sábado, maio 04, 2013

A idade de cada um- Christian Ingo Lenz Dunker*



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Estado de São Paulo

Muitos países adotam um regime penal baseado no conceito de jovem adulto: em cada caso se decide a maioridade ou minoridade penal


04 de maio de 2013 | 16h 45


Primitivamente, o tema da minoridade não é educativo, psicológico ou jurídico, mas filosófico. No século 18, Kant veio a definir a maioridade como uso livre da razão no espaço público introduzindo o conceito de autonomia, em oposição à minoridade da infância, na qual somos tutelados pela família e pelo Estado. Desde então, autonomia associa-se a um percurso de individuação, envolvendo competências morais, discursivas e cognitivas convergentes com o processo de incorporação da lei. Geralmente entendemos que esse processo se conclui quando o sujeito é capaz de seguir a lei porque ela adquiriu um sentido impessoal e necessário, não porque estamos coagidos pelo medo ou pelo desejo, orientados por inclinações ou interesses, movidos por exemplos e normas, mas porque livremente escolhemos nos submeter a lei. Daí que autonomia carregue consigo o sentido da autoridade, como se fôssemos todos autores da lei. Essa é a teoria moral do dever, que encontrou seu correlato psicológico em Piaget e Kohlberg e seu equivalente sociológico em Habermas e Rawls. Ser autônomo é ser capaz de se reconhecer nas leis que nos governam e se fazer reconhecer perante elas, inclusive de modo a aplicar, questionar ou transgredi-las. A psicanálise acrescentou um importante adendo a essa concepção ao notar que nossa relação com a lei é homóloga à relação que temos com o desejo.
Postular a redução da maioridade penal deveria basear-se em uma concepção de responsabilidade e autonomia. Essa depende de como, para um determinado sujeito, combinam-se suas condições para agir, saber e posicionar-se diante do prazer. Contudo, o litoral entre saber e gozo é um mar revolto durante a adolescência. Em uma semana o sujeito dá mostras do mais elevado pensamento lógico formal e reflexivo, para na situação seguinte agir por princípios de flagrante heteronomia irreflexiva ou mera impulsividade. A capacidade de contrapor casos e regras, definir exceções e generalizações, criar e negociar a lei pela qual os laços com o outro se organizam, dão forma ao saber que chamamos de responsabilidade. A terrível travessia adolescente é ainda mais perigosa porque, além de princípios, o sujeito é convocado a dar provas de maioridade, ou seja, a produzir atos.
Atos de reconhecimento e bravura, testes de desafio e incerteza, obediência e fé em um líder humano, inumano ou extra-humano ao qual supomos autoridade fazem parte da lógica do acesso à maioridade. O domínio do corpo, das emoções e dos prazeres, de seus usos e abusos, compõe o terceiro ângulo de verificação da responsabilidade. A antiga noção de caráter nada mais era do que essa amálgama entre experiências corporais, geralmente decorrentes do mundo do trabalho, experiências de saber, criadas pelos dispositivos de educação moral e as experiências de teste, prova ou qualificação, chamadas pelos antropólogos de rituais de passagem.
A forma como a lei de seu desejo se articula narrativa e discursivamente com o Outro social deveria definir o regime de retribuição, reparação ou de equilíbrio a que ele deve se submeter. É por isso que muitos países adotam um regime penal baseado no conceito de jovem adulto, no qual em cada caso decide-se a maioridade ou minoridade penal do infrator. No Brasil, curiosamente, essa ideia não pegou. Talvez porque isso incremente imaginariamente a excepcionalidade do infrator que instrumentaliza sua condição de menor para praticar crimes.
Nos países que adotam uma estratégia mais gradualista para a decisão de imputabilidade, essa depende de uma junta formada por instâncias jurídicas, educativas, médicas e psicológicas. Distribuem-se assim as determinações pelas quais a posição de autoridade se exerce na formação do caso social, antes da partição entre caso jurídico ou caso educacional. O que o sujeito diz sobre o que ele fez, o modo como ele se coloca diante de seu ato, define a diferença de seu destino penal ou educativo e indica o tipo de tratamento médico ou psicológico que ele receberá.
Responder pelos atos é uma função de linguagem, que presume a existência de perguntas. Responder não é só pagar, mas também assumir e impor consequências. Pensar que a redução da maioridade penal exercerá um efeito de medo suficiente para criar a autoridade que falta para impedir crimes é apenas mais um exemplo da menoridade de nosso pensamento penal.
* CHRISTIAN INGO LENZ DUNKER É PSICANALISTA, PROFESSOR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA USP E AUTOR DE ESTRUTURA E CONSTITUIÇÃO DA CLÍNICA PSICANALÍTICA (ANNABLUME)


quarta-feira, maio 01, 2013

O real e a verdade do sofrimento- Revista Cult

Jacques Lacan




Muito bom artigo de Christian Ingo Lenz Dunker.

..."Na direção inversa, um autor como Slavoj Zizek tem insistido no caso daqueles que experimentam uma forma de vida que é sentida como monstruosa, animal e coisificada, tal qual a antropologia do inumano proposta por Vladimir Safatle. Ao contrário dos que não conseguem inscrever seu sofrimento em um discurso, temos aqui aqueles que parecem viver em estado permanente de fracasso sistemático em dar nome à causa de seu sofrimento. Procuram encontrar a razão de seu mal-estar no mundo, explorando para isso a força de estranhamento, inadequação e fragmentação. Sentem-se permanentemente fora de lugar, fora de tempo ou fora do corpo, como as sexualidades estudadas por Judith Butler. É o drama daqueles que são habitados por experiências de radical anomia e indeterminação, cujo maior exemplo literário é Frankenstein. Esta desregulação sistêmica do mundo, teorizada por Lacan como separação entre real, simbólico e imaginário, exprime-se como sentimento permanente de perda de unidade. É por isso que seu sofrimento tematizado como exílio e isolamento, assemelhando-se com a reconstituição da experiência tal como encontramos clinicamente no trabalho de luto, são, antes de tudo, errantes da linguagem, depressivos do desejo e inadaptados do trabalho. O espectro do ressentimento e do tédio rondam sua forma de vida...."

Mais na Revista Cult. 

domingo, abril 14, 2013

Aventuras da percepção




Na foto Jean Cocteau

"Enquanto os brasileiros acompanham atualmente sucessivas ameaças de retrocessos nas questões dos Direitos Civis, com propostas anacrônicas de legislações para internação compulsória e endurecimento da repressão ao uso de psicoativos, em muitos países a discussão avança não só na descriminalização, mas também da abrangência em questões de saúde, educação e – por que não? – arte e cultura. A produção de artistas sob a influência das drogas é o que propõe uma corajosa e oportuna exposição aberta até 19 de maio na Maison Rouge, um dos nobres endereços em Paris de referência em artes plásticas e design.

“Sous Influences – Arts plastiques et produits psychotropes” (Sob influência – artes plásticas e psicotrópicos) apresenta um acervo de 250 obras-primas de 90 artistas de vários estilos, épocas e países, incluindo o brasileiro Hélio Oiticica."...

Leiam e vejam mais aqui

quinta-feira, abril 11, 2013

Carta ao filho- Betty Milan





Clique na imagem de desejar ver melhor.



"Carta ao Filho me liberou e deve liberar outras mães. Deve liberar os filhos.

Descobri que o ato de cuidar pode ser sinônimo de se separar.

Gostaria de te encontrar no lançamento para celebrar a liberdade - de ação e de palavra."
Betty Milan

quinta-feira, abril 04, 2013

Contardo Calligaris- As vidas que deixamos de viver




As vidas que deixamos de viver
As crianças nunca são medíocres ou preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial"


Quase sempre, quando encontramos alguém que nos encanta, começamos por lhe contar nossa vida e expor nossos projetos -pois é possível que, para um casal, compartilhar planos seja mais importante do que cada um conhecer e entender o passado do outro.
Em suma, a gente se apresenta ao outro como numa entrevista de emprego, dizendo o que fizemos e o que esperamos. Afinal, somos uma mistura da vida vivida com o futuro sonhado, não é?
Acabo de ler o último livro de Adam Phillips, psicanalista inglês que é um dos autores que mais me estimulam a pensar: "Missing out: In Praise of the Unlived Life", (Farrar, Straus and Giroux) (perder: elogio da vida não vivida -"missing out" é perder no sentido em que você chega atrasado na festa e pergunta: perdi alguma coisa?).
Justamente, à história passada e aos sonhos Phillips acrescenta mais um ingrediente que nos define: o conjunto das vidas que deixamos de viver -porque não foi possível, porque alguém nos impediu, porque ficamos com medo, porque escolhemos outro caminho, porque a sorte não quis.
Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
Também, mais dolorosamente, as vidas não vividas são caminhos pelos quais não ousamos nos enveredar (na inscrição para o vestibular, na decisão de voltar de um lugar onde teríamos começado outra vida, nos conformismos de cada dia).
Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.
Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.
Aqui, um conselho: é útil frequentar as vidas não vividas de nossos parceiros (para evitar surpresas desnecessárias, como a chegada de personagens que não fazem parte nem do passado nem dos sonhos do outro, mas das vidas às quais ele achava ter renunciado).
Agora, as vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas crianças.
Uma das razões pelas quais as vidas não vividas condenarão as crianças de hoje à sensação de desperdício é a popularidade do mito do potencial. Alguém não está se tornando tudo o que esperávamos? Que pena, com o potencial que ele tinha...
De onde vem a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?
O potencial das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem esforço algum da parte da criança.
Nossos rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência, estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos, as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial". Há uma cumplicidade de todos ao redor dessa ideia.
Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do "potencial").
Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.
Quanto aos filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora, inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu "potencial").

terça-feira, abril 02, 2013

A Significação do Erotismo - Bataille- Revista Bravo!



Facile (Easy), imagem criada por Man Ray em 1935. Contemporâneo de Bataille, o fotógrafo norte-americano também dialogou com o surrealismo





Edição 187 - Março 2013

Horrível e Sagrado


Em A Significação do Erotismo - texto inédito no Brasil, que BRAVO! publica com exclusividade -, o escritor francês Georges Bataille reflete sobre a dimensão trágica e a faceta divina da sexualidade


Admirado por pensadores como Roland Barthes e Michel Foucault, o escritor francês Georges Bataille (1897-1962) notabilizou-se por uma obra libertária, influenciada pela psicanálise, pela antropologia e pelo surrealismo. Em O Erotismo, ele propõe uma definição para o termo que o associa à transgressão de regras e à religião, transformando o ensaio num clássico. Em 1957, ano da publicação do livro, Bataille escreveu uma carta a Roger Caillois, sociólogo e crítico literário, submetendo-lhe o projeto de uma revista sobre o mesmo tema, Genèse, que não saiu do papel. Na missiva, o escritor incorporou um texto que sintetiza o ensaio. Inédito por aqui e apresentado a seguir,

A Significação do Erotismointegra a nova edição brasileira do livro, que será lançada em abril pela Autêntica. “O tempo presente viu ocorrerem importantes mudanças nas condições da vida sexual. Convém dar a essas mudanças o nome de revolução sexual. Elas acontecem por etapas, há várias gerações. Ligadas ao conjunto de nossas transformações sociais, foram, em particular, a consequência do abalo que se seguiu à Primeira Guerra Mundial.

Nossa revolução sexual tem múltiplas significações. Houve inicialmente o movimento de oposição às regras estreitas que paralisavam as relações dos sexos entre si. Ao mesmo tempo, a revisão de uma moral fundada sobre a noção de pecado sexual e de vergonha. O homem moderno teve que responder, por outro lado, à necessidade de esclarecer aquilo que permanecia nele de sombrio e fugidio. A humanidade devia enfim conhecer a si mesma inteiramente, devia dominar seus poderes e reencontrar sua unidade. Essas mudanças foram ajudadas e aceleradas pelas descobertas da psicologia moderna e da psicanálise; o progresso dos conhecimentos em matéria de sexualidade as assegurou e aumentou seu alcance. Não apenas nossos costumes, como também a consciência aprofundada que temos de nós mesmos, nos opõem de maneira contundente à humanidade anterior a essa revolução sexual. Não é que a humanidade volte à ingenuidade dos povos selvagens, mas, saindo de um mundo onde seus impulsos mais fortes eram cegamente reprimidos, abre-se diante dela a possibilidade de uma lucidez sem igual. Ela se beneficia de uma liberdade real, mas tem a memória de um passado recente: situa essa liberdade em relação a uma servidão cuja experiência ainda traz inscrita em si. As descobertas de Freud, começadas no fim do século passado, tiveram uma importância decisiva. Elas modificaram estranhamente a imagem que o homem fazia de si mesmo.

A psicanálise substitui o idealismo tradicional por uma representação mais modesta. Segundo ela, o impulso sexual começa com a vida. E as desordens que, desde a tenra infância, esse impulso nos impõe têm consequências na idade adulta. Do berço ao leito de morte, a sexualidade está na base de uma agitação que a ingenuidade do pensamento comum, imbuído de idealismo, desconhece. A sexualidade não é, como foi apressadamente deduzido, o fundamento da vida humana: foi sem dúvida o trabalho que, desde a origem, diferenciou o homem do animal. Mas as mentiras do idealismo foram possíveis na medida em que uma humanidade cega negou os impulsos sexuais que, todavia, não haviam cessado de agitá-la profundamente.

Os trabalhos de Freud permitiram saber que os impulsos sexuais se traduzem também em nossas aspirações elevadas: eles se exprimem, em particular, na religião e, finalmente, na arte e na literatura. Estamos assim, graças à psicanálise, nos antípodas da antiga maneira de ver, para a qual a sexualidade era a tara congênita de uma criatura que aspira à perfeição. Se os resultados da psicanálise estão na base do conhecimento moderno da sexualidade, existe a possibilidade hoje de, sem negligenciá-los, ir ainda mais longe. Podemos reencontrar a significação do erotismo no plano em que se colocava outrora a religião.

Talvez cheguemos assim a uma das descobertas mais importantes de nosso tempo. Pelo menos é indo nessa direção que podemos ter acesso às últimas consequências de nossa revolução sexual. Eis o que hoje podemos postular: EM SUA VERDADE FUNDAMENTAL, O EROTISMO É SAGRADO, O EROTISMO É DIVINO. Reciprocamente, o sagrado, o divino, se podem se afastar do erotismo, têm em sua base a violência e a intensidade deste, participam, em seu fundamento, do mesmo impulso.

A humanidade profunda só se revela a nós se reconhecemos a unidade do sentimento divino – do estremecimento sagrado – e do erotismo liberado da imagem grosseira imposta pela pudicícia tradicional. (...) Isso não deve nos impedir de ver, em contrapartida, os aspectos alarmantes do erotismo; geralmente, o divino, o sagrado também são acompanhados de horror. Em todo caso, emana do erotismo algo de trágico, que não podemos negar e que devemos considerar antes de tudo em nossa meditação profunda. O marquês de Sade exprimiu esse lado da realidade sexual. Quaisquer que sejam os aspectos insustentáveis de sua obra, ele compreendeu que o erotismo – e o horror implicado no fundo do desejo erótico – colocava em questão o homem inteiro.

Devemos reconhecer desde o princípio que, falando do erotismo, levantamos a questão mais pesada. Quero lembrar aqui esta frase de Maurice Blanchot [escritor francês] a respeito do pensamento de Sade: Não estamos dizendo que esse pensamento seja viável. Mas ele nos mostra que entre o homem normal, que encerra o homem sádico num impasse, e o sádico, que faz desse impasse uma saída, é este que conhece melhor a lógica de sua situação e que tem dela o entendimento mais profundo, a ponto de poder ajudar o homem normal a se compreender a si mesmo, ajudando-o a modificar as condições de toda compreensão. A meu ver, essa frase exprime a dificuldade essencial que devemos perceber quando abordamos o domínio sagrado do erotismo. O erotismo abre um abismo. Querer iluminar suas profundezas exige ao mesmo tempo uma grande resolução e uma calma lucidez, a consciência de tudo aquilo que uma intenção tão contrária ao sono geral coloca em jogo: é certamente o mais horrível, e é também o mais sagrado.”


O livro: O Erotismo, de Georges Bataille. Tradução de Fernando Scheibe. Editora Autêntica. Preço a definir. Lançamento previsto para abril. Tags: A Significação do Erotismo, a significacao do erotismo, Georges Bataille, georges bataille,

terça-feira, março 26, 2013

Novas configurações familiares






"ANALYSE - Alors que le projet de loi sur « le mariage pour tous » a été adopté en première lecture à l’Assemblée nationale, quels sont les enjeux que le débat a révélés sur les différentes formes de famille ? Du mariage à la PMA : analyse desdossiers qui vont continuer, dans les mois prochains, à susciter la discussion."

Bom ler sobre as famílias atuais. Elizabeth Roudinesco traz um histórico.
Aqui
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sábado, fevereiro 23, 2013

Lacan- Ser psicanalista...



Assinatura Lacan



"Ser psicanalista é simplesmente abrir os olhos para essa evidência de que não há nada mais desbaratado que a realidade humana. Se vocês creem ter um eu bem adaptado, razoável, que sabe navegar, reconhecer o que tem de ser feito e o que não tem de ser feito, levar em conta as realidades, não resta senão mandá-los para longe daqui. A psicanálise, nisso se juntando à experiência comum, mostra-lhes que não há nada mais estúpido que um destino humano, ou seja, que sempre se é passado pra trás. Mesmo quando se faz alguma coisa que dá certo, não é justamente o que se queria.Não há nada mais desiludido que um senhor que chega supostamente ao cúmulo de seus votos. Basta falar três minutos com ele, francamente, como talvez só o artifício do divã psicanalítico o permite, para saber que, no fim de contas, esse lance é justamente o lance de que ele zomba, e que ele está, além disso, particularmente enfastiado com todas as espécies de coisas. A análise é perceber isso, e levá-lo em conta.Não é por acaso (...) que por uma sina estranha atravessemos a vida sem encontrar ninguém que não infelizes. Dizemos para nós mesmos que as pessoas felizes devem estar em alguma parte. Pois bem, se vocês não tiram isso da cabeça é que não compreenderam nada da psicanálise”.

(Jacques Lacan)




Jacques Lacan (O Seminário: Livro 3, p. 99)

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Emancipação feminina



A tragédia da emancipação feminina
 
Presa diversas vezes nos EUA, Emma Goldman exilou-se na Rússia em 1917 e, 20 anos depois, combateu o fascismo na Espanha. Anarquista, foi também uma ardente feminista que, apesar de algumas concepções datadas, várias vezes antecipou suas herdeiras da luta pela igualdade de gênero


por Emma Goldman( artigo escrito em 1906)


 


























"Vou começar com uma afirmação: deixando de lado todas as teorias políticas e econômicas, as distinções de classe e de raça, as fronteiras artificialmente traçadas entre os direitos das mulheres e os dos homens, afirmo que há um ponto no qual essas diferenças podem se encontrar e se fundir em um todo perfeito.
A paz ou a harmonia entre os sexos e os indivíduos não dependem necessariamente de um nivelamento superficial dos seres humanos nem requerem a eliminação das..."

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O grito de John Lennon



Arthur Janov





"Nunca vi tanta dor em toda minha vida", conta Janov sobre Lennon, abandonado pelos pais e criado por uma tia. "Ele me mandou o disco assim que ficou pronto e eu toquei para um grupo de pacientes. Todos foram à loucura, começaram a gritar, porque o álbum falou para suas almas. Foi incrível."

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quinta-feira, janeiro 24, 2013

"Puta", el nombre del Superyó por Leda Guimarães e José Vidal


La afirmación de Freud de que probablemente las mujeres carezcan de Superyó[1], curiosamente, no produce ningún escándalo en el mundo del psicoanálisis. A lo sumo una indulgente sonrisa en las mujeres o una secreta satisfacción entre los hombres, gesto performativo con el que se consiente, sin saberlo, a un orden, a un régimen.
Sin embargo, nuestra experiencia clínica con mujeres nos permite afirmar algo casi totalmente opuesto, que ellas se ven afectadas por el Superyó de una manera tanto o más significativa que los hombres pero con una particularidad: el Superyó en la mujer toma la forma de una injuria, Puta.
Puta es el nombre, impronunciable por formar parte de las palabras prohibidas, de cómo una voz se presenta a una mujer toda vez que ella se aproxima a la vida sexual y muy especialmente cuando es alcanzada por el goce que le es propio, definido por Lacan como el goce de  mujer., un goce Otro que el fálico.
Esto que presentamos aquí como un hallazgo tal vez resulte cómico por ser obvio para la mayoría de las personas, y especialmente para las mujeres, aunque no dicho.
Junto a la liberalización de las costumbres, a la permisividad sexual en las sociedades occidentales encontramos que la potencia de la injuria no ha disminuido y que, por el contrario, se articula al imperativo de goce contemporáneo.
En nuestra época, como lo ha establecido Jacques-Alain Miller, se verifica una suerte de inexistencia del Otro[2], una caída de los semblantes del padre y de los semblantes masculinos que nos permite hablar de la feminización del mundo. Pero esto no se acompaña de una liberación de la mujer respecto a la voz superyoica y, por el contrario, la caída de los ideales, de los semblantes con los que se revestía antes la figura del padre, va dejando cada vez más al desnudo la ferocidad de su cara superyoica y su empuje a un goce sin regulación, mortífero, asociado a una culpa igualmente desmesurada.
La caída de la vertiente idealizante pone en primer plano el objeto a bajo la forma de La voz. Y esa voz, como lo ha señalado Lacan, no dice nada, es pura injuria, es puro mandato de goce que hace caer la culpa sobre el sujeto a la vez que lo empuja a obedecer.
Esa voz dice “Puta.”
No hay que pensar que sólo lo dice a las mujeres, aunque ellas pueden dar un testimonio preciso de ello. El varón, confrontado al ejercicio de la función fálica, no puede evitar encontrarse tomado por esa voz injuriante respecto a quien es su pareja, como verificamos en cantidad de varones obsesivos que se ven impedidos de asumir una relación afectiva con la mujer con la que han compartido la cama.
Llama la atención lo breve de la definición del sustantivo en el diccionario de la Real Academia Española: Puta: prostituta. La RAE limita extraordinariamente el significado de la palabra a la mujer que recibe dinero a cambio de sus favores sexuales.
Es asombroso porque la palabra Puta tiene, eso sí que lo puede decir cualquiera, pero especialmente un analista que escucha en su clínica a hombres, mujeres, niños y adolescentes, una extensión infinitamente mayor. Una mujer, la mayoría de las mujeres, experimentará la acechanza de la injuria no cuando recibe dinero a cambio de su sexo, aunque también en esa circunstancia, sino toda vez que el goce se haga sentir en su cuerpo.
Puta se hará oír si una mujer se muestra accesible a las demandas de los hombres, si lo hace más o menos rápidamente, si no propone demasiados obstáculos, si el número de hombres con los que frecuenta es mucho, si aun siendo mujer de un solo hombre disfruta del sexo, si la frecuencia con que lo quiere hacer es muy seguido, si lo hace con intensidad, si lo hace con pericia, es decir, si cuenta con un saber sobre el sexo, si le es infiel a su marido, novio, o pareja, si su ropa deja ver su piel, si su maquillaje es rojo, etc. Es decir, es infinita la lista de ocasiones en las que el nombre puta se hace presente explícitamente, viniendo del otro masculino, del otro social, de las demás mujeres, o implícitamente llegando como voz áfona desde las profundidades del inconsciente.
Y se hará presente también para el varón que se confronte con el deseo de una mujer con el correlato paradojal de impotencia y excitación con el que se asocia.
Pero digamos más: aun cuando la mujer evite todo contacto sexual la injuria puede incluso hacerse presente porque la represión presentada como virtud puede ser también el indicador de una lasciva encubierta, de modo que bajo el significante santapuede hacerse escuchar el Superyó femenino en una metonimia infernal. Se cumple así el carácter paradojal del Superyó que se muestra más severo con aquel que limita más la satisfacción de la pulsión.
Diremos también que el no querer saber sobre el sexo, proponiéndose la mujer como niña, como ingenua, expone a la misma acechanza. Ser “una mosquita muerta”, “hacerse la tonta” es el modo con el que el Otro social sanciona a la mujer que, conservándose en una posición de inocencia infantil, no puede evitar con eso mismo hacer aparecer el erotismo propio del goce de  mujer. que se oculta tras el velo de la niña.
La madre, significante con el que Freud intentó situar una salida airosa de la castración para la mujer, no escapa a la amenaza del Superyó femenino Puta.  La expresión “hijo de puta”, que en varias lenguas se reduce a Hijo de Madre, muestra la proximidad que también Freud pudo reconocer en los nombres madre y puta, ambas caras de una misma moneda. La injuria “Hijo de Puta”, antes impronunciable y hoy cada vez más extendida en su uso quiere decir, esencialmente, que la madre ha gozado, que la procreación no se deriva únicamente del derecho del padre sino que ha habido un goce no masculino, que ha habido el goce de  mujer.
En resumen, el insulto Puta se hace presente como el modo en que la cultura preserva el dominio del orden fundado en el falo.
Con lo que podemos decir que esa injuria, estará presente siempre como el correlato estructural del goce de  mujer. y que la injuria se hace presente como el modo en que el Superyó se presenta en la experiencia femenina. En todos los casos, en cada caso y en todas las circunstancias.
A la mujer, dice Lacan, se la difama, usando la homofonía en francés, dit- femme, y diffame, es decir, siempre que se habla de ella se ultraja su buen nombre, siempre que se dice mujer se le dice puta, porque es el modo con que el performativo de la cultura preserva el orden fundado en el falo.

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sábado, janeiro 12, 2013

Contardo Calligaris e o filme "56 UP"

Então era só isso?

Artigo da Folha de São Paulo


Michael Apted é um diretor de cinema inglês, premiado e popular (participou das "franquias" James Bond e Nárnia). Em 1964, aos 23 anos, ele fez um filme para a televisão inglesa, chamado "7 Up" (de sete para cima, com um trocadilho com o nome de um refrigerante), no qual entrevistou 14 crianças de sete anos, de origem social variada, perguntando quais eram seus sonhos, planos e desejos. Ele prometeu que voltaria a entrevistar as crianças a cada sete anos.
Apted manteve sua promessa. Entrevistou o mesmo grupo aos 14 anos, aos 21, aos 28 etc. A cada filme, os entrevistados comentavam suas repostas anteriores, ou seja, mediam as mudanças em sua vida.
Na semana passada, estreou, em Nova York, "56 Up": as crianças de 1964 (todas vivas) têm hoje 56 anos. Para ter uma ideia do conjunto e do último documentário, veja trechos no site da CBS.
A intenção inicial de Apted era documentar, ao longo de décadas, as consequências das diferenças econômicas e de classe. De fato, a mobilidade social existiu, mas não foi grande. Os mais ricos, que estudavam nas melhores escolas, foram para as melhores universidades e, hoje, estão, como se diz, bem de vida. Os mais pobres (alguns vinham de uma espécie de asilo para crianças carentes, outros, do East End de Londres) tiveram uma vida mais dura. Em suma, tudo tocante e mais ou menos previsível, salvo a sensação com a qual fiquei ao sair do único cinema de Manhattan em que o filme está passando, o IFC Center, na Sexta Avenida, na altura de 3rd Street.
Quase em frente ao IFC, do outro lado da avenida, está o Blue Note, que, desde os anos 1980, é um templo do jazz nova-iorquino. Deixando o cinema, deparei-me com o letreiro do clube: a "blue note" é aquela nota que é cantada ou tocada meio tom abaixo do que seria esperado e confere, portanto, à música e às letras uma dimensão de tristeza quase existencial (o "blues"). Por isso, alguns dizem que a "blue note" tem a ver com a vida nas plantações, sua dureza e a nostalgia de outro destino.
O trecho da Sexta Avenida de ambos os lados do cinema IFC fica animado até muito tarde: há dois sex shops e cinco ou seis estúdios de tatuagem e piercings. Para quem passar por Nova York e quiser se aventurar por lá: nenhuma preocupação, não há perigo de ser assaltado.
Mas há outros perigos, sobretudo se você já tiver esbarrado no letreiro do "Blue Note", depois de assistir ao documentário de Michael Apted. No meu caso, aconteceu o seguinte: fiquei parado, na calçada, intensamente triste, sem saber por quê. As únicas palavras que vinham à minha cabeça eram: "Então, era isso?".
Cuidado: nenhum dos entrevistados de Apted, nem na infância nem na juventude, expressou desejos extravagantes. A maioria, de um jeito ou de outro, teve a chance de tentar realizar seus sonhos. Claro, alguns escondem suas dificuldades (de nós e de si mesmos), mas, no conjunto, a vida não foi propriamente cruel com nenhum dos 14. Quase todos tiveram amores, filhos, alguma realização; um construiu uma bonita fazendola, outro comprou uma casa de férias na Espanha e outro, que fracassou na vida, foi eleito representante de sua comunidade. Então, qual é a razão da "blue note" que ressoou em mim?
Talvez seja a sensação de que a vida vai (aos poucos, de sete em sete anos) e que poderia ter sido outra. Mas será que poderia? E outra como?
Os estúdios de tatuagem e os sex shops da Sexta Avenida parecem sugerir que há vidas que, à diferença da nossa e da dos entrevistados de Apted, queimam rápido, sem se resguardar; mas basta entrar nas lojas para descobrir que nada aí dentro é "extremo" -o ideal de uma vida intensa, como um único grande e curto fogo de artifício, mal tem existência própria, mas é apenas o efeito da nossa nostalgia de "outra coisa".
Só há uma vida: a que estamos vivendo. É óbvio. Mas por que mal conseguimos viver sem imaginar que ela possa ou deva ser "outra"?
É uma aflição moderna, pós-romântica. Imagine que Emma Bovary e Anna Karenina tenham se juntado, desistido de complicar sua vida com amantes e sonhos, e transferido todas suas aspirações para seus filhos, ou seja, para nós. Rebentos dessas duas maravilhosas mulheres, como poderíamos achar que o que vivemos é suficiente? Como poderíamos ver o fim da vida se aproximando sem resmungar: "Então, era só isso?".

Freud e a busca da felicidade

Freud y los "quitapenas"


"Tal como nos ha sido impuesta la vida nos resulta demasiado pesada, nos depara excesivos sufrimientos decepciones, empresas imposibles.Para soportarla no podemos pasarnos sin lenitivos.Los hay quizá de tres especies: distracciones poderosas que nos hacen parecer pequeña nuestra miseria, satisfacciones sustitutivas que la reducen, narcóticos que nos tornan insensibles a ella(...)¿Qué esperan los hombres de la vida, qué pretenden alcanzar en ella?.Aspiran a ser felices, quieren llegar se felices, no quieren dejar de serlo.Esto implica por un lado evitar el dolor y el displacer, y por otro experimentar intensas sensaciones placenteras(...)El sufrimiento nos amenaza por tres lados: desde el propio cuerpo, que condenado a la decadencia y a la aniquilación, ni siquiera puede prescindir de los signos de alarma que representan el dolor y la angustia, el mundo exterior capaz de encarnizarse con nosotros con fuerzas destructoras omnipotentes e implacables, y de las relaciones con otros seres humanos.El sufrimiento que amenaza desde esta ultima fuente, quizá nos sea el más doloroso que cualquier otro.(...)El más crudo pero efectivo de los modos destinados a producir modificaciones en el soma es el químico. La intoxicación proporciona sensaciones placenteras, modificando las condiciones de nuestra sensibilidad.No sólo se les debe el placer inmediato, sino también una muy anhelada medida de independencia frente al mundo exterior.Los hombres saben que por estos quitapenas, siempre podrán escapar del peso de la realidad(...)También se sabe que precisamente esta cualidad de los estupefacientes es la que entraña su peligro y nocividad"

Sigmund Freud /El Malestar en la Cultura / 1930

Esto lo escribió un genio llamado Freud hace ochenta y dos años, parece que lo hubiera escrito ayer en la crónica de algún periódico o en la columna de alguna revista especializada. Me asombra cada día la lucidez de este hombre, su sensibilidad, su capacidad para captar y capturar en su prosa y en su pensamiento la esencia de lo humano y la labilidad del sujeto-parlante.Por eso parafraseando a Lacan, le hacemos decir hoy, que no hay sobre la tierra y entre los genios, captura de lo humano tal como la hay en la obra de Sigmund Freud. Simplemente asombrosa y muy, pero muy adelantada a su época, de tal suerte que fué él quien con los estudios neurológicos de su época dio pie a ulteriores descubrimientos, tales como la arborificación de la neuróna y la ideación del modelo del sistema nervioso central.Se adelantó a la lingüística y su sistema, plasmado en la carta 52 a Fliess, aún hoy es un faro que alumbra la clínica psicoanalítica:

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Via FB  Literatura e psicoanálise.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Betty Milan entrevista Didier-Weill





Alain Didier-Weill: A psicanálise e a música

 Betty Milan

Este texto integra o livro A força da palavra. Foi publicado como "Didier-Weill procura cotidiano de surpresas",

 O Estado de S. Paulo, 23/12/1995.

Alain Didier-Weill nasceu em Lyon. Fez medicina e se formou em psicanálise com Jacques Lacan, de quem foi um dos interlocutores privilegiados. A convite do mestre, fez longas intervenções no seu seminário e por isso se destacou no movimento psicanalítico dos anos 1970. Depois da dissolução por Lacan da Escola Freudiana de Paris, da qual Didier-Weill era membro, ele criou com outros colegas Le Coût Freudien e participou da fundação do Inter-Associatif, que hoje reúne mais de vinte associações europeias. Além de psicanalista, é autor de várias peças de teatro, entre as quais O banco e Pol, que recebeu o prêmio da crítica parisiense em 1975 e foi representada em Dublin, Lyon, Montreal e Nova York. Entre suas obras publicadas no Brasil estão Os três tempos da lei, Inconsciente freudiano e transmissão da psicanálise, Invocações, A hora do chá na casa dos Pendlebury. Talvez por ser também um artista, Alain Didier-Weill lançou um livro de psicanálise, Os três tempos da lei, que surpreende pela absoluta originalidade.

Didier-Weill ousou fazer o que as associações psicanalíticas tendem a impedir e a psicanálise preconiza: renovar. A partir da sua obra, já não há como ignorar a importância da surpresa, em torno da qual o autor faz girar a teoria psicanalítica, mostrando, por exemplo, que o homem não pode dispensar o jogo e tampouco a arte porque ele precisa se surpreender. Os três tempos da lei torna claro que a verdadeira referência da psicanálise é a arte e é preciso desconfiar dos que se dizem psicanalistas e são dogmáticos.

Alain Didier-Weill talvez tenha chegado para dizer, como Édouard Manet, que o fundamental é não fazer de novo o que já foi feito pelos outros, mas autorizar-se a invenção. Para ouvir este psicanalista supreendente, fui ao Rio de Janeiro, onde ele fazia uma série de conferências a convite da associação O Corpo Freudiano.

Betty Milan: Você diz no seu livro que nós precisamos da arte e do jogo para podermos nos surpreender. Como é que você explica esse gosto pela surpresa?
Alain Didier-Weil: Precisamos reencontrar a possibilidade de nos surpreender que tínhamos na infância. A surpresa é a irrupção na vida cotidiana de uma experiência que nos priva do que já sabíamos.

BM: Mas por que isso é importante?
DIDIER-WEILL: Nós que idolatramos o nosso saber descobrimos com a experiência da surpresa que gostamos de ficar despossuídos do saber. O homem tem a nostalgia da infância, da época em que se surpreendia com todas as coisas e se deparava com a novidade absoluta.

BM: O que mais o surpreende no Brasil?
DIDIER-WEILL: A bossa nova. Há no ritmo da bossa nova – tão contrário ao do tango, que nada tem de surpreendente – uma relação com o tempo que permite cantar sem gritar, como os roqueiros. A bossa nova dá vontade de dançar. A maneira como as mulheres brasileiras andam também me surpreende, é uma dança que vai se esboçando. Eu me pergunto ainda porque há tantos travestis nesse país. Trata-se de algo que eu não compreendo.

BM: Você dedica o seu livro a Jacques Lacan, que você também chama de “a nota azul”...
DIDIER-WEILL: Dediquei o livro ao meu mestre e à minha amante, a música. Achei interessante associá-los. A nota azul remete ao blues, claro, mas a ideia de associar a nota de música a uma cor me ocorreu lendo uma carta de Chopin, em que ele fala da nota azul como uma nota especial, porque ela propicia o máximo de surpresa.

BM: Será que você poderia falar da relação existente entre o psicanalista e o músico?
DIDIER-WEILL: Como psicanalistas, nós vivemos no mundo das palavras e trabalhamos com elas. Mas as palavras têm os seus limites. Não conheço, por exemplo, uma interpretação que possa curar uma melancolia ou um delírio. Um analista deve poder ouvir, além das palavras, a música da voz do analisando. Trata-se de algo que não se pode ensinar. Um dia, um analisando me contava uma história que era muito triste, mas ao mesmo tempo ele me fazia ouvir, através da música da sua voz, uma grande alegria. E eu ri. Com o riso, que obviamente não era de zombaria, a pessoa ficou aliviada. Quando eu ri, restituí ao analisando uma alegria que ele tinha e não sabia.

BM: Vocé é psicanalista e dramaturgo. Isso não é habitual. O que significa se dedicar à psicanálise e à arte?
DIDIER-WEILL: Não existe contradição. Na cura analítica, a gente tenta apreender, para além da prosa, as palavras que são verdadeiramente as do sujeito, as palavras que o constituíram e eu chamo de “o poema de cada um”. E, quando o sujeito encontra esse poema, ele pode dar continuidade ao mesmo. O que nós temos de melhor são as palavras do poema que nos criou e nada têm a ver com o discurso universitário.

BM: Depois da dissolução da Escola Freudiana de Paris, você participou da criação do Inter-Associatif. Por que e como nasceu esse movimento?
DIDIER-WEILL: Quando Lacan dissolveu a Escola Freudiana de Paris, apareceram 12 associações que, durante muitos anos, ficaram isoladas, à procura da sua identidade. Quando esta foi conquistada, surgiu a necessidade de estabelecer uma relação entre elas, construir uma passarela. O diálogo interassociativo evoluiu e nós resolvemos oficializá-lo, criando o Inter-Associatif, que hoje reúne vinte associações europeias. A ideia é criar uma comunidade de psicanalistas que não estejam ligados por um discurso uníssono. Queremos manter a heterogeneidade de concepções.

BM: Qual é o futuro da psicanálise na sua opinião?
DIDIER-WEILL: Temo o pior e espero o melhor. A psicanálise que Freud nos transmitiu, a da descoberta do sujeito do inconsciente, é o oxigênio de que hoje precisamos, mas ela é algo perecível. Como, aliás, o discurso da tragédia na Grécia, que só durou um século. Com a aparição do discurso filosófico, o da tragédia sumiu de circulação. Só voltou com Shakespeare, muitos séculos depois. Algo de comparável pode agora se passar com a psicanálise. Por isso, eu me empenho em transmiti-la e sou extremamente grato a Lacan, não porque ele tenha feito o retorno a Freud, mas porque nos mostrou como cada analista pode fazer o retorno, à sua maneira.