quarta-feira, maio 07, 2008







Sessão de Cinema e Psicanálise

"O inocente"


Luchino Visconti


Dia 9 de maio, às 20:00 hs, na Aliança Francesa de Natal



Ficha Técnica

Direção: Luchino Visconti

Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi d'Amico, Enrico Medioli

Produção: Giovanni Bertolucci

Música Original: Franco Mannino

Música Não Original: Wolfgang Amadeus Mozart, Christoph von Glück

Fotografia: Pasqualino De Santis

Edição: Ruggero Mastroianni

Design de Produção: Mario Garbuglia

Direção de Arte: Luchino Visconti

Figurino: Piero Tosi

Maquiagem: Aldo Signoretti

País: Itália, França

Gênero: Drama

Prêmios: Prêmios David di Donatello - David de Melhor Música



Elenco:


Ator / Atriz
Personagem

Giancarlo Giannini
Tullio Ermile

Laura Antonelli

Giuliana Ermile

Jennifer O'Neill
Condessa Teresa Raffo

Rina Morelli

Mãe de Tullio

Massimo Girotti
Conde Stefano Egano

Marc Porel

Filippo d'Arborio

Didier Haudepin
Federico Ermile

Marie Dubois

A Princesa

Claude Mann
O Príncipe





Comentário




Na abertura do filme, uma mão gasta pelo tempo folheia as páginas de um grosso volume do romance de Gabrielle D’Annunzio, “L’innocente”, sobre um tecido vermelho. Vermelho é a cor predominante neste drama. Trata-se do último filme de Visconti, finalizado três meses antes da sua morte. É um filme intimista, dramático; a subjetividade dos personagens é privilegiada, é o que dá veracidade e complexidade à trama. É dessa subjetividade que emerge a intensidade dramática do filme. Já tendo rompido com o neo-realismo, Visconti faz uma livre adaptação do livro homônimo do polêmico escritor.




A esgrima, o sarau, o figurino e a ambientação não deixam dúvidas, desde a primeira seqüência, de que se trata de um filme de época. Entretanto ele aborda um tema atemporal e universal, pois trata da estrutura do desejo, do amor e do gozo. Tudo isto é entrelaçado e posto em jogo nos triângulos amorosos.



Roma, final do século XIX. Nas primeiras seqüências, com elegância e o perfeccionismo habitual, Visconti já nos apresenta os elementos dessa trama.




Túlio, um nobre, intelectual, ateu e sem preceitos morais vai com a sua mulher Giuliana, inicialmente passiva, discreta e reservada, ao sarau oferecido pela melhor amiga dela .



Ao som da marcha turca de Mozart aparece Teresa Raffa, amante de Túlio que, por alguns instantes encara Giuliana. Minutos após, no salão ao lado, tudo se harmoniza com o vestido vermelho de Teresa. De um lado, mulheres de preto e homens de smoking; do outro lado, combinando com o vermelho da parede está Teresa, bela, fatal, livre e sem preconceitos, como ela mesma se define. Objeto de desejo de todos os homens, ela também causa o desejo de Túlio, mas quer exclusividade.




Esta seqüência revela também a posição de Giuliana diante dessa paixão forte, obstinada, imperativa. Submissa e resignada, ela aceita calada que Túlio se retire do sarau com a amante.



Diante da exigência de Teresa de ser a única para Túlio, ele encontra uma solução bastante prática: decide partir em férias para Florença com a amante e pede que Giuliana o espere.




Lembra a ela o pacto que fizeram no início do casamento: o amor deveria existir enquanto fosse intenso; depois deveria ser substituído pelo afeto, pela estima, interesses comuns e pela amizade. Caberia a um deles aceitar ou não.



Giuliana sempre havia aceitado sem reagir. Por amor? Pelo medo de mudar de vida? Pela esperança de recuperar a intensidade da paixão do início do casamento? Para evitar escândalos? Por masoquismo? Túlio pede pra que ela o espere. O que ela deve esperar? Talvez que a paixão por Teresa decresça e nada mude no modo pelo qual o casal arranja o seu gozo.




Giuliana o interroga: “Teresa é viúva, é livre. O que o impede de juntar-se a ela se é isso que deseja?” Talvez Túlio dissocie muito bem, ao modo masculino, desejo e amor. Talvez Túlio saiba que o desejo é efêmero, que ele desliza de um objeto para outro, de uma mulher para outra.



Teresa é sedutora, gosta de ser cortejada pelos homens, levá-los ao desespero e assim certificar-se do quanto é desejada. Túlio atormenta-se por que ela está sempre escapando. Diz ele: “Ela é infiel. No momento em que a sente sua, completamente sua, ela lhe escapa. Está com você, mas sente que está perseguindo outros fantasmas, outros desejos.”




Teresa o faz acreditar que deseja para além dele enquanto Giuliana o faz crer que lhe pertence, que é previsível e fiel.



Túlio quer apreender o ser da mulher, colocando-a no lugar da sua fantasia, mas se ela o ocupar, o desejo desaparece. A sua mulher cai no engodo de fazê-lo crer nesta ilusão. A sua vida com Giuliana lhe parece morna, fraternal e a sua resignação, a certeza da sua fidelidade e de que ela vai sempre estar a sua espera reforça isto. Túlio pede a fidelidade, a posse, mas se ele consegue, a mulher deixa de ser causa de desejo para ele. Há algo de mortificado nesse casamento, como se o gozo estivesse ausente.




Um diálogo com Giuliana mostra um pouco do quanto há de gozo nessa relação atormentada com o ciúme, o medo da infidelidade. Diz Túlio:



-“(...)A coisa mais perigosa pra mim é que o estado de desespero em que me encontro me deixa tão infeliz, mas ao mesmo tempo me deixa vivo.(...)


- Fala como se eu nunca tivesse existido.

- Tem razão. Sou injusto. Desculpe, tem que ter paciência comigo. Como um doente.

-Um doente que se regozija da sua própria doença.”



Túlio fica mesmo doente, muda a expressão, fuma muito, não sai de casa. Parece mal de amor, mas a se guiar pelos acontecimentos que se seguem, parece que a função de Tereza estava em saber causar o seu desejo e manter o gozo do qual ele depende: uma espécie de torpor, de encontrar a felicidade no tormento.



“Uma nova razão”, um toque no tambor, um novo passo, a cabeça que se volta: o novo amor (Rimbaud). Giuliana distraiu-se, surgiu um novo amor, um encontro, um acaso. Abandonada, triste, quase desfalecida, humilhada, conhece Fillipo D’Arborio, escritor da moda. Não sabemos muito sobre esse amor, apenas um comentário de Túlio indica que dormiram algumas noites e ela já o amaria por toda vida. “É extraordinário o dom que as mulheres têm de adaptar a realidade aos ideais românticos da pior literatura”, diz Túlio.




“Uma nova razão” também surge para Túlio ao começar a perceber mudanças na sua mulher: um novo perfume, um capricho ao se arrumar, uma mentira, um novo véu recobre o seu rosto.



A partir de então, Teresa é imediatamente e literalmente esquecida enquanto passamos a nos deparar com uma face do amor louco, desmedido. Numa luta para capturar o pensamento de Giuliana, que está alhures, e apreender o seu ser, que, este, ninguém apreende, a não ser na morte, Túlio procura descobrir o segredo de Giuliana, atormentando-a.




Em momentos de grande esmero visual, ele e Giuliana passeiam no campo. Giuliana aparece e se esconde por entre as árvores.



Para Lacan é nessa abordagem do ser pelo amor que reside o extremo do amor e que desemboca no ódio (Seminário XX - Mais, Ainda).




O amor nessa vertente ilimitada é o que Túlio chama de experiência inebriante, mórbida, onde amor e gozo se conjugam.



A mudança de Giuliana leva Túlio ao êxtase, pois ele depende de um terceiro para garantir esse gozo, ou melhor, colocar-se ele mesmo como um terceiro, imaginando o que o outro tem para causar o desejo de Giuliana.




Lacan introduz um neologismo para falar do gozo do ciúme, advindo do ódio-ciumento. O termo é jalouissance, uma mistura de jalouse (ciúme) e jouissance (gozo). O exemplo paradigmático disso é o de Santo Agostinho que olha o irmão mamando no colo da mãe. O terceiro é ele mesmo e a criança olhada ele supõe que tem o que Lacan chama o ‘a’, algo que funciona como causa de desejo (Seminário XX - Mais, Ainda).



Túlio é o terceiro na relação entre Giuliana e Fillipo D’Arborio. Ele não pode olhar, mas imaginariza o que ela pensa, em que ela pensa. Para ele, Fillipo o tem, o ‘a’.




O filme revela um final surpreendente, diferente do romance de Gabrielle D’Annunzio. O único final cabível neste filme requintado, de grande cuidado visual e ao mesmo tempo, cruel e implacável. Há beleza também no último minuto do filme: o drama se desfaz enquanto a imagem de Teresa se afasta na neblina.





Natal, 4 de maio de 2008




Tereza Sampaio





Um comentário:

Lia Noronha & Silvio Spersivo disse...

Sempre nos passando dicas valiosas!!!Bjus mil!!!