“Nossa atitude insincera perante à morte torna a vida insípida e vazia”: Freud e nossa atitude diante da morte
Esse texto é poderoso não só porque é um ensaio do grande médico e fundador da Psicanálise
Sigmund Freud (1956-1939) sobre o modo “evitacionista” (sic) como nossa cultura aborda a
morte, mas porque aponta como essa cultura, que mantemos até hoje – talvez piorada, acaba por tornar a vida de muitos de nós
medíocre, insípida e vazia. O ensaio intitulado “
A Nossa Atitude Diante da Morte” foi escrito em
1915
(quase 100 anos atrás) e apesar de ser protagonizado pelo tema da
guerra, no trecho específico transcrito abaixo se amplia para muito além
dela, eu diria para os dias de hoje, talvez até mais do que para os de
ontem. Não tomar a morte como real cria uma percepção afetada da vida,
ou como diria o grande poeta e filósofo português:
“O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”.
~ Fernando Pessoa
O que acontece com uma morte que não se vê ou não se toma por real é uma vida que não se vive. Nas palavras do próprio Freud: “
Resta então apenas procurar no mundo da ficção, na literatura, no teatro, a compensação do que na vida minguou“.
Será que não é isso que buscamos na farta cultura ocidental de
entretenimento e diversão onde tantos se aventuram, arriscam, matam,
morrem, perdem tudo, ganham tudo, se transformam, etc? “
No campo da ficção, deparamos com a pluralidade de vidas de que necessitamos“, continua Freud. “Aí encontramos homens que sabem morrer, mais ainda, que conseguem também matar os outros”.
OBS: É interessante como esse trecho abaixo está em consonância com outra visão, a do lama tibetano
Sogyal Rinpoche, mestre de outra vertente de conhecimento e de outro hemisfério do planeta, n”
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer“, onde ele expressa a mesma percepção da maneira como os ocidentais tratam a realidade da morte. Veja no post “
O grave problema de ignorar ou negar o significado da morte, por Sogyal Rinpoche“, publicado aqui em 2011.
O ensaio completo de Freud pode ser encontrado em português nos
livros “Obras Psicológicas Completas”, Sigmund Freud (2010), “Porquê a
Guerra?”, Sigmund Freud (1997), e “Escritos Sobre a Guerra e a Morte”,
Sigmund Freud (2009).
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“A NOSSA ATITUDE DIANTE DA MORTE” [Ensaio]
Por Sigmund Freud
(…) O segundo factor de que deduzo que hoje nos sentimos
desorientados neste mundo, antes tão belo e familiar, é a perturbação da
atitude, até agora imutável, perante a morte.
Esta atitude não era sincera. Se alguém nos escutasse, estaríamos
naturalmente dispostos a afirmar que a morte era o desenlace necessário
de toda a vida, que cada um de nós estava em dívida de morte para com a
Natureza e deveria estar preparado para pagar tal dívida, em suma, que a
morte era natural, indiscutível e inevitável. Na realidade, porém,
costumávamos comportar-nos como se fosse de outro modo. Temos uma
tendência patente a prescindir da morte, a eliminá-la da vida. Tentámos
silenciá-la; temos até o provérbio: pensamos em algo como na morte. Como
na própria, claro está! A morte própria é, pois, inimaginável, e
quantas vezes o tentamos pudemos observar que, em rigor, permanecemos
sempre como espectadores. Assim, foi possível arriscar na escola
psicanalítica esta asserção: no fundo, ninguém acredita na sua própria
morte ou, o que é a mesma coisa, no inconsciente, cada qual está
convencido da sua imortalidade.
No tocante à morte dos outros, o homem civilizado evitará
cuidadosamente falar de tal possibilidade, quando o destinado a morrer o
possa ouvir. Só as crianças infringem esta restrição; ameaçam-se sem
pejo umas às outras com as probabilidades de morrer e chegam, inclusive,
a dizer na cara de uma pessoa amada coisas como esta: «Querida mamã,
quando morreres, farei isto ou aquilo.» O adulto civilizado não admitirá
de bom grado nos seus pensamentos a morte de outra pessoa, sem aparecer
aos seus próprios olhos como insensível ou mau; a não ser que como
médico, advogado, etc., tenha a ver com a morte. E muito menos se
permitirá pensar na morte de outro quando a tal acontecimento está
ligado um ganho de liberdade, de fortuna ou de posição social.
Naturalmente, esta nossa delicadeza não evita as mortes, mas quando
estas acontecem, sentimonos sempre profundamente comovidos e como que
abalados nas nossas expectações. Acentuamos com regularidade a motivação
casual da morte o acidente, a enfermidade, a infecção, a idade
avançada, e traímos assim o nosso empenho em rebaixar a morte de
necessidade a casualidade. Uma acumulação de casos mortais
afigura-se-nos como algo de sobremaneira horrível. Diante do próprio
morto adoptamos um comportamento peculiar, quase como de admiração por
alguém que levou a cabo algo de muito difícil. Excluímos a crítica a seu
respeito, fazemos vista grossa sobre qualquer injustiça sua,
determinamos que de mortuis nil nisi bene (dos mortos apenas se diz
bem), e achamos justificado que na oração fúnebre e na inscrição
sepulcral ele seja honrado e exaltado. A consideração para com o morto,
de 2 que ele já não precisa, está para nós acima da verdade, e para a
maioria de nós, decerto também, acima da consideração para com os vivos.
Esta atitude convencional da nossa civilização perante a morte é
complementada pelo nosso total colapso quando a morte feriu uma pessoa
que nos é muito chegada, o pai ou a mãe, o esposo ou a esposa, um filho,
um irmão ou um amigo querido. Enterramos com ele as nossas esperanças
as nossas aspirações e os nossos gozos, não queremos consolar-nos e
recusamo-nos a toda a substituição do ente querido. Comportamo-nos então
como os ‘Asras’, que morrem quando morrem os que eles amam.
Esta nossa atitude face à morte exerce, porém, uma poderosa
influência na nossa vida. A vida empobrece-se, perde interesse, quando a
aposta máxima no jogo da vida, ou seja a própria vida, se não tem de
arriscar. Torna-se tão insípida vazia, como porventura um flirt
americano, no qual se sabe de antemão que nada pode acontecer,
diferentemente de uma relação amorosa continental em que ambos os
parceiros devem ter sempre presente a possibilidade de graves
consequências. Os nossos laços sentimentais, a intensidade intolerável
da nossa pena levam a desviar-nos dos perigos para nós e para os nossos.
Não nos atrevemos a ter em conta uma série inteira de empreendimentos
que são perigosos, mas inevitáveis, como as tentativas dos aviadores, as
expedições a terras longínquas, as experiências com substâncias
explosivas. Paralisa-nos o escrúpulo de quem substituirá o filho ao lado
da mãe, o homem ao lado da mulher, o pai junto dos filhos, se suceder
alguma desgraça. A tendência para excluir a morte da conta da vida traz
consigo muitas outras renúncias e exclusões. E, todavia, o lema da
Confederação hanseática reza assim:
Navigare necesse est, vivere non necesse! Necessário é navegar, não viver!
Resta então apenas procurar no mundo da ficção, na literatura, no
teatro, a compensação do que na vida minguou. Aí encontramos homens que
sabem morrer, mais ainda, que conseguem também matar os outros. Só aí se
realiza também a condição sob a qual poderíamos reconciliar-nos com a
morte, a saber, a de que por trás de todas as vicissitudes da vida nos
ficou ainda uma vida intangível. É demasiado triste que na vida venha a
suceder como no xadrez, onde uma falsa jogada nos pode forçar a dar por
perdida a partida, mas com a diferença de que já não podemos começar uma
segunda partida de desforra. No campo da ficção, deparamos com a
pluralidade de vidas de que necessitamos. Morremos na identificação com
um herói, mas sobrevivemos-lhe e estamos dispostos a morrer outra vez,
igualmente indemnes, com outro herói.”
(…)
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