quarta-feira, junho 15, 2011

Esperança




Este vídeo é parte de um filme sobre Milton Santos. A primeira vez que vi e ouvi este homem falando fiquei encantada. Tudo que ele diz bate com que eu penso sobre cidades, sobre consumo, sobre os homens migrantes. Vejam o vídeo- é um homem que nos orgulhou pelo mundo afora- foi reconhecido como um grande pensador na sua área.

terça-feira, junho 14, 2011

Por que o adolescente sofre?




Por que o adolescente sofre?


O adolescente passa por uma fase de grandes perdas- lutos.


Todos sabemos que o adolescente é tido como difícil, rebelde. Falamos do adolescente como o cara complicado, desagradável, do contra, de humor variável- pode rir num minuto, no outro chorar.
É a fase das mudanças hormonais que fazem mudar a voz, o corpo se transformar, deixar de ser criança.

Mas o que acontece com o adolescente? Poucos se importam.

Os pais se queixam, os professores reclamam...

O que se passa com eles poucos prestam atenção. Ele anda trancado no quarto, no banheiro, fora de casa o dia todo...
Talvez o desconforto que sinta o faça se isolar ou buscar grupos onde se identifique.


O adolescente passa por uma fase de grandes perdas- lutos.

Perde os pais infantis.
Aqueles pais que cuidavam dele com carinho, deixam-no muito solto, sem atenção, na maior parte das vezes, é ele quem tem que cuidar de si. E é difícil, a vida vira um caos, esquece compromissos, perde chaves, come o que é mais fácil...

Perde o corpo infantil.
Rapidamente seu corpo muda, pelos crescem, formas se delineiam, não é nem adulto nem criança. Ele percebe as mudanças acontecendo e sente-se impotente- cresce, desenvolve-se: “Até onde?”, pensa.

Perde a identidade infantil.
Neste processo muitas vezes se volta contra os pais- que foram as figuras mais importantes e com as quais se identificou. Precisa afastar- se para ser ele mesmo, o que causa estranheza - passa a questioná-los, ser do contra. O pai deixa de ser o super herói, a mãe deixa de ser a mãe maravilhosa e linda. É o processo de desmitificação dos pais.

A sexualidade torna-se premente- há mais desejo- e um mundo de descobertas. Há quase sempre muita insegurança. O que fazer com o corpo sexualizado pronto para compartir prazeres? É preciso ter um par. É aqui que aparecem os maiores conflitos com os pais pela dificuldade que têm em aceitar que os filhos cresceram e têm sexualidade. Os pais querem controlar o que não é possível.

Perde o mundo infantil.
Onde havia proteção e não sente que haja espaços para ele: para algumas coisas ainda é criança, para outras já é tido como adulto. Quantos de nós dissemos: “Você não tem ainda idade para isso!”. Ou: “Você já está bem grandinho para isso.”
Perde dos jogos infantis.
Nesta fase ele não pode mais brincar como na infância. A menina precisa abandonar as bonecas. O menino brincadeiras próprias da infância.

O jovem vive na expectativa de que algo venha a acontecer e ele não sabe o que virá.
Tudo gera conflito e angústia.
Mas será que todos vivem a adolescência? Alguns precisam trabalhar desde muito cedo, outros são pais ou mães muito jovens, passam por estas mudanças sem terem possibilidade de entrar em crise. Sem terem tempo para sentir intensamente o que ocorre.

É bom lembrar que os pais vivem o mesmo processo de luto: enquanto o adolescente sofre com o crescimento e mudanças- que o impelem para o mundo fora de casa- os pais sofrem por perderem o controle do filho, por sentirem-se menos amados diante de tantas críticas, por perceberem que a vida escorre diante deles- enquanto o jovem tem tudo pela frente, muitos pais sentem-se frustrados e infelizes com suas escolhas.

Por que o sofrimento? Porque toda mudança provoca alguma crise.

É preciso aprender, neste momento rico, e renovar-se- há tempo para pais e filhos.

sábado, maio 28, 2011

Uma ótima notícia!


De Miguel Nicolelis em primeira mão, via Twitter(www.twitter.com/miguelnicolelis):

@MiguelNicolelis
Vamos completar o ciclo educacional: do utero materno ate a pos-graduacao! Inovacao Made in Macaiba!

MiguelNicolelis
Em primeira mao: Cidade do Cerebro do RN tera a sua propria Universidade. Dentro dela estara o Northeast Institute of Technology!

MiguelNicolelis
E tambem o Advanced Studies Institute que rebera o mais veloz supercomputador do hemisferio sul.
Il y a 4 heures Favori Annuler le retweet Répondre
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quarta-feira, maio 25, 2011

Sonho ou pesadelo?


Quem tem medo de seus desejos?
Alguém me enviou depois de ler o artigo do Calligaris.
O que fazer quando o que desejamos acontece? Seria um pesadelo? O que desejar além?
Pois é... que nossos desejos se realizem e tenhamos novos desejos e projetos.

"Women In Art"



O video mais bonito que eu vi no virtual. Há outros lindos também, mas este.

terça-feira, maio 10, 2011

Séraphine de Senlis, o filme



Este filme é maravilhoso. Conta a história de uma mulher simples,
que trabalhou muitos anos para um marchand e que vira pintora.
Os quadros dela são belíssimos.
Séraphine era solitária, vivia para a pintura, não tinha vidda social.
Vejam o filme. Vale a pena-é comovente e bonito.
E, como muitas das mulheres talentosas do início do século, ela tem um fim muito triste.
A atriz é extraordinária, a gente esquece que é uma representação- está perfeita o papel.

Aqui vocês vêm mais trabalhos de Séraphine. Lembram os de Beatriz Milhazes, não acham?
Prefiro mil vezes os de Séraphine, têm alma.

segunda-feira, maio 09, 2011

Os artigos do Contardo e este blog

Algumas decisões são difíceis serem tomadas, demoramos a elaborá-las.

Há anos eu posto os artigos do Contardo Calligaris- desde 2005- alguns de vocês sabem disto. Desde o outro blog, foi o primeiro texto que coloquei no meu blog pessoal- eu tenho grande admiração pelo articulista, todos sabem, eu o leio desde o século passado :) - é verdade, eu assinava a Folha. Em 2004 passamos a nos falar por e-mail.

Bom, este blog eu criei com intenção de conversar com as pessoas, discutir temas que nos interessassem, no início foi assim- quem tiver curiosidade poderá ler os primeiros posts.

Com o tempo, minha atenção se desviou para a literatura e investi mais, por prazer, nos meus escritos literários. Penso em me apossar novamente deste espaço. Deixei que os textos do Contardo o invadissem- é hora de mudar.

Só postarei agora os artigos que eu goste mais e queira dividir com todos por acreditar imperdível- alguns são muito bons e tenho grande prazer em distribuir pelo virtual- faço isso no Twitter também, vocês sabem. Mas não quero mais me sentir na obrigação de fazê-lo. Deixarei de postar aqui no TT.

Contardo está em outros espaços, não precisa mais de mim. Esta decisão está sendo digerida faz tempo, ele sabe disto.

Copiei os e-mails trocados entre nós em novembro sobre isso.

Deixo o convite para que vocês façam sugestões sobre temas que possam ser discutidos aqui.
Um abraço a todos.
Elianne

Os e-mails:

----- Original Message -----
From: eliannedabreu
To: contardo calligaris
Sent: Friday, November 19, 2010 6:38 AM
Subject: Re: artigo e @clcalligaris

Contardo, eu não quero mais fazer o @clcalligaris.
Se vc quiser continue. Te dou a senha, se preferir, eu deleto.
Vc não precisa mais de mim- vc sabe disto.
Bom, é isso. Demorei a chegar a esta decisão, mas faz tempo que penso nisto.
Um beijo, Elianne.


From: contardo calligaris
Sent: Friday, November 19, 2010 12:42 PM
To: eliannedabreu
Subject: Re: artigo e @clcalligaris

Querida,
aquele twitter é seu. Ele teve, para mim, uma função importante, como vc sabe: a de me introduzir ao twitter.
É vc que deve decidir se está na hora de mandar beijos e abraços aos seguidores e fechá-lo, contando ou não sua história...
De qualquer forma, foi ótimo ele ter existido.
beijão,
Contardo

sábado, maio 07, 2011

O caos de Kafka



Ensaio biográfico do escritor Louis Begley, recém-lançado no Brasil, explora diários, cartas e escritos que Franz Kafka queria que fossem queimados após a morte, em 1924




Medo e desejo: "O sexo vive a roer-me, persegue-me dia e noite, eu teria de vencer o medo e a vergonha e provavelmente a tristeza para satisfazê-lo"

FERNANDA MENA

DA REPORTAGEM LOCAL

Mesmo sem deixar testamento, Franz Kafka (1883-1924) escreveu ao melhor amigo Max Brod um último desejo: que ele queimasse todos os seus manuscritos, sem os ler. A fogueira deveria transformar em pó diários, cartas, textos e esboços que estivessem guardados com Kafka ou com terceiros.
Brod resolveu não seguir as instruções do amigo, e dessa desobediência surgiram dois cânones da literatura: "O Processo" e "O Castelo".
Das páginas de seus diários, cartas e anotações coletadas por Brod entre Praga e Berlim, no entanto, emergiram fragmentos de uma existência atormentada, marcada pela inadequação, por neuroses e pela doença.
São esses diários e cartas que o romancista Louis Begley destrincha para compor o ensaio biográfico "O Mundo Prodigioso que Tenho na Cabeça: Franz Kafka", recém-lançado pela Companhia das Letras.
Paradoxalmente, em entrevista à Folha, Begley revela: "Se eu fosse Brod, teria queimado [os escritos pessoais] porque, no fim das contas, eles ficam entre a literatura de Kafka e seu leitor. Obstruem o caminho, divergindo a atenção da obra para o homem".
E prossegue: "Kafka era muito escrupuloso. Queria destruir sua obra inacabada porque sabia que os escritos já publicados garantiriam sua reputação no panteão literário".
Para Begley, se por um lado Brod trouxe aos olhos do mundo escritos importantes de Kafka, por outro "seus leitores e estudiosos estariam muito bem hoje em dia se textos fracos, como "Descrição de uma Luta" e "Preparativos para um Casamento no Campo", tivessem sido queimados".
Vasculhar os arquivos da intimidade de Kafka, os mesmos que Begley diz que queimaria, foi para ele irresistível. O escritor polonês que cresceu nos EUA, autor dos romances "Sobre Schmidt" e "Naufrágio", é, assim como Kafka, judeu e doutor em direito.
A atração pelo universo kafkiano, no entanto, se deu pelo deslumbramento com os enigmas impressos em sua obra. "Quando li "O Processo", aos 15 anos, senti uma afinidade extraordinária com sua escrita.
Kafka parecia estar falando diretamente para mim. Mais: ele parecia falar só para mim." Em seu ensaio biográfico, Begley costura trechos de cartas e dos diários, enfatizando o contexto de antissemitismo que emergia na Praga onde Kafka nasceu e viveu quase toda vida.

Duplamente detestado
Tcheco que falava e escrevia em alemão, mas era judeu, Kafka era alvo dos sentimentos antissemitas e antigermânicos. "Ele era membro de uma minoria dentro de uma minoria, ou seja, ele era duplamente detestado", explica Begley. "Crescer nessa atmosfera reforçou sua percepção de ser um intruso. Digo "reforçou" porque Kafka era tão complicado que fatalmente se sentiria alienado mesmo sem ódio ao redor."
Intruso naquela sociedade, intruso em sua própria casa, onde ocupava um cômodo entre a sala e o quarto dos pais. Obcecado por silêncio, que julgava essencial a sua produção ficcional, ele era torturado pelo entra-e-sai na casa e pelo medo do pai que por ali circulava.
A hipocondria, a insônia, a vergonha do corpo, o horror à intimidade e a repulsa por carne -depois obrigado a comer para combater a tuberculose- formavam um catálogo de suplícios a que se submeteu. "A vida é meramente terrível, sinto isso como poucos", escreveu Kafka a Felice Bauer, a alemã que cortejou por cinco anos, com quem trocou 700 páginas de correspondências turbulentas antes de noivarem e, não muito depois, romperem.

Kafkiano
"A claustrofobia do mundo retratado em sua ficção espelha a de sua própria existência", avalia Begley, para quem existe apenas um "significado" na obra de Kafka, apesar de todas as teses, hipóteses e análises feitas sobre ela: é a reação que seus livros provocam no leitor.
Um "significado" concreto o suficiente a ponto de criar um adjetivo quase mítico, difundido em várias línguas: kafkiano. Para Kafka, "um livro tem que ser um machado para o mar congelado dentro de nós".
Sua vaidade e absolutismo não poderiam permitir, portanto, que suas construções ficcionais ficassem aquém desse ideal. Daí a rejeição do que representa hoje um sexto de sua obra. Aquilo mesmo que ele queria ver transformado em cinzas.

Da Folha

Bater numa criança




Bater numa criança


Bater numa criança, mesmo que seja uma palmada, será sempre um ato autoritário de alguém que está perdendo a autoridade.
Algumas pessoas pensam que batendo estão educando. Não, batendo estão subjugando o mais fraco, criando um ser hostil, que mais tarde irá bater também.
Uma criança precisa ser ouvida, respeitada, e ela só aprenderá a respeitar se for respeitada.
Converse, olhe nos olhos, sente com ela sozinha, exponha sua opinião. Não subjugue nem subestime uma criança ou um adolescente.
Ao bater se cria um elo perverso entre quem bate e quem apanha, há certo prazer nisto o que acabará levando a problemas mais sérios no futuro. Algumas vezes crianças que apanham provocam os pais para apanhar mais, isto já é estranho. “Quer apanhar mais?”: diz o pai, ou a mãe, ele quer, ele tem prazer em apanhar neste caso. Quantas vezes o pai ou a mãe só se aproxima ou vê o filho na hora que bate?
Há também a violência verbal que muitas vezes faz tanto mal quanto a física: ameaças, chantagens, frases ditas que jamais serão esquecidas. Muitas vezes uma língua ferina machuca tanto quanto um tapa ou uma correia.
Algumas crianças ou adolescentes que apanham tornam-se adultos bastante comprometidos psicologicamente.
Conversar, não na hora da raiva, conversar com calma é o melhor sempre. Tanto pais quanto educadores.
E se nada disto convence saibam que agora é lei. É proibido dar palmadas. Leiam aqui.


Elianne Diz de Abreu
Psicanalista
tel: (84)99803401/20100236

domingo, maio 01, 2011

Para comediantes, não há tabu no humor

CONTEÚDO LIVRE: Para comediantes, não há tabu no humor:

"Marcelo Madureira, do 'Casseta', diz haver exagero; para Hugo Possolo, dos Parlapatões, problema está na abordagem Atores e roteiristas se..."

Vale a pena conferir, leiam lá.

quinta-feira, março 31, 2011

"Fazer" uma doença- Contardo Calligaris






A desventura pode até ser terrível, mas console-se: se você for vítima ou culpado, você vai aparecer na foto



Vários leitores pediram que eu insistisse no mesmo tema da semana passada: por que a culpa é um de nossos jeitos preferidos para dar sentido ao mundo? Como é possível que, diante de uma desgraça, o fato de sentirmo-nos culpados constitua, para nós, uma espécie de conforto?
Todos conhecemos as expressões usuais pelas quais, por exemplo, Fulano ou Fulana podem eles mesmos admitir que "fizeram um câncer" -e não foi porque fumaram dois maços de cigarros por dia durante a vida inteira, nem porque, verão após verão, deitaram no sol para bronzear a pele, sem protetor algum. Nada disso: a expressão "fazer uma doença", em geral, indica outro tipo de responsabilidade. Mas vamos devagar.
Não é raro que a primeira reação de quem recebe um diagnóstico maligno consista em procurar uma intenção escusa da qual ele poderia ser a vítima. Envenenaram a água da cidade; o ar é repleto de resíduos daquela fábrica cuja chaminé solta fumaça a cada noite; há um dentista que tem consultório acima do meu, ninguém sabe quantos raios-x ele faz por dia, será que ele isolou sua sala do jeito certo ou será que a radiação chega até aqui?
Na mesma linha, Deus ou o diabo podem ser os mandantes de minha desgraça. Deus, porque ele quer colocar à prova minha fé, como ele já fez com Jó. O diabo, porque ele é príncipe aqui na terra e todo o mal vem dele.
Essas reações parecem ter o mesmo propósito dos delírios paranoicos: elas acusam um agente externo (Deus, o diabo ou os vizinhos) para que o mundo ganhe sentido, ou seja, no caso, para que o mal que se abate sobre a gente tenha uma explicação. "Adoeci porque alguém me quis mal": graças a essa crença, não sofro por acidente nem por acaso, mas sou vítima de uma vontade que me castiga ou me testa. O que se ganha com isso? Antes de responder, mais uma observação.
Em geral, quando temos intenções que preferimos esconder de nós mesmos, uma boa solução é atribui-las a outros. Portanto, não seria de todo estranho que a gente acusasse Deus e todo mundo por males que nós mesmos causamos.
Desse ponto de vista, reconhecer que nós somos os primeiros culpados de nossa desventura seria um progresso. Algo assim: até que, enfim, o cara se tocou, não foi Deus, não foi o demônio, nem a usina química no morro atrás da casa, foi ele mesmo que "fabricou" sua doença.
Geralmente, a explicação deste "fabricar sua doença" passa quer seja por uma poética do estouro (emoções contidas e silenciadas tiveram que se expressar e explodiram numa neoplasia), quer seja por uma poética da erosão (as mesmas emoções reprimidas foram atacando o corpo como a famosa gota que cava a pedra, não pela força, mas caindo repetidamente).
Tanto faz: o que me importa dizer é que entre acusar a Deus e todo mundo e acusar a nós mesmos não há progresso algum.
A posição de vítima (Deus, o diabo e os vizinhos me querem mal) e a posição de culpado (eu fabriquei minha doença porque meu inconsciente é meu verdadeiro inimigo), ambas são chamadas a "explicar" o mal que nos assola, porque, aparentemente, preferimos sofrer de um mal explicado a sofrer de um mal aleatório. Por que isso? Simples: tanto se eu for a vítima escolhida por Deus e pelo mundo quanto se eu for a vítima de mim mesmo, apesar de doente, eu me manterei nas luzes da ribalta.
Em suma, agimos e pensamos como se nosso sofrimento pudesse ser aliviado por uma compensação narcisista: a desventura é terrível, mas, ao menos, como vítima ou como culpado, sairei na foto. Não é uma consolação?
Talvez. Mas é uma consolação custosa, porque, nessa foto em que sou vítima ou culpado, a desventura é o que me define, o que me resume.
De fato, qualquer sofrimento seria um fardo mais leve se ele pudesse aparecer como quase sempre é: um mal sem sentido, que não faz parte de nenhum plano e não é fruto de nenhuma vontade escusa, nem da nossa.
Teste de boa saúde: estamos bem quando podemos ser atropelados sem ter que considerar que alguém tentou nos matar ou que nós mesmos nos jogamos nas rodas do caminhão, empurrados por impulsos inconfessáveis.
Um amigo querido morreu de um câncer que ele não fabricou e que não lhe foi imposto nem por Deus nem pelo diabo nem pelos vizinhos. Ele dizia: os males reais são suficientemente graves para que a gente não se esforce para lhes acrescentar mil sentidos imaginários.

terça-feira, março 15, 2011

Chegou o novo livro do cientista




O livro que Miguel Nicolelis lança agora. Primeiro nos EUA, depois aqui no Brasil em português..

Vejam aqui, é um barato, tem até música.
E o site é também além de super bem feito, alegre, abram aqui

quinta-feira, janeiro 20, 2011

O homem que voa alto






Miguel Nicolelis entrou no Twitter. É... o nosso cientista mor está lá conversando com todos, sem pedantismo, numa generosidade que acredito só pessoas raras têm. Mesquinhos não alcançam lugar de destaque.



Há anos li sobre Nicolelis, eu estava em Natal, recém chegada à cidade, e foi um sopro de esperança. Vi a foto do lugar onde seria o Instituto, torci para que desse certo. Deu. É uma alegria saber que está cada dia mais perto das estrelas. O menino cresceu olhando para o céu e desejando voar alto como Santos Dumont, que ele gosta de citar- um belo dia surpreendeu o mundo voando sobre Paris- Nicolelis nos surpreende com descobertas sobre nosso cérebro, ainda tão desconhecido O que sabemos dele? Que é uma massa cinzenta com neurônios. Pois, o mestre cientista vai mais longe e descobre conexões antes inimagináveis.

Li num blog, quando fui procurar mais sobre ele: “Miguel Nicolelis é o Ademir da Guia da Seleção Brasileira de Cientistas: competente, generoso e modesto”.
Tem mérito e trabalhos apresentados para sentir-se orgulhoso o neto de Dona Lygia. Ele cita sempre a avó. Figura importante em sua formação, dizia-lhe que alçasse voos altos- ele a ouviu. A mãe escritora de livros infantis, também fantasiava, o pai juiz, com os pés no chão. A química certa para um homem especial.

O nosso cientista nasceu em Sampa, no Bexiga- bairro simpaticíssimo- ama ópera e o Palmeiras- é palmeirense roxo. Hoje vive mais nos EUA, onde comanda um laboratório de neurociência em Duke.
Natal cresce e se desenvolve agora com ciência de ponta. Miguel desperta- nos para o novo, para o possível dentro do impossível. Em mim foi como se recebesse uma energia nova. Aos poucos andei perdendo a força. Não tive uma avó Lygia.

Os projetos estão no site.  Também poderão ler sobre os prêmios científicos que recebeu e sobre seu nome ter sido cotado para o Nobel aqui.

Aqui vídeos com palestras dele e entrevistas.

Uma sabatina da Folha aqui.

Uma boa entrevista aqui.


Quem ainda não viu veja aqui.

* Vocês não acham que ele se parece com Spielberg? Quem sabe nosso Miguel, neto de Dona Lygia, o brasileiro cientista, um dia será tão famoso quanto o cineasta que projetou o ET? 

domingo, dezembro 26, 2010

Estes dias Miguel Nicolelis entrou no Twitter. É... o nosso cientista mor está lá conversando com todos, sem pedantismo, numa generosidade que acredito só pessoas raras têm. Mesquinhos não alcançam lugar de destaque.


Há anos li sobre Nicolelis, eu estava em Natal, recém chegada à cidade, e foi um sopro de esperança. Vi a foto do lugar onde seria o Instituto, torci para que desse certo. Deu. É uma alegria saber que está cada dia mais perto das estrelas. O menino cresceu olhando para o céu e desejando voar alto como Santos Dumont, que ele gosta de citar- um belo dia surpreendeu o mundo voando sobre Paris- Nicolelis nos surpreende com descobertas sobre nosso cérebro, ainda tão desconhecido O que sabemos dele? Que é uma massa cinzenta com neurônios. Pois o mestre cientista vai mais longe e descobre conexões antes inimagináveis.

Li num blog, quando fui procurar mais sobre ele: “Miguel Nicolelis é o Ademir da Guia da Seleção Brasileira de Cientistas: competente, generoso e modesto”.
Tem mérito e trabalhos apresentados para sentir-se orgulhoso o neto de Dona Lygia. Ele cita sempre a avó. Figura importante em sua formação, dizia-lhe que alçasse voos altos- ele a ouviu. A mãe escritora de livros infantis, também fantasiava, o pai juiz, com os pés no chão. A química certa para um homem especial.

O nosso cientista nasceu em Sampa, no Bexiga- bairro simpaticíssimo- ama ópera e o Palmeiras- é palmeirense roxo. Hoje vive mais nos EUA, onde comanda um laboratório de neurociência em Duke.
Natal cresce e se desenvolve agora com ciência de ponta. Miguel desperta- nos para o novo, para o possível dentro do impossível. Em mim foi como se recebesse uma energia nova. Aos poucos andei perdendo a força. Não tive uma avó Lygia.

Os projetos estão no site. Também poderão ler sobre os prêmios científicos que recebeu e sobre seu nome ter sido cotado para o Nobel aqui.

Aqui vídeos com palestras dele e entrevistas.

Uma sabatina da Folha aqui.

Uma boa entrevista aqui.

* Vocês não acham que ele se parece com Spielberg? Quem sabe nosso Miguel, neto de Dona Lygia, o brasileiro cientista, um dia será tão famoso quanto o cineasta que projetou o ET?

sábado, dezembro 18, 2010

Contardo Calligaris- Educar frustrando?

Foto Gil Prates



Formar o caráter de um jovem não significa apenas colocar limites, mas, sobretudo, autorizar


Em 14 de novembro, na avenida Paulista, um grupo de cinco jovens agrediu outros jovens sem razão aparente.

Não se sabe se o ato foi uma expressão de raiva homofóbica ou apenas a estupidez habitual de um grupinho de adolescentes soltos pelas ruas.

Em entrevistas na Folha, os pais de dois dos agressores se colocaram a eterna questão dos adultos quando os filhos aprontam além da conta: "onde foi que a gente errou?".

Em geral, muito mais do que nos erros dos pais, a origem da conduta criminosa (ou simplesmente estúpida) de um adolescente está no grupo ao qual ele pertence ou ambiciona pertencer.

Mas o que me importa hoje é que os pais, ao interrogar-se sobre o que fizeram de errado, concluíram que talvez eles tivessem colocado poucos limites nos filhos. Os jovens teriam se extraviado porque "faltou pulso".

Essa ideia é hoje um chavão: recusar, proibir, ou seja, frustrar os desejos dos jovens seria um ato formador do caráter. Aqueles a quem tudo seria dado não teriam noção da lei e dos limites; escravos de sua própria ânsia de satisfação imediata, eles não saberiam lidar com os contratempos da vida.

Nessa linha, como me lembrou uma leitora, Ana Lamanna, o psicanalista Wilfred Bion (em "The Theory of Thinking", teoria do pensamento, 1962) supunha que as frustrações fossem um requisito do pensamento.

Ao longo do desenvolvimento, inteligência e criatividade apareceriam à condição de que as vontades não fossem todas satisfeitas. Vulgo: a satisfação emburrece e as frustrações têm valor pedagógico.

Na semana retrasada, nesta coluna, mencionei a ideia, derivada de J. Bowlby e D.W. Winnicott (injustamente derivada, observou com razão um leitor, Davy Bogomoletz), de que a privação na infância estaria na origem da delinquência adulta.

Para a psicanálise, privação e frustração não são bem a mesma coisa, mas, para o leigo, surge uma certa contradição: afinal, ser frustrado ou privado estraga ou forma o caráter de nossos rebentos?

Outra leitora, Maria Chantal Amarante, antevendo essa contradição, propôs uma solução: "Frustrar as necessidades básicas deixa feridas imensas" (e pode, portanto e por exemplo, levar à delinquência), mas não por isso seria menos necessário "frustrar os desejos e vontades ilimitados das crianças de hoje", para que elas não "cresçam achando que podem tudo".

Como Maria Chantal, acho que muitas coisas devem ser recusadas às crianças -desde as que não são adaptadas à idade que elas têm até as que pediriam aos pais um sacrifício excessivo. No entanto, duas observações:

1) Podemos frustrar nossos filhos de pipoca e videogames, sobretudo quando eles parecem acreditar que tudo lhes é devido, mas imaginar que, com isso, a gente esteja lhes formando o caráter ou lhes ensinando a viver é puro melodrama.

Funciona assim: nós imaginamos que seríamos capazes de mimar as crianças a ponto de elas nunca aprenderem que a insatisfação é o regime normal do desejo.

Será que alguém tem tamanho poder? Não acredito, mas, aparentemente, fortes dessa ilusão, decidimos frustrá-las um pouco para salvá-las de nossa suposta (e duvidosa) capacidade de embrutecê-las à força de satisfação.

2) Também justificamos nossa decisão de recusar e proibir com a ideia de que isso estabeleceria, nas crianças, uma sólida e benéfica ideia de autoridade.

Cá entre nós, é preciso que a autoridade em geral e a nossa em particular sejam bem decadentes para que, a fim de serem levadas a sério, elas precisem privar as crianças de balas, cinema ou TV.
Mais importante: o que estabelece a autoridade e forma o caráter é mesmo o ato de recusar e proibir?

Ao procurarmos nossas falhas educativas (que sempre existem), seria bom não buscá-las só na falta de proibições e limites, mas também na falta de autorizações.
Pois, ao educar, o mais difícil talvez não seja impor limites e interdições. O mais difícil talvez seja transmitir às nossas crianças a coragem de desejar.

Proibir as saídas noturnas e o uso prolongado de computador é ótimo e necessário, mas a autoridade que forma o caráter de um jovem não é só a que diz não às suas vontades; é também a que o autoriza a dizer sim na hora daquelas escolhas de vida que são custosas e decisivas e diante das quais é fácil amarelar.


Artigo da Folha de São Paulo