quinta-feira, abril 10, 2008

Sessão de Cinema e Psicanálise






Sessão de Cinema e Psicanálise


Quando: Dia 11 de abril, sexta-feira, às 20:00 hs
Local: Aliança Francesa de Natal
Onde fica: Rua Potengi, 459, Petrópolis -
Praça Pedro Velho- Praça Cívica





Carta de uma desconhecida
de Max Ophüls



Ficha Técnica



Filme: Carta de uma Desconhecida


Diretor: Max Ophuls


Baseado no livro de Stefan Zweig


Atores: Joan Fontaine, Luis Jourdan








Comentário de Teresa Sampaio






“Um olhar é algo difícil de definir; ele pode sustentar uma existência ou devastá-la”

(J.Lacan)



Max Ophuls, considerado um dos grandes estetas da história do cinema, faz uma adaptação delicada do livro de Stefan Zweig. A desconhecida era, no romance de Zweig, ‘uma amante invisível, tão imaterial e tão passional como uma música longínqua’. Talvez, inspirado nisto, Max Ophuls transforma o personagem do livro que era um escritor, em pianista e inunda o filme de música.





Ele utiliza-se da carta que o pianista Stefan (Louis Jourdan) recebe de Liza Bernle (Joan Fontaine) como elemento narrativo para fazer evoluir o filme em flashback, descrevendo docemente a imensa solidão e o abismo entre o casal.





Liza tem treze anos quando Stefan Brand muda-se para o apartamento em frente ao seu. A chegada de Brand representa um verdadeiro divisor de águas na sua vida, antes mesmo de conhecê-lo.





Antes a sua vida era vaga, perturbada e confusa, coberta por poeiras e trevas. Havia uma pobreza reinante, vizinhos mal-educados, impertinentes. A mãe era a pobre viúva de um funcionário de finanças, sempre de luto. Ela, uma criança magra e apenas formada. ‘Vivíamos como perdidas na nossa mediocridade de pessoas pequenas’. Na porta do seu apartamento não havia nenhuma placa com o nome Bernle, coisa incomum na época. Liza viveu uma infância sombria, anônima, sem vida.



A sua vida começa com a chegada do novo vizinho com o seu piano, com os objetos que a extasiaram, como ídolos hindus, esculturas italianas, belos e numerosos livros em vários idiomas, tapetes persas e quadros esplêndidos.





Um simples olhar no interior do apartamento apagou os treze anos vividos até então. A casa fora inundada pela sua música. A música e o novo universo que se apresenta a ela, mesmo só fazendo parte dele na fantasia, é o marco que a faz esquecer o passado.





Diz Liza que apenas pôde lançar um fugitivo e furtivo olhar na vida dele, mas esse olhar foi suficiente para que ela pudesse sonhar infinitamente, nos devaneios e nos sonhos. Nesse primeiro momento ela o envolveu numa aura de estranheza, riqueza e mistério. ‘Este rápido minuto foi o mais feliz da minha infância’, diz ela. ‘Eu quis já te contar pra que tu comeces a compreender como uma vida pode se ligar à outra até o aniquilamento. ’





Uma idéia a deixa obcecada: como seria este homem que tinha lido livros tão belos, que conhecia todas essas línguas e era tão rico e sábio?





Fascinação e deslumbramento foram os sentimentos que a invadiram desde o início, mas ela ainda o confundia com a imagem de um Deus ou de um pai.





Completamente tomada pela música que vinha do seu apartamento, costumava imaginar que ele tocava para ela.





Apenas num terceiro momento, quando ela o vê, é que se dá conta de que ele não era um Deus ou um pai, mas sim um homem, ou melhor dizendo, um Homem. Liza estremece de surpresa ao perceber o quanto ele era jovem, leve, esbelto e elegante. ‘Foi depois desse segundo que eu te amei (...) como uma escrava, como um cão. Nada sobre a terra parece com o amor de uma criança retirada da sombra. Eu me precipitei no meu destino como num abismo. ’





Durante muito tempo esse amor levado ao extremo, um amor onde se mesclam fascinação e devastação, sustentou a vida de Liza. Por ele ou para ser algo além de uma cave empoeirada, sem nome na porta do apartamento, ela mergulha tanto no mundo de Stefan que acaba fazendo parte dele. Liza lê tudo o que rastreia do seu gosto literário, lê a vida de vários músicos, acompanha todos os passos da sua carreira.





Dos dezesseis aos dezoito anos é obrigada a morar em Linz com a mãe e o padrasto. Lá ela é cortejada por um tenente importante, mas ela não podia ser desejada por outros homens, já que pertencia a Stefan. Ela diz que não queria se distrair da sua paixão.



Liza, Linz, Liszt. Esses nomes não constam no livro de Stefan Zweig. Talvez Max Ophuls quisesse manter uma homofonia para acentuar que estamos num mundo extremamente musical.





Desse modo ela retorna à Viena. A sua paixão se torna mais ardente, mais concreta, mais feminina. Liza agora é uma mulher; ela está bela, tem belos momentos com Stefan, mas a despeito disto, continua uma desconhecida para ele. A cada encontro uma distância se fazia e ele não a reconhecia. ‘Tu não me reconheceste, nem então, nem jamais. Jamais tu me reconheceste. Fatal dor da minha vida... restar desconhecida’.





Mas ela não faz nenhum esforço para que ele se lembre nem por um momento. Queria ser a única... a única mulher que jamais lhe pediu algo, um amor que não deixa nenhuma carga, a mulher que não deixa traços.





O que aconteceria se Liza se fizesse reconhecer? Talvez ela não se sentisse tão única, ela seria uma mulher como as outras; talvez ela tivesse que abrir mão dessa espécie de êxtase que a devastava, mas também a fascinava. Liza só conhece esses dois extremos: de um lado, a sua infância, anônima, sombria, sem vida; do outro lado está o deslumbramento com o mundo da música e a paixão por um belo homem.





O casamento com um homem rico e também bonito, que poderia lhe estabilizar, vacila diante da vontade de reviver aquela mesma sensação que, como ela mesma define, ‘é mais forte que ela mesma’.





Afinal, o caráter de exclusividade que ela lhe atribui exige uma certa fatalidade como desfecho:

‘eu não creio em Deus, eu só creio em ti e não desejo sobreviver que em ti.’,

diz Liza no livro de Zweig.





Natal, 08 de abril de 2008.



Tereza Sampaio

















2 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia Teresa,
Gostei imensamente do seu texto. Vocçê leu o Deslumbramento de Lol V. Stein? Tentarei assistir a esse filme.
Um abraço,
Tania

Diz disse...

Tania, o texto é de Teresa, mas o blog é meu- Elianne. Eu vou repassar seu comentário p ela, mas ela não usa mto internet,não sei se lerá. Seja bem-vinda.
Elianne