tendo ele mesmo matado pessoas em nome de Deus e se afastado de Karin, a mulher a quem ele amava, precisava saber de onde vinha aquele vazio e encontrar um sentido que aplacasse a sensação da inutilidade de tudo aquilo.



Jons, seu irônico escudeiro pensa diferente. Ele é o contraponto de Block. ‘Dez anos em terra sagrada sendo mordidos por cobras, mosquitos e animais selvagens, assassinados por pagãos, envenenados pelo vinho, infestados por piolhos que nos devoravam e a febre que matava. Tudo pela glória de Deus’, diz ele. Jons é aquele que despreza a morte, zomba de Deus, ri de si mesmo e sorri para as mulheres. Num diálogo entre o ferreiro Plog e sua mulher, Jons antecipa a fala desta, mostrando que conhece as mulheres. Esta é uma cena bastante divertida do filme.



A morte está por toda a parte, túmulos são abertos, restos de cadáveres estão espalhados, a terra está devastada pela peste. A peste e a devastação poderiam ser desde já uma resposta de Deus, resposta que levaria à concepção de que Deus é tenebroso ou que nos odeia, ou que fizemos algo pelo qual precisamos ser punidos.



Na belíssima cena de uma procissão ao som de canto gregoriano, mulheres se chicoteiam, padres blasfemam, acreditando que Deus mandou o seu enviado, que o diabo está encarnado na feiticeira, uma menina acusada de ter feito sexo com o diabo e que, portanto, precisa ser crucificada e queimada. As cenas da procissão procuram fixar a câmera no rosto das pessoas que expressam horror e êxtase, numa fé cega e desesperada. Essa cena contrasta com a anterior, na qual a trupe de teatro trata do mesmo tema com bastante humor...negro. ‘Alguém de negro dança na praia, corre na praia, se agacha na praia, defeca na praia, permanece na praia’.



Como diz Freud em ‘O Mal-Estar na Cultura’, descobrir que a vida não tem um propósito traria uma perda de valor, o desencantamento do homem em sua extrema presunção. Para afastar o sofrimento e o desamparo, as pessoas recorrem ao que Freud chamou de ‘técnicas de vida’, entre elas a arte, o trabalho, a ciência, a religião e o amor. Todas elas, entretanto são falhas, deixam furos, algo indizível aparece sob a forma de sofrimento, de incerteza e angústia.



No desenrolar da trama de “O Sétimo Selo”, Bergman vai mostrando algumas técnicas de vida como a arte, o amor, a fantasia e a religião.



Em meio à terra desolada, Mia e Jof, um casal de artistas de teatro, se destaca como um sopro de vida e de alegria no universo da obscura religiosidade da Idade Média. Eles se salvam pelo amor, pela arte, pelo humor e pela fantasia. Vale lembrar que Jof está longe de ser um herói. Ele sofre humilhações numa taverna, mostra-se frágil, não se ocupa de questões solenes. O casal acolhe Antonius Block e Jons, e o cavalheiro se mostra comovido com tudo – a simplicidade, o amor, a ausência de pretensões filosóficas, o estilo de vida: ‘Não me esquecerei disso: o silêncio... a tigela de morangos e o leite. Seus rostos na luz do entardecer. Mikael dormindo na carroça e Jof com a sua canção. Tentarei lembrar do que dissemos e levar essa lembrança com cuidado, como se fosse uma tigela de leite’. Jof tem visões, algumas das quais correspondem à realidade.



A religião, outra técnica de vida não se mostra como uma saída muito amena. Raval, o antigo estudante de teologia, conhecido pelo nome de Doutor Mirabilis Celestis et Diabolis, transforma-se num ladrão que rouba dos mortos, em instigador de desavenças e estuprador. Foi Raval quem convenceu Antonius a partir na Cruzada para a terra sagrada. Em nome de Deus padres investigam a causa das mortes violentas e repentinas, deduzindo que são fruto do castigo divino. São dias marcados pela ira de Deus. Mulheres se flagelam pela glória de Deus.



A religião, neste caso, dá consistência ao silêncio de Deus, uma vez que este responde pela fúria.



Uma seqüência interessante do filme é a de Antonius Block diante de um confessionário falando sobre o vazio, que se espelha em seu rosto. Depois de algum tempo ele se dá conta de que é a Morte o seu estranho confessor. Esta lhe pergunta: ‘Como pretende vencer a Morte’? Ao que ele responde: ‘Tenho uma jogada com o bispo e o cavalo que ela não conhece. Quebrarei sua defesa’. A Morte, trapaceira, traiçoeira mostra o seu rosto e Antonius sente ou finge indignação ou surpresa.



Era um blefe para adiar a Morte ou a Morte o enganou? Em outro momento, diante do tabuleiro de xadrez, a Morte lhe diz: ‘você me enganou?’ E ele responde: ‘caiu na minha armadilha’. Não seria a única vez que ele tenta enganar a Morte. Nessa mesma jogada, ele descobre que a Morte pretende pegar Mia, Jof e o filhinho Mikael. Antonius tenta distrair a Morte de todas as maneiras até ver a carroça sumir de vista. Ninguém me escapa, diz a Morte. Mas ainda não foi dessa vez que ela conseguiu pegar a família da trupe de teatro. Jof, Mia e Mikael foram salvos pela visão de Jof, que os fez fugir enquanto Antonius Block distraía a Morte.



Em outra seqüência do filme, Antonius e Jons aproximam-se da “feiticeira”. O cavaleiro tenta descobrir algo sobre o diabo, pois ele deve saber sobre Deus. Ela está tomada pela certeza de que o fogo não a tocará, pois o diabo não vai permitir. Antonius Block tenta saber o que ela vê, quem cuida dela: ‘é um anjo, o diabo, Deus ou é apenas o vazio?’ Mas parece que ela vê o mesmo que eles e teme o mesmo que eles. Nesse instante Jons e Antonius invertem os papéis. Tomado pela comoção, Jons quer acreditar que a menina realmente está vendo algo, enquanto Antonius se desespera ao se dar conta de que provavelmente ela não está vendo nada.



Após uma jogada, a Morte anuncia que o xeque-mate será na próxima. O diálogo crucial que ela e Antonius Block então estabelecem define claramente a busca inútil de respostas ao silêncio divino. Diz a Morte:



- Quando nos encontrarmos novamente, seu tempo e o de seus companheiros será encerrado.

- E você me revelará seus segredos.

- Não tenho segredos.

- Então você nada sabe.

- Não tenho nada a dizer.



A cena final parece uma pintura: é a dança da morte que arrasta a todos. Ela é descrita por Jof, em uma de suas visões: ‘E a Morte, o severo mestre, convida-os a dançar. Quer que todos dêem as mãos para formarem uma longa fila’...


Tereza Sampaio*


Natal, 20 de setembro de 2007

Teresa Sampaio é psicanalista.

sábado, setembro 22, 2007

Eros e psiquê


Antonio Canova


O genial Fernando Pessoa para vocês, e especialmente para meus queridos lusitanos:


Eros e Psiquê


Fernando Pessoa

Conta a lenda* que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

*A lenda aqui

sexta-feira, setembro 07, 2007

Projeto "Educar dançando"


Projeto "Educar dançando", vejam aqui
É um projeto lindo. Uma querida amiga, Maria Mazzarello, é a coordenadora. Vejam aí.
Mais aqui.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Contardo Calligaris





Imperdível! Concordo com tudo que ele diz.

Tristeza e dignidade do suicídio

Contardo Calligaris

O ato suicida guarda sua dignidade porque é imprevisível como qualquer ato humano

QUANDO EU tinha 12 anos, um tio meu se suicidou. Era um tio de quem eu gostava e que gostava de mim. Ele enfiou a cabeça no forno e abriu a torneira do gás. Deixou uma nota, sucinta, que dizia: "Suicídio por razões profissionais e amorosas".
Meus pais não esconderam de mim as circunstâncias da morte do tio e me mostraram seu bilhete. Mesmo assim, imaginei perceber, em meus pais, uma certa vergonha. Isso, porque, no fundo, eu os culpava.
Foi a grande crise na minha idealização dos meus pais e, por conseqüência, na tranqüilidade de meu mundo: aparentemente, a amizade e o amor que eles ofereciam não tinham sido suficientes para dar a meu tio a vontade de continuar vivendo.
Nada me garantia, portanto, que eles saberiam fazer o necessário para que eu estivesse a fim de viver.
Foi assim que o luto pelo suicídio do meu tio foi também o fim de minha infância. Mas, em regra, quando se suicida um próximo de quem gostamos e que gostava de nós, não atribuímos vergonha e culpa a terceiros: esses sentimentos surgem em nós, ao descobrir que nossa presença e nosso amor não bastaram para que o outro quisesse viver. Em alguns casos, essa ferida nunca cicatriza.
Quando o suicida é nosso pai ou nossa mãe, o sentimento de não termos sido a razão suficiente para ele ou ela viverem fica conosco para sempre, como um fundo melancólico, como a sensação de uma insuficiência essencial ou de uma impossibilidade de sermos amados.
Quando o suicida é um filho ou uma filha, a perda (irreparável, pois o luto pelos nossos descendentes é contra a ordem das gerações) é acompanhada pelo sentimento de um fracasso, como se não tivéssemos conseguido transmitir o básico: a vontade de viver. Deve ser por isso que os monoteísmos consideram o suicídio como um pecado contra o criador: o suicida demonstraria o malogro de Deus. Assisti ao filme "A Ponte", de Eric Steele, e espero que continue em cartaz. Em São Paulo, já passa em apenas uma sala, duas vezes por dia.
Alguns anos atrás, Ted Friend publicou, na "New Yorker" (13/10/ 2003), um artigo sobre a estranha freqüência com que a famosa ponte Golden Gate de San Francisco é escolhida pelos suicidas. Aparentemente inspirado pelo artigo, Steele, durante um ano inteiro, filmou a ponte, sem parar. Houve 24 suicídios e várias tentativas que foram sustadas também graças à equipe de Steele (eles informavam a polícia quando detectavam, de longe, comportamentos "suspeitos").
Além disso, Steele entrevistou parentes e amigos próximos dos suicidas. O tom é justo, comovedor e tocante. O filme evita o caminho mais fácil, que consistiria em nos acusar sub-repticiamente, como se, quando alguém decide morrer, fôssemos todos, de uma maneira ou de outra, responsáveis. A maior qualidade do filme é, ao contrário, a sobriedade. O ato suicida guarda sua dignidade porque, apesar das explicações dos próximos, ele permanece misterioso e radicalmente imprevisível, como qualquer ato humano.
No dia 29 de agosto, o UOL publicou a notícia seguinte: na Áustria, dois homens viviam junto, em um apartamento-albergue dos serviços sociais. Brigaram. Um deles, Robert, psicótico em remissão, matou o outro; depois disso, ele abriu o corpo e o crânio do companheiro e comeu órgãos internos e cérebro. Quando a faxineira chegou, Robert, com a boca ensangüentada, comentou: "Veja só o que aconteceu". A porta-voz do Fundo Social de Viena declarou: "Se tivéssemos a menor idéia de que este tipo de coisa pudesse acontecer, teríamos transferido Robert para outro local e exercido um acompanhamento mais adequado". Alguém, na Áustria, deve estar criticando severamente o psiquiatra, o psicólogo ou a assistente social que, algum dia, afirmaram que Robert podia ser devolvido à sociedade.
Pensei nas poucas vezes em que, num tribunal, tive de dizer, em nome de minha "ciência", se alguém, a partir de então, seria ou não um bom pai ou uma boa mãe.
A verdade é que, uma vez os fatos acontecidos, somos capazes de interpretar, de encontrar explicações e mesmo de assumir responsabilidades e culpas que temos ou não temos. Mas tudo isso apenas retroativamente.
Em matéria de comportamento humano, somos quase sempre incapazes de prever. Não sei se é um mal: talvez essa ignorância seja a condição de nossa liberdade.

Veja aqui.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Diana Arbus e a beleza incomum

Dai, minha amiga, viu um filme sobre ela e disse que eu tenho que ver. Verei sem falta.
Adoro as fotos desta mulher. Só alguém com um olhar especial poderia fazer estas fotos.
Fiz um post onde falava nela, faz tempo. Esta foto desta senhora de chapéu, eu tenho uma reprodução, era o convite da expo lá no Thomas, esteve na minha frente muito tempo. Ainda tenho guardada aqui- eu tenha caixas que não abri, vou mudar de novo :) ai ai canso só em pensar.
Agradeço à vida, um dia, ter conhecido o Thomas Cohn numa confeitaria ali na Barão da Torre, ele adora um doce, foi comer sua torta e eu almoçava. Alguém nos apresentou, acho que foi Avatar, que havia sido meu professor de arte na PUC. Ficamos amigos, ele me abriu os olhos- foi com ele, na sua galeria, e de Myrian, que vi Diana, Leonilson, Kuitca, Adriana Varejão, Lia Menna Barreto, Rosana Palazyan...toda a geração 80. Além de Ibere Camargo, Mira Schendel, confesso que não acho nada especial em Mira, mas sei que é porque não alcanço, é demais para minha ignorância, ela fazia uns traços num papel em branco e aquilo é um obra valorizadíssima- sorte dos filhos do meu ex namorado, Fernando, que são netos dela :) Enfim, eu não souentendida, apenas gosto ou não gosto. gosto muito de Leonilson, da Varejão, da Rosana, da Lia, e por aí vai...

domingo, agosto 19, 2007

Entrevista: Colin Murray Parkes - A dor da morte





O psiquiatra inglês diz o que alivia e o que agrava o
sofrimento causado pela perda de alguém muito próximo

Revista Veja: Juliana Linhares

"As pessoas enlutadas, em geral, têm um alto grau de sensibilidade a tudo o que não seja sincero: elas percebem facilmente se alguém está fingindo tristeza"


Na qualidade de um dos mais respeitados estudiosos do luto do mundo, o psiquiatra inglês Colin Murray Parkes, 79 anos, viu de perto grandes tragédias e o sofrimento que elas podem causar a populações inteiras. Em 2005, ele foi chamado pelo governo britânico para dar assistência psicológica a vítimas do tsunami que atingiu vários países banhados pelo Oceano Índico, matando um total de 225 000 pessoas. Três anos antes, havia trabalhado na assistência a parentes de vítimas dos atentados de 11 de setembro em Nova York, que resultaram na morte de quase 3 000 pessoas. Mas o trabalho de Parkes não se resume a apoiar as vítimas de grandes desastres: consultor até o ano passado do St. Christopher's Hospice, hospital inglês que é a maior referência mundial em tratamento de pacientes terminais, ele lidou por mais de quarenta anos com dramas cotidianos: aqueles vividos pelas famílias que perderam alguém no leito do hospital. Em entrevista concedida a VEJA, o psiquiatra falou sobre a dor de quem vai e de quem fica e como lidar com ela.

Veja – O que se pode fazer para ajudar uma pessoa que perdeu alguém?
Parkes – Ficar próximo dela, abraçá-la, fazê-la sentir-se compreendida e segura. Para as pessoas que perderam alguém, especialmente se a morte estiver ligada a uma situação criminal, o mundo pode parecer um lugar bastante perigoso. Parentes de vítimas ficam assustados e chegam a ter medo de estranhos. Para ajudar essas pessoas, é preciso despertar sua confiança e transmitir-lhes segurança para começar a falar e a pensar naquilo que as faz sentir-se em perigo. Deixá-las expressar sua tristeza também é importante. Ouço muitas reclamações de enlutados. Eles dizem que a família não os deixa chorar – quer vê-los alegres o tempo todo. Não há nada pior do que alguém lhe dizendo: "Não quero ver você triste assim, por favor!". Outra coisa que devasta essas pessoas é quando elas percebem que os vizinhos e os amigos se afastam delas. Escuto muitas histórias de enlutados que afirmam que seus vizinhos mudam de calçada quando os vêem chegando. É evidente que eles não fazem isso de propósito. O fato é que ninguém sabe lidar direito com a morte.

Veja – E no caso de familiares de vítimas de grandes tragédias, como a do acidente da TAM, no Brasil? Como amenizar seu sofrimento?
Parkes – No período imediatamente posterior ao acidente, o que as famílias mais precisam é de informação e instrução. Psicologicamente, é mais fácil lidar com más notícias do que com a falta delas. Não se deve tentar proteger as famílias escondendo dados que possam machucá-las. As informações servem para que as pessoas tenham tempo para digerir o terror e organizar suas esperanças, assim como suas hipóteses sobre a tragédia. Já as instruções são fundamentais porque, nesse momento de aflição máxima, os familiares não têm condições de resolver nada e precisam de alguém que assuma o controle da situação. E isso tem de ser feito de forma bastante objetiva – não há espaço para debates democráticos, do tipo: "Familiares das vítimas, vocês preferem ficar aguardando informações em um hotel ou aqui no aeroporto?". É necessário que alguém passe ordens. O cuidado psicológico propriamente dito vem numa fase posterior.

Veja – Em que ele consiste?
Parkes – Em casos de desastres que podem ter sido causados por leniência, descaso ou falha humana, é comum haver um sentimento generalizado de raiva entre os familiares. Os parentes querem, a todo custo, encontrar e, por vezes, agredir o culpado – ou os culpados – pelo desastre. Psicólogos e médicos destacados para cuidar dessas pessoas devem escutar suas queixas, mas, principalmente, tentar conter a instalação de um ciclo de raiva. O sentimento de ira não ajuda o enlutado a se organizar emocionalmente, nem mesmo alivia sua dor. É fundamental também trabalhar para que cada família tenha certeza de que seu caso será analisado – seja por psicólogos, seja por autoridades – de maneira individualizada. Em grandes desastres, as famílias tendem a achar, e não se pode tirar a razão delas, que a morte de seu parente está sendo banalizada. Isso acontece, entre outros motivos, porque as notícias veiculadas na imprensa, na maioria das vezes, falam do número total de mortes, e não especificamente do parente dela. Para um marido que perdeu a mulher, o que importa é a morte daquela mulher, não a de 200 pessoas.

Veja – É mais difícil aceitar a morte quando não se tem o corpo do morto?
Parkes – Sem dúvida. É difícil acreditar que aquela pessoa morreu quando não vemos o corpo dela e não realizamos os ritos fúnebres. No episódio do 11 de Setembro, muitas famílias britânicas, que nós assistimos, não conseguiram ter de volta os corpos de seus parentes. Um de nossos trabalhos foi ajudá-las a acreditar que eles tinham mesmo morrido. Estudei uma tribo de pescadores, nas Filipinas, que chega a fazer um ritual substitutivo para lidar com uma situação dessas. Quando um dos integrantes da tribo morre no mar e seu corpo não é resgatado, a família faz uma estátua e a veste com as roupas do morto. Eles acreditam que, assim, a alma do falecido encarnará na estátua. E é essa estátua que enterram.

Veja – Na escala da dor, qual é o pior tipo de morte para quem fica?
Parkes – O que implica sentimentos de culpa pode ser considerado o pior. É o caso, por exemplo, do pai que vê o filho morrer em um acidente de carro e acha que poderia tê-lo socorrido, ou de uma pessoa que se sente responsável pelo suicídio de outra. Em segundo lugar, bem próximo do primeiro, eu diria que estão as mortes por assassinato.

Veja – Qual é o povo que lida melhor com a morte?
Parkes – Penso que os orientais se preparam melhor para a morte do que nós. No Japão, eles fazem oratórios com sinos, que, segundo crêem, invocam a pessoa morta a cada vez que são tocados. Desse modo, acreditam manter-se em contato com o espírito de seus mortos. De certa maneira, é isso que a terapia tenta fazer com os enlutados: ajudá-los não a esquecer seus mortos, mas a achar um lugar para eles em sua vida.

Veja – Quem lida melhor com a morte, os homens ou as mulheres?
Parkes – As mulheres, sem dúvida. Elas conseguem expressar seu sofrimento mais facilmente. E, uma vez vivenciado esse sentimento, elas podem fazer aquilo que se costuma chamar de "tocar a vida para a frente". Já os homens têm uma enorme dificuldade de mostrar sua fragilidade diante da morte. Por isso, têm também mais dificuldade de se organizar para continuar vivendo.

Veja – O que se deve dizer a um conhecido que acaba de perder alguém?
Parkes – As pessoas enlutadas, em geral, têm um alto grau de sensibilidade a tudo o que não seja sincero: elas percebem facilmente se alguém está fingindo tristeza ou dizendo uma palavra de conforto apenas porque foi instruído a fazê-lo. Por isso, o que quer que você diga nessa situação deve vir do coração.

Veja – Até o ano passado, o senhor trabalhava como consultor psiquiátrico de um hospital especializado no cuidado de pacientes terminais. Do ponto de vista psicológico, o que se pode fazer para amenizar o sofrimento desses doentes e de suas famílias?
Parkes – Além de tentar transmitir os mesmos sentimentos de amor e solidariedade, acho que dizer a verdade sempre ajuda. Quando alguém está morrendo, as pessoas, querendo ajudar, cometem erros clássicos. Um deles é fingir que a pessoa não está doente: "Você está com uma cara ótima hoje!", diz um parente. É evidente que é mentira, e o paciente sabe disso, mas compactua com o fingimento porque também quer proteger o familiar. Isso cria uma situação horrível! Certa vez, falei com uma senhora no dia em que o marido dela deu entrada no hospital em que eu trabalhava. Ela me disse: "O senhor não vai dizer ao meu marido que ele tem câncer, vai?". Eu havia acabado de conversar com o marido dela, que já me contara que tinha a doença! Eu perguntei: "O que faz a senhora achar que ele não sabe?". Ao que ela respondeu: "Ele sempre morreu de medo de câncer. Se o senhor lhe contar, ele vai morrer!". Eu falei: "Conversei com seu marido. Ele sabe". Ela: "Sabe? Por que ele não me contou?". Respondi: "Talvez esteja querendo protegê-la". Ela entendeu: "Como nós fomos bobos!". Voltamos à cabeceira da cama e eu deixei o casal conversando. Voltei meia hora depois. Eles estavam sentados com os braços entrelaçados. Ela chorava copiosamente e dizia: "Fomos tão bobos, não?". Mas, ao mesmo tempo, ela sorria. É que, finalmente, havia conseguido se comunicar com o marido.

Veja – O senhor foi chamado pelo governo britânico para cuidar de vítimas do tsunami. Como foi esse trabalho?
Parkes – Estive na Índia um mês depois da tragédia. Peguei a fase da reconstrução do lugar. Como morreram mais mulheres e crianças, encontrei muitos homens devastados e entregues à bebida. Eles haviam perdido a mulher, os filhos e os barcos com que ganhavam a vida, mas tinham uma resistência muito grande em aceitar ajuda psicológica. Lá, homem não chora. Fiquei estudando qual o melhor modo de ajudar aqueles sobreviventes. Depois de alguns dias, concluí que a melhor forma seria estimulá-los a participar da reconstrução de suas vilas e casas. Coordenei, então, mutirões de obras. Organizava os grupos que fariam as casas e os barcos. E, evidentemente, dava apoio psicológico e individual quando era solicitado.

Veja – E como foi o trabalho com as vítimas do 11 de Setembro?
Parkes – O governo do meu país me escalou para cuidar das famílias de vítimas britânicas que haviam morrido no atentado. Os melhores policiais da Grã-Bretanha foram enviados a Nova York para nos ajudar. Meu primeiro trabalho foi formar duplas constituídas por um policial e um terapeuta. Essas duplas receberam cada avião que chegou do Reino Unido. No total, foram 120 familiares de vítimas. Nesse caso, meu trabalho não foi propriamente o de um terapeuta, mas sim o de um grande produtor: tinha, por exemplo, de garantir que houvesse celulares suficientes, salas de entrevista, esse tipo de coisa. Mas logo fiquei conhecendo as famílias, já que estavam no mesmo hotel que nós. E o que eu e os outros psiquiatras da minha equipe percebemos foi que elas tinham uma grande necessidade de procurar seus mortos – ainda que a morte deles parecesse um fato inexorável. Os americanos haviam disponibilizado computadores que, operados por policiais, informavam o nome de todos os sobreviventes internados em hospitais de Nova York. Nós já tínhamos vasculhado esses registros e sabíamos que os parentes dessas famílias não estavam lá, mas elas insistiam em procurar por conta própria. Então, em vez de as obrigarmos a aceitar a informação de que as pessoas que elas amavam estavam mortas, ficamos ao lado delas, observando-as enquanto faziam a busca. Também as ajudamos a colar cartazes em postes com as fotos e os nomes dos parentes desaparecidos. Quanto mais fotos elas colavam, mais se davam conta de que não daria resultado. A compreensão foi vindo de forma gradual. Uma coisa que também ajudou nesse processo foi o fato de que muitas pessoas enlutadas passaram a se encontrar diariamente na Union Square, a área verde mais próxima do desastre. As famílias se sentiam bem lá, conversavam e choravam juntas. Isso colaborou para fazer com que, aos poucos, elas fossem entendendo que as pessoas que elas procuravam não voltariam mais. Foi uma boa terapia.

Veja – Por que o senhor decidiu trabalhar nessa área?
Parkes – Eu ainda era um jovem médico em Londres quando fui chamado para fazer meu primeiro parto. O médico-chefe me disse que o procedimento seria simples porque o bebê era anencéfalo e, por ter uma cabeça pequena, sairia facilmente da mãe. Ele me disse ainda para não mostrar o bebê à mãe. Fiquei chocado com isso. Também me incomodava o modo como os médicos tratavam os pacientes. Achavam que era perigoso se aproximar e se envolver emocionalmente com eles. Nunca chegavam muito perto do leito. Quando resolvi me especializar em psiquiatria, direcionei meus estudos para os piores tipos de sofrimento humano. Justamente nessa época, na clínica onde eu trabalhava, dois pacientes se suicidaram depois de passar por um forte stress causado por luto. A partir daí, foquei meu trabalho na recuperação de pessoas que haviam perdido alguém. Mas às vezes é muito difícil para mim fazer esse trabalho. Os grandes desastres, por exemplo, me deixam bastante abalado.

Veja – O que mais o abala nessas situações?
Parkes – Ver o sofrimento em massa. É avassalador. Depois do 11 de Setembro, assim que voltei de Nova York, tirei férias e viajei com meus netos. Eles disseram que eu não era mais o avô de sempre. Disseram que eu estava longe – e estava mesmo. Minha cabeça não saía de lá. É difícil ser a mesma pessoa depois de ver uma tragédia dessas

segunda-feira, agosto 06, 2007

Mãe e filho- o vínculo primordial/ Arquivo- revisado
















Estive pensando o que escrever para a blogagem coletiva de hoje início da Semana Mundial de Aleitamento Materno.

Fomos convocadas por Denise- especialista no assunto.

Ao nascer o bebê sai do conforto do útero e cai num mundo hostil, frio, cheio de sons estranhos, sente fome... Nada disto acontecia antes, vivia num paraíso, onde todas suas necessidades eram supridas. A mãe vem e lhe dá o peito. A primeira mamada ninguém esquece, é registrada como a primeira experiência de satisfação* e por mais que se busque satisfação igual, nunca alcançaremos. É um desejo que jamais será satisfeito.
A partir daí ele precisa da mãe, de uma mãe substituta, ou mesmo um bico duro de borracha, oferecido por um braço qualquer, para suprir sua necessidade e seu desejo de mamar. Neste instante começa o vínculo mais importante e definitivo para todos nós- o vínculo com a mãe.
No início da vida o bebê não sabe distinguir o corpo dele do da mãe ao mamar, ainda não tem maturidade para isto, ele e a mãe formam um só ser, aos poucos ele vai começar a reconhecer o rosto da mãe, vai se separando. Neste primeiro momento a mãe é boa e má****.
A mãe precisa aprender a reconhecer as necessidades do seu filho, distinguir os diversos choros, pode estar molhado, com frio, com calor, com cólicas, desconfortável, com sono ou com fome. Ou desejar apenas colo, o calor da mãe,o cheiro, bebês conhecem a mãe pelo cheiro. É mais fácil achar que é sempre fome, mas não é sempre fome. A mãe suficientemente boa- como dizia Winnicott- vai saber dar aquilo que o filho precisa na medida certa.
Mas e as crianças que não têm mães, ou não têm mães suficientemente boas? Estarão condenadas ao desamor? Ao abandono?
Muitas sofrerão de um abandono devastador, nunca terão o afeto que esperam, estarão sempre querendo mais e mais, outras com sorte terão uma mãe substituta, que pode ser uma babá, uma avó, um pai, um funcionário de um orfanato, com sorte todos serão salvos. Mas há os que não terão sorte, estes serão os condenados, cairão ao primeiro empurrão que a vida lhes der, sofrerão mais que os outros de rejeição, serão perseguidos por abandonos- até porque muitos irão buscar caminhos que os leve novamente ao abandono total que a mãe deixou com herança.
A mãe boa é a que deseja o filho**, desde antes dele nascer, ela o nomeará, o terá não como uma extensão dela, um apêndice. A mãe boa vai olhar o filho e reconhecê-lo, dirá a ele que o ama, deixará que se separe dela sem chantagens, sabendo que continuará sendo amado.
Bebês amamentados pelas mães são mais saudáveis, mais tranqüilos, mais seguros, mais amados, com certeza serão pessoas mais realizadas, que saberão encontrar os melhores caminhos na vida.

Leiam mais nestes textos, que encontrei agora ao acaso, se não forem os melhores, sorry, dei uma olhada apenas:
* Freud
** Lacan
*** Winnicott
ou aqui.
ou aqui

****Melanie Klein

Lembrei deste trecho de um livro:
"Nestes breves instantes em que falo à toa, é como se eu morresse. Porque o ser amado se torna um personagem de chumbo, uma figura de sonho que não fala, e o mutismo, em sonho, é a morte. Ou ainda: a Mãe gratificante me mostra o Espelho, e me fala:
"É você". Mas a Mãe muda não me diz o que eu sou: não tenho mais base, flutuo dolorosamente sem existência".
Roland Barthes em "Fragmentos de um discurso amoroso".

Elianne Diz de Abreu