domingo, agosto 29, 2010
A autoestima no mundo atual II
Leia aqui a primeira parte desta palestra.
O que é, realmente, relevante?
Todos temos um ideal que seguimos, mesmo sem ter consciência. Muitas vezes este ideal é herdado dos nossos pais, então nos sentimos exigidos e precisamos corresponder à expectativa desses pais introjetados, dos pais que registramos dentro de nós.
Imaginamos que só seremos amados pelos nossos pais se formos exatamente como eles desejariam que fossemos- é um sentimento infantil que nos persegue, muitas vezes sem que saibamos.
Muitos de nós nos sentimos longe daquilo que esperávamos ou desejávamos ser.
É preciso reconhecer qual é esta expectativa, e identificar se é um desejo nosso, conquistado, ou é algo “herdado” de pais exigentes- mesmo que na realidade eles não tenham sido o que acreditamos..
A vida é construída por desejos insatisfeitos, somos movidos pelo desejo, para viver bem é preciso estar em paz com si mesmo e isto exige conhecimento, sabedoria.
Você só estará bem consigo se conhecer os seus limites e priorizar aquilo que é importante, fundamental, para seu bem estar. O mundo é uma grande feira de ofertas de sonhos impossíveis, precisamos priorizar o que poderemos alcançar, sem nunca deixar de sonhar- o desejo é a mola que nos impulsiona.
Priorizar é fundamental, no momento em que você prioriza, as satisfações começam a ser percebidas. Você passa a ver as pequenas coisas boas da vida e verá que são muitas. Pequenos prazeres serão descobertos, e você, então, buscará estes prazeres para se sentir feliz. A felicidade está, sim, como todos dizem, em pequenas coisas, pequenos gestos, isto faz o nosso dia à dia melhor.
Muitas vezes é preciso mudar nossos hábitos.
Sempre há tempo para mudanças, viver é estar em constante mutação.
Por que é tão difícil mudar?
Todos nós sabemos que abandonamos muitos projetos no meio do caminho, arranjamos mil desculpas, doenças, algumas vezes, mas por que se desejamos mudar?
Porque esperamos mudanças magicamente, como as crianças, temos pressa , não levamos os projetos até o fim e ficamos infelizes.
Criamos uma bola de neve, sentimos tristeza pela incapacidade de mudar e isto nos paralisa, nos deprime- sentimos impotência diante da vida e dos outros.
Quantas vezes há um desejo de mudar, mas não se consegue fazer nada para isto?
A mudança assusta, vivenciar o que nos é familiar é mais cômodo, apesar de muitas vezes doloroso, o ciclo vicioso se fecha e é difícil romper. Mudar não é fácil .
Mais sobre o corpo
Ter prazer com o corpo que você tem, não ter vergonha do próprio corpo é uma dádiva, ou é algo que é preciso conquistar. O que fazer para que este corpo esteja confortável, sem estar pesado, feio, com dores? Como olhar o corpo e sentir que é desejável? Como viver em harmonia com o corpo?
Atualmente, há uma exigência enorme, que chamamos de ditadura da estética, quanto ao corpo perfeito. É preciso estar em forma e ter corpos perfeitos. Isto é uma ditadura imposta pela mídia! Há uma filosofia de vida que se alastra há algumas décadas tornando as mulheres as principais vitimas deste padrão imposto.
Homens começam a ser vítimas também, mas com a s mulheres a mídia é cruel.
Colocam silicone nos seios, tiram gorduras do corpo, sem dietas, através de cirurgias, tiram costelas para diminuir a cintura, arriscam-se com anestesias buscando um ideal inalcançável.
Como virar uma Gisele Bündchen? Impossível. As meninas têm a Gisele como padrão idealizado de beleza e de vida, pois ela é O Sucesso, linda, rica, bem casada, agora mãe- é o sonho de todas as jovens. Débora Secco disse numa entrevista para Marília Gabriela, que se deitava de bruços na cama para que ele o namorado não visse a sua barriga. Pensamos, mas que barriga? Ela ilustra bem o nível de exigência interno destas moças, ficam anoréxicas ou bulímicas. É um mundo idealizado que as tortura. Inalcançável. A vida gira em torno do corpo, não há vida além do corpo, as relações permeiam o corpo, tudo é o corpo. Farão plásticas a vida toda.
Como será a velhice destas moças?
O que elas buscam?
Sabemos que atrás desta busca do corpo perfeito está o desejo de ser desejada e admirada por todos, provavelmente um reconhecimento que faltou lá atrás, na infância: um olhar materno ou paterno de aceitação e amor, de reconhecimento. Elas ignoram que este olhar não virá mais, que poderão ser amadas por outras pessoas e que o desejo humano passa por outros caminhos, senão os feios estariam todos sós, abandonados, e isto não é verdade. O nosso desejo passa por caminhos do inconsciente, nós não sabemos por que desejamos uma pessoa e não outra.
É preciso desconstruir este padrão imposto. Há um movimento natural contra isto, sabemos que a meditação, a Yoga, por exemplo, vêm despertando o interesse de cada vez mais pessoas. Madonna é um exemplo de celebridade adepta de Yoga, e vem sendo imitada. Mesmo que façam porque está na moda, é bom. Todas as práticas espiritualistas melhoram a vida interior, dando equilíbrio entre corpo e mente. Nem tudo está perdido.
É preciso acabar com os preconceitos, tolerar as diferenças, não só raciais, de gênero, mas as estéticas também, os gordos, os diferentes, sofrem preconceitos e exclusão.
Violência na vida urbana mais tirania do corpo e preconceitos torna a vida intolerável. Em algum momento terá que haver um basta.
Esta é uma questão para pensarmos. Cada um precisa fazer a sua parte.
Nenhum caminho é fácil, viver não é fácil, é preciso enfrentar os obstáculos, muitas vezes internos.
E quantos de nós não se boicotam? É preciso viver da melhor maneira possível, sem dramas nem omissões, fazendo o melhor, conscientes das nossas dificuldades, limites, e também, reconhecendo nossos talentos.
Precisamos saber o que nos detém, nos impede de seguir um projeto, nos paralisa, nos ata. É preciso desatar os nós e mudar aquilo que nos incomoda. Mesmo que isto implique num investimento maior, numa mudança na vida pessoal, é preciso escolher entre viver com as insatisfações ou reagir e mudar.
Quantos de nós temos talentos escondidos, não valorizados?
Mas, sabemos, todos procuramos formas para evitar a morte, e envelhecer é se aproximar da velha senhora, que vive à nossa espreita.
Renovar é possível, mudar é possível. Basta desejar!
Boa sorte!
sexta-feira, agosto 27, 2010
Um filme imperdível
Uma beleza este filme "O ESCAFANDRO E A BORBOLETA". Atores e história comoventes. Max Von Sydow ( aquele dos filmes do Ingmar Bergman) me levou às lágrimas.
Uma história de amor e superação. Muito bonita.
Leiam:
A extraordinária história real de Jean-Dominique Bauby, editor da revista ELLE que, aos 43 anos, sofreu um derrame que paralisou todo seu corpo, com exceção do seu olho esquerdo. Preso em um corpo sem movimento, mas completamente lúcido, ele se adapta para contar sua incrível história de vida.
VENCEDOR de 2 prêmios no Festival de CANNES 2007: Julian Schnabel, Melhor DIRETOR - Janusz Kaminski, Technical Grand Prize
Vencedor Globo de Ouro 2008: Melhor Diretor (Julian Schnabel) e Melhor Filme Estrangeiro
Com Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sydow
Direção Julian Schnabel
quinta-feira, agosto 26, 2010
Contardo Calligaris- Para que serve a psicanálise?
A quem luta para se manter adulto, o paternalismo dá calafrios, ou mesmo vontade de sair atirando
A Associação Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.
A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.
Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: "A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho".
No dia seguinte, Marina Silva comentou: "Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe". Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: "Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto".
Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.
O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.
Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?
Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança "maravilhosa" com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.
Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.
Roberto Succo (com "s"), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever "Roberto Zucco", peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.
Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: "matar" o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.
O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à "maioridade". Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.
Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.
Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.
Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem "friamente" governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.
É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.
Artigo da Folha de São Paulo
quinta-feira, agosto 12, 2010
Contardo Calligaris: A origem
"A Origem"
Vagamos pelo mundo esbarrando em nossas projeções: assombrações do passado e do desejo
Sabia pela imprensa que, no novo filme de Christopher Nolan, "A Origem", os heróis (ou vilões, que sejam) invadem o mundo onírico de alguém, transformam, ou mesmo fabricam seu sonho e, com isso, manipulam o próprio sonhador.
Confesso que fui ao cinema com um certo preconceito. A pintura (Salvador Dalí, De Chirico), a literatura (Breton) e o cinema (de Fritz Lang a Hitchcock) inventaram uma estética do sonho que é sedutora, mas não tem muito a ver com nossa experiência de sonhadores.
Com isso, eu antevia um filme pouco plausível, laborioso e afastado do meu cotidiano. Surpresa total: o mundo do filme de Nolan me pareceu familiar e absolutamente realista. Só que não foi pela representação do mundo dos sonhos. Ao contrário, "A Origem", para mim, é fiel à realidade na qual vivemos quando NÃO estamos sonhando.
Salvo exceções, exatamente como os personagens de Nolan quando sonham, vagamos pelo mundo aparentemente acordados, mas suficientemente sedados para que possamos esbarrar apenas em nossas próprias projeções: fantasmas do passado, alucinações do desejo e defesas -espécie de seguranças armados que deveriam nos proteger (vai saber de quê) e acabam se virando sempre contra nós mesmos.
Assisti ao filme no cinema Leblon, no Rio de Janeiro, no sábado à tarde. Depois da sessão, voltei a pé até o Arpoador.
Ao longo da Vieira Souto, caminhei na fantasmagoria de um Carnaval do passado, que começara, justamente, com uma saída da Banda de Ipanema e em que tudo dera errado. Os fantasmas riam de mim: se eu os tivesse enxergado à época, teria previsto um fracasso amoroso que, dez anos depois, foi doloroso sobretudo por ser tardio.
No Arpoador, apesar do frio, havia um menino brincando nas ondas; achei que ele corresse perigo, levado pela ressaca. Um jovem avançou no mar para trazê-lo de volta para a praia.
Nos anos 80, três vezes por ano, eu ia de Porto Alegre ao Rio para acompanhar meu filho até o avião que o levaria de volta para a França, onde ele morava com a mãe. Era o fim de suas férias e o momento em que a gente ia se separar, de novo. Chegávamos ao Galeão ao meio-dia e corríamos de táxi até Ipanema para mergulharmos no mar antes de ele embarcar. Pois é, no sábado passado, cruzei o olhar do menino que voltava das ondas: era um olhar de crítica e decepção por eu deixá-lo viajar para longe de mim ou por eu ter viajado para longe dele -era o olhar de meu filho.
Do Leblon ao Arpoador, passei por vários níveis do videogame de minha vida e, embora houvesse gente nas ruas, no fundo, não encontrei ninguém de verdade, só assombrações.
Há mais uma razão pela qual o mundo de "A Origem" me pareceu curiosamente familiar. Disse que, no filme, os heróis acompanham alguém num passeio pelo seu mundo psíquico e, nessa andança, eles extraem e inserem pensamentos. É muito diferente do trabalho de um psicoterapeuta ou psicanalista?
Sem revelar nada que atrapalhe o prazer dos futuros espectadores:
1) Para sair um pouco da assombração, é bom matar alguns fantasmas (o de um antigo amor que nos pede, por exemplo, para morrer com ele, ou o de um pai cujas últimas palavras continuam vivas como uma maldição). Suicidar nosso narcisismo também nos ajuda a voltar para a realidade. Mas é bom não confundir o suicídio de nosso narcisismo com o suicídio de nossa pessoa.
2) No fim do filme, a vítima de nossos heróis descobre algo que muda seu futuro de maneira positiva -qualquer terapeuta concordaria. Essa "verdade" foi plantada por nossos heróis, os quais também arquitetaram o lugar escondido e proibido onde a vítima encontra seu "segredo" (o que faz, obviamente, que ela aceite e preze essa "descoberta", que é, de fato, um engodo).
Qualquer psicanalista ou psicoterapeuta dirá que, numa cura, ele pode extrair pensamentos nocivos e desnecessários, mas ele nunca inseriria nada; isso seria sugestão, coisa de padre e pastor.
Concordo, mas, saindo do cinema, pensei: e se, como os heróis de Nolan, a gente estivesse praticando a arte insidiosa (e, às vezes, benéfica) de plantar no paciente nossas ideias transvestidas de segredos? Foucault adoraria essa dúvida.
Só me resta desejar a todos um bom filme.
Trailer do filme:
sábado, agosto 07, 2010
quinta-feira, agosto 05, 2010
Contardo Calligaris- Castigos físicos
O castigo físico acaba com a autoridade de quem castiga, pois revela que seu argumento é a força
Uma recente pesquisa Datafolha (Folha, 26/7) mostra que, no Brasil, 69% das mães e 44% dos pais admitem ter batido nos filhos.
Parêntese. Os pais são tão violentos quanto as mães: simplesmente, eles passam menos tempo em casa e lidam menos com o "adestramento" dos filhos.
A pesquisa constata também que 72% dos adultos sofreram castigos físicos quando crianças. Como se explica, então, o fato de que 54% dos brasileiros se declaram contrários ao projeto de lei que proíbe os castigos físicos em crianças? Há várias hipóteses possíveis.
1) Talvez quem apanhou quando criança não queira perder o direito de se vingar em cima dos filhos.
2) Talvez não aceitemos a ideia de que os nossos pais tinham sobre nós uma autoridade maior do que a que nós temos ou teremos sobre nossos filhos.
3) Na mesma linha, talvez estejamos dispostos a apanhar dos superiores sob a condição de sermos autorizados a bater nos subalternos.
Nota: aceitar apanhar dos mais poderosos para poder bater nos mais fracos é a caraterística que resume a personalidade burocrático-autoritária do funcionário fascista.
4) A autoridade, dizem alguns com razão, sempre tem um pé na coação e recorre à força quando seu prestígio não for suficiente para ela se impor. Hoje, a autoridade simbólica dos adultos é cada vez menor. É provável que os próprios adultos sejam responsáveis por isso (principalmente, por eles se comportarem cada vez mais como crianças); tanto faz, o que importa é que o prestígio dos adultos não lhes garante mais respeito e obediência. Portanto, a palavra aos tabefes.
É um erro: o castigo físico acaba com a autoridade de quem castiga, pois revela que seu argumento é apenas a força. A reação mais sensata da criança será: tente de novo quando eu estiver com 15 anos e 1,80 m de altura.
Esses e outros argumentos a favor da palmatória não encontram minha simpatia. Até porque verifico que os rastos desses castigos não são bonitos. Mesmo um simples tapa é facilmente traumático tanto para o pai que bateu como para o filho: ele paira na memória de ambos como uma traição amorosa que não pode ser falada por ser demasiado humilhante (para os dois). Há pais violentos que passam a vida na culpa, e há crianças cuja vida erótica adulta será organizada pela tentativa de encontrar algum sinal de amor no sadismo dos pais.
Apesar disso, se tivesse sido consultado na pesquisa, provavelmente eu teria me declarado contra a nova lei, por duas razões.
A primeira (e menos relevante) é que existem violências contra crianças piores do que a violência física, e receio que uma lei reprimindo o castigo físico nos leve a pensar que, por assim dizer, "o que não bate engorda". Infelizmente, não é preciso bater para trucidar uma criança.
A segunda razão (e mais relevante) é que a nova lei não surge num contexto em que os pais teriam poder absoluto sobre o corpo dos filhos. Mesmo sem a nova lei, o professor que visse sinais de violência no corpo de um dos alunos avisaria à polícia e à autoridade judiciária. O mesmo valeria para o pediatra ou para o psicoterapeuta. Inversamente, um pai cujo filho fosse batido na escola processaria o professor e a instituição. Também, com um pouco de sorte, uma criança batida pode denunciar o adulto que a abusa.
Pergunta: para que servem leis que pouco mudam o quadro legal e só explicitam e particularizam proibições que já vigem de modo geral?
Essas leis me parecem ter sobretudo a intenção de afirmar, demonstrar e estender o poder do Estado na vida dos cidadãos.
Uma coisa aprendi com Michel Foucault: o poder moderno é raramente extravagante em suas exigências. Como ele não tem conteúdo específico, mas gosta apenas de se expandir, ele escolhe o caminho mais fácil, conquistando a adesão "espontânea" de seus sujeitos. Como? Simples: operando "obviamente" "pelo bem dos cidadãos" -no caso, pelo bem das crianças.
Resumindo:
1) sou absolutamente contra qualquer castigo físico; 2) sou também contra a extensão do poder do Estado no campo da vida privada, por temperamento anárquico e porque sou convencido que, neste campo, as famílias erram muito, mas o Estado, quase sempre, erra mais.
PS: Destaques meus.(Elianne)
Artigo de hoje na Folha de São Paulo.
quarta-feira, agosto 04, 2010
Eu te odeio- eu te amo
Esta imagem ilustra muito bem a 'Denegaçaõ' da psicanálise. Leiam (não achei em português) :
Negación
Al.: Verneinung.
Fr.: (dé)négation.
Ing.: negation.
It.: negazione.
Por.: negação.
Procedimiento en virtud del cual el sujeto, a pesar de formular uno de sus deseos, pensamientos
o sentimientos hasta entonces reprimidos, sigue defendiéndose negando que le pertenezca.
Esta palabra requiere ante todo algunas observaciones de orden terminológico.
1) En la conciencia lingüística común, no siempre existen en todos los idiomas claras distinciones
entre los términos que significan la acción de negar, y menos aún existen correspondencias
bi-unívocas entre los distintos términos de una lengua a otra.
En alemán, Verneinung designa la negation en el sentido lógico o gramatical del término (no
existe un verbo neinen o beneinen), pero también la denegation en sentido psicológico (rechazo
de una afirmación que yo he enunciado o que se me atribuye; por ejemplo: no, yo no he dicho
esto; yo no he pensado esto). Verleugnen (o leugnen) tiene un sentido que se aproxima al de
verneinen en esta última acepción: renegar, desdecir, desmentir.
En francés, puede distinguirse, por una parte, la negación (négation) en sentido gramatical o
lógico, y por otra parte la denegación (dénégation, déni), que implica oposición o repulsa.
2) En el empleo que hace Freud: al parecer podemos distinguir dos usos diferentes de verneinen
y verleugnen. En efecto, la palabra verleugnen tiende a reservarla Freud, hacia el fin de su obra,
para designar el rechazo de la percepción de un hecho que se impone en el mundo exterior; en
inglés, los editores de la Standard Edition, que han reconocido el sentido específico que
adquiere en Freud la palabra Verleugnung, han decidido traducirla por disavowal. Nosotros
proponemos en francés traducirla por «déni» (renegación)
En cuanto al empleo que hace Freud de la palabra Verneinung, resulta inevitable para el lector
francés la ambigüedad negation-denegation. Posiblemente esta misma ambigüedad sea uno de
los ejes de la riqueza del artículo que Freud dedicó a la Verneinung. Al traductor, le resulta
imposible en cada pasaje elegir entre «negation» o «denegation»; como solución nosotros
proponemos transcribir la Verneinung por «(dé)négation». En castellano utilizaremos negación.
Observemos que también se encuentra algunas veces en las obras de Freud la palabra alemana
de origen latino Negation.
Estas distinciones terminológicas y conceptuales que proponemos no siempre se han efectuado
hasta ahora en la literatura psicoanalítica y en las traducciones. Así, el traductor francés de El
Yo y los mecanismos de defensa (Das Ich und die Abwehrmechanismen, 1936) de Anna Freud
transcribe por «negación» (négation) el término Verleugnung, que esta autora utiliza en un
sentido similar al que le dio S. Freud.
Freud puso en evidencia el procedimiento de negación en la experiencia de la cura. Muy pronto
encontró en las histéricas que trataba una forma especial de resistencia: «[...] cuanto más se
profundiza, más difícilmente se aceptan los recuerdos que surgen, hasta el momento en que, en
las proximidades del núcleo, nos hallamos con que el paciente niega incluso su reactualización».
El Análisis de un caso de neurosis obsesiva proporciona un buen ejemplo de negación: el
paciente, siendo niño, había pensado que conseguiría el amor de una niña a condición de que le
ocurriera una desgracia: «[...] se le impuso la idea de que esta desgracia podría ser la muerte de
su padre. Rechazó inmediatamente tal idea con toda energía; todavía hoy se defiende contra la
posibilidad de haber experimentado semejante "deseo". Según él, había sido una simple
"asociación de ideas". -Yo le objeto: si no fue un deseo, ¿por qué se rebela contra él?
-Simplemente por el contenido de esta representación, de que mi padre pudiera morir». La
prosecución del análisis vino a demostrar que existía ciertamente un deseo hostil hacia su padre:
«[...] al primer "no" de rechazo se sumó pronto una confirmación, al principio indirecta».
La idea de que la toma de conciencia de lo reprimido se manifiesta a menudo, durante la cura,
por la negación, constituye el punto de partida del artículo que Freud consagra a ésta en 1925.
«No hay mejor prueba de que se ha logrado descubrir el inconsciente, que el hecho de ver cómo
el analizado reacciona con estas palabras: "Yo no he pensado esto" o bien "jamás he pensado
en esto"».
La negación posee el mismo valor de confirmación cuando se opone a la interpretación del
analista. De ahí nace una objeción de principio que no escapó a Freud, que se pregunta -en Las
construcciones en análisis (Konstruktionen in der Analyse, 1937)-: ¿tal hipótesis no ofrece el
peligro de asegurar siempre el triunfo del analista? «[...] cuando el analizado asiente, tiene razón,
pero cuando nos contradice, esto es un signo de su resistencia y también nos da la razón».
El propio Freud dio una respuesta matizada a tales críticas, incitando al analista a buscar la
confirmación en el contexto y en la evolución de la cura. A pesar de todo, la negación sigue
poseyendo para Freud el valor de un indicador que señala el momento en que empiezan a
resurgir una idea o un deseo inconscientes, y esto tanto en la cura como fuera de ella.
En La negación (Die Verneinung, 1925), Freud dio de este fenómeno una explicación
metapsicológica muy precisa, que desarrolla tres afirmaciones estrechamente solidarias entre sí:
1) «la negación constituye un medio de adquirir conocimiento de lo reprimido [...];
2) »[...] lo que se elimina es sólo una de las consecuencias del proceso de represión, a saber, el
hecho de que el contenido representativo no llegue a la conciencia. Como resultado, tiene lugar
una especie de aceptación intelectual de lo reprimido, mientras que persiste lo fundamental de la
represión;
3) »mediante el símbolo de la negación, el pensamiento se libera de las limitaciones de la
represión [...]».
Esta última proposición muestra que, para Freud, la negación en sentido psicoanalítico y la
negación en sentido lógico y lingüístico (el «símbolo de la negación») tienen el mismo origen, lo
cual constituye la tesis principal de su trabajo.
Mais aqui
Vá ao cinema com o Contardo Calligaris- Convite
Clique na imagem para ampliar e ler. Para saber mais sobre o filme, clique nos links.
Queridos Amigos do Grupo Cineclube Cnema Paradiso
Essa edição 273 do jornal é especialíssima!
Por ser um prenúncio da nossa festa de 15 anos do grupo, colocamos dois lindos artigos:
Os dois convidados que estarão em nossa festa- filme-
debate na próxima segunda-feira, dia 9 de agosto.
O local é a nossa sala de cinema favorita: o Cine SESC, Rua Augusta, 2075.
O coquetel terá início às 19 h. Entraremos na sala de cinema às 20 h para assistir
de Marco Bellocchio
e depois haverá debate com nossos convidados.
Uma festa com a nossa cara!
Uma delícia!!!
Podem divulgar aos amigos porque o cinema é grande e a entrada é franca!
Enviarei uma mensagem só com o convite da festa.
Abraços e até lá!
Cláudia Mogadouro
quarta-feira, julho 21, 2010
A autoestima no mundo atual I
Esta palestra eu faço para plateias diversas, por isso o tom coloquial e fácil de entender- prefiro sempre assim.
A autoestima no mundo atual
Escolhi falar da autoestima, que é um tema bastante atual, para pensarmos juntos sobre este tema.
Há um trecho de em “Mulheres Alteradas 3”, de Maitema- uma argentina que faz desenhos de humor- que ilustra bem a relação das mulheres no mundo atual.
Este texto também é válido para os homens, pois sabemos o quanto sofrem pelas exigências do mundo moderno.
Maitema começa falando de 1920, quando as mulheres estavam ansiosas por um bom marido, e isto bastava, e vai acrescentando, década a década, mais desejos e expectativas.
Quando chega a 1990 ela diz:
“Em 1990, nós mulheres, estávamos ansiosas por uma paixão, obcecadas por conseguir um bom marido, preocupadas em ser boas mães, inquietas por estudar alguma coisa útil, transtornadas para participar de coisas interessantes, culpadas por trabalharmos fora...estressadas por exigir-nos conquistas profissionais...e desesperadas para nos vermos jovens, magras e sem celulite!!”
Ganhamos em muitos aspectos na vida moderna, mas, em outros, a exigência é cada vez maior.
Ganhamos em liberdade de escolha, mas o leque de escolhas hoje é muito maior.
É preciso, além de ter sucesso profissional, ter sucesso na vida pessoal, ter uma atividade extra interessante, ser politicamente correto, ser magro, bonito, inteligente e, como diz Maitema, sem celulite, no caso das mulheres.
No caso dos homens, o ideal é uma barriga de tanquinho, e que se mantivessem sempre energizados.
Se todos nós procuramos ser felizes, por que algumas pessoas têm uma autoestima melhor do que outras? Por que algumas sentem-se mais confortáveis na vida, vivem em paz com o que têm, enquanto outras são insatisfeitas e nada as satisfaz?
Vamos pensar:
Como foi a nossa infância? Fomos crianças alegres, saudáveis, sentíamo-nos protegidos pelos nossos pais? Ou tínhamos medo dos pais?
Guardamos lembranças que até hoje machucam? Sentíamo-nos sem direito algum? Como era a relação de nossos pais ? Havia amor entre eles? Respeitavam-se?
A base da estrutura psíquica de todos nós é a família.
A mãe, principalmente, é fundamental para estabelecer uma boa autoestima. A mãe é o elo entre a criança e o mundo externo. Através da mãe a criança vai tomando consciência do mundo fora dela, vai tendo as primeiras frustrações e satisfações.
É muito mais difícil viver a ausência da mãe do que do pai.
A mãe biológica poderá faltar, mas existem figuras significativas para as crianças que ocupam este lugar.
Uma criança amada, que foi amamentada, bem cuidada na primeira infância, terá maior autoestima que uma criança rejeitada, mal cuidada, do que uma criança que foi dada para adoção, ou abandonada. Mas, e a criança que foi amada e ainda assim tem baixa autoestima? Talvez ela precisasse de maiores provas de amor, talvez tenha se sentido abandonada, pode ter sido por alguns minutos, mas este sentimento ficou registrado em seu inconsciente- o sentimento de abandono na infância faz um adulto inseguro- a qualquer momento ele poderá ser abandonado imaginariamente. Ele viverá em busca de um certificado de garantia de que não será mais abandonado- mesmo nas relações de amizade ou trabalho. Sua insegurança não permitirá que vivencie com alegria a vida, pois o risco de perda e abandono será sempre iminente. Como ser feliz se a qualquer momento poderá sofrer o luto do abandono, abandono real ou imaginário? Pouco importa, a dor é a mesma.
É possível resgatar a autoestima perdida ou construí-la?
Em algumas pessoas o abandono é tão presente que se tornam melancólicas precisando de ajuda profissional, um psicólogo, psicanalista, médico.
Vamos pensar o que é preciso para melhorar a nossa autoestima.
O que é importante para nós? Fazemos escolhas na vida, somos norteados pelo que nos é prioritário.
O que é ter sucesso na vida?
Sucesso para cada um de nós pode representar algo diferente.
Para alguns ter sucesso é ter um bom parceiro/a, ser bem sucedido nas relações familiares, ganhar dinheiro, ser reconhecido profissionalmente;
para outros, ser famoso/a, poder comprar tudo que deseja, viajar...
Continua...
terça-feira, julho 20, 2010
Lacan - O que disse Freud sobre o inconsciente
Não abriu? Veja no youtube é só clicar na telinha- abre lá. Tks.
sexta-feira, julho 16, 2010
domingo, julho 11, 2010
Miguel Nicolelis: “Sinto-me decepcionado”
Tribuna do Norte | Miguel Nicolelis: “Sinto-me decepcionado”
Aqui.
Infelizmente não me surpreendi.
Nicolelis fala o que eu penso- visão provinciana, imediatista, sem perspectivas de futuro melhor.
Triste realidade.
segunda-feira, julho 05, 2010
O namoro dos filhos adolescentes II
Escrevi este texto- O namoro dos filhos adolescentes-
em 2005. Hoje recebi este comentário ou questão.
Má deixou um novo comentário sobre a sua postagem "O namoro dos filhos adolescentes.":
Nossa, que interessante isto tudo!
Sinto muito pelas tristezas tão profundas de Tânia.
Meus problemas parecem ser tão pequenos agora...
Entrei neste blog procurando no google por "Como lidar com o namoro do meu filho?" e acabei aprendendo que esse medo de ver os filhos sofrerem é tão comum à tantas mães, cada uma por um motivo diferente...
O meu motivo é que engravidei antes do casamento, com 5 meses de namoro apesar de 18 meses de amizade intensa. Mas engravidar quando ainda é estudante de 22 anos e com toda uma vida acadêmica apenas para trilhar, frustrando toda sua família, enfim, não é fácil. A família do meu namorado não aceitou, eles eram muito rudes e diziam coisas ofensivas sobre mim. Minha família dizia que aquele moço não era para mim. Foi uma briga só, até que meu filho, este que hoje está namorando, nasceu. Mas parece que tive azar, pois a família da namorada dele parece ser muito desestruturada e a namorada dele parece ser vítima daquilo. Temo que ela queira sair logo da casa dela e que para isso queira logo engravidar. Converso sobre isso com meu filho, mas ele continua o namoro. Não deixo mais que namorem aqui em nossa casa para evitar que passem muitas horas sozinhos no quarto ou qdo estou trabalhando;... mas na casa dela também não vão mais porque o pai dela é muito grosso e ofendeu meu filho durante um jantar, negando a fidelidade do meu filho à filha dele, dizendo que meu filho era irônico e sarcástico quando afirmava que os homens em geral merecem confiança sim. O pai dela é mulherengo, a mãe é depressiva.
Muito obrigada pelo espaço. Aguardo, se possível, um comentário.
Beijos da Marta de Sorocaba
Postado por Má no blog Oriente- se em 11:21 PM
Resposta:
Marta,
Seja bem-vinda.
Você está me fazendo retomar um texto de 2005- é bom saber que a sementinha deixada aqui pode dar fruto um dia.
Reli seu comentário e penso que você tem bastante consciência do que aconteceu com você- o que é bom. Muitos não têm.
Penso que este momento é difícil, sim, para todos nós, pais. Não há como fugir- angustia e nos deixa impotentes.
O que é possível fazer? Não é mais possível tomar conta da vida de um filho adulto.
É preciso ter diplomacia para lidar com os conflitos, bater de frente é sempre pior. Parece que você faz o que é preciso, você conversa com seu filho, coloca alguns limites. Pense também que por mais que queiramos proteger nossos filhos, é impossível- eles terão que viver a vida que escolhem.
Sei que isto muitas vezes dói, mas é a vida. Lembre de você, fez uma escolha- foi difícil, mas está inteira, com um filho que, pelo que entendi, é um rapaz que você admira e ama.
Acredito que o mais difícil nesta situação é admitir, para nós mesmos, que não temos o controle de tudo.
Boa sorte! Desejo o melhor para vocês. Continue escrevendo.
Um forte abraço,
Elianne
quinta-feira, junho 24, 2010
Contardo Calligaris
Torcer ou pensar, eis a questão
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O torcedor pensa e grita algo que não tem nada a ver com o que ele pensa quando está sozinho
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Pela minha história, sinto-me parte de várias nações e, na Copa do Mundo, torço por todas elas. Quando se enfrentam duas seleções com as quais me identifico, sou privilegiado: seja qual for o desfecho, um de meus times preferidos ganhará.
Embora tenha uma verdadeira repugnância por qualquer forma de nacionalismo, a torcida da Copa do mundo é a única à qual consigo me juntar. É porque, na Copa, os torcedores vibram, festejam ou se desesperam sem transformar os adversários em objetos de ódio e desprezo.
Exemplo. No jogo de domingo entre Brasil e Costa do Marfim, o time africano pegou pesado, a ponto de me inspirar uma certa antipatia. Também, por ufanismo continental, o público sul-africano torceu pela Costa do Marfim e aplaudiu a expulsão de Kaká, cuja única culpa foi de se irritar e manifestar sua irritação.
Pois bem, ninguém, nem o exuberante pessoal na sacada do prédio em frente do meu, gritou impropérios contra o time da Costa do Marfim e ainda menos contra seu povo. Tampouco ouvi insultos contra o público sul-africano.
Na hora da expulsão de Kaká, ecoou, isso sim, um único berro que expressava uma forte dúvida sobre a honra e o recato da mãe do árbitro. Mas aí, também, ninguém é de ferro (estou brincando).
Por que é possível torcer na Copa do Mundo sem ser devorado pela irracionalidade que afeta as torcidas organizadas de nossos clubes?
A Copa acontece só a cada quatro anos, ou seja, as rivalidades são esporádicas, não se cristalizam. Além disso, os adversários da Copa são variados, distantes e diferentes de nós, enquanto, em geral, os humanos gostam de odiar seus vizinhos.
Justamente, quando existe uma rivalidade estabelecida entre duas seleções nacionais, é entre países próximos, com similitude de destino, como Brasil e Argentina.
Mas mesmo esse tipo de rivalidade "tradicional" não se compara com o ódio que opõe as torcidas de clubes da mesma cidade e do mesmo Estado. Essas torcidas são vítimas dos piores efeitos do grupo sobre o pensamento e os critérios morais do indivíduo.
O que é efeito de grupo? Exemplo: UM jovem playboy entediado não colocaria fogo num índio que dorme num abrigo de ônibus. QUATRO playboys entediados são capazes disso; é possível, aliás, que os quatro se reúnam justamente para, juntos, autorizar-se a fazer algo que, separados, eles nunca fariam.
Vamos agora a um jogo entre São Paulo e Corinthians (ou qualquer dupla de rivais da mesma cidade).
O torcedor corintiano, que está do meu lado, bem antes que a bola role, já roga pragas à torcida do São Paulo, que são "a bicharada" ou "os bambis". Nosso corintiano, uma vez extraído de sua torcida, não imagina, obviamente, que todos os são-paulinos, jogadores e torcedores, sejam "viados".
Tem mais: na grande maioria dos casos, na sua vida "real", fora do estádio, ele tampouco pensa que a opção sexual de alguém possa servir de insulto, ou seja, ele não acredita que os são-paulinos sejam bichas e não acredita que "bicha" seja um insulto.
Meu amigo torcedor, aliás, poderia ser ele mesmo homossexual; tanto faz, não por isso ele deixaria de gritar "bicha-raaaada". O mesmo vale para um são-paulino e seus gritos contra a torcida corintiana.
Resumindo, por fazer parte da torcida e para se integrar nela, o torcedor diz ou grita algo que não tem nada a ver com o que ele pensa quando pensa sozinho (que, cá entre nós, é o único jeito de pensar).
Por isso, só consigo torcer na Copa, e para quatro nações. Isso sem contar os times pelos quais me apaixono "só" porque jogam bem.
Começo hoje meu Twitter: @ccalligaris, com o "s" final que falta no meu e-mail, www.twitter.com/ccalligaris. Postarei minirelatos de eventos do cotidiano, reflexões (minhas ou lidas, ouvidas e citadas), fotografias, indicações de filmes, peças, livros, exposições (e, por que não, restaurantes, pratos e vinhos). Haverá avisos de atividades (palestras etc.) e crônicas de minhas viagens.
Em outras palavras, será um microdiário -com um pouco de sorte, um novo estilo; de qualquer forma, uma nova experiência. Como se diz, todos estão convidados.
PS: (Elianne) Continuarei postando o link daqui para democratizar o que ele escreve. Gosto de dividir com vocês. E, vamos lá seguir o Contardo e o meu Twitter:
@clcalligaris para saber mais.
quarta-feira, junho 23, 2010
Contardo Calligaris on Twitter
Começo hoje meu twitter: ccalligaris, com o "s" final que falta no meu e-mail, ou seja,
www.twitter.com/ccalligaris
Postarei minirelatos de eventos do cotidiano, reflexões (minhas ou lidas, ouvidas e citadas), fotografias, indicações de filmes, peças, livros, exposições (e, por que não, restaurantes, pratos e vinhos). Haverá avisos de atividades (palestras etc.) e crônicas de minhas viagens. Em outras palavras, será um microdiário -- talvez, com um pouco de sorte, um novo estilo; de qualquer forma, uma nova experiência. Como se diz, todos estão convidados.
PS(de Elianne): continuarei fazendo o outro www.twitter.com/clcalligaris com os links dos artigos aqui:
Oriente-se
O layout dos dois é meu. Quem quiser ter uma página, é só falar comigo. :)
quinta-feira, junho 17, 2010
Contardo Calligaris- Os adolescentes que merecemos
Os adolescentes que merecemos
Daqui da Folha de São Paulo.
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Você prefere sua filha errando de balada em balada ou velejando sozinha ao redor da Terra?
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Abby Sunderland nasceu na Califórnia, em outubro 1993. A família vivia num barco, ao longo da costa do Pacífico.
O irmão mais velho de Abby, Zac, aos 17 anos, tornou-se o mais jovem velejador a circum-navegar a Terra sozinho. O recorde de Zac não resistiu muito tempo: logo, Michael Perham, um adolescente inglês um ano mais jovem que Zac, completou sua volta solitária ao mundo. Note-se que Perham, aos 14 anos, já tinha atravessado o Atlântico sozinho.
Abby também, desde seus 13 anos, sonhava em circum-navegar a Terra. No começo deste ano, aos 16, sozinha, ela largou as amarras de seu veleiro de 12 metros e desceu o Pacífico Sul. Passou o Cabo Horn, atravessou o Atlântico e passou o Cabo de Boa Esperança, lançando-se no Oceano Índico. Entre a África e a Austrália, Abby encontrou uma tempestade à qual o mastro de seu barco não resistiu. No sábado passado, depois de dois dias à deriva num mar infernal, ela foi resgatada.
Pela internet afora e na imprensa dos EUA, os pais de Abby estão sendo criticados por um coro indignado: como vocês puderam deixar uma menina de 16 anos errar sozinha pelo mar e pelos portos? Fora tsunamis e tempestades, o que dizer dos meses insones espreitando o mar e o vento a cada meia hora, da solidão, do trabalho incessante, do frio, do desconforto de uma navegação solitária ao redor do mundo? E os piratas ao sul da Malásia? Por qual permissividade maluca vocês aceitaram que Abby se lançasse numa aventura que seria arriscada para gente grande?
Já a bordo do barco que a resgatou, Abby escreveu no seu blog: "Há uma quantidade de coisas que as pessoas podem estar a fim de culpar pela minha situação: minha idade, a época do ano e muito mais. A verdade é que passei por uma tempestade, e você não navega pelo Oceano Índico sem entrar em, no mínimo, uma tempestade. Não foi a época do ano, foi apenas uma tempestade do Oceano Sul. As tempestades fazem parte do pacote quando você veleja ao redor do mundo. No que concerne à idade, desde quando a mocidade do velejador cria ondas gigantescas?".
Se você duvida que Abby tivesse a maturidade necessária para sua empreitada, leia o diário da viagem (www.soloround.blogspot.com) -sobretudo as notas de Abby durante a interminável navegação no Atlântico Sul.
Os que censuram os pais de Abby afirmam que nunca autorizariam seus rebentos a velejar sozinhos ao redor do mundo porque, aos tais rebentos, falta seriedade e falta experiência. Eles devem ter razão -afinal, eles conhecem seus filhos. Mas cabe perguntar: essa falta de seriedade e experiência é efeito de quê? Da simples juventude? Duvido: La Pérouse, o navegador francês, aos 17 anos, em 1758, já estava combatendo os ingleses ao largo de Terra Nova. Então, efeito de quê?
Pois é, provavelmente, os mesmos pais que se indignam com a "irresponsabilidade" dos genitores de Abby permitem a seus filhos, mais jovens que Abby, de sair em baladas nas quais os únicos adultos são os que vendem drogas e bebidas.
Será que a volta para casa de madrugada, num carro dirigido por amigos exaustos, exaltados ou sonolentos, é menos perigosa do que a circum-navegação do mundo num veleiro pilotado por Abby, animada há anos por um desejo intenso e focado? E, de qualquer forma, qual das duas experiências você prefere para seus filhos?
O fato é que muitos pais preferem que os filhos errem como baratas tontas, de festinha em festinha. Por quê? Simples: assim, os filhos ficam infinitamente mais dependentes.
E os pais modernos, em regra, querem os filhos por perto; eles adoram que os filhos demonstrem que eles não são suficientemente maduros para sair pelo mundo e para correr os riscos que o desejo acarreta.
Não deveríamos nos perguntar qual é a loucura dos pais que empurraram Zac, Abby e Michael mar adentro, mas qual é a loucura dos pais que preferem largar seus filhos nas noites, em que vodca, cerveja, maconha, ecstasy e papo furado servem para convencer os próprios adolescentes de que ainda não começaram a viver e, portanto, vão precisar dos adultos por muito tempo.
Comentando a aventura de Abby, um pai me disse: "Nunca deixaria minha filha navegar sozinha, eu não quero perdê-la". Pois é, "não quero perdê-la" em que sentido?
PS: (Elianne) Onde está a Abby? Aqui
terça-feira, junho 15, 2010
segunda-feira, junho 14, 2010
Contardo Calligaris- O corpo masculino
Alguém que pensa o corpo masculino.
O que é um corpo masculino desejado?
Contardo Calligaris- Confessionário
Contardo Calligaris em seu consultório, no bairro paulistano dos Jardins.
Perto do divã, mantém a imagem de São Felipe que herdou do pai
O psicanalista é autor da peça “O Homem da Tarja Preta”
Por Armando Antenore da Bravo
Quer graça pode haver num ovo de galinha? Praticamente nenhuma, se quem o observa já perdeu o ímpeto de maravilhar-se com as banalidades do mundo. Mas, para crianças de 4 ou 5 anos, um ovo agrega mistérios que tirariam o sono dos filósofos. Como a natureza cismou de aninhar, em uma elipse tão despojada e frágil, um chumaço de plumas que, mais dia, menos dia, se transformará num galo altivo e musculoso? Sob os olhos tenros da infância, clara e gema são perguntas. Por isso, quando a empregada que trabalhava naquele pequeno sobrado de Milão colocou um trio de ovos prenhes diante de Contardo, o menino não conseguiu disfarçar a inquietude — um alvoroço que desaguou em assombro mal as cascas se romperam e desnudaram três pintinhos assustadiços. Um dos filhotes tinha a penugem marrom, com uma tonalidade semelhante à da nocciola (avelã). Contardo o batizou de Nocciolino. O segundo, muito branco, lembrava um picolé de limão. Virou Limontino. É certo que o terceiro também ostentava uma cor e um nome. O tempo, no entanto, se encarregou de apagá-los, talvez pelo impiedoso prazer de reiterar que, cedo ou tarde, nada fugirá do esquecimento. Poucas semanas depois de os ovos se quebrarem, Nocciolino & cia. teimavam em seguir Contardo para cima e para baixo. Marchavam perfilados atrás dele e, durante o trajeto, não cessavam de piar. Na ocasião, início da década de 1950, o garoto dividia o sobrado milanês com os pais e Bernardino, o primogênito da família. Os dois irmãos guardavam alguma distância um do outro, em razão de uma tênue rivalidade que se agravaria no futuro (disputa inconsciente pela atenção materna?). Não à toa, o caçula aplaudiu a chegada dos novos amigos. Julgou que as aves o acompanhassem por afeição. Lógico que ainda desconhecia as pesquisas revolucionárias de Konrad Lorenz. Em 1935, o zoólogo austríaco demonstrou que patos, gansos e pintinhos, tão logo abandonam os ovos, adotam como "mãe" o primeiro animal que avistam, seja um gavião, uma tartaruga ou um leopardo, e só o largam depois de adultos. Não se comportam assim por convicção nem por gosto, mas por uma tragicômica ilusão. — Um dia os Calligaris saíram do sobradinho com galinheiro no quintal e se mudaram para um apartamento espaçoso. Contardo, agora beirando os 7 anos, possivelmente sentiu falta do cortejo alado e barulhento que liderava. Tratou, então, de arranjar uma orquestra imaginária, meia dúzia de músicos dispostos em fila indiana e amarrados numa única corda. O moleque puxava-os pela rua ou dentro do apartamento e, não raro, sugeria que tocassem: uma sonata, um bom jazz, o trecho de uma ópera. Solícitos, os rapazes sempre o acatavam, enchendo-lhe o cotidiano de uma trilha sonora inexistente.
Detesta torcidas de futebol, cerimônias religiosas que hipnotizam multidões, discursos populistas e qualquer manifestação que se apoie no regozijo coletivo. Teme o coro em uníssono das massas. Acredita que um jovem, perambulando de madrugada pelas praças de Brasília, dificilmente botaria fogo num índio adormecido. Mas se o mesmo jovem encontrasse outros quatro, se os cinco comungassem umas cervejas, se trocassem opiniões preconceituosas à mesa do bar, se concluíssem que a noite pedia uma farra homérica, poderiam reunir coragem para praticar juntos uma atrocidade que não cometeriam sozinhos. — Por preferir os peixes sem cardume, adquiriu um inusitado cacoete de linguagem: expressar-se no contrafluxo. Quando ouve um comentário que o satisfaz, revela o agrado primeiro com uma ou duas negações: "Não, não. Eu concordo". É como se necessitasse avisar aos interlocutores que, de antemão, rejeita os consensos. É como se depositasse eternamente uma oferenda no altar das adversativas: "Eu concordo. Entretanto...". — Ainda não se apaziguou com o próprio berço, a Itália. O fascismo, impossível varrer da memória, floresceu por lá. E tudo graças à cegueira de indivíduos que, em grupo, pensavam enxergar mais longe. Seu querido pai, Giuseppe, um cardiologista, não engrossou o rebanho de Mussolini. Participou da Resistência e pagou caro pelo atrevimento. Perseguido, teve de se esconder nas montanhas. Contardo nasceu depois do calvário, em maio de 1948. Mesmo assim, nunca absolveu plenamente a pátria que desejou matar Giuseppe. — Passou por diversos lugares (Inglaterra, Suíça, França, EUA) até ancorar no Brasil. Antes de ler o italiano, alfabetizou-se em inglês. Já na lição inaugural, aprendeu uma palavra tão complicada quanto incomum: platypus (ornitorrinco), justamente o mamífero com bico que não sabe direito de onde é, se da água, da terra ou do céu.
O nome Contardo, de origem germânica, quer dizer "cachorro duro, aguerrido". Lutador de boxe na juventude, o psicanalista se identifica com o significado. Reconhece que, de fato, possui algo de "cachorrão". Quando morde, não faz questão de soltar. Cultiva ódios e inimizades sem nenhuma culpa. — No consultório paulistano em que atende, mantém o pai perto do divã. Ou melhor: conserva ali uma imagem de São Felipe, espanhola, que herdou de Giuseppe. O santo de madeira segura uma corrente com a mão esquerda. E a corrente aprisiona Satanás. Para Contardo, trata-se de um símbolo perfeito daquilo que a psicanálise almeja: arrancar nossos demônios dos porões e preservá-los sempre à vista, mas sob estratégico controle.
domingo, junho 13, 2010
Ainda é preciso ler Freud?

Revista Cult »
Fernando Aguiar
Fora do círculo familiar, os 50 anos de Freud foram festejados apenas pelo pequeno grupo de psicanalistas vienenses que se reuniam em sua casa todas as quartas-feiras desde o outono de 1902. A ocasião era propícia a comemorações: não sendo mais o único analista, sua psicanálise já ultrapassara os limites de Viena – a conquista dos “arianos” de Zurique neutralizara a vil acusação de “ciência judia”. Vivia-se a fase áurea da clínica psicanalítica e, em termos de publicações de fôlego, jamais haveria para Freud ano igual ao anterior (1905). Além do livro sobre os chistes e do “Caso Dora”, houve os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, com o qual ele adicionara ao discurso do desejo (1900) o discurso da pulsão, definindo categoricamente os dois eixos centrais de sua investigação metapsicológica.
Como presente de aniversário, os alunos ofereceram-lhe um medalhão, realizado pelo escultor K. M. Schwerdtner. Sobre uma face, fora gravado o perfil de Freud, e sobre a outra, a cena de Édipo em frente à Esfinge. Em volta do desenho, um verso de Édipo Rei: “Aquele que resolveu o famoso enigma e que foi um homem de enorme poder”. Lendo a inscrição, Freud teria empalidecido: “Parecia ter visto um fantasma”, escreveu E. Jones. Depois de P. Federn admitir ser o autor da escolha da citação, Freud, agitado, contou que, quando jovem estudante de medicina na Universidade de Viena, costumava olhar os bustos dos antigos professores, imaginando que um dia poderia estar entre eles: o seu traria exatamente a mesma citação de Sófocles inscrita no medalhão com o qual acabava de ser honrado.
A posição de marginalidade e ruptura da psicanálise
Desse episódio, apenas a segunda parte do sonho diurno de Freud materializou-se: afinal, como o Édipo da mitologia, ele decifrou, no plano da cultura, o próprio enigma edipiano, adentrando os mistérios da sexualidade humana. Quanto a figurar entre pares, nem seria o caso, pois de fato jamais fora médico; foi um psicanalista e um magnífico professor. Mas, na Universidade de Viena, seu estatuto não passou de um professor extraordinarius, que, no regime acadêmico da época, designava quem se encarregava de cursos que não constavam do currículo oficial obrigatório.
Esse caráter marginal permanece também o destino da psicanálise, e mesmo seu grande trunfo ou talvez condição de sobrevivência. Na academia, em particular, a psicanálise não deve estar no centro de uma formação, mas exterior aos outros domínios. O próprio Freud assumia uma incompatibilidade com toda sorte de “existência oficial” e demandava “independência em todas as direções”. O professor francês Jean Laplanche afirma que o analista [e a psicanálise] nasce e desenvolve-se apenas na marginalidade e na ruptura, e não pode garantir-se senão preservando todo um jogo de extraterritorialidades, em todos os níveis: marginalidade do tratamento em relação às instâncias da vida cotidiana, da análise pessoal em relação aos requisitos das sociedades de analistas, do exercício da análise em relação às profissões reconhecidas (médico ou psicólogo), das instituições analíticas em relação às instituições e aos reconhecimentos oficiais etc. “Como analistas, como pesquisadores e como universitários, afirmamos (…) que a experiência analítica constitui um campo epistemológico específico e autônomo”. A contrapartida é que ela não seja propriedade privada de um indivíduo ou de uma instituição.
É que ao fim e ao cabo, como teoria do inconsciente, a psicanálise acabaria por se tornar indispensável para todas as ciências que se ocupam da gênese da civilização humana e de suas grandes instituições como a arte, a religião ou a ordem social. “Creio ter introduzido alguma coisa que ocupará constantemente os homens”, escreveu Freud a Binswanger, em 1911.
Não há qualquer anseio imperialista na pretensão freudiana. Se a disciplina por ele fundada deve interessar à psicologia, às ciências da linguagem, à filosofia, à biologia, à história da civilização, à estética, à sociologia e à pedagogia, isso não faz mais do que prolongar o movimento mesmo de seu próprio pensamento, “interessado” em todas essas disciplinas, conforme nos explica S. Mijolla-Mellor (Recherches en Psychanalise, 2004). Desse ponto de vista, antes de interessar a outros campos do saber ou da cultura, é a própria psicanálise que tem interesse nesses campos, sendo eles parte constitutiva dela própria. Quanto ao interesse das outras disciplinas pela psicanálise, é certo que tal movimento não elimina o fato da resistência – e esta diz respeito à vexação psicológica dos homens diante de seus desejos inconscientes tais como apontados pela invenção freudiana. Na fundação da Associação Psicanalítica Internacional, em 1910, Freud anunciou aos colegas: “Os indivíduos aos quais fazemos descobrir o que recalcam experimentam hostilidade a nosso respeito; não podemos esperar uma amabilidade simpática da sociedade para com aqueles que desvelam impiedosamente seus defeitos e insuficiências”. Em carta a Arthur Schnitzler, ainda escreveria que a psicanálise não é “um meio de se fazer amar”.
Devemos esperar, por isso, de tempos em tempos, vilanias tais como a infame e medíocre compilação de críticas publicada na França, em 2005, com o nome de O Livro Negro da Psicanálise, no qual Freud é tratado como falsário, trapaceiro e mentiroso (tal como faz agora, em 2010, Michel Onfray em O Crepúsculo de um Ídolo: a Fabulação Freudiana). Costuma-se aproveitar essas ocasiões para mais uma vez se falar em “crise da psicanálise”, o que Jacques Lacan (1901-1981), já em 1974, refuta com vigor, em termos definitivos: “A crise (…) não existe (…).” A psicanálise ainda não encontrou seus próprios limites. Há muito que descobrir na prática e no conhecimento. Em psicanálise não há solução imediata, mas apenas a longa e paciente busca das razões”. Além disso, há Freud, arremata Lacan, “que ainda não compreendemos inteiramente”.
sábado, junho 12, 2010
Por que estes homens choram?
Muitos homens se reconhecerão neste vídeo. E, nós mulheres, pensaremos sobre o lugar do homem no mundo atual. O feminismo deu espaço para que papéis fossem redefinidos. É isto que o diretor pretende mostrar. Vivemos num mundo preconceituoso, onde o que difere sofre em todos os espaços- familiar, inclusive, sabemos- não é novo. o que é novo aqui é a forma comovente como estes homens se expõem. Lindo filme.
quinta-feira, junho 10, 2010
Contardo Calligaris: O direito de buscar a felicidade
O direito de buscar a felicidade
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Não posso exigir que, para eu ser feliz, todos procurem a mesma felicidade que eu busco
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O artigo sexto da Constituição Federal declara que "são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".
O Movimento Mais Feliz promove uma emenda constitucional pela qual o artigo seria modificado da seguinte forma: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde etc." (segue inalterado até o fim).
É claro que, se eu dispuser de casa, emprego, assistência médica, segurança, terei mais tempo e energia para buscar minha felicidade. No entanto o respeito a esses direitos sociais básicos não garante a felicidade de ninguém; como se diz, ter comida e roupa lavada é bom e ajuda, mas não é condição suficiente nem absolutamente necessária para a busca da felicidade.
Em suma, implico um pouco com o adjetivo "essencial" no texto da emenda, mas, fora isso, gosto da iniciativa porque, como a Declaração de Independência dos EUA, ela situa a busca da felicidade como um direito do indivíduo, anterior a todos os direitos sociais.
Por que a busca da felicidade não seria apenas mais um direito social na lista? Simples.
A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.
Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.
Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: minha busca não pode impedir os outros de procurar a felicidade que eles bem entendem. Por isso, obviamente, por mais que eu pense que isto me faria muito feliz, não posso dirigir bêbado, assaltar bancos ou escutar música alta depois da meia-noite. Por isso também não posso exigir que, para eu ser feliz, todos busquem a mesma felicidade que eu busco.
Por exemplo, você procura ser feliz num casamento indissolúvel diante de Deus e dos homens. A sociedade deve permitir que você se case, na sua igreja, e nunca se divorcie. Mas, se, para ser feliz, você exigir que todos os casamentos sejam indissolúveis, você não será fundamentalmente diferente de quem, para ser feliz, quer estuprar, assaltar ou dirigir bêbado.
Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.
Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto -por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.
Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?
Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?
Enfim, introduzir na Constituição Federal a busca da felicidade como direito do indivíduo, aquém e acima de todos os direitos sociais, é um gesto de liberdade, quase um ato de resistência.
No Twitter: aqui.
quarta-feira, junho 09, 2010
Jacques Lacan falou. Por quê?
Jacques Lacan falou. Por quê?*
Para descobrir, devemos ouvir aqueles que, depois de sua morte, falam menos dele do que de sua própria posição em relação a ele? Este não é o caminho certo.
É preciso lembrar quem ele era. Ele era um homem, um homem que procura a verdade, que descobriu o caminho para a pesquisa pela palavra.
HUMANOS (ou seria O Homem?)
Para descobrir, devemos ouvir aqueles que, depois de sua morte, falam menos dele do que de sua própria posição em relação a ele? Este não é o caminho certo.
É preciso lembrar quem ele era. Ele era um homem, um homem que procura a verdade, que descobriu o caminho para a pesquisa pela palavra.
HUMANOS (ou seria O Homem?)
As ciências humanas são, provavelmente, assim chamadas porque nos enriquecem com o conhecimento sobre as várias funções do homem, ao fazer isso, permitem esconder e esquecer a nossa própria ignorância . Nossa desatenção para o fato de que cada homem é um mistério. Um mistério que permanece insondável.
Jacques Lacan é o primeiro homem atento ao homem, ainda inacessíveis à sua realidade, sua própria personalidade e cujo desejo nunca está satisfeito.
No mundo intelectual, às vezes era classificado como um psicanalista, às vezes como um filósofo ou um poeta, ou como um estruturalista, surreal, o ator ... a lista continua. Mas é acima de tudo, um homem, ele não diz que ele era humano.
Sua contribuição para a psicanálise, que é tão importante, não diz quem ele era. Pelo contrário, foi um homem único, chamado Jacques Lacan, ele poderia destacar a descoberta, inaugurada por Freud: o do inconsciente. Reforçou de tal forma que o mundo dos psicanalistas não o concedem sem emoção.
Mas o que é que o inconsciente? Ao ouvir a palavra, todos se importam de definir. O que revela tal preocupação? Na maioria das vezes indica, menos a busca de clareza, que o vazamento de um mistério que inquieta e, no entanto, caracteriza a vida psíquica em sua realidade.
O inconsciente é um desafio a qualquer definição, isso significa o próprio homem nesta dimensão do mistério que não dá nenhuma vantagem para a sua consciência.
Falar com o homem do inconsciente, lembrando-lhe que se aplica a esquecer, é a economia do presente esquecendo que tudo é organizado para promover no final do século XX. Ele lembrou que o centro também é em si mesmo. Ele descobriu que a estrada adiante não é o que Descartes foi inaugurou.
"Penso, logo existo. "
Esta dedução é baseada em Descartes vai permitir-lhe compreender o que "eu estava pensando?" Lacan respondeu: "Eu não sou o que penso." As molas da verdade, portanto, formuladas a partir da descoberta do inconsciente, ou seja, o próprio homem.O reconhecimento do inconsciente permite que os homens tenham acesso à sua realidade.
Essa relação suscita uma busca: a busca da verdade sobre o Outro e, inseparavelmente, a verdade sobre o homem, constituído por sua relação com o Outro.
Continua...
*Sermon prononcé par Marc-François Lacan, moine bénédictin, à la mémoire de son frère, le 10 septembre 1981 en l’église Saint Pierre du Gros Caillou.
segunda-feira, junho 07, 2010
Por que ele queria ser menina?
Um filme imperdível: "Ma vi en rose".
A estória de um menino de 7 anos que deseja ser menina. O conflito dos pais, o preconceito de amigos e vizinhos, e ele achando que era a coisa mais natural do mundo o seu sonho.
Muito bom. Incrível a atuação do menino. Bem dirigido, ótimos atores. Um filme que todos deveriam ver, até porque a gente nunca sabe se um dia iremos nos deparar com esta situação. Lembro de clientes gays que me diziam que desde os sete anos desejavam homens. É vero. É filme com categoria comédia, mas é mais do que isto- leva a refletir.
Por que ele queria ser menina? O que o levou a isto? O pai meio omisso? A identificação com as figuras femininas? A mãe extremamente sedutora? A mãe que desqualifica a figura do pai? Um fator genético?
Não temos resposta. Vejam e digam o que acham.
Ficha técnica aqui.
quinta-feira, junho 03, 2010
Contardo Calligaris- Conselho para escolher carreira
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Você pode mudar de faculdade e de carreira, e essas mudanças não são a prova de fracasso algum
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A escola pública italiana impunha uma aula semanal de religião (católica, claro). Na terceira série, aprendi que, para me tornar sacerdote, seria imprescindível que eu tivesse "a vocação" (com o artigo definido).
Em princípio, essa condição facilitava as coisas: afinal, ou eu era chamado por Deus ou não era. No entanto, Deus não chama a gente por carta registrada.
Era possível, eu pensava, que ele se manifestasse por sinais misteriosos, que eu não entenderia, ou pior, que eu evitaria entender -talvez porque preferisse perseguir ambições mais mundanas ou porque meus pais não gostassem da ideia de ter um filho padre.
Seja como for, se eu recebesse, mas não escutasse a chamada, não estaria apenas fazendo pouco caso da vontade divina: eu estaria fugindo de meu destino, seria culpado de desperdiçar minha vida.
Na quarta e quinta séries, foi a vez de o Estado se preocupar com nossas vocações. Naquela época, era necessário escolher muito cedo entre o clássico, o científico e os cursos técnicos que levavam diretamente para o trabalho, sem dar acesso para as faculdades.
Tratava-se, portanto, de saber se tínhamos jeito para as humanas ou para as exatas e, em cada caso, qual era o tamanho do nosso jeito. Uma casa caiu, sepultando seus moradores; seu primeiro pensamento é "se Deus existe, por que ele permite tamanho sofrimento?"; pois bem, as humanas são sua vocação.
Restava verificar, com outros testes, se você tinha pano suficiente para ser professor de filosofia ou se era melhor que você se contentasse em ser repetidor no primário.
De fato, a orientação profissional precoce eternizava a divisão social (nunca vi um aluno de classe média-alta ser encaminhado para cursos técnicos). Mas a intenção era nobre: descobrir qual era a semente escondida em cada um de nós.
Detectando o embrião de nossas aptidões e disposições, poderíamos agir de maneira que a vida realizasse plenamente o nosso potencial.
A partir dos anos 60, em grande parte graças à influência da psicologia de Alfred Adler, ficou claro que, na hora de escolher uma carreira, os talentos e as predisposições são tão importantes quanto os sonhos, os devaneios, as paixões e as imagens idealizadas de tal ou tal outra profissão que encontramos, por exemplo, nas ficções que nos marcam.
O medo de não escutar a chamada divina foi substituído pelo medo de não entender direito nosso próprio desejo -pois seríamos competentes, "realizados" e felizes só se nossa profissão for uma extensão de nossas paixões íntimas. Nesse caso, o trabalho seria leve e divertido, como um hobby.
Em suma, a semente que estaria em nós e que deveria vingar se tornou mais complexa. Mas a ideia de que existe uma semente que é preciso descobrir continuou valendo e preocupando pais e filhos.
Uma leitora, Cecília, me escreve sobre as inquietudes da filha, Luana, 16, na hora de escolher uma carreira que esteja "em consonância com a personalidade, o temperamento, o querer" de Luana e também "com o mercado do trabalho".
Uma sugestão para Luana. Entendo que a escolha de um vestibular, de uma faculdade e, em última instância, de uma profissão, pareça um ato definitivo, mas não é nada disso.
Você pode mudar de faculdade e de carreira; pode cursar um ano de direito, escolher passar para ciências sociais, decidir que o que você realmente quer é biologia e, quem sabe, cursar medicina aos 35 anos. Menos óbvio e mais importante é entender que essas mudanças não seriam a prova de fracasso algum.
Se você mudar de faculdade ou carreira, não será porque você se enganou na tentativa de descobrir qual era a semente que você carregava consigo.
Aliás, esqueça a ideia da semente. Ser jovem não é ser semente; é ser, antes de mais nada, uma narrativa aberta. Imagine que você é o começo de uma história: havia uma moça de 16 anos que gostava dos Beatles e dos Rolling Stones e, um belo dia, ela saiu para fazer sua inscrição no vestibular... Continue. E lembre-se de que uma boa história tem reviravoltas e surpresas.
Em poucas palavras, em vez de tentar descobrir a famosa semente, invente sua vida.
Daqui da Folha.
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