quinta-feira, abril 29, 2010

Contardo Calligaris- Novas mulheres



Novas mulheres

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É bem possível que os homens estejam piorando, mas elas estão cada vez melhor
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" SONHOS ROUBADOS" , de Sandra Werneck, entrou em cartaz na sexta-feira passada. Alguns críticos trataram do filme junto com o de Laís Bodanzky, "As Melhores Coisas do Mundo" (sobre o qual escrevi na minha última coluna). A razão desses comentários conjugados é que os protagonistas do filme de Bodanzky são adolescentes de classe média, enquanto o filme de Werneck conta a história de três meninas da periferia. Portanto, juntando as duas películas, teríamos um retrato da adolescência brasileira ou, no mínimo, de seus dois extremos. É nesse estado de espírito sociológico que fui assistir a "Sonhos Roubados" e que li o livro de Eliane Trindade, "As Meninas da Esquina" (de 2005, relançado agora pela Record), que reúne os diários de seis jovens mulheres, três das quais, com condensações e adaptações, são as protagonistas do filme de Werneck.
Mal precisei esperar até a metade do filme para que meu estado de espírito mudasse (e o mesmo aconteceu ao avançar na leitura do livro): rapidamente, eu me apaixonei pelas protagonistas e me esqueci da periferia, que é o pano de fundo da história. Por quê? Simples: é verdade que as três jovens são vítimas da desigualdade social brasileira, mas é também verdade que elas não têm vocação alguma para o papel de vítima. Ao contrário, elas são as admiráveis heroínas de suas histórias.
Jéssica, Daiane e Sabrina vivem de expedientes, entre fugas da escola, pequenos empregos, famílias patéticas e prostituição ocasional. Nessas condições francamente adversas, elas não deixam de inventar a vida.
Jéssica e Sabrina não desistem de ser mães. Daiane não desiste de encontrar uma profissão e uma família -se não um pai, pelo menos uma mãe. As três não desistem de sair à noite à procura de um amor que nunca dá certo, de um pouco de aventura e de umas risadas entre amigas.
De repente, o título do filme, "Sonhos Roubados", parece injusto para com as protagonistas, pois elas, justamente, lutam para que seus sonhos não sejam roubados.
Disse que Jéssica, Sabrina e Daiane enfrentam condições adversas. A condição mais adversa de todas são os homens, que são insignificantes ou funestos. A galeria é devastadora.
Há o pai de Daiane, que morre de medo de ser pai. Há o avô de Jéssica, simpático por ser beberrão e inepto.
Há o ex-marido de Jéssica, fantoche nas mãos de sua própria mãe. Há o tio de Daiane, que abusa da sobrinha-enteada. E há a fileira dos violentos e boçais, encabeçada pelo namorado de Sabrina.
Com esses homens, Jéssica, Sabrina e Daiane não podem contar. Eles são sombras, incapazes de assumir um amor (seja ele paterno ou conjugal), uma amizade e, na verdade, qualquer compromisso: são todos nanicos morais. A única exceção é o presidiário encarnado por MV Bill -o que me levou a pensar (seriamente) que talvez homem só melhore mesmo na cadeia. Nas periferias e nas favelas, os núcleos familiares estáveis se organizam, em geral, ao redor de mulheres.
A explicação recebida por esse fenômeno diz que um lugar social desfavorecido, subalterno ou marginal corrói a "virilidade" dos homens e, portanto, torna-os ou nulos ou violentos (como se eles precisassem compensar na marra a virilidade perdida).
Mas será que essa debandada masculina é apenas um fenômeno de nossas periferias? Ou será que, periferia ou não, os homens de hoje (para usar uma expressão da Carol do filme de Laís Bodanzky) são mesmo um pouco (ou muito) "cuzões"?
Não sei responder, mas o fato é que o filme de Sandra Werneck não me deixou nem um pouco aflito. Ao contrário, saí do cinema alegre, pensando: é bem possível que os homens estejam piorando, mas, por sorte, as mulheres estão cada vez melhor. Como assim?
Nas primeiras décadas depois dos anos 1960, parecia que as mulheres, para afirmar sua independência e conquistar sua cidadania, teriam que renunciar a ser "mulher", pois, por exemplo, a maternidade e o próprio desejo sexual eram considerados como caminhos de submissão ao homem e ao patriarcado.
Pois bem, as meninas de "Sonhos Roubados" não renunciam ao sexo nem à maternidade; elas podem até se servir de seus charmes para arredondar o fim de mês ou o fim de semana. Mas não por isso elas dependem dos homens. Talvez seja porque não há homens de quem depender. Talvez seja porque elas são as novas mulheres -mulheres sem a culpa de serem "mulher".


Daqui

Trailer

terça-feira, abril 27, 2010

Para pensar


Lembram-se dela?
É comovente. Pena que façamos tão pouco para deixar mos um mundo melhor para nossos filhos.
O que é possível fazer?
Pensem nisto.

quinta-feira, abril 22, 2010

Contardo Calligaris: "As Melhores Coisas do Mundo"



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Os adultos ainda não desistiram de viver, e os adolescentes já estão vivendo, para valer
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Domingo, num conversa sobre filhos e netos, um amigo, pai de dois meninos que já têm mais de 20 anos, declarou que, graças a Deus, estava saindo da tormenta. Todos entendemos o que ele quis dizer: a relação entre pais e filhos adolescentes pode ser uma tormenta -e, às vezes, um tormento.
Essa tempestade se alimenta numa espécie de mal-entendido fundamental: 1) os adolescentes menosprezam a experiência dos adultos, 2) os adultos menosprezam a experiência dos adolescentes. Explico. 1) Para os adolescentes, em regra, os adultos (a começar pelos pais) são seres resignados (e talvez um pouco covardes), que desistiram de seus sonhos. A existência dos adultos sendo uma longa renúncia, entende-se que os entusiasmos e os sentimentos dos mesmos sejam quase sempre fingidos, inautênticos: uma encenação para um "ersatz" de vida.
Será que os adolescentes inventaram essa visão cruel e, de fato, sumária da experiência dos adultos? Nada disso: os adolescentes apenas acreditam em nossas próprias palavras. Como assim? Simples: estamos sempre prontos a salientar que a "época maravilhosa" que eles estão vivendo logo chegará ao fim e aí eles deverão se render à "triste realidade" (que seria a nossa), ou seja, eles conhecerão a desistência e o fracasso que seriam próprios da idade adulta.
Resultado: os adolescentes se surpreendem ou mesmo se revoltam quando um adulto, de repente, manifesta seu desejo. Um adolescente pode achar a mãe e o pai indignamente acomodados e chatos que nem zumbis vivendo numa sinistra rotina de deveres; o mesmo adolescente tacha de inconsequente e traidor do lar a mãe ou o pai que decide se separar para correr atrás de um amor. 2) Para os adultos, em regra, o adolescente é um ser provisório, inacabado: ele é apenas a promessa de um futuro no qual, enfim, ele viverá "de verdade".
Sobretudo na classe média, essa convicção é confirmada pelo fato de que os adultos bancam a longa adolescência dos filhos, e isso demonstraria que os adolescentes, sem independência, vivem uma época de formação, durante a qual a experiência é apenas um ensaio.
Um adolescente sofre por amor? Nosso olhar condescendente não é muito diferente do que seria se uma criança de oito anos nos dissesse estar apaixonada. Não é nada sério, é coisa de adolescente. O que um adolescente deve fazer para ser levado a sério? Nos últimos anos, em escolas dos Estados Unidos e da Europa, uma triste série de jovens saíram atirando, matando e se matando: "Será que, se eu assassinar dez colegas e três professores, alguém vai me levar a sério?", "e se eu me suicidar?". Quase todos esses jovens anunciaram seu desespero e seus planos, não em diários secretos, mas em blogs e sites que qualquer um podia acessar. Pois é, ninguém levou à sério.
Talvez a gente desvalorize a experiência dos adolescentes para compensar a inveja que nos inspiram suas vidas jovens e ainda para trilhar. Seja como for, os adolescentes retribuem nosso pouco caso considerando que somos apagados e previsíveis como o mobiliário da casa de família. Contra essa cegueira, pela qual ninguém enxerga a experiência do outro, um remédio: que você seja adulto ou adolescente, assista a "As Melhores Coisas do Mundo", o filme de Laís Bodanzky que estreou na sexta-feira passada. E, se for possível vencer a eventual resistência de todos, adultos e jovens, contra qualquer programa de família, melhor ainda: assista ao longa em bando. Garanto que o filme vai dar umas conversas boas e bem-vindas entre pais e filhos.
Os jovens gostarão de constatar que seu cotidiano vale a pena ser contado: o filme é um retrato milagrosamente exato da experiência adolescente (aliás, como a adolescência, ele consegue ser bem-humorado, divertido e, ainda, absolutamente sério).
Alguns comentaristas disseram que o tema do filme é o "bullying" na época da internet. Pode ser, embora eu prefira pensar que, simplesmente, não é fácil ir para a escola, a cada dia. E não é preciso que aconteça algo de extraordinário ou extremo para que a escola seja uma selva: para isso, basta a tarefa básica (e obrigatória para todos os adolescentes) de construir, inventar e preservar uma identidade sob o olhar impiedoso dos outros.
Mas, aquém ou além disso tudo, para mim, "As Melhores Coisas do Mundo" é um filme para os adolescentes descobrirem que os adultos ainda não desistiram de viver, e os adultos descobrirem que os adolescentes já estão vivendo, para valer.

Daqui da Folha.
Trailer aqui

quinta-feira, abril 15, 2010

Contardo Calligaris- As pulseiras do sexo



As pulseiras do sexo


No jogo das pulseiras, existe a fantasia de tornar erótico o trivial do cotidiano



Baratinhas e divertidas, pulseiras de silicone de todas as cores foram populares nos anos 1980. Recentemente, entraram, de novo, no gosto das meninas.
Duas semanas atrás, aprendi, pela imprensa, que essas pulseiras, vendidas pelos camelôs país afora, tinham-se transformado num código sexual, no qual cada cor anuncia uma disposição de quem a veste. Por exemplo, uma pulseira azul assinala a vontade de praticar sexo oral, uma preta anuncia o desejo de ter uma relação sexual completa. Esse código vale no jogo do "snap" (arrebenta), cuja regra é que, em tese, mesmo um desconhecido, se ele conseguir arrebentar a pulseira de uma menina (nenhum esforço: o silicone é frágil), ganhará a prestação sexual anunciada pela cor do enfeite.
Como disse, soube disso duas semanas atrás. Ignorância minha: é fácil encontrar, na internet, artigos de 2009 sobre escolas médias norte-americanas que interditaram o uso das pulseiras de silicone por causa de sua significação sexual.
Como começou? Talvez com a brincadeira de um grupo de amigas fantasiando entre si no Messenger e, logo, abrindo o jogo para desafiar a timidez dos meninos. Ou pode ter sido a invenção de meninos frustrados, que brincaram de interpretar as pulseiras de suas colegas como mensagens sexuais que eles gostariam de receber. Seja como for, em poucos meses, o código das pulseiras se espalhou, mundo afora.
Certamente, muitas meninas usam esses acessórios só porque os acham bonitos. Mas há meninas usando as pulseiras por causa do código sexual. Nesse caso, o que são as pulseiras do sexo? Uma provocação de adolescentes inseguras? Ou será que elas expressam um desejo? Bom, mesmo uma provocação manifesta um desejo. Qual?
Nos anos 1970, na comunidade gay de São Francisco e de Nova York, começou o uso do código dos lenços no bolso traseiro das calças jeans: as cores correspondiam ao tipo de relação desejada, e o bolso escolhido dizia se o homem queria mandar ou ser mandado (esquerdo para os "tops", direito para os "bottoms").
A intenção do jogo não era facilitar os encontros (nas ruas do Castro ou do Village, esse problema não existia). Tampouco o uso de um lenço significava que o usuário, encontrando um "encaixe", transaria necessariamente. Então? Era fácil constatar que os lenços serviam para erotizar o cotidiano, para transformar qualquer passeio "inocente" à padaria da esquina numa possível fantasia erótica.
Coisa de homens, ainda por cima gays, obcecados por sexo? Pois bem, uma das obras-primas da literatura erótica do século 20 (que, aliás, é, sobretudo, feminina) é "História de O", de Pauline Réage (Ediouro, esgotado). No romance, a heroína aceita usar um anel que a torna reconhecível pelos membros de um clube, que são poucos e perdidos pelo vasto mundo, mas que, ao identificá-la, sabe-se lá quando e onde, terão o direito imediato de possui-la.
É desta mesma fantasia que se trata no uso das pulseiras do sexo: a fantasia de tornar erótica a trivialidade do cotidiano, cuja massa um pouco cinza, de improviso, poderia ser atravessada por relâmpagos de desejo. No fundo, as adolescentes que brincam com as pulseiras do sexo estão fantasiando com sua própria disponibilidade para a aventura da vida. E é por isso mesmo que elas encontram o ódio de quem não vive.
Nas últimas semanas, em Manaus (AM), três jovens que usavam as pulseiras foram estupradas, duas delas foram mortas. Em Londrina (PR), uma menina de 13 anos, que também usava as pulseiras, foi estuprada. Não se sabe por certo se as meninas e seus agressores conheciam o código das pulseiras. Nessas e em outras cidades, a prefeitura proibiu o uso das pulseiras nas escolas. Concordo com essa decisão preventiva, mas é espantoso que nossa sociedade seja incapaz de garantir às meninas a liberdade de andar pela rua com a alegria de quem fantasia desejar de corpo aberto.
Os estupradores e assassinos foram "provocados"? Será que as pulseiras, como os decotes e as saias curtas, suscitariam uma atração irresistível e, portanto, violenta?
Vamos parar de acusar as mulheres por elas serem estupradas. O estuprador nunca é atraído por suas vítimas; ele só tem o impulso irresistível de acabar com o desejo delas. Por quê? Por raiva de ele não estar, por exemplo, à altura do mundo com o qual fantasiam as meninas com suas pulseiras: um mundo que seja o teatro possível de mil aventuras (sexuais ou não).

Daqui da Folha.

segunda-feira, abril 12, 2010

Um desenho animado que nos faz pensar


Get Out
Você poderá ver numa tela maior clicando na imagem duas vezes


Ou aqui.

Este desenho é muito bem feito, passa tensão- cria expectativa. Foi super premiado, merecidamente.
O final, para mim, foi inesperado. Será que foi para todos? Não sei.
Podemos fazer muitas leituras dele. É para pensar. Vejam e digam o que acharam.
Para mim é genial- e fala, essencialmente, do medo de viver.

sábado, abril 10, 2010

La secta de Fénix- Texto e vídeo.


Borges

Dica de Bonfra. Merci.

O texto de Jacques- Alain Miller está aqui. Deliciem-se.

Em português o texto de Borges está aqui. Não achei o de Miller em português, vou procurar mais.

La secta de Fénix
(Artificios, 1944;
Ficciones, 1944)


Jorge Luis Borges
(1899–1986)



QUIENES ESCRIBEN QUE la secta del Fénix tuvo su origen en Heliópolis, y la derivan de la restauración religiosa que sucedió a la muerte del reformador Amenophis IV, alegan textos de Heródoto, de Tácito y de los monumentos egipcios, pero ignoran, o quieren ignorar, que la denominación por el Fénix no es anterior a Hrabano Mauro y que las fuentes más antiguas (las Saturnales o Flavio Josefo, digamos) sólo hablan de la Gente de la Costumbre o de la Gente del Secreto. Ya Gregorovius observó, en los conventículos de Ferrara, que la mención del Fénix era rarísima en el lenguaje oral; en Ginebra he tratado con artesanos que no me comprendieron cuando inquirí si eran hombres del Fénix, pero que admitieron, acto continuo, ser hombres del Secreto. Si no me engaño, igual cosa acontece con los budistas; el nombre por el cual los conoce el mundo no es el que ellos pronuncian.
Miklosich, en una página demasiado famosa, ha equiparado los sectarios del Fénix a los gitanos. En Chile y en Hungría hay gitanos y también hay sectarios; fuera de esa especie de ubicuidad, muy poco tienen en común unos y otros. Los gitanos son chalanes, caldereros, herreros y decidores de la buenaventura; los sectarios suelen ejercer felizmente las profesiones liberales. Los gitanos configuran un tipo físico y hablan, o hablaban, un idioma secreto; los sectarios se confunden con los demás y la prueba es que no han sufrido persecuciones. Los gitanos son pintorescos e inspiran a los malos poetas; los romances, los cromos y los boleros omiten a los sectarios... Martín Buber declara que los judíos son esencialmente patéticos; no todos los sectarios lo son y algunos abominan del patetismo; esta pública y notoria verdad basta para refutar el error vulgar (absurdamente defendido por Urmann) que ve en el Fénix una derivación de Israel. La gente más o menos discurre así: Urmann era un hombre sensible; Urmann era judío; Urmann frecuentó a los sectarios en la judería de Praga; la afinidad que Urmann sintió prueba un hecho real. Sinceramente, no puedo convenir con ese dictamen. Que los sectarios en un medio judío se parezcan a los judíos no prueba nada; lo innegable es que se parecen, como el infinito Shakespeare de Hazlitt, a todos los hombres del mundo. Son todo para todos, como el Apóstol; días pasados el doctor Juan Francisco Amaro, de Paysandú, ponderó la facilidad con que se acriollaban.
He dicho que la historia de la secta no registra persecuciones. Ello es verdad, pero como no hay grupo humano en que no figuren partidarios del Fénix, también es cierto que no hay persecución o rigor que éstos no hayan sufrido y ejecutado. En las guerras occidentales y en las remotas guerras del Asia han vertido su sangre secularmente, bajo banderas enemigas; de muy poco les vale identificarse con todas las naciones del orbe.
Sin un libro sagrado que los congregue como la Escritura a Israel, sin una memoria común, sin esa otra memoria que es un idioma, desparramados por la faz de la tierra, diversos de color y de rasgos, una sola cosa ¬el Secreto¬ los une y los unirá hasta el fin de sus días. Alguna vez, además del Secreto hubo una leyenda (y quizá un mito cosmogónico), pero los superficiales hombres del Fénix la han olvidado y hoy sólo guardan la oscura tradición de un castigo. De un castigo, de un pacto o de un privilegio, porque las versiones difieren y apenas dejan entrever el fallo de un Dios que asegura a una estirpe la eternidad, si sus hombres, generación tras generación, ejecutan un rito. He compulsado los informes de los viajeros, he conversado con patriarcas y teólogos; puedo dar fe de que el cumplimiento del rito es la única práctica religiosa que observan los sectarios. El rito constituye el Secreto. Éste, como ya indiqué, se transmite de generación en generación, pero el uso no quiere que las madres lo enseñen a los hijos, ni tampoco los sacerdotes; la iniciación en el misterio es tarea de los individuos más bajos. Un esclavo, un leproso o un pordiosero hacen de mistagogos. También un niño puede adoctrinar a otro niño. El acto en sí es trivial, momentáneo y no requiere descripción. Los materiales son el corcho, la cera o la goma arábiga. (En la liturgia se habla de légamo; éste suele usarse también.) No hay templos dedicados especialmente a la celebración de este culto, pero una ruina, un sótano o un zaguán se juzgan lugares propicios. El Secreto es sagrado pero no deja de ser un poco ridículo; su ejercicio es furtivo y aun clandestino y los adeptos no hablan de él. No hay palabras decentes para nombrarlo, pero se entiende que todas las palabras lo nombran o, mejor dicho, que inevitablemente lo aluden, y así, en el diálogo yo he dicho una cosa cualquiera y los adeptos han sonreído o se han puesto incómodos, porque sintieron que yo había tocado el Secreto. En las literaturas germánicas hay poemas escritos por sectarios, cuyo sujeto nominal es el mar o el crepúsculo de la noche; son, de algún modo, símbolos del Secreto, oigo repetir. Orbis terrarum est speculum Ludi reza un adagio apócrifo que Du Cange registró en su Glosario. Una suerte de horror sagrado impide a algunos fieles la ejecución del simplísimo rito; los otros los desprecian, pero ellos se desprecian aún más. Gozan de mucho crédito, en cambio, quienes deliberadamente renuncian a la Costumbre y logran un comercio directo con la divinidad; éstos, para manifestar ese comercio, lo hacen con figuras de la liturgia y así John of the Rood escribió:
Sepan los Nueve Firmamentos que el Dios
Es deleitable como el Corcho y el Cieno.
He merecido en tres continentes la amistad de muchos devotos del Fénix; me consta que el secreto, al principio, les pareció baladí, penoso, vulgar y (lo que aún es más extraño) increíble. No se avenían a admitir que sus padres se hubieran rebajado a tales manejos. Lo raro es que el Secreto no se haya perdido hace tiempo; a despecho de las vicisitudes del orbe, a despecho de las guerras y de los éxodos, llega, tremendamente, a todos los fieles. Alguien no ha vacilado en afirmar que ya es instintivo.

Daqui

quinta-feira, abril 08, 2010

Picasso- fragmentos de um cotidiano



Clique duas vezes sobre o vídeo que abrirá em tamanho maior.

OK, é da Globo, mas é Picasso. Hoje é aniversário de sua morte. Não morreu, apenas se foi.

Contardo Calligaris- Cuidado com o peso e a forma







Foto Google alongada por mim



Cuidado com o peso e a forma




Quanto menos nós controlamos nossa vida, tanto mais esperamos controlar nosso peso



Na semana passada, celebrando o Pessach ou a Páscoa, muitos jantaram ou almoçaram em família. Aposto que, em algum momento, diante da fartura e das guloseimas que estavam na mesa, a conversa tratou dos planos e dos esforços de cada um para manter a linha, emagrecer ou aumentar de peso (músculos, não gordura, é claro), em suma, para conseguir dar ao corpo uma forma "satisfatória".
Para essa conversa acontecer, não foi preciso que houvesse magros ou obesos ao redor da mesa. A inquietação com o peso e a forma não é efeito do estado de nosso corpo. Ela se tornou onipresente nas últimas duas ou três décadas: sua difusão coincide com o aumento dos transtornos alimentares (supostas epidemias de bulimia e anorexia), mas é, de fato, uma espécie de transtorno alimentar em si, um transtorno alimentar da conversa e do pensamento.
É citada por toda parte (sem mais precisões) uma pesquisa segundo a qual 81% das crianças (norte-americanas) de 10 anos estariam com medo de ser gordas, e 50% das meninas dessa idade declarariam estar fazendo um regime. Agradeceria aos leitores que me ajudassem a encontrar o texto original dessa pesquisa, que, segundo algumas fontes, seria do começo dos anos 90. De qualquer forma, mesmo que a dita pesquisa seja uma lenda, sua popularidade confirma um fenômeno que todos verificamos a cada dia: hoje, a forma e o peso preocupam até as crianças.
Nesta altura, seriam esperadas acusações contra nossos hábitos alimentares, contra a vida sedentária e contra os ideais impossíveis promovidos pela cultura de massa e pela indústria do regime e da forma física. Em suma, estaríamos todos pensando no peso por culpa da preguiça, do McDonald's, da Barbie e do G.I. Joe, bonecos que parecem ter sido inventados para que, desde a infância, ninguém se contente com o corpo que tem.
É com essa expectativa que li o número de fevereiro de "Counseling Today" (revista da American Counseling Association), consagrado a transtornos alimentares e imagem do corpo. Expectativa frustrada, felizmente: num longo artigo sobre a obsessão com o peso, é entrevistada uma terapeuta, Anna Viviani, que oferece uma explicação específica por nosso interesse pelo peso e pela forma com ou sem transtornos alimentares propriamente ditos.
Resumindo, ela entende assim: quando alguém sente que tudo na sua vida está fora de controle, ele sente também que os alimentos, o peso, o exercício são coisas que, em princípio, ele poderia controlar.
Tanto faz, aliás, que alguém consiga seguir um regime à risca, emagrecer ou aumentar de peso e fazer ginástica regularmente. O que importa é que as consultas, as propostas, as leituras e as conversas intermináveis sobre dieta e exercício têm um valor em si: elas mantêm viva a promessa de um controle -que é difícil, mas que é, em tese, possível.
À diferença do que acontece, em geral, com nossa vida amorosa e profissional, acreditamos (com uma certa razão) que nosso peso e nossa forma dependem de nós.
Nesse campo, podemos não fazer o necessário, mas sempre se trata de um não fazer "ainda": um dia, faremos e, quando fizermos o necessário, controlaremos nosso peso e nossa forma.
É tentador propor uma equação: quanto menos estamos em controle de nossa vida (amorosa, profissional, social e mesmo moral), tanto mais nos preocupamos com peso e forma, que, bem ou mal, podem ser controlados.
Numa direção parecida, na mesma matéria, outra terapeuta, Erica Ritzu, resume assim a fala de um paciente com transtornos alimentares: "Se você não me escuta e não deixa nunca que minha opinião conte, posso ao menos escolher não comer nada".
De repente, a greve de fome dos presos políticos pode ser um modelo para entender o que acontece nos transtornos alimentares e em nossa preocupação com peso e forma.
Certo, na greve de fome, os presos põem a vida em risco para promover uma causa (a sua própria ou outra). Mas eles também exercem, heroicamente, o que lhes sobra de liberdade; eles não são escutados, estão encarcerados, não podem nada, mas há algo que eles controlam: sua própria ingestão de alimentos. É o que sugere Anna Viviani, ao interpretar nossa obsessão com regime e exercício: quem não controla nada, pode, como último recurso, controlar sua alimentação, seu peso e sua forma.
Bom, só resta admitir que não controlamos nada, como os presos.



Daqui da Folha.

quinta-feira, abril 01, 2010

Contardo Calligaris- Pedófilos, celibatários e infalíveis







Pedófilos, celibatários e infalíveis

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Os padres pedófilos são minoria, mas a igreja como instituição trata fiéis como crianças
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EM 2002, graças a uma série de artigos do "Boston Globe", estourou, nos EUA, o escândalo dos abusos sexuais de crianças por padres católicos. Desde então, uma onda de denúncias varre a Igreja Católica no mundo inteiro.
Última revelação, no "New York Times" da quinta passada: nos anos 1990, quando ele comandava a Congregação da Doutrina e da Fé, o atual papa, Bento 16, suspendeu o julgamento de um padre americano, acusado de molestar 200 meninos surdos, de cujos espíritos e almas, em princípio, ele devia cuidar.
Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral. Escândalo, mas sem surpresa alguma: em geral, o projeto dominante de qualquer instituição é o de durar para sempre.
Mas trégua: não escrevo esta coluna para me indignar. Prefiro contribuir ao debate do momento com duas observações, sugeridas pela psicopatologia e pela clínica.
1) Da conversa de botequim até o pronunciamento de um teólogo que admiro (Hans Küng, na Folha de 21 de março), os abusos sexuais de crianças por padres católicos reavivam as críticas contra o celibato dos padres.
Cuidado, não sou um defensor do celibato dos padres. Ao contrário, parece-me que a experiência de amar e conviver melhoraria a qualidade dos ministros da igreja, porque a tarefa de ser consorte ensina uma humildade que é difícil alcançar na solidão, seja ela orgulhosa e casta ou, então, envergonhada e masturbatória. No entanto, acho bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia.
Essa ideia surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.
É raro que eu me expresse de maneira tão direta, mas é preciso dizer: essa ideia é uma estupidez. Fantasias e orientações sexuais nunca são o efeito de acumulação de energia sexual insatisfeita. Um pedófilo poderá, eventualmente, desejar uma mulher e casar com ela, mas o fato de cumprir, mesmo com afinco, o dever conjugal não o livrará das fantasias pedofílicas. Teremos, simplesmente, pedófilos casados, em vez de solteiros.
Não vejo o que ganharíamos com isso, mas vejo, isso sim, na própria proposta, um desprezo inacreditável pelas mulheres que se casariam para servir de válvulas de escape para a "depravação" dos seus maridos. Ninguém merece.
A quem propõe o casamento como solução para a pedofilia dos padres, uma sugestão: proponha um programa compulsório de transa diária com a boneca inflável do Geraldão. Será tão ineficiente quanto o casamento, mas, ao menos, as mulheres serão poupadas.
2) Não é exato dizer que pedófilo é quem gosta de "carne" jovem. Pois o que importa ao pedófilo, o que é crucial na fantasia, é induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende. A jovem idade da vítima é sobretudo garantia de sua inocência e ignorância, ou seja, do fato de que a vítima não entenderá o que lhe será feito.
Por exemplo, um dos padres denunciados em Boston, em 2002, explicou que seu prazer consistia não tanto em ser satisfeito oralmente por um menino quanto em convencer o menino de que essa era uma forma especial de santa comunhão, que ele, o padre, ensinava e administrava.
Em suma, o pedófilo encontra seu prazer iniciando os ignaros e exercendo sobre eles um poder pedagógico absoluto. Agora, considere o jeito como a Igreja Católica tratou seu rebanho, até ser forçada a reconhecer a culpa de alguns de seus ministros. Considere a prática recorrente de camuflar decisões administrativas em dogmas divinos, considere a repressão teológica em lugar do diálogo e ainda considere a doutrina da pretensa infalibilidade do pontífice. Pois bem, aparentemente, os padres pedófilos são pequena minoria, mas a igreja como instituição trata mesmo seus fiéis como criancinhas.

Da Folha.

sexta-feira, março 26, 2010

Por que é tão difícil fazer uma escolha?



Hoje recebi esta pergunta:

Já teve algum cliente seu que lhe relatasse o problema de ter
dificuldade em tomar decisões, começando inclusivamente por aquelas
mais simples, nomeadamente qual a marca do leite ou do iogurte que
escolher no supermercado nas compras da semana, e/ou em gastar a mais
ínfima soma de dinheiro, ficando sempre a namorar o que comprar mas
nunca conseguir comprar nada.Do que se trata este problema? É sério?
Aguardo sua opinião.

Minha resposta:

Escolher implica em perder. Como? Na hora em que você escolhe A e
não B, você perde o B.
Se você ama alguém e pensa em casar, isto implica em perder todas as outras
possibilidades prováveis- possíveis.
Escolher também quer dizer fazer uma mudança. Para esta pessoa, mudar é muito difícil- se escolhe A ou B muda algo- ganha,
recebe, sai do lugar alguma coisa. É como se fosse uma vertigem- entrar num
túnel sem saber onde sair. Assusta.
Exagerei?
Interessante o uso do ‘namorar’ os objetos no supermercado. Namorar é não assumir um compromisso maior. O risco seria iminente?

quinta-feira, março 25, 2010

Contardo Calligaris- Injeções de obediência




Foto G1





Injeções de obediência


Contardo Calligaris


A relação entre pais e filhos se transforma em luta de braço, e pais se desesperam de ser pais



Na semana passada, em Piracicaba (SP), Josiane Ferraz, 31 anos, acorrentou o filho à cama. Foi o jeito que ela encontrou para conter seu menino, de 13 anos, usuário de crack.
Sem grande esforço de memória e de pesquisa, lembro-me de que, faz um ano, em Cuiabá (MT), Neves e Cleuza de Souza acorrentaram seu filho de 13 anos, viciado, violento e incontrolável. Dois ou três anos atrás, um caso análogo aconteceu em Porto Alegre (RS), com um menino de 11 anos, também usuário de crack. Nos três casos, os pais procuraram ajuda: consultaram o Conselho Tutelar de sua cidade, dirigiram-se aos serviços públicos de saúde mental ou pediram a intervenção da polícia. Eles, simplesmente, não sabiam mais a que santo recorrer.
Neves de Souza, explicando sua decisão de acorrentar o filho, disse que "foi desespero". Josiane Ferraz, na semana passada, disse a mesma coisa: "É triste, mas é desespero de mãe de ver o filho nesse estado e agressivo a ponto de falar que vai matar a gente".
O medo de Josiane não é exagerado. Além de quebrar a casa na exasperação e na raiva, além de roubar tudo que possa ser vendido ou trocado por crack, os jovens viciados podem matar. Em novembro do ano passado, em Rincão dos Ribeiros (RS), um neto matou o avô com um golpe de faca de cozinha no pescoço. O neto tinha 21 anos, e o avô, 88. O neto pediu dinheiro, o avô negou.
É isso que aconteceu nos casos dos quais me lembrei, e é isso que acontece em inúmeros outros, que não chegam às páginas de crônica: os pais dizem não, mas, para os jovens, as vontades e as palavras dos pais são vontades e palavras quaisquer, sem autoridade própria.
"Você não vai sair, hoje." "Ah, é? Vou sair, sim, seu babaca, e ainda pego sua grana." Um pai vigoroso enfrenta o filho; uma mãe tenta acorrentá-lo enquanto dorme. Em ambos os casos, a relação entre pais e filhos se transforma em luta de braço, e os pais se desesperam de ser pais.
O que faz com que a gente reconheça a autoridade dos pais sem que ela tenha que se impor pela força? Respostas possíveis: a dívida com quem nos engendrou, o amor por quem nos amparou, o respeito pela experiência e pela suposta sabedoria dos mais velhos etc.
Agora, por que esses argumentos podem nos parecer estranhamente piegas? Simples: eles só fazem sentido num contexto social e cultural em que parecesse normal que condutas humanas não fossem orientadas nem por interesse nem pela coerção exercida pela força, mas por valores -ou seja, eles fazem sentido num mundo, por exemplo, em que a lei, para ser respeitada, não dependesse apenas da polícia. Esse não é bem nosso mundo.
E não pense que os pais recorram à força apenas em casebres insalubres e em casos extremos de filhos viciados além da conta. A tentação (ou mesmo a necessidade) de recorrer à força surge a cada vez que o afeto e as palavras são insuficientes para que os pais sejam ouvidos. Os pais arrancam a tomada do computador, escondem o celular, garantem que não abrirão a porta se os filhos chegarem depois de uma certa hora -sem contar aqueles momentos (mais frequentes do que a gente gosta de admitir) em que, de fato, pais e filhos se encaram, a um dedo do enfrentamento físico. E há outras formas de violência, mais "limpas".
A revista "Science" de 19 de março (327: 1515-1518) publicou uma pesquisa de Sheryl Smith e outros, que foi apresentada no caderno Ciência da Folha de 19/3 e que mostra o seguinte: para camundongos na puberdade, aprender é mais difícil do que para camundongos pré-púberes. Tudo indica que um receptor celular específico é responsável pela cabeça-dura dos camundongos adolescentes, e, presumivelmente, dos adolescentes humanos.
Quem sabe, supõe Smith, esse receptor tenha sido útil, ao longo da evolução, para que os adolescentes saíssem de casa e se tornassem independentes. Mas, hoje, o tempo de preparação para a vida adulta se estende à perda de vista e, com a convivência prolongada de pais e filhos, o receptor se tornou incômodo. Que tal inventar uma droga que silencie o tal receptor e torne nossos adolescentes tranquilos, atentos e obedientes como crianças? Se ela for possível, essa droga será inventada, patenteada e usada largamente. Não será mais preciso acorrentar meninos e meninas. Mas, no essencial, não mudará absolutamente nada. Continuaremos impondo a autoridade como violência real -em vez da corrente, a injeção ou o comprimido.


Daqui.

quarta-feira, março 24, 2010

Roland Barthes


Roland Barthes



“Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética: o mito socrático (amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos) e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão).
Entretanto, Werther, que outrora desenhava bem e muito, não consegue fazer o retrato de Charlotte( Mal pode esboçar sua silhueta que é, precisamente, aquilo que o atraiu nela)- "Perdi...a força sagrada, vivificante, com a qual criava mundos em volta de mim"

" Na lua cheia de outono
Ao longo da noite
Fiz cem passos em volta do lago"

Haïku


Não existe indireta mais eficaz, para dizer a tristeza, que esse "ao longo da noite"...


Roland Barthes em "Fragmentos de um discurso amoroso"- meu livro preferido.

Barthes morreu atropelado ao atravessar a rua onde lecionava. Leia mais aqui.

terça-feira, março 23, 2010

segunda-feira, março 22, 2010

Você conhece Lacan?

Foto da rue de Lille, Paris-inundada, em 1910 Daqui

Li, no mês passado, um livrinho delicioso sobre Lacan- “5, rue de Lille”
É o depoimento de um paciente- ou cliente- de Lacan. Não sei quanto tempo ele esteve em tratamento- foram anos. Ele conta o que se passa na casa- consultório do mestre da psicanálise francesa, que ficava na rue de Lilli.
Ficamos sabendo detalhes da personalidade de Lacan muito curiosos. Desde sua fúria diante de alguém que não o paga suficientemente- até o aperto de sua mão- que poderia significar compreensão, força, amor. Vai até a morte de Lacan em 1981.
Passei a vê-lo de forma muitodiferente do que ouvia por ai- era genial, tempestuoso, amoroso, extremamente interessado nas pessoas. Eu o via como alguém arrogante- era bastante autoritário, mas mesmo nos momentos 'loucos' sabia o que fazia. E não era nada ortodoxo- tratava cada um de um jeito- sabemos que é assim que funciona- não há um estilo lacaniano, há psicanalistas que aprenderam a ouvir como Lacan- é diferente de imitações.
Vale a pena ler.

Agora estou lendo “Lacan, você conhece?”. Também é bom, mais teórico que o outro,que não tinha esta pretensão- traz falas de vários analistas que fizeram tratamento com Lacan e estudaram psicanálise com o mestre.

Lacan é o que está sentado.

quinta-feira, março 18, 2010

Contardo Calligaris- O custo de nossa fé na redenção






O custo de nossa fé na redenção
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Se não fosse tão difícil internarmos indivíduos perigosos, Glauco e Raoni estariam conosco
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GLAUCO MAL me conhecia, mas eu o conhecia bem: ele era presença familiar no meu café da manhã, a cada dia, há muitos anos. Dos personagens que ele inventou, em suas tiras na Folha, quais são meus preferidos? Gosto muito do silencioso Nojinsk, de Zé do Apocalipse e do Casal Neuras, mas Geraldão e Geraldinho são os que mais me tocam, talvez por serem retratos milagrosamente exatos da voracidade que é, hoje, um traço dominante, em todos nós, adultos e crianças. Por sorte, vou poder matar a saudade, pois os dois personagens ganharam coletâneas em livros (LPM e Companhia das Letras, respectivamente).
O assassino confesso de Glauco e de seu filho Raoni é um jovem de 24 anos, que frequentava a Céu de Maria, igreja do Santo Daime fundada pelo próprio Glauco. O jovem é ou era dependente químico e sofre ou sofria de transtornos mentais graves; pelo que entendi, havia a esperança de que ele encontrasse, no ritual do daime, uma saída -da droga e da desordem de seus afetos e pensamentos. Isso não impediu que, na noite do assassinato, ele se confundisse com um profeta ou com o próprio Jesus Cristo.
Às vezes, o convívio social proporcionado por uma igreja ajuda um drogado a abandonar sua dependência ou um louco a conter-se e a reencontrar algum equilíbrio mental. Essas "recuperações" são, de fato, precárias e incertas.
Cuidado, não estou minimizando apenas o poder terapêutico do convívio religioso. Critico o otimismo que nos leva a acreditar na possibilidade de transformações definitivas -pelo encontro com um deus, pela prática de uma religião, pelo uso de psicofármacos ou pela psicoterapia.
Esse otimismo é, provavelmente, um efeito da ideia cristã de que não existe um pecado que não possa ser esquecido e perdoado se o penitente for sincero. Na lista dos santos, muitos foram grandes pecadores, transfigurados irreversivelmente por uma iluminação ou pelo arrependimento. E o exemplo dos santos serve para afirmar que somos todos livres: suscetíveis de transformações radicais. A fé na possibilidade de cada um se regenerar é um traço central de nossa cultura porque parece ser uma condição da liberdade: nada do que somos hoje é definitivo, podemos mudar.
Agora, se a redenção é sempre possível, a decisão de excluir e prender se torna, para nós, envergonhada e culpada. É quase inadmissível internar um indivíduo perigoso na intenção de proteger a sociedade dos atos que ele poderia cometer, pois, internando, negaríamos o mantra segundo o qual a conversão e a redenção do indivíduo são sempre possíveis ou, por que não, prováveis. Em outras palavras, é impossível sancionar a periculosidade de um indivíduo, pois precisamos acreditar que ele possa mudar (para melhor, é claro).
Logo antes do Natal de 2009, em São Paulo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, Henrique de Carvalho Pereira, 21, foi golpeado brutalmente com um taco de beisebol por alguém que desconhecia. Seu agressor, em abril de 2009, tinha quebrado uma vitrina da mesma livraria, também a tacadas. Confuso, delirante e ameaçador, tinha sido preso e logo liberado, como se diz, após a assinatura de termo circunstanciado. Ninguém soube, pôde ou quis transformar aquela prisão em internação. Reconhecer que o homem era obviamente perigoso seria privá-lo da liberdade de mudar, não é? Pois é, se alguém tivesse reconhecido, sem culpa e sem vergonha, que é preciso internar um delirante de taco na mão, Henrique de Carvalho Pereira, em vez de permanecer em coma, ainda estaria circulando entre as estantes da Livraria Cultura.
Da mesma forma, o assassino de Glauco e Raoni deve ter dado mil sinais ameaçadores, que foram ouvidos por próximos, parentes, colegas e amigos. Segundo a polícia, há testemunhos que permitem afirmar que o assassinato foi premeditado, o que significa que, para alguém, a loucura do assassino não foi uma surpresa. Então, por que ninguém levou as ameaças a sério? Por que ninguém parou o assassino antes que matasse?
Pois é, se alguém tivesse dito ou até gritado que aquele jovem confuso era perigoso, dificilmente ele teria sido escutado. Ao contrário, os alertas seriam malvistos: você está querendo o quê? Prender o cara só porque está estranho, sem lhe dar uma chance de ficar melhor? Por esse caminho, continuaremos contando e chorando as vítimas.



Daqui.

quinta-feira, março 11, 2010

Em defesa dos habitantes das Falklands





Contardo Calligaris


As pessoas que vivem num território devem poder escolher a qual comunidade pertencem



NA SEMANA retrasada, durante a Cúpula da América Latina e do Caribe, o presidente Lula perguntou: "Qual é a explicação geográfica, política e econômica de a Inglaterra estar nas Malvinas? Qual a explicação política de as Nações Unidas já não terem tomado uma decisão dizendo: não é possível que a Argentina não seja dona das Malvinas e seja um país [a Grã-Bretanha] a 14 mil quilômetros de distância?".
Concluo que o Brasil está prestes a se lançar numa aventura militar audaciosa. Já devem existir planos para a invasão da Guiana Francesa: afinal, não se entende por que pertenceria à França, que está a 12 mil quilômetros de distância, enquanto basta olhar um mapa para constatar que é geograficamente brasileira (sem considerar que a bandeira da Guiana é verde e amarela).
Infelizmente, um ataque imediato comprometeria a entrega de nossas encomendas de armas francesas. Mas, se soubermos esperar, a guerra, tanto para os franceses quanto para os brasileiros, será uma ocasião maravilhosa de testar em combate os aviões Mirage (que, justamente, nunca foram testados).
Na espera da invasão da Guiana Francesa, a diplomacia brasileira poderá continuar se ilustrando. Bastará promover com coerência a tese defendida no caso das Malvinas: um território deve pertencer ao país que o engloba ou que lhe é mais próximo geograficamente.
A ilha de Pantelleria, erroneamente italiana, deve ser devolvida à Tunísia, cuja costa é bem mais perto da ilha do que a costa da Sicília.
Não faz sentido algum a ilha da Madeira ser portuguesa, visto que ela é situada na placa tectônica africana e mais próxima do Marrocos do que de Portugal.
O Marrocos deve também ser reintegrado na posse das Ilhas Canárias. Nesse caso, a Espanha está totalmente fora do páreo. Para disputar as Canárias ao Marrocos, só a Frente Polisário do Saara Ocidental.
Por que esses casos nos parecem ridículos, absurdos? Porque, em nosso foro íntimo, sabemos que as razões "geográficas, políticas e econômicas" de tal território pertencer a tal nação são irrisórias diante de um princípio que é infinitamente mais importante do que essas razões: as pessoas concretas que vivem num território devem poder escolher a qual comunidade de destino elas pertencem.
Há muitos casos em que a aplicação desse princípio é difícil e conflitiva, porque há territórios cujos habitantes não querem ou não podem constituir uma comunidade: Chipre é dividida entre gregos e turcos; a nação curda é dispersa entre Iraque, Irã e Turquia; fracassa a implementação da "solução de dois Estados" no Oriente Médio. E por aí vai.
Mas o caso das Malvinas é parecido com o da Madeira, o das Canárias etc. Desde o século 19, as "Malvinas" são habitadas só por pessoas que são e se consideram inglesas (sem minorias étnicas ou culturais). Como é possível desprezar a vontade explícita e coesa da população?
Na imprensa, sempre aparece esta perífrase: "As ilhas Malvinas, chamadas pelos britânicos de Falklands". É um enigma: tudo bem que Londres chame essas ilhas de Falklands, mas o que importa é que elas são chamadas de Falklands por todos os seus habitantes. Portanto o normal seria dizer: "As ilhas Falkland, chamadas pelos argentinos de Malvinas" (o que, acidentalmente, é bizarro, pois quem chamou essas ilhas de "Malouines" foram, no século 18, os franceses, originários do porto de Saint-Malô).
Espero que Argentina e Grã-Bretanha inventem jeitos de cooperar na exploração do petróleo das Falklands (se é que ele existe). Será no interesse de ambos e da própria população das ilhas.
No mais, no episódio que mencionei, o presidente Lula deve ter sido mal assessorado, pois, em regra, ele não é insensível ao destino das pessoas concretas. Em sua recente visita a Cuba, Lula não ousou defender os presos políticos cubanos; mais tarde, ele lamentou a morte de Orlando Zapata; anteontem, reviravolta: ele pediu respeito às decisões do governo cubano. Em suma, ele oscila entre uma bajulação do castrismo (saudade do que ele representou no passado) e a solidariedade com quem luta por direitos e liberdade.
Quem não mostrou solidariedade alguma foi o assessor do presidente, Marco Aurélio Garcia, que assim comentou, cinicamente, a morte de Zapata: "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro". Alguém dirá que é uma resposta "política", assim como seriam "políticas" as razões de apoiar as pretensões argentinas sobre as Falklands. Pode ser, mas, para mim, a única política que interessa é a que se preocupa com a vida concreta das pessoas.

Da Folha

segunda-feira, março 08, 2010

Dia Internacional da Mulher- Zilda Arns





Zilda Arns, a maior perda dos últimos tempos. Para ela minha lembrança emocionada no dia de hoje- eu gostaria de tê-la conhecido- é a mulher que mais admirei e a pessoa que eu gostaria de ser. Ideal de ego- como dizem os psis. Felizmente deixou frutos.

Que se multipliquem figuras como ela neste país de tanta pobreza- o que choca diante do consumismo cada vez mais expressivo.

Foi, além da médica especial, que todos sabem, mãe admirável.

Obrigada, Zilda, por ter existido. Que se multipliquem figuras como ela neste país de tanta pobreza- o que choca diante do consumismo cada vez mais expressivo.




A continuação do filme- aqui, são sete vídeos.

quinta-feira, março 04, 2010

Contardo Calligaris- Lembranças e brigas




Lembranças e brigas


Sempre que evocamos os eventos passados, nossas lembranças são reescritas e corrigidas


TUDO COMEÇOU em 1990, quando George Franklin, um aposentado californiano, foi acusado de um infanticídio que ele teria cometido 21 anos antes.
Repentinamente, Eileen, a filha de George, declarou que, quando criança, ela tinha visto seu próprio pai matar uma menina de oito anos. Eileen explicou seu longo silêncio por uma amnésia: ela presenciara um evento tão horrível que, por duas décadas, ela reprimira radicalmente toda lembrança dos fatos. A jornada de George Franklin terminou sete anos mais tarde, quando um tribunal federal o soltou, considerando duvidoso o testemunho de Eileen.
O processo de Franklin inaugurou uma guerra que durou mais de uma década. De um lado, havia um grupo de psicoterapeutas que acreditavam no seguinte: eventos traumáticos podem ser totalmente apagados da memória e reconstruídos, mais tarde, com a ajuda e o incentivo de um terapeuta. Do outro (é esse lado que prevaleceu), havia estudiosos do funcionamento da memória, que, à força de pesquisas experimentais, mostravam que 1) os eventos traumáticos nunca são propriamente apagados da memória e 2) a "reconstrução" de uma lembrança perdida, ainda mais com ajuda e incentivo de um terapeuta, é quase sempre um processo criativo, ou seja, invenção.
Quem se interessar por essa guerra pode ler o clássico "Victims of Memory" (vítimas da memória), de Mark Pendergrast (Upper Access, 1996), ou "Remembering Our Child- hood" (lembrando-se da infância), de Karl Sabbagh (Oxford, 2009).
O fato é que, graças à dita disputa, o funcionamento da memória foi pesquisado ativamente. E o que me importa hoje é justamente uma propriedade de nossa memória que foi documentada durante o debate dos anos 90 e que explica por que seria inexato dizer que Eileen Franklin, por exemplo, mentiu. Aqui vai: a cada vez que evocamos ou aprimoramos nossa lembrança de um evento, nossas palavras modificam o evento aos nossos olhos, de tal forma que estamos prestes a jurar que ele aconteceu exatamente como diz nosso relato mais recente.
Um exemplo. Eu tinha ("tinha", no passado) uma lembrança infantil, dos meus dois anos. Como muitas lembranças da primeira infância, ela era uma simples percepção: a silhueta de uma criança correndo, destacando-se, em contraluz, diante de uma porta de vidro. Evoquei e descrevi essa lembrança pela primeira vez durante minha análise e, desde então, repetidamente, ao longo de minha vida, tentei "entendê-la", "recordá-la" melhor. Resultado, hoje, minha lembrança é a seguinte: a criança que corre sou eu (o que é curioso, pois a dita criança está bem em frente de meus olhos) - e sou eu aos quatro anos, não aos dois (a porta de vidro é, "claramente", a da sala do apê dos meus quatro anos). Além disso, posso dizer com convicção para onde estou correndo e por que estou extraordinariamente feliz (estado de ânimo que, aliás, não fazia parte da imagem inicial).
Não sei se algo disso corresponde ao acontecimento que deixou em minha memória a silhueta de uma criança em contraluz. Igual, é só por hábito profissional que me obstino a desconfiar de minha lembrança assim como ela se apresenta agora; se não fosse por essa desconfiança do ofício, aquela imagem enigmática de criancinha correndo em contraluz estaria mesmo completamente perdida - transformada, irremediavelmente, por todas as minhas narrações, explicações e interpretações.
Como os historiadores sabem há tempo, a cada vez que evocamos eventos passados, nossas lembranças são imediatamente reescritas e corrigidas por essa evocação.
Há uma consequência desse fenômeno, que todos verificamos, uma vez ou outra. Um casal briga ao redor de um acontecimento recente: "Você disse que.."; "Eu só disse aquilo porque você me provocou"; "Não, quem provocou primeiro foi você", e por aí vai. Imaginemos que ambos sejam de boa-fé e que cada um queira apresentar honestamente sua versão dos fatos; eles deveriam facilmente entender como surgiu o mal-entendido, não é?
Pois é, isso não acontece quase nunca. Ao contrário, em geral, a briga piora: o outro, que contesta minha versão e a contrapropõe a sua, é mentiroso, pois contesta não "minha versão", mas os próprios fatos, assim como eles, ao meu ver, foram impressos diretamente em minha memória. Moral da história: seria bom que o uso da memória nos inspirasse alguma prudência. Afinal, a cada vez que nos lembramos de algo, quer queira, quer não, transformamos nosso passado.

Da Folha aqui.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Contardo Calligaris- Um herói americano





Adeus a um amigo que enlouqueceu pela exigência impossível de viver livre, sem amarras


Em 1967, Diane Bond e eu nos casamos. Ficamos casados até meados dos anos 70, e não sei por que a gente se separou.
Dos irmãos de Diane, eu conheci Gerald quando ele viajou pela Europa, no fim de seu serviço militar na Alemanha. E conheci Debbie e James no Colorado, em 68 ou 69. Ficamos na casa de James, em Boulder, perto de Denver, e, desde então, James Bond, para mim, foi meu cunhado, e não um agente secreto.
De Boulder, fomos acampar, pescar e caçar pelo Parque Nacional da Rocky Mountain. Não pescamos nada que pudéssemos colocar na panela e não achamos nenhum peru selvagem. Mas o marido de Debbie, que acabava de voltar do Vietnã, matava esquilos por nada e com um ódio que a gente não entendia.
Também de Boulder, fomos a Cascade, perto de Colorado Springs, só para ver de fora a casa em que James, Diane e Gerald tinham passado a infância (Debbie, mais jovem, deve ter chegado quando a família já estava para se mudar). Era uma casa de madeira, encostada na montanha.
A família era de classe média. No Colorado, naqueles anos, isso significava comida farta, carro, e, sobretudo, um cavalo para as crianças que tivessem idade para subir na sela.
No começo da primavera, os cavalos eram soltos para que corressem e pastassem, livres e selvagens, pelos bosques e gramados do Parque Nacional de Pike's Peak. Depois de um certo tempo (semanas talvez), as crianças saiam à procura dos cavalos, sacudindo baldes de grãos, para que, de longe, os cavalos ouvissem.
Em geral, a procura levava dias, e as crianças acampavam nos bosques. Quando, enfim, os cavalos eram encontrados, eles já estavam acostumados a errar livres pela montanha, e era difícil montá-los: você baixava a cabeça agarrando o pescoço de seu cavalo, fechava os olhos e deixava o animal galopar até ele não poder mais. Aí você conseguia levá-lo de volta para casa.
Na semana passada, James morreu. Nos anos 70, incapaz de ficar parado, ele se afastara da mulher e dos filhos ainda pequenos e se tornara carpinteiro, marceneiro, poeta e escritor andarilho.
Enlouquecido pelo anseio de uma liberdade absoluta e pela cocaína, James passou 30 anos de internação em internação, psiquiátrica ou penal. No fim de cada uma dessas estadias manicomiais, ele estava mais calmo, medicado e desintoxicado.
Mas não durava muito. Ele recaía -na droga, é claro, mas, talvez mais grave, na instância impossível de viver sem amarra alguma.
Um dia, ele escreveu para Diane: "Tenho uma vocação obstinada: estou sempre preocupado em fazer o que eu quero, o que inclui a liberdade completa de estar com o pé na estrada, diante de Jack Kerouac e de Lao Tzu".
Como muitos de nossa geração, James acreditava que a divindade estivesse em cada canto da criação; nisso, ele era taoísta.
Diane, Debbie e Gerald jogaram as cinzas de James no vento de Pike's Peak.
Diane reuniu os manuscritos deixados por James. Havia poemas, o começo de um romance intitulado "VagaBond", e milhares de páginas em que aparecia uma verdade paradoxal: a liberdade pode ser uma exigência terrivelmente impiedosa.
Nessas páginas, estava repetida uma mesma ordem, "Quero que James Bond seja o maior cavalo de coca no mundo inteiro", assinada por qualquer figura de autoridade, do xerife Billings (da polícia de Pueblo, responsável por uma das prisões de James) ao prefeito de Houston, Texas, e a Barack Obama. "Cavalo de coca", estranha expressão, não é? Talvez, na coca e na estrada, James procurasse a liberdade absurda daquelas galopadas da infância, levando os cavalos de volta para a casa de Cascade.
Diane não sabia o que fazer com os escritos de James; recorreu a dois amigos índios siú, que inventaram um ritual para queimar os manuscritos. James teria apreciado; quem sabe, dispersando-se na fumaça, as palavras fossem, enfim, soltas, desatadas, como a vida que ele desejava.
É um momento difícil para os Estados Unidos, e não paro de ler americanistas (improvisados ou não) se debruçando sobre a nação dividida entre, sei lá, progressistas urbanos da Costa Leste, conservadores evangélicos do centro e do sul etc. Um conselho: se quiser entender o que são os EUA comece com a loucura libertária de James, que é o grande fundo trágico da alma americana.
Goodbye, James. Se o grande espírito permitir, a gente ainda se encontrará um dia, e subiremos galopando pelas encostas de Pike's Peak.

Daqui da Folha de São Paulo

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Contardo Calligaris- A lealdade das mulheres


Foto daqui



Basta olhar as filas das visitas nos presídios para saber que lealdade não é qualidade masculina


Na tarde de quinta-feira passada, estive no Presídio Feminino do Butantã, situado na rodovia Raposo Tavares, longe do bairro paulistano do Butantã.
Aconteceu assim: antes do fim de ano, Wagner Paulo da Silva, que eu não conhecia, me escreveu explicando que ele organizava um grupo de leitura regular para detentas desse presídio. O grupo (mais ou menos 25 mulheres) tinha discutido uma de minhas colunas; quem sabe eu me dispusesse a proporcionar um "encontro com o autor"?
Soube depois que Wagner da Silva e Durvalino Peco animam há anos esse grupo de leitura para detentas do presídio do Butantã e, agora, com o apoio do Estado de São Paulo, estendem o programa a 26 penitenciárias da região metropolitana (para isso, eles promovem, na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, um curso gratuito de formação de mediadores -as inscrições já estão encerradas, mas vale a pena conferir: www.fespsp. org.br/leiturativa/).
Enfim, voltando das férias, liberei uma tarde para aceitar o convite e encontrar minhas leitoras. Ficamos conversando mais ou menos duas horas, e saí de lá com algumas reflexões. Eis uma delas.
A prisão, para as mulheres, é uma punição mais severa do que para os homens, e a causa dessa diferença é um atributo feminino.
Claro, há homens leais e mulheres desleais, mas, em regra, a lealdade é uma qualidade mais feminina do que masculina. Não estou pensando na fidelidade amorosa e sexual -nesse campo, homens e mulheres são capazes das mesmas "traições". Penso numa lealdade mais fundamental, que uma comparação vai explicar facilmente.
Em dia de visita numa penitenciária masculina, a fila de mulheres (esposas, mães, filhas, irmãs) é longa: facilmente, é mais de uma visita feminina por cada preso.
Em dia de visita numa penitenciária feminina, a fila é curta e, em sua grande maioria, composta pelas mães das detentas; os homens aparecem num número irrisório. Sei lá, por 700 mulheres no presídio, uma dúzia de gatos pingados visitando. Os homens se esquecem de suas companheiras assim que as portas do presídio se fecham sobre elas. Abandonada pelo companheiro ou marido, a mulher (outra prova de lealdade) prefere duvidar de si: será que o marido nunca comparece porque ela não é, nunca foi, a mulher que ele queria?
A deslealdade masculina aparece também quando os homens são presos; eles são bem felizes de receber a visita das mulheres que voltam a cada semana, lealmente, anos a fio, mas, com frequência, se esquecem dos filhos que deixaram fora do presídio.
As mulheres presas, ao contrário, só pensam nas crianças que estão lá fora (em geral, com a avó; quase nunca com o pai). E, de novo, a lealdade com as crianças as leva a duvidarem de si mesmas: no dia em que sairão do presídio, os filhos não as reconhecerão, ou então, de qualquer forma, eles já gostam de avós, vizinhas, tutores e tutoras mais do que delas -e por aí vai.
Facilmente, as mães detentas vivem o afastamento das crianças não como consequência da punição pelos crimes que elas cometeram, mas, bem mais sofrido, como punição por elas não "merecerem" ser mães -como se os filhos estivessem longe porque elas não souberam e não saberiam ser mães.
As mulheres, qualquer criminologista sabe, agem criminosamente por razões diversas das dos homens. Em regra, matam por paixão amorosa; quando traficam ou assaltam é, frequentemente, para acompanhar o parceiro. Com isso, a prisão feminina é uma espécie de pena do talião: crimes cometidos por amor são punidos pelo sumiço dos homens amados e pelo medo da perda do amor das crianças.
Na época em que trabalhei em instituições psiquiátricas fechadas, quando o expediente terminava e estava na hora de ir embora, no fim do dia, eu era acometido por uma tristeza profunda. Acabava de compartilhar um bom tempo com os que estavam lá internados, e eis que, agora, eu ia embora, para uma casa, uma companhia, o convívio dos amigos. E eles, não; eles ficavam. A tristeza era uma espécie de culpa por abandoná-los no que era, de fato, uma desolação. Pois bem, ao sair da penitenciária do Butantã, não senti nada disso, pois não havia desolação. Não teria como fazer elogio maior à direção do presídio, à equipe que lá trabalha e às detentas que encontrei, pela resiliência de sua vontade de viver.

Da Folha.