quinta-feira, abril 22, 2010

Contardo Calligaris: "As Melhores Coisas do Mundo"



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Os adultos ainda não desistiram de viver, e os adolescentes já estão vivendo, para valer
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Domingo, num conversa sobre filhos e netos, um amigo, pai de dois meninos que já têm mais de 20 anos, declarou que, graças a Deus, estava saindo da tormenta. Todos entendemos o que ele quis dizer: a relação entre pais e filhos adolescentes pode ser uma tormenta -e, às vezes, um tormento.
Essa tempestade se alimenta numa espécie de mal-entendido fundamental: 1) os adolescentes menosprezam a experiência dos adultos, 2) os adultos menosprezam a experiência dos adolescentes. Explico. 1) Para os adolescentes, em regra, os adultos (a começar pelos pais) são seres resignados (e talvez um pouco covardes), que desistiram de seus sonhos. A existência dos adultos sendo uma longa renúncia, entende-se que os entusiasmos e os sentimentos dos mesmos sejam quase sempre fingidos, inautênticos: uma encenação para um "ersatz" de vida.
Será que os adolescentes inventaram essa visão cruel e, de fato, sumária da experiência dos adultos? Nada disso: os adolescentes apenas acreditam em nossas próprias palavras. Como assim? Simples: estamos sempre prontos a salientar que a "época maravilhosa" que eles estão vivendo logo chegará ao fim e aí eles deverão se render à "triste realidade" (que seria a nossa), ou seja, eles conhecerão a desistência e o fracasso que seriam próprios da idade adulta.
Resultado: os adolescentes se surpreendem ou mesmo se revoltam quando um adulto, de repente, manifesta seu desejo. Um adolescente pode achar a mãe e o pai indignamente acomodados e chatos que nem zumbis vivendo numa sinistra rotina de deveres; o mesmo adolescente tacha de inconsequente e traidor do lar a mãe ou o pai que decide se separar para correr atrás de um amor. 2) Para os adultos, em regra, o adolescente é um ser provisório, inacabado: ele é apenas a promessa de um futuro no qual, enfim, ele viverá "de verdade".
Sobretudo na classe média, essa convicção é confirmada pelo fato de que os adultos bancam a longa adolescência dos filhos, e isso demonstraria que os adolescentes, sem independência, vivem uma época de formação, durante a qual a experiência é apenas um ensaio.
Um adolescente sofre por amor? Nosso olhar condescendente não é muito diferente do que seria se uma criança de oito anos nos dissesse estar apaixonada. Não é nada sério, é coisa de adolescente. O que um adolescente deve fazer para ser levado a sério? Nos últimos anos, em escolas dos Estados Unidos e da Europa, uma triste série de jovens saíram atirando, matando e se matando: "Será que, se eu assassinar dez colegas e três professores, alguém vai me levar a sério?", "e se eu me suicidar?". Quase todos esses jovens anunciaram seu desespero e seus planos, não em diários secretos, mas em blogs e sites que qualquer um podia acessar. Pois é, ninguém levou à sério.
Talvez a gente desvalorize a experiência dos adolescentes para compensar a inveja que nos inspiram suas vidas jovens e ainda para trilhar. Seja como for, os adolescentes retribuem nosso pouco caso considerando que somos apagados e previsíveis como o mobiliário da casa de família. Contra essa cegueira, pela qual ninguém enxerga a experiência do outro, um remédio: que você seja adulto ou adolescente, assista a "As Melhores Coisas do Mundo", o filme de Laís Bodanzky que estreou na sexta-feira passada. E, se for possível vencer a eventual resistência de todos, adultos e jovens, contra qualquer programa de família, melhor ainda: assista ao longa em bando. Garanto que o filme vai dar umas conversas boas e bem-vindas entre pais e filhos.
Os jovens gostarão de constatar que seu cotidiano vale a pena ser contado: o filme é um retrato milagrosamente exato da experiência adolescente (aliás, como a adolescência, ele consegue ser bem-humorado, divertido e, ainda, absolutamente sério).
Alguns comentaristas disseram que o tema do filme é o "bullying" na época da internet. Pode ser, embora eu prefira pensar que, simplesmente, não é fácil ir para a escola, a cada dia. E não é preciso que aconteça algo de extraordinário ou extremo para que a escola seja uma selva: para isso, basta a tarefa básica (e obrigatória para todos os adolescentes) de construir, inventar e preservar uma identidade sob o olhar impiedoso dos outros.
Mas, aquém ou além disso tudo, para mim, "As Melhores Coisas do Mundo" é um filme para os adolescentes descobrirem que os adultos ainda não desistiram de viver, e os adultos descobrirem que os adolescentes já estão vivendo, para valer.

Daqui da Folha.
Trailer aqui

5 comentários:

Sueli Prudente disse...

Olá. Meu nome é Sueli Prudente, e quando o assunto é criança e adolescente, não posso deixar de me manifestar. Eu trabalho com eles, e
tenho um filho adolescente.
É verdade Contardo. O pior na vida do adolescente é não ser levado a sério. Há um espirito vivendo no corpo do adolescente, não são penas
células em crescimento.
Observo que geração de pais dos atuais adolescentes, é mais perdida do que o próprio adolescente. Digo isso porque ouço muita reclamação dos pais em relação aos filhos mas,esses filhos estão sempre sosinhos, enfiados em milhares de cursos, ou viagens, ou qualquer coisa os ocupe para que os pais possam tirar das costas a responsabilidade
de os orientar.
Tenho uma vida feliz e meu filho é meu melhor amigo. Jamais passamos um dia sem conversar e trocar ideias, discutir política, arte,ética, religião, comportamento,
em fim, somos parceiros, e a cada dia vejo que ele se torna uma pessoa mais inteira. Essa convivência é uma linda experiência
em minha vida.
Criança,jovem,velho.Isso não pode definir um ser humano, mas sim seus sentimentos, suas ideias.
Um apelo:
Pais, cuidem dos seus filhos.
Casais separados, não se separem dos filhos.
Adulto, seja responsavel pela criança que está perto de você.
O mundo planeta Terra é bem bonito e o único elemento nela em desequilibrio é o ser humano.
Pelo amor de Deus!! Trabalhemos em relação a isso.
Bom fim de semana a todos.

Anônimo disse...

Olá, tenho 16 anos e acabei de ler no seu blog tudo o que realmente penso. O que mais me pertuba nessa faze da adolescência é o complexo fato de que os pais não nos ouvem, não nos levam a sério. Eu ando muito triste as vezes tenho pensamentos suicidas, tento avisa-los de todas as formas indiretamente mais eles apenas riem e dizem: ''bobagem'', para eles, não para mim. Espero que os adultos ouçam mais anto os adolescentes quanto as crianças, pois vocês se acham tão sábios que acabam caindo na ignorância.

Anônimo disse...

Olá, tenho 16 anos e esse blog falou tudo o que eu deveria dizer aos meus pais! Estou a tempos angustiada por motivos circunstanciais e as vezes tenho até pensamentos suicidas, já tentei avisa-los indiretamente de variadas maneiras e meus pais apenas dizem ''que bobagem pare com isso!''. A falta de atenção para com a gente machuca muito. Vocês, adultos se acham tão sábios que ao menosprezar um adolescente acabam caindo na ignorância. Não passamos 24h por dia falando apenas bobagem, ouça-nos quando realmente precisamos que somente nos ouçam.

Diz disse...

Adolescente anônimo, lamento apenas hj ter ido seu comentário. Gosto de ouvir vcs, sei o qt é difícil viver esta fase. Fique à vontade aqui p se expressar- hj acionei o item p receber os comentários- não estava recebendo. Um abraço, Elianne

Diz disse...

Sueli, obrigada pelo interesse, fique à vontade aqui. Mas saiba que o Contardo não lê esta página, se quiser escrever p ele tem q ser p seu e-mail: ccalligari@uol.com.br
Um abraço, Elianne