domingo, maio 11, 2008

Mulheres e seus direitos: ser ou não ser mãe






Mulheres e os direitos à existência


MIGUEL SROUGI


A sociedade tem a obrigação de participar, exigindo dos governantes compromisso inegociável com a defesa dos direitos da mulher

HÁ UM ano, neste espaço e nesta data, decidi homenagear as mulheres. Na ocasião, procurei mostrar que elas têm um papel insubstituível na superação da miséria e na construção de sociedades mais justas. Terminei dirigindo um olhar de gratidão a todas as mulheres e a minha mãe Ivone. Hoje, volto a falar delas, mas, diferentemente da outra vez, quero homenagear todas as Ivones do mundo neste início de texto -temo que, no final, minhas aflições me impeçam de fazê-lo com ternura.
Fiquei desconcertado com as novas leituras. Segundo a OMS, são realizados a cada ano cerca de 50 milhões de abortos no mundo, 19 milhões dos quais de forma clandestina e insegura. No Brasil, de acordo com dados do Ipas e da Uerj, são efetuados cerca de 1,1 milhão de abortos anualmente, 75% deles induzidos voluntariamente e executados de maneira insegura.
O desconforto aumentou quando descobri que, em 2005, 230 mil mulheres foram internadas em hospitais da rede pública devido a complicações do aborto. Em decorrência, talvez tenham morrido cerca de 11 mil brasileiras. Quase todas pertencentes às classes mais desassistidas, muitas nos primórdios da sua existência, todas elas vítimas da desigualdade de gênero e da discriminação que prevalecem na nossa sociedade.
O significado das estatísticas fica mais incômodo se forem lembrados alguns números. Se às brasileiras fosse dado o direito e o fácil acesso ao aborto seguro, morreriam menos de mil mulheres ao ano. Ainda muito quando falamos de vidas, mas menos indecente que 11 mil. E seriam economizadas somas significativas de recursos despendidos no tratamento das complicações do aborto inseguro.
A dimensão material desse problema pode ser compreendida por dados das Nações Unidas. Para cada dólar aplicado em planejamento familiar e saúde da mulher, são poupados entre 16 e 31 dólares gastos com as complicações decorrentes do aborto. E, num olhar mais humano, centenas de milhares de mulheres seriam poupadas das seqüelas do procedimento clandestino, como agravos psicológicos e sexuais irremediáveis, esterilidade definitiva, lesões genitais mutilantes ou infecções crônicas debilitantes.
Mesmo ciente das minhas carências para debater as questões filosóficas, éticas e religiosas que circundam o aborto, como médico e cidadão não consigo me calar diante de um problema que afronta a dignidade, impõe sofrimentos e pode tolher a existência de seres humanos.
O aborto sempre se misturará com a história da humanidade e nunca poderá ser inteiramente abolido. Sempre existirão as gestações indesejadas, ilegítimas, arriscadas ou inviáveis. Por isso, o esforço de todos os protagonistas desse enredo, governos e sociedade, deveria ser orientado no sentido de impedir que ele se torne necessário e de forjar condições para que as tragédias decorrentes possam ser sanadas com eficiência e rapidez.
Como fazer isso? Os governos, deixando de dirigir ao problema apenas olhares fugazes. Agindo com vontade sincera e coragem para promover o debate, descriminalizando ou não o aborto, de acordo com os anseios da sociedade. Não menos importante, promovendo a criação e a disseminação de programas sobre planejamento familiar, a inserção do ensino sobre saúde sexual e reprodutora nos currículos escolares, o acesso fácil e continuado aos métodos de contracepção e estabelecendo rede qualificada de atenção médica de emergência para mulheres no pós-aborto. Finalmente, concedendo às mulheres os mesmos direitos desfrutados pelos homens no trabalho, na propriedade, na política.
Para ter uma idéia do impacto dessas ações, vale lembrar a experiência vivida pelos romenos. No período do ditador Ceausescu e de leis extremamente restritivas, morriam por complicações do aborto 148 mulheres para cada 100.000 nascimentos vivos. Com a liberação do regime, maior respeito aos direitos humanos e legalização do aborto, o número de óbitos caiu para 9 em 100.000, com redução proporcional no número de mulheres injuriadas pelo processo.
A sociedade tem a obrigação de se inserir nesse concerto, exigindo dos governantes um compromisso inegociável com a defesa dos direitos da mulher e da condição humana. E tem que aceitar uma nova construção social em que a mulher não seja vista como mero instrumento de perpetuação da espécie. Mais que isso, permitindo que ela participe das decisões maiores que afetam seus destinos.
Termino enfatizando que, ao contrário do que o texto possa sugerir, não tenho convicção formada sobre a pertinência da legalização do aborto.
Ausência de convicção não só pelas minhas insuficiências, mas também porque às vezes me custa aceitar que um pequeno ser, como eu já fui, tenha o curso de sua existência tolhido nos seus primórdios. Realidade que talvez Riobaldo, o jagunço filósofo de Guimarães Rosa, tenha tentado descortinar: "Viver é um descuido prosseguido". O que deve valer tanto para uma mulher como para um pequeno ser.

MIGUEL SROUGI
, 61, médico, pós-graduado em urologia pela Universidade Harvard (EUA), é professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP.

Da Folha em 11 de maio de 2008

quinta-feira, maio 08, 2008

Conanda se posiciona contra depoimento do irmão de Isabella Nardoni


Imagem de uma criança daqui do Google, não é o irmão de Isabela



Conanda se posiciona contra depoimento do irmão de Isabella Nardoni




O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) protocolou hoje (08/05), no Fórum de Santana – em São Paulo (SP) – ofício com a posição do Conselho sobre a possibilidade de Pietro (3 anos), irmão de Isabella Nardoni, ser arrolado como testemunha do caso.



O Conanda não recomenda a inquirição da criança por razões como o fato de o denominado "depoimento sem dano" ainda não ter sido implementado em São Paulo (e no Rio Grande do Sul, onde já existe, funciona apenas para vítimas e não para testemunhas); de o artigo 206 do Código de Processo Penal desobrigar pais, mães, filhos e cônjuges de depor; de o artigo 208 do mesmo Código prever que a testemunha com menos de 14 anos não presta compromisso, estando, portanto, desobrigada a depor; e do processo traumático já vivenciado pela criança que pode ser agravado com o depoimento e com a exposição que este ato poderá acarretar.



No documento, o Conselho ressalta seu respeito às competências e atribuições do Ministério Público e do Poder Judiciário, bem como suas características de imparcialidade e discricionariedade, razão pela qual apresenta seu posicionamento e recomendação.





Informações:



Ariel de Castro – Conselheiro do Conanda

Tel: (11) 9127-5341



Maria Luiza Moura Oliveira – Presidente do Conanda

Tel: (61) 9249-8836 / (62) 3227-1717 / 3207-4145





Abaixo, a íntegra da nota:





NOTA PÚBLICA



Posicionamento do Conanda sobre a participação de criança de 3 (três) anos como testemunha em processo criminal do Tribunal do Júri





O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), principal órgão do Sistema de Garantias dos Direitos da Infância e Adolescência do País, vem manifestar sua preocupação e posicionar-se de forma contrária à participação de criança em processo criminal perante o Tribunal do Júri prestando depoimento na condição de testemunha.



Os casos de violência contra crianças e adolescentes não são isolados. Eles ocorrem com significativa freqüência na sociedade brasileira e precisam ser enfrentados de forma exemplar e prioritária, no âmbito preventivo e punitivo. Essa, certamente, é a principal preocupação do Conanda.



Entendemos que os casos de violência precisam ser noticiados visando prevenir outras ocorrências e enfrentar a impunidade. Nesse sentido, os meios de comunicação exercem um papel nobre e relevante. Porém, alguns excessos de comunicação, com forte carga de apelo emocional, também constroem caminhos que podem levar a situações de excessiva exposição e conseqüente desproteção da criança e/ou do adolescente, que já se encontra bastante vulnerável.



Diante deste contexto, o Conselho identifica que no caso do assassinato da menina Isabella, de 5 anos, morta ao ser asfixiada e em seguida atirada do 6º (sexto) andar do prédio, supostamente por seu próprio pai e pela madrasta, nos alerta sobre os riscos com relação à tomada do depoimento do irmão de apenas 3 anos, como testemunha, tendo em vista a conclusão da polícia que o menino teria presenciado todos os fatos. Tal situação aventa a possibilidade desta criança testemunhar no processo criminal da morte da irmã, onde os acusados são seus próprios pais.



O Conanda não recomenda a inquirição da criança como testemunha no caso citado pelas seguintes razões:



1) O denominado "depoimento sem dano" ainda não foi implementado no Estado de São Paulo. No Estado do Rio Grande do Sul, onde foi implementado, são ouvidas "vítimas" e não "testemunhas";



2) O artigo 206 do Código de Processo Penal prevê que pais, mães, filhos e cônjuges podem se eximir da obrigação de depor. Nesse caso, a criança de 3 anos não tem como manifestar sua vontade real e inequívoca de depor ou não depor;



3) O artigo 208 do Código de Processo Penal também prevê que a testemunha de menos de 14 anos não presta compromisso, portanto também não é obrigada a depor. Dessa forma, o depoimento, mesmo que ocorresse, teria um valor relativo;



4) O artigo 18 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990) dispõe que "é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor". Certamente, a inquirição de qualquer criança acarretaria conseqüências para seu desenvolvimento psíquico, independentemente da forma utilizada. Em um caso complexo e de tanta repercussão, onde todas as informações são exaustivamente tornadas públicas imediatamente, certamente geraria grande constrangimento para uma criança de três anos. Eis que além de ter sua imagem e privacidade extremamente devassadas, acentuaria as dificuldades de convivência familiar e comunitária. Além disso, avaliamos as dimensões e repercussões emocionais ao longo do desenvolvimento desta criança ao se culpar e/ou ser culpada pela possível prisão dos pais. Isso não significa que o crime e a superação dos traumas não devam ser trabalhados nas terapias. O que não podemos aceitar é a exposição desta criança perante a Justiça e, conseqüentemente, perante toda a sociedade brasileira.



5) Considerar a proteção do mundo subjetivo da criança também é pensar na garantia dos direitos humanos de uma pessoa em situação peculiar de desenvolvimento, que tem direito de calar e elaborar seus conflitos. Outra reflexão é o risco da exposição do universo psicológico de uma criança e com isso romperem-se as fronteiras da proteção em momentos de extrema fragilidade psicológica.



6) A questão que se coloca nesta problematização é a de que inquirir qualquer criança é algo polêmico e muito delicado. No caso específico, nos parece que a criança, aos três anos de idade, se encontra no período de estruturação psíquica e vivenciando repetidos acontecimentos traumáticos. Portanto, não vislumbramos qualquer benefício ao processo e principalmente à criança, que já se encontra extremamente vulnerável, a citada inquirição como testemunha.



7) Nesse sentido, respeitando as competências e atribuições, além da imparcialidade e discricionariedade do Ministério Público e do Poder Judiciário, apresentamos o presente posicionamento e recomendação.



Brasília, 08 de maio de 2008



Maria Luiza Moura Oliveira

Presidente do Conanda


Daqui: A pauta dos direitos da infância e da adolescência
Rio Grande do Norte - 08/05/2008

quarta-feira, maio 07, 2008







Sessão de Cinema e Psicanálise

"O inocente"


Luchino Visconti


Dia 9 de maio, às 20:00 hs, na Aliança Francesa de Natal



Ficha Técnica

Direção: Luchino Visconti

Roteiro: Luchino Visconti, Suso Cecchi d'Amico, Enrico Medioli

Produção: Giovanni Bertolucci

Música Original: Franco Mannino

Música Não Original: Wolfgang Amadeus Mozart, Christoph von Glück

Fotografia: Pasqualino De Santis

Edição: Ruggero Mastroianni

Design de Produção: Mario Garbuglia

Direção de Arte: Luchino Visconti

Figurino: Piero Tosi

Maquiagem: Aldo Signoretti

País: Itália, França

Gênero: Drama

Prêmios: Prêmios David di Donatello - David de Melhor Música



Elenco:


Ator / Atriz
Personagem

Giancarlo Giannini
Tullio Ermile

Laura Antonelli

Giuliana Ermile

Jennifer O'Neill
Condessa Teresa Raffo

Rina Morelli

Mãe de Tullio

Massimo Girotti
Conde Stefano Egano

Marc Porel

Filippo d'Arborio

Didier Haudepin
Federico Ermile

Marie Dubois

A Princesa

Claude Mann
O Príncipe





Comentário




Na abertura do filme, uma mão gasta pelo tempo folheia as páginas de um grosso volume do romance de Gabrielle D’Annunzio, “L’innocente”, sobre um tecido vermelho. Vermelho é a cor predominante neste drama. Trata-se do último filme de Visconti, finalizado três meses antes da sua morte. É um filme intimista, dramático; a subjetividade dos personagens é privilegiada, é o que dá veracidade e complexidade à trama. É dessa subjetividade que emerge a intensidade dramática do filme. Já tendo rompido com o neo-realismo, Visconti faz uma livre adaptação do livro homônimo do polêmico escritor.




A esgrima, o sarau, o figurino e a ambientação não deixam dúvidas, desde a primeira seqüência, de que se trata de um filme de época. Entretanto ele aborda um tema atemporal e universal, pois trata da estrutura do desejo, do amor e do gozo. Tudo isto é entrelaçado e posto em jogo nos triângulos amorosos.



Roma, final do século XIX. Nas primeiras seqüências, com elegância e o perfeccionismo habitual, Visconti já nos apresenta os elementos dessa trama.




Túlio, um nobre, intelectual, ateu e sem preceitos morais vai com a sua mulher Giuliana, inicialmente passiva, discreta e reservada, ao sarau oferecido pela melhor amiga dela .



Ao som da marcha turca de Mozart aparece Teresa Raffa, amante de Túlio que, por alguns instantes encara Giuliana. Minutos após, no salão ao lado, tudo se harmoniza com o vestido vermelho de Teresa. De um lado, mulheres de preto e homens de smoking; do outro lado, combinando com o vermelho da parede está Teresa, bela, fatal, livre e sem preconceitos, como ela mesma se define. Objeto de desejo de todos os homens, ela também causa o desejo de Túlio, mas quer exclusividade.




Esta seqüência revela também a posição de Giuliana diante dessa paixão forte, obstinada, imperativa. Submissa e resignada, ela aceita calada que Túlio se retire do sarau com a amante.



Diante da exigência de Teresa de ser a única para Túlio, ele encontra uma solução bastante prática: decide partir em férias para Florença com a amante e pede que Giuliana o espere.




Lembra a ela o pacto que fizeram no início do casamento: o amor deveria existir enquanto fosse intenso; depois deveria ser substituído pelo afeto, pela estima, interesses comuns e pela amizade. Caberia a um deles aceitar ou não.



Giuliana sempre havia aceitado sem reagir. Por amor? Pelo medo de mudar de vida? Pela esperança de recuperar a intensidade da paixão do início do casamento? Para evitar escândalos? Por masoquismo? Túlio pede pra que ela o espere. O que ela deve esperar? Talvez que a paixão por Teresa decresça e nada mude no modo pelo qual o casal arranja o seu gozo.




Giuliana o interroga: “Teresa é viúva, é livre. O que o impede de juntar-se a ela se é isso que deseja?” Talvez Túlio dissocie muito bem, ao modo masculino, desejo e amor. Talvez Túlio saiba que o desejo é efêmero, que ele desliza de um objeto para outro, de uma mulher para outra.



Teresa é sedutora, gosta de ser cortejada pelos homens, levá-los ao desespero e assim certificar-se do quanto é desejada. Túlio atormenta-se por que ela está sempre escapando. Diz ele: “Ela é infiel. No momento em que a sente sua, completamente sua, ela lhe escapa. Está com você, mas sente que está perseguindo outros fantasmas, outros desejos.”




Teresa o faz acreditar que deseja para além dele enquanto Giuliana o faz crer que lhe pertence, que é previsível e fiel.



Túlio quer apreender o ser da mulher, colocando-a no lugar da sua fantasia, mas se ela o ocupar, o desejo desaparece. A sua mulher cai no engodo de fazê-lo crer nesta ilusão. A sua vida com Giuliana lhe parece morna, fraternal e a sua resignação, a certeza da sua fidelidade e de que ela vai sempre estar a sua espera reforça isto. Túlio pede a fidelidade, a posse, mas se ele consegue, a mulher deixa de ser causa de desejo para ele. Há algo de mortificado nesse casamento, como se o gozo estivesse ausente.




Um diálogo com Giuliana mostra um pouco do quanto há de gozo nessa relação atormentada com o ciúme, o medo da infidelidade. Diz Túlio:



-“(...)A coisa mais perigosa pra mim é que o estado de desespero em que me encontro me deixa tão infeliz, mas ao mesmo tempo me deixa vivo.(...)


- Fala como se eu nunca tivesse existido.

- Tem razão. Sou injusto. Desculpe, tem que ter paciência comigo. Como um doente.

-Um doente que se regozija da sua própria doença.”



Túlio fica mesmo doente, muda a expressão, fuma muito, não sai de casa. Parece mal de amor, mas a se guiar pelos acontecimentos que se seguem, parece que a função de Tereza estava em saber causar o seu desejo e manter o gozo do qual ele depende: uma espécie de torpor, de encontrar a felicidade no tormento.



“Uma nova razão”, um toque no tambor, um novo passo, a cabeça que se volta: o novo amor (Rimbaud). Giuliana distraiu-se, surgiu um novo amor, um encontro, um acaso. Abandonada, triste, quase desfalecida, humilhada, conhece Fillipo D’Arborio, escritor da moda. Não sabemos muito sobre esse amor, apenas um comentário de Túlio indica que dormiram algumas noites e ela já o amaria por toda vida. “É extraordinário o dom que as mulheres têm de adaptar a realidade aos ideais românticos da pior literatura”, diz Túlio.




“Uma nova razão” também surge para Túlio ao começar a perceber mudanças na sua mulher: um novo perfume, um capricho ao se arrumar, uma mentira, um novo véu recobre o seu rosto.



A partir de então, Teresa é imediatamente e literalmente esquecida enquanto passamos a nos deparar com uma face do amor louco, desmedido. Numa luta para capturar o pensamento de Giuliana, que está alhures, e apreender o seu ser, que, este, ninguém apreende, a não ser na morte, Túlio procura descobrir o segredo de Giuliana, atormentando-a.




Em momentos de grande esmero visual, ele e Giuliana passeiam no campo. Giuliana aparece e se esconde por entre as árvores.



Para Lacan é nessa abordagem do ser pelo amor que reside o extremo do amor e que desemboca no ódio (Seminário XX - Mais, Ainda).




O amor nessa vertente ilimitada é o que Túlio chama de experiência inebriante, mórbida, onde amor e gozo se conjugam.



A mudança de Giuliana leva Túlio ao êxtase, pois ele depende de um terceiro para garantir esse gozo, ou melhor, colocar-se ele mesmo como um terceiro, imaginando o que o outro tem para causar o desejo de Giuliana.




Lacan introduz um neologismo para falar do gozo do ciúme, advindo do ódio-ciumento. O termo é jalouissance, uma mistura de jalouse (ciúme) e jouissance (gozo). O exemplo paradigmático disso é o de Santo Agostinho que olha o irmão mamando no colo da mãe. O terceiro é ele mesmo e a criança olhada ele supõe que tem o que Lacan chama o ‘a’, algo que funciona como causa de desejo (Seminário XX - Mais, Ainda).



Túlio é o terceiro na relação entre Giuliana e Fillipo D’Arborio. Ele não pode olhar, mas imaginariza o que ela pensa, em que ela pensa. Para ele, Fillipo o tem, o ‘a’.




O filme revela um final surpreendente, diferente do romance de Gabrielle D’Annunzio. O único final cabível neste filme requintado, de grande cuidado visual e ao mesmo tempo, cruel e implacável. Há beleza também no último minuto do filme: o drama se desfaz enquanto a imagem de Teresa se afasta na neblina.





Natal, 4 de maio de 2008




Tereza Sampaio





domingo, maio 04, 2008

Narcisismo de homens e mulheres


Todos querem ser amados para sempre, amor indelével.
Ai está a questão- 'this is the question', caríssimos...



Foto daqui


CONTARDO CALLIGARIS

Narcisismo de homens e mulheres


O homem vive um narcisismo valentão; a mulher questiona: "Será que gostam de mim?"

NA COLUNA da quinta retrasada, "O Trauma do Amor", escrevi o seguinte: "Mesmo quando a iniciativa da separação foi da própria mulher (ou compartilhada por ela) e não houve "infidelidade" do lado do homem, as mulheres tendem a viver a separação como uma traição, como uma crueldade que lhes foi feita, uma sacanagem".
Acrescentei que deixaria para outra vez a explicação dessa especificidade feminina. Respondendo aos pedidos de vários leitores e leitoras, aqui vai UMA explicação.
Muitas culturas (não só a nossa) preferem que, no início do jogo amoroso, os homens façam o primeiro passo. Ultimamente, o recato deixou de ser uma qualidade feminina essencial: uma mulher que se arrisque a ser a primeira a mostrar seu interesse não é mais uma atrevida (ou pior). Mas o hábito permanece: "Que os homens se manifestem, e as mulheres aceitem ou rejeitem".
Há, nesse costume antigo, uma certa sabedoria, pois, para os homens, em geral, é mais fácil lidar com uma negativa. Raramente a recusa os leva a uma dúvida radical sobre eles mesmos. Muito antes de perguntar-se "Será que não sou aquela maravilha toda que minha mãe e minhas tias diziam que eu era (e, se não disseram, deveriam ter dito)?", os homens conseguem inculpar detalhes contingentes ("Hoje, excepcionalmente, o desodorante me largou") e, sobretudo, acusam a própria mulher que os recusou: se ela não quis, é porque é "uma puta". Paradoxal, não é?
Pois é, mas o paradoxo é revelador. Para o homem, como era de esperar, a única que não seja "puta" é a mãe, que, supostamente, gostava e gosta só dele.
As outras, que não se extasiam diante de seus vagidos, são "putas" porque podem lhe preferir terceiros quaisquer. Por sorte (de todos nós), essa "segurança" narcisista do homem tem uma pequena falha: a própria mãe, por mais que se extasiasse com ele, fechava-se no quarto com o pai, de vez em quando (para o menino, aliás, não é um bom negócio que a mãe se esqueça de ser mulher).
Seja como for, o narcisismo masculino não se deixa abalar por uma recusa. A convicção de ter sido objeto exclusivo e insubstituível do amor materno é um recurso (quase) seguro: "Pouco importa que as outras não gostem de mim, pois a única que importa gostava e gosta".
Para a maioria das mulheres, acontece o contrário. Uma recusa e uma negativa valem como uma espécie de confirmação do que era suspeitado por elas desde sempre: "Não agrado e nunca fui verdadeiramente amada".
Hoje, depois de décadas de um lento processo de mudança cultural em que o feminino foi valorizado, afirma-se que o amor de mãe é o mesmo para menino ou menina. Mas a "Escolha de Sofia" (o romance, note-se, foi escrito por um homem) seria, provavelmente, a mesma: acuada, tendo que escolher entre o filho e a filha, Sofia ainda salvaria o menino.
O sentimento de que um filho satisfaz a mãe mais do que uma filha continua na cultura, solidamente.
Quer seja pela ilusão de que o filho homem não sumirá pelo mundo afora, mas, por eternizar o sobrenome, ele ficará na tribo (perto da mãe).
Quer seja pela sensação de completude que talvez acompanhe a constatação materna de ter conseguido dar à luz um ser tão diferente dela, um ser do outro sexo.
A conseqüência dessa disparidade do amor materno é a tragicomédia cotidiana, em que uma mulher, mesmo em seu melhor dia, precisa perguntar a seu companheiro se ele a acha bonita. E um homem, deformado por churrascos e cerveja, julga-se irresistível.
Em suma, homens e mulheres, em geral, padecem de narcisismos diferentes: o homem é blindado por uma segurança eficiente e um pouco obtusa, e a mulher é constantemente exposta ao risco de um dúvida radical sobre o amor que ela recebe.
O discurso comum pensa que a mulher, mais cuidadosa com sua aparência, seja "mais narcisista" do que o homem.
Não é nada disso: o homem vive um narcisismo valentão, enquanto a mulher não pára de questionar: "Será que gostam de mim?". Corolário: a mulher, por isso mesmo, é melhor psicóloga do que o homem -mais perspicaz na leitura das palavras e dos gestos dos outros.
Conclusão: a rejeição, para uma mulher, é uma experiência que coloca em perigo sua precária certeza de ser aceita no mundo, é uma experiência que abala seu ser, que a fere além da conta. Inclusive além da conta possível de perdas e danos numa separação.



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domingo, abril 13, 2008

A tragédia com Isabella...

Folha de São Paulo, 10 de abril de 2008

A tragédia com Isabella nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira “moderna” de casar.

Contardo Calligaris


Não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella não chegaram a se juntar. Foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.
É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz-afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer.
Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim?
A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz.
Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de “explicar” o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira “moderna” de casar.
São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.
É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.
A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos -por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.
Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do “instinto” paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades “paternas”. Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher. Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados.
Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar.
A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher censura o “excesso” dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre está às portas.
São apenas exemplos. O casamento “moderno” é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males.
Não se trata de condenar a idéia de que seja possível refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria. Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que, de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma semana, que a vida das famílias “modernas” é muito mais difícil do que parece.

Demonizar o pai de Isabella pode ter a função de exorcizar algo que tememos

'Demonizar o pai de Isabella pode ter a função de exorcizar algo que tememos'

Concordo, é um absurdo esta precipitação em acusá-lo. Terrível. Elianne Abreu

Nascimento tardio

ATENÇÃO DADA À CRIANÇA COMO SER ÍNTEGRO DOS PONTOS DE VISTA SOCIOLÓGICO E PSICOLÓGICO TEVE SEU INÍCIO NO SÉCULO 18, COM ROUSSEAU

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

Uma das reações ao assassinato de Isabella Nardoni -a precipitação da imprensa, de certos investigadores e até de membros do Judiciário em acusar o pai da menina- incita a refletir. Por que tanta pressa para encontrar um culpado, infringindo o elementar direito desse homem à presunção de inocência e eventualmente a um julgamento justo?
E isso apesar do precedente da Escola Base, no qual os adultos suspeitos de abuso sexual contra um menino se mostraram inocentes.
É natural que tragédias suscitem comoção pública: alguns leitores talvez se lembrem de incêndios como os do Andraus e do Joelma, e, mais recentemente, o tsunami, o furacão Katrina, o acidente da Gol também despertaram revolta e solidariedade.
Mas nem toda tragédia é um crime: casos como o de Isabella, como o de mães que tentam matar seus bebês indesejados, provocam uma repulsa mais profunda porque põem em jogo a crença na naturalidade dos sentimentos familiares.
Se hoje a violência contra crianças nos parece particularmente hedionda, convém lembrar que essa é uma atitude recente. Durante séculos, ela foi aceita como legítima, quer no interesse da própria criança (castigos físicos como parte da educação do caráter, por exemplo), quer no dos pais (abandono de filhos ilegítimos na "roda dos enjeitados") ou da sociedade (infanticídio eugênico em Esparta, assim como em certas tribos indígenas e africanas).

Direito de vida e morte
O princípio que justificava tais práticas era bem expresso na Lei das Doze Tábuas: "O pai tem direito de vida e morte sobre seus filhos, assim como de os vender" (tábua 5, 2).
A mesma regra vale em inúmeras sociedades antigas e mesmo atuais: como prova da sua fé, Jeová exige de Abraão que sacrifique Isaac; como não há alimento para todos os membros da família, João e Maria são enviados para morrer na floresta; Édipo é abandonado no monte Citerão devido à profecia segundo a qual mataria seu pai; repetindo o faraó, Herodes manda matar os meninos judeus para evitar que um deles se torne o salvador do povo; bebês do sexo feminino são assassinadas na China porque o único filho permitido pela lei deve ser menino -os exemplos encheriam toda esta página.
Foi com a idéia cristã de um Deus menino que começaram a surgir práticas mais respeitosas para com as crianças, como a educação dos abandonados nos mosteiros medievais. Mas a categoria psicológica e sociológica da infância é recente: data do século 18 (Rousseau).
A percepção de que os pequenos seres humanos têm características emocionais e intelectuais distintas daquelas dos adultos levou à criação da "nursery", com seus brinquedos e jogos, e de histórias próprias para eles: primeiro, as de Hans Christian Andersen, depois as de fada, até chegarmos aos desenhos animados; o primeiro longa-metragem do gênero, "Branca de Neve", retoma a história de uma garota cuja morte é desejada.

Crença na pureza
Essa evolução dos costumes produziu a crença na "inocência" e na "pureza" da criança, em particular no que se refere à sexualidade.
As descobertas psicanalíticas mostram que as coisas são um pouco diferentes, mas é importante frisar que elas não invalidam a dimensão jurídica da proteção aos menores: o pequeno é mais fraco do que o grande, e, portanto, o crime contra ele é considerado mais grave que o praticado entre iguais.
Já a lei romana prescrevia: "O tutor que agir com dolo será destituído com infâmia e pagará em dobro o prejuízo causado" (tábua 7, 11). O que é condenado aqui é o abuso de confiança, que, além de ser um delito, é também uma transgressão aos princípios da ética.
Um marco histórico na percepção de que a criança é sujeito de direitos foi a Declaração dos Direitos adotada sobre ela pela ONU em 1959, base para o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente, que, apesar de algumas falhas, é uma boa lei.
O fato de ela ter "pegado" mostra que a sociedade brasileira está disposta a cuidar melhor das novas gerações e a punir os que agirem de modo contrário -e isso é um avanço civilizatório.

Situações intoleráveis
Prova disso é que situações que há poucas décadas deixavam as pessoas indiferentes ou apenas suscitavam protestos da boca para fora, como a exploração do trabalho infantil, são hoje tidas por intoleráveis.
A esses dados de ordem sociológica e política o psicanalista pode acrescentar que o abuso sexual, a pedofilia, a brutalidade na punição, o infanticídio não nos chocam apenas porque ofendem o princípio da proteção ao mais fraco, mas também porque mobilizam ansiedades infantis à ameaça representada pelo adulto (bruxas, ogros).
Além disso, há a angústia diante da possibilidade de que venhamos a ter tais desejos e idéias -ou, pior, a praticar tais atos, que correspondem a fantasias inconscientes mais difundidas do que gostaríamos de acreditar.

Exorcismo
Demonizar o pai de Isabella pode ter a função de exorcizar algo que tememos, porque inconscientemente também desejamos -a possibilidade de prejudicar, pouco ou muito, os pequenos que dependem de nós. Já o sabia o profeta Jeremias: "Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos apodrecerão?" ("Jeremias", 31:29).



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RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Escreve na seção "Autores", do Mais! .

quinta-feira, abril 10, 2008

Sessão de Cinema e Psicanálise






Sessão de Cinema e Psicanálise


Quando: Dia 11 de abril, sexta-feira, às 20:00 hs
Local: Aliança Francesa de Natal
Onde fica: Rua Potengi, 459, Petrópolis -
Praça Pedro Velho- Praça Cívica





Carta de uma desconhecida
de Max Ophüls



Ficha Técnica



Filme: Carta de uma Desconhecida


Diretor: Max Ophuls


Baseado no livro de Stefan Zweig


Atores: Joan Fontaine, Luis Jourdan








Comentário de Teresa Sampaio






“Um olhar é algo difícil de definir; ele pode sustentar uma existência ou devastá-la”

(J.Lacan)



Max Ophuls, considerado um dos grandes estetas da história do cinema, faz uma adaptação delicada do livro de Stefan Zweig. A desconhecida era, no romance de Zweig, ‘uma amante invisível, tão imaterial e tão passional como uma música longínqua’. Talvez, inspirado nisto, Max Ophuls transforma o personagem do livro que era um escritor, em pianista e inunda o filme de música.





Ele utiliza-se da carta que o pianista Stefan (Louis Jourdan) recebe de Liza Bernle (Joan Fontaine) como elemento narrativo para fazer evoluir o filme em flashback, descrevendo docemente a imensa solidão e o abismo entre o casal.





Liza tem treze anos quando Stefan Brand muda-se para o apartamento em frente ao seu. A chegada de Brand representa um verdadeiro divisor de águas na sua vida, antes mesmo de conhecê-lo.





Antes a sua vida era vaga, perturbada e confusa, coberta por poeiras e trevas. Havia uma pobreza reinante, vizinhos mal-educados, impertinentes. A mãe era a pobre viúva de um funcionário de finanças, sempre de luto. Ela, uma criança magra e apenas formada. ‘Vivíamos como perdidas na nossa mediocridade de pessoas pequenas’. Na porta do seu apartamento não havia nenhuma placa com o nome Bernle, coisa incomum na época. Liza viveu uma infância sombria, anônima, sem vida.



A sua vida começa com a chegada do novo vizinho com o seu piano, com os objetos que a extasiaram, como ídolos hindus, esculturas italianas, belos e numerosos livros em vários idiomas, tapetes persas e quadros esplêndidos.





Um simples olhar no interior do apartamento apagou os treze anos vividos até então. A casa fora inundada pela sua música. A música e o novo universo que se apresenta a ela, mesmo só fazendo parte dele na fantasia, é o marco que a faz esquecer o passado.





Diz Liza que apenas pôde lançar um fugitivo e furtivo olhar na vida dele, mas esse olhar foi suficiente para que ela pudesse sonhar infinitamente, nos devaneios e nos sonhos. Nesse primeiro momento ela o envolveu numa aura de estranheza, riqueza e mistério. ‘Este rápido minuto foi o mais feliz da minha infância’, diz ela. ‘Eu quis já te contar pra que tu comeces a compreender como uma vida pode se ligar à outra até o aniquilamento. ’





Uma idéia a deixa obcecada: como seria este homem que tinha lido livros tão belos, que conhecia todas essas línguas e era tão rico e sábio?





Fascinação e deslumbramento foram os sentimentos que a invadiram desde o início, mas ela ainda o confundia com a imagem de um Deus ou de um pai.





Completamente tomada pela música que vinha do seu apartamento, costumava imaginar que ele tocava para ela.





Apenas num terceiro momento, quando ela o vê, é que se dá conta de que ele não era um Deus ou um pai, mas sim um homem, ou melhor dizendo, um Homem. Liza estremece de surpresa ao perceber o quanto ele era jovem, leve, esbelto e elegante. ‘Foi depois desse segundo que eu te amei (...) como uma escrava, como um cão. Nada sobre a terra parece com o amor de uma criança retirada da sombra. Eu me precipitei no meu destino como num abismo. ’





Durante muito tempo esse amor levado ao extremo, um amor onde se mesclam fascinação e devastação, sustentou a vida de Liza. Por ele ou para ser algo além de uma cave empoeirada, sem nome na porta do apartamento, ela mergulha tanto no mundo de Stefan que acaba fazendo parte dele. Liza lê tudo o que rastreia do seu gosto literário, lê a vida de vários músicos, acompanha todos os passos da sua carreira.





Dos dezesseis aos dezoito anos é obrigada a morar em Linz com a mãe e o padrasto. Lá ela é cortejada por um tenente importante, mas ela não podia ser desejada por outros homens, já que pertencia a Stefan. Ela diz que não queria se distrair da sua paixão.



Liza, Linz, Liszt. Esses nomes não constam no livro de Stefan Zweig. Talvez Max Ophuls quisesse manter uma homofonia para acentuar que estamos num mundo extremamente musical.





Desse modo ela retorna à Viena. A sua paixão se torna mais ardente, mais concreta, mais feminina. Liza agora é uma mulher; ela está bela, tem belos momentos com Stefan, mas a despeito disto, continua uma desconhecida para ele. A cada encontro uma distância se fazia e ele não a reconhecia. ‘Tu não me reconheceste, nem então, nem jamais. Jamais tu me reconheceste. Fatal dor da minha vida... restar desconhecida’.





Mas ela não faz nenhum esforço para que ele se lembre nem por um momento. Queria ser a única... a única mulher que jamais lhe pediu algo, um amor que não deixa nenhuma carga, a mulher que não deixa traços.





O que aconteceria se Liza se fizesse reconhecer? Talvez ela não se sentisse tão única, ela seria uma mulher como as outras; talvez ela tivesse que abrir mão dessa espécie de êxtase que a devastava, mas também a fascinava. Liza só conhece esses dois extremos: de um lado, a sua infância, anônima, sombria, sem vida; do outro lado está o deslumbramento com o mundo da música e a paixão por um belo homem.





O casamento com um homem rico e também bonito, que poderia lhe estabilizar, vacila diante da vontade de reviver aquela mesma sensação que, como ela mesma define, ‘é mais forte que ela mesma’.





Afinal, o caráter de exclusividade que ela lhe atribui exige uma certa fatalidade como desfecho:

‘eu não creio em Deus, eu só creio em ti e não desejo sobreviver que em ti.’,

diz Liza no livro de Zweig.





Natal, 08 de abril de 2008.



Tereza Sampaio

















domingo, abril 06, 2008



Um grito agudo corta o silêncio. Voz de mulher.

Paro de escrever.

- "Coma, coma tudo, anda", diz aos berros para a criança.

É uma menina pequena, inquieta.

Em alguns domingos passa o dia na piscina de adultos- usa bóias nos braços- se recusa a sair.

A mãe a observa da borda. Daqui ouço os gritos.

Que futuro terá esta menina?

Eu não sou da sua rua




Eu não sou da sua rua

Depois de passar dez anos morando nas esquinas de São Paulo, Esmeralda Ortiz, ex-menina de rua, prova que é possível achar um sentido para uma vida errante

Por Filipe Luna na Cult


Nem todos os becos são sem saída. Esmeralda Ortiz perambulou muito, mas achou o caminho que a levou para longe das calçadas depois de 10 anos sem teto, endereço ou CEP. A moça foi, durante uma década de seus 28 anos, uma menina de rua. Com direito ao pacote completo. Entrou e saiu umas cinqüenta vezes da Febem, roubou, cheirou cola, fumou crack, sofreu abuso sexual. A rotina dos fantasmas da cidade que passam propositadamente despercebidos para os transeuntes. Toda essa história Esmeralda contou no seu primeiro livro, Porque não dancei, que narra uma impressionante trajetória de recuperação de uma vida quase perdida. De fato, quem vê e conversa com essa mulher feita hoje, mal pode acreditar que é a mesma pessoa de quem a vida abusou por tanto tempo. Difícil crer que era essa a mesma adolescente que, louca de crack, brincava de pega-pega com a polícia; ou a menina que apanhava diariamente da mãe antes de fugir para a rua; ou a que foi estuprada na linha do trem.

Esmeralda começou a reescrever sua história iluminada pelo fio de luz que entrava na sua cela na Febem com um cotoco de lápis dado pelo diretor e mantido sob segredo constante, para evitar tomar pauladas dos funcionários. Quando deixou a rua e o crack, a menina encontrou no projeto Aprendiz, de Gilberto Dimenstein, a direção para começar a se tornar a mulher que é hoje. Com o apoio dele, escreveu e publicou seu catártico primeiro livro. Depois veio O diário da rua, sua segunda aventura como escritora. Nesse meio tempo, Esmeralda ganhou educação - enfrentando suas próprias deficiências para terminar a faculdade de jornalismo - e um rebento - Kadu, seu filho de 3 anos, que cria sozinha em sua casa em Pirituba, zona oeste de São Paulo. É esse desenrolar de seu roteiro que ela contou para a CULT nesta entrevista, provando que pode haver vida depois da rua, que é possível carregar o peso que ela suportou na sua errância sem partir as costelas e começar a escrever um final diferente para uma história destinada a ser estatística.

CULT: Como foi seu percurso depois que fez seu primeiro livro?
Esmeralda Ortiz: Quando saí da rua eu tinha uma meta: estudar. E quando escrevi meu livro a meta cresceu mais ainda. Teve até uma menina que saiu da rua, e escreveu um livro também, que se suicidou depois que terminou. Eu entendo. Fiquei mal, meu. Queria me enfiar em qualquer buraco. Mas não queria ser apenas uma escritora que saiu da rua e conseguiu fazer um livro, eu queria quebrar esse padrão. Fui estudar, investir na minha educação. Entrei na faculdade Anhembi-Morumbi. O reitor me ligou oferecendo uma bolsa. Ligou também o dono da livraria Cortez me oferecendo uns livros. Pessoas que nunca tinha visto, me ajudando, isso faz valer a pena. A faculdade foi muito legal, mas mesmo assim, sofri um pouco de preconceito. Pelo meu jeito... Primeiro é cultural, por ser ex-menina de rua trago essa cultura de lá. Não vou chegar na faculdade como os caras, com tudo certinho. Então, fazia a maioria dos trabalhos sozinha. A única pessoa que fazia trabalho comigo era o Bene, meu amigo. Tinha uma professora que começou a me perseguir muito. Até pensei em processar ela por preconceito.

CULT: Por que ela perseguia você?
E.O.: Sei lá, meu. Na verdade, não sei como entrei na faculdade, porque minha educação foi muito complicada. A professora perguntava se alguém tinha dúvida e eu sempre levantava a mão. Não lembro direito, mas ela falava que não ia responder. Eu ia falar, ela não deixava. Ia fazer pergunta, ela não deixava. Até repeti a matéria dela. Quando fiz de novo, ela tinha lido meu livro e chorou bastante, veio me pedir desculpas. Deixei de lado, tá ligado? Os outros professores foram muito compreensivos. Entendiam minha deficiência... Não é nem deficiência. Tenho meu dom, mas tem coisas que não tenho QI, entendeu? Quando engravidei, freqüentei a faculdade o tempo todo durante a gestação. Depois que meu filho nasceu, foi comigo todos os dias para as aulas até um ano e seis meses. Não tinha com quem deixá-lo. Os professores me deixaram levá-lo numa boa, então teve o lado bom também. O lance é que faculdade, no Brasil, não desmerecendo, mas a gente sai sem saber nada. Estou aprendendo agora, na prática. Lá ficamos só na teoria. Mas o curso me deu um caminho, então foi muito bom. Agora quero fazer antropologia.

CULT: Quando você estava na rua tinha medo de morrer?
E.O.: Muitas vezes busquei a morte. Vivia com ela, sempre acreditei que seria a melhor saída.

CULT: E esse pensamento voltou alguma vez?
E.O.: Não é que volta, você sai traumatizada, massacrada. Não sei como consegui manter meus sonhos vivendo na rua. Qualquer um que vai morar na rua a primeira coisa que faz é entrar nas drogas. Porque ela tira a fome, tira o sono, tira o frio, tira a ansiedade, dá uma sensação de proteção, faz ser o que você acredita que é. Mas depois vem o vazio e fica um buraco da porra. Então, me admiro por ter tido sonhos, perspectivas, enquanto o mundo inteiro me provava o contrário. Se hoje estou aqui é por causa dos meus sonhos. Quando nasci, minha mãe não tinha uma casa para morar. Sempre me chamava de amaldiçoada e isso e aquilo outro. Meu filho, não. Ele tem uma casa para morar, uma mãe que diz que o ama, um lugar para comer. Tudo porque acreditei que, se fosse para gerar um fruto, iria fazer diferente de como fui criada.

CULT: Você está descobrindo o que é ter família agora?
E.O.: Minha família sou eu e meu filho. Meu irmão está na cadeia. Tenho uma irmã que é casada, mas mora numa situação precária no barraco que minha mãe deixou. Minha família se resumiu a isso porque metade morreu por causa de alcoolismo, drogas. Está sendo muito boa a relação com meu filho, saber que posso dar amor mesmo sem ter recebido. Saber que tenho minhas angústias e tenho que resolvê-las sozinha, não passar isso para o meu filho, porque ele nem sabe o que passei. Quando o pai dele soube que eu estava grávida, saiu fora, depois de 3 anos juntos. Me disse: "Ou você tira ou não fico". Então, tchau, meu filho.

CULT: Quem era o cara?
E.O.: Conheci na faculdade, ele trabalhava num bar chamado Rabo de Peixe, na Vila Olímpia. A gente manteve um relacionamento. Tentei ajudá-lo, porque estava desempregado e tal. Através de uns contatos meus consegui arrumar faculdade pra ele.

CULT: Foi difícil seu começo como mãe?
E.O.: Foi um período conturbado, fui muito pressionada quando ganhei meu filho. Teve uma amiga minha que me ajudou, mas fui sozinha para o hospital. Saí, fiquei sozinha em casa, com cesariana e tudo. Mas só fiz porque decidi ter. Daí tranquei minha casa, fiquei quatro meses na casa de uma amiga minha. Levava meu filho para o trabalho, porque não tinha arrumado creche para ele. Trabalhava à tarde, fazia DP de manhã lá na Bresser e estudava de noite lá na Vila Olímpia. Sempre com meu filho.

CULT: Por que você escolheu jornalismo?
E.O.: Porque é o que gosto de fazer, comunicar. É uma coisa bem dinâmica, não sou uma pessoa parada. Gosto de dar um outro enfoque, falar das pessoas em si. Não só da rua. Mostrar o outro lado. Um jornalista, quando entra na periferia, vai com tudo, mas, quando vai na classe média, aperta a campainha e pede licença. Morreu uma mulher lá nos Jardins, vi hoje no jornal da Record. Fiquei contando, foram quase sete minutos com comentarista e o apresentador falando da morte da mulher. Porque ela foi assaltada e tomou um tiro. O filho do padeiro morre e ninguém está nem aí, às vezes não vai nem para estatística, mas como indigente. Todos têm que ter tratamento igual. Às vezes a mídia gasta o programa todinho falando só desgraça, mas será que nesse dia não aconteceu uma coisa boa ou será que foi só morte?

CULT: De onde veio esse seu interesse por pessoas?
E.O.: Minha avó era muito comunicativa. Convivi pouco tempo, mas até hoje tenho uma impressão muito legal dela, que morreu por conta de álcool, bebida... Eu me espelhei nela. Sou uma pessoa muito dada. Se estou na rua converso com todo mundo. Conheço muita gente dessa maneira. Tenho tantos amigos que não passo necessidade. Às vezes não tenho dinheiro para o bumba e o motorista, que é meu amigo, deixa eu passar, entende? Trato todo mundo igual, não tem essa. Geralmente as pessoas são muito fechadas, reprimidas. E quando vêem alguém mais aberto...

CULT: Depois que sabem da sua história elas mudam o tratamento?
E.O.: Começam a admirar, mas deixo claro, onde vou dar palestra, que minha história é o que vivo hoje. Nesse momento estamos eu e você trocando idéia, mas tem um monte de criança sofrendo abuso sexual agora, ou abandono... Fora os problemas que já são freqüentes: falta de educação, estrutura familiar, saneamento básico, moradia. Meu livro, na verdade, conta a história de várias Esmeraldas espalhadas por aí que não conseguem encontrar saída. Quando o pessoal vai à rua é para mostrar estatística, quem roubou a bolsa da madame, quem fuma pedra... E não é nada disso, o problema é bem maior.

Leia a entrevista na íntegra na edição de abril da CULT, já nas bancas

quinta-feira, abril 03, 2008

'A sexualidade na gravidez e puerpério'




Fui fazer uma palestra 'A sexualidade na gravidez e puerpério' neste prédio antigo daqui de Natal- Maternidade Escola Januário Cicco. Nunca havia entrado lá. Fui convidada pela Dra. Patrícia Bezerra, gente fina, minha ginecologista.
Escrevi ontem rapidamente, o convite veio em cima da hora, mas foi ótimo. Falei bastante, sem ler, sobre o lado subjetivo destas fases, do relacionamento do casal, das mudanças. Enfatizei o fato de cada caso ser um caso, cada sujeito a sua frente tem que ser ouvido com sua história particular, nada vem pronto num livro de medicina ou psicanálise.
Falei sobre conceitos de inconsciente, transferência e Complexo de Édipo.
Gostei bastante, eles também, me aplaudiram com entusiasmo- adoro esta resposta imediata, depois veio uma moça falar em particular. Fiquei feliz.

terça-feira, março 18, 2008

Somos invisíveis?


Magritte. Posted by Hello

Falei outro dia sobre a sensação de ser invisível para os homens a partir de um certo momento, vários comentários acrescentaram novas questões, é um tema que devemos voltar a pensar.
Mulheres grávidas passam a ser invisíveis, mulheres feias, gordas, magras demais, todas que estiverem fora do padrão não são vistas.
Pois é, mas será que só as mulheres são invisíveis?
Há uma trabalho de um psicólogo brasileiro que se misturou entre garis e percorria os corredores da universidade onde estudava como um servente, cruzando com colegas e professores e descobriu que ficou invisível. Ninguém o identificou, ninguém olhou para ele.
A pobreza é invisível porque nos dói, então é mais fácil não vê-la, a dor do outro...
Portanto, não só os pobres, as mulheres fora do padrão da mídia, são invisíveis.
O que aconteceu com o nosso olhar? Olhamos com pré-conceitos, não aceitamos as diferenças, somos intolerantes, tememos o diferente, excluímos. Nosso olhar é impenetrável e cruel.
Que mundo estamos deixando para nossos filhos e netos?

Este post eu acabo de reler ao acaso e deu vontade de retomar a questão.

Elianne Diz de Abreu
Psicanalista
www.orientacaopsi.blogspot.com
tel: (84) 9412 7196

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Haverá um futuro melhor?


Acabo de saber que há um vídeo com a menina que foi violentada na cela da prisão sendo exibido por ai. Aqui há um protesto. Concordo. Não veria em hipótese alguma. E vocês, o que acham?
Imagem daqui, onde há um texto sobre o assunto.
Tks Ana Carr.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Blogagem coletiva- Pedofilia-Atualizado.



Dia 15 de fevereiro.

Leiam aqui. Que barbaridade!!! que horror!! o que acontece por ai e nós não vemos ou sabemos!
Pobre menina, pobre moça! Chocante!!!
Espero que a polícia pegue este criminoso .
E parabéns a todos pela blogagem, mais de 222 blogs participaram. Parabéns à Luma.




Dia 14 de fevereiro.

Escrever sobre pedofilia é difícil, é fácil dizer que é revoltante, incompreensível. Mas quando se vê a cara das pessoas envolvidas nestes crimes, a gente pensa: "Como um sujeito como este faz isto? Como pode sentir-se atraído por crianças? Por serem impúberes, inocentes, indefesos?"
Como psicanalista poderia procurar justificativas e dizer que está ligado a perversões, distúrbios da personalidade. Como mulher posso pensar que há pessoas que sentem prazer com a fragilidade do outro. Seriam todos perversos?
Sabemos quantas crianças e mulheres são violentadas pelos próprios pais, maridos... Conheço muita gente com traumas por terem sofrido violência sexual, anos de análise não curam, ou melhor, não apagam este tipo de violência, apenas ajudam a pessoa a seguir.
Os Homens teriam direito a tudo? Em nome da liberdade um adulto pode seduzir uma criança e fazer sexo com ela? Violentar uma criança? Alguns defendem esta posição. Vejam aqui

Vivo numa cidade onde há turismo sexual. As meninas começam muito cedo a se prostituir, fazem sexo meninas ainda, engravidam com 13 anos, têm filho com 14 anos..´.
É muito triste tudo isto.
O que é feito objetivamente? Não sei.
Quando faço palestras para jovens procuro saber o que pensam sobre prostituição, por ex., e alguns dizem ser a favor. Há uma permissividade maior, uma sexualidade precoce.
O mundo não mudou muito nestes séculos de progresso e modernidade, continuamos selvagens, disfarçados sim, mas selvagens. Se formos ler a história veremos que sempre aconteceu, há relatos na Grécia antiga, era tolerado com meninos com mais de doze anos. Maomé teria sido casado com uma menina de oito anos- logo, como vemos, é algo que foi tolerado durante séculos, afinal está até na Biblia.
O mundo virtual abriu um leque para este tipo de atividade criminosa. Qualquer um pode estar envolvido numa rede de pedofilia. Nosso vizinho pode ser um pedófilo. E, como todos já sabem, são pessoas cordiais, simpáticas e que se aproximam das crianças sem que ninguém desconfie. Um mundo de trevas muito perto de nós.
E não sei se todos vocês sabem, a atual moda de depilação é tirar todos os pelos, deixar a púbis sem pelos. Isto lembra meninas. Acredito que venha da atração que sexos impúberes tenham sobre os homens. Por que fazer mulheres adultas parecerem meninas lá? já pensaram nisto?
Pois eu quando descobri isto, imediatamente lembrei do sexo das meninas. Preocupante.
No mundo atual a sexualidade está banalizada, então o sexo precisa de estímulos cada vez mais criativos. O tal sexo papai- mamãe, (que para mim é o melhor, olhos nos olhos e beijo na boca), virou careta, é preciso fazer 'streep tease', usar apetrechos sado - masoquistas, sofrer ao pelar a púbis. E tudo isto estimulado na mídia. Imagino, não vejo quase nunca, que a moças da 'Play boy' estejam todas sem pelos. E cada dia mais cedo as meninas se fantasiam de mulheres, imitando Xuxa e outras figuras famosas. Enfim...o que devemos fazer? Mantermo-nos críticos em relação a tudo, não aceitar o que se vê na Tv como a nova regra, questionar, pensar, conversar sobre. 'Pensar, professor, pensar'. Lembram? Sejam críticos, pensem , examinem tudo com olhar crítico. Só assim não seremos uma manada. E boa sorte!


Como alguém pode sentir tesão por uma criança como esta?


Dia 10 de fevereiro.
A Luma convida todos a participarem de uma blogagemm coletiva contra pedofilia no dia 14 de fevereiro.
Vamos lá minha gente, é assunto importante, falem qualquer coisa que sintam, não precisa ser nada grande, elaborado, mas falemos sobre o assunto. Vamos colocar a blogosfera para funcionar em algo mais que nossos umbigos.


"Denunciar um pedófilo é o primeiro passo para inibir suas ações. Não seja cúmplice! No Brasil, o Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual Contra Crianças e Adolescentes, atende pelo número 100 - Disque 100 " (Copiei da Luma).

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Tirem suas dúvidas!


Um amigo, médico homeopata e hematologista, homem sério e de confiança, fez dois blogs. Vão até lá e tirem suas dúvidas:

Ele diz:

"Meus caros,

Estou enviando o link de dois blogs que criei para discussões e esclarecimento de dúvidas sobre Hematologia e Homeopatia.

Sintam-se à vontade de repassarem para suas caixas postais e também de retornarem suas questões.

Uma pequena contribuição para a democratização da informação.

Um abraço.

Fernando Monteiro

Hematologia aqui.

Homeopatia aqui."

sábado, dezembro 15, 2007

Oscar Niemeyer faz cem anos!!! Viva Oscar!!!




"Niemeyer é 9º em lista que reúne 100 'gênios vivos'"


Um dos homens a quem admiro: Oscar Niemayer. Podemos nos orgulhar de ter um brasileiro como ele- são poucos. Faz cem anos mantendo a mesma postura ética que sempre o destacou. Um gênio do bem, sempre desejando um Brasil mais justo, menos desigual.
Ainda é otimista, o que me faz pensar que talvez esteja certo. Não devemos cair na tentação de achar que nosso país não tem jeito.
Na entrevista que deu à Folha disse:

"Cem é sacanagem, pô! Eu tenho sessenta!"
Ainda por cima tem humor. Um barato! Uma das pessoas que eu gostaria de ter convivido, não são muitas, como alguns podem pensar, mas este é especial. O Darci também era.

Está no UOL:

Frases:
Todo o prestígio da arquitetura brasileira se deve a ele. E é um prestígio advindo da idéia de imaginação, que, para o país, sempre representou uma esperança.
Paulo Mendes da Rocha, arquiteto

A metade do que ele fez ele não cobrou. Da metade que ele cobra ele cobra a metade.
José Carlos Süssekind, engenheiro

O ideal dele é mais ou menos igual ao do modernismo, o da arquitetura para todos.
Ricardo Ohtake, designer

As obras de Niemeyer estão impregnadas de tal modo que somos, todos e desde criança, capazes de esboçar, de cor, um par delas.
Angelo Bucci, arquiteto

A gente imagina que daqui a 300 anos ainda vão falar de nós, mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar. Sempre haverá alguém estudando a obra dele.
Darcy Ribeiro, antropólogo

A característica principal da obra de Niemeyer é a intuição, baseada na lógica da natureza. Por isso mesmo, a sua obra é capaz de emocionar qualquer ser humano, independente de sua formação intelectual ou categoria social.
João da Gama Filgueiras Lima (Lelé), arquiteto

Eu havia feito um post sobre em junho, se quiser leia aqui uma entrevista da Folha com ele.

"Cem é sacanagem, pô! Eu tenho sessenta!"

Mais aqui também na Folha.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Imagens do dia no UOL

12.dez.2007
EFE
Na Coréia do Sul, cientistas apresentam gatos clonados que possuem RFP (proteína vermelha fluorescente); gatos brilham no escuro quando expostos à luz


Onde vamos parar?
É assustador isto.
Tudo é possível.

domingo, dezembro 09, 2007

Clarice Lispector- a única





















Retrato de Clarice feito por Carlos Scliar

Poucos livros me fizeram chorar, os livros de Clarice me levam às lágrimas, me vejo no que diz. Conheço aquela tristeza.
Morreu num dia 9 de dezembro, um dia antes de fazer 57 anos, tinha um câncer, não sabia. Fazia planos. Vaidosa, não deixou que amigos a vissem doente. Uma mulher sensível e extraordinária. Melhor não falar de Clarice, melhor ler Clarice. Quem não leu, leia, pegue os romances, se não gosta de muita introspecção. Veja "A hora da estrela", filme maravilhoso, com Marcélia Cartaxo, excelente atriz, não a vi mais, uma pena. Há uma cena em que ela pede um comprimido para dor, a outra pessoa pergunta onde dói, ela responde que dói tudo. Dor pela exclusão, pelo desamor, por tudo. É mais ou menos isto, não lembro mais. Mas nunca esqueci de Macabéia.
















Este vídeo é uma delícia e não dói.





Esta entrevista com Clarice me deixou muito triste. Fiquei melancólica, nem quis ver de novo. É impressionante a tristeza dela. Uma pena.



Eu já fiz alguns posts que falam de Clarice, leiam aqui, se quiserem.
Aqui vocês lêem um papo dela com Tom Jobim. Aqui eu coloquei link para a entrevista em julho.


Leiam Clarice:

Sou assombrada...

"Sou assombrada pelos meus fantasmas, pelo que é mítico e fantástico - a vida é sobrenatural. E eu caminho em corda bamba até o limite de meu sonho. As vísceras torturadas pela voluptuosidade me guiam, fúria dos impulsos. Antes de me organizar, tenho que me desorganizar internamente. Para experimentar o primeiro e passageiro estado primário de liberdade. Da liberdade de errar, cair e levantar-me."



Clarice, sempre Clarice. Posted by Picasa
Bela Clarice.


Eu tenho uma linda sobrinha Clarice, assim com C em homenagem à Clarice maior. Ela fez aniversário outro dia e lhe dei um livro infantil escrito por Clarice Lispector. Leiam o que ela diz aqui.


sábado, dezembro 08, 2007

30 anos sem Clarice Lispector



Deu na 'Folha de São Paulo'

Tributo

Atração dupla relembra vida e obra de Clarice Lispector, morta há 30 anos


DA REPORTAGEM LOCAL

Juntos, o documentário inédito "Retratos Brasileiros: Clarice Lispector", e o curta-metragem "Clandestina Felicidade", de 1998, revelam algumas interseções entre a trajetória e a obra da escritora Clarice Lispector. As duas atrações vão ao ar hoje, às 17h30, em homenagem à autora de, entre outros, "A Hora da Estrela", que morreu em 9 de dezembro de 1977.
Dirigido por Nicole Algranti, sobrinha de Clarice, o documentário traz diversas entrevistas com pessoas que conviveram de perto com a escritora.
A prima Bertha Lispector recorda as conversas na infância em Recife. A amiga Rosa Cass rememora os encontros e preferência gastronômica da escritora, no restaurante La Fiorentina, no Rio. E os escritores Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti contam como uma cartomante acabou virando personagem de Clarice.
O curta é adaptado do conto autobiográfico "Felicidade Clandestina", de 1971. O filme também serve para melhor entender a obra da escritora, a partir da infância em Recife e lembranças da cozinheira Macabéa, que inspirou seu personagem em "A Hora da Estrela".

RETRATOS BRASILEIROS: CLARICE LISPECTOR E "CLANDESTINA FELICIDADE"

Quando: hoje, a partir das 17h30

Onde: Canal Brasil

quinta-feira, dezembro 06, 2007

V Colóquio da Escola Brasileira de Psicanálise


Escola Brasileira de Psicanálise
Delegação Rio Grande do Norte

V COLÓQUIO DA ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE
III JORNADA DA DELEGAÇÃO RIO GRANDE DO NORTE


O ANALISTA CONTEMPORÂNEO: ESSE OBJETO MULTIUSO


07 E 08 DE DEZEMBRO DE 2007 - HOTEL RIFÓLES - NATAL/RN
PSICANALISTA CONVIDADO: MARCUS ANDRÉ VIEIRA - Diretor Geral da EBP

Presenças confirmadas
Elisa Alvarenga - Presidente da EBP
Elisa Monteiro - Diretora Tesoureira
Nora Gonçalves - Conselheira

O tema do V Colóquio da EBP - o analista como objeto multiuso - trouxe para o centro das discussões e atividades realizadas na Delegação Rio Grande do Norte a questão do lugar da psicanálise nos dias atuais. Entre outros desdobramentos, esta temática vem suscitando a reflexão sobre o lugar do discurso psicanalítico entre as práticas que habitam os campos do mal-estar na civilização, como também sobre as respostas que a psicanálise de orientação lacaniana vem permitindo construir para fazer frente ao sofrimento que atinge o sujeito contemporâneo.
Em sua condição de objeto multiuso, o analista tem sido chamado a participar dos mais variados contextos onde se situa o mal-estar. O termo “analista cidadão”, criado por Eric Laurent resume essa posição ética de uma disponibilidade cada maior do analista frente às demandas do Outro contemporâneo. É também no diálogo com outros discursos que o analista pode, entre outras coisas, melhor “apurar” a sua formação.
O evento está organizado a partir de quatro eixos temáticos:
· A prática analítica nas instituições
· A clínica das psicoses
· Psicanálise com crianças
· As novas formas de gozo e seus objetos

Nosso convidado, o psicanalista Marcus André Vieira, Diretor Geral da EBP, proferirá seminário, intitulado “O bolso do homem livre”, que versará sobre a questão do objeto na psicose.
Fica aqui o convite aos colegas de outras Delegações e Seções, bem como aos demais interessados, para que venham conosco participar desse momento de trabalho, trazendo a sua experiência, suas elaborações e questões.
Cláudia Formiga
Coordenadora do V Colóquio da EBP e
III Jornada da Delegação RN

Sobre o preço das inscrições:
Profissionais, membros e aderentes:
Antecipado: R$ 120,00
No local: R$ 150,00
Pós-graduandos, profissionais da saúde mental e correspondentes
Antecipado: R$ 100,00
No local: R$ 120,00
Estudantes de graduação com comprovação
Antecipado: R$ 50,00
No local: 60,00

Mais aqui.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Diálogo com hora alterada na quarta- feira




Solar Bela Vista

Natal- RN



100 ANOS



Durante o período de 24 de novembro a 21 de dezembro, o Solar Bela Vista estará de portas abertas para visitação de seus espaços e exposições permanentes. Serão oferecidas oficinas de fotografia, cursos de cinema e outros.



Informações:

Solar Bela Vista - Av. Câmara Cascudo , 417 - Cidade Alta

Fones: 3212.1904

edina@rn.sesi.org.br - www.sesi.rn.org.br







03/12 – Segunda-feira - 18h00



· Recital Poético (poesia/ musica)

Diálogos Literários - CHACAL & Convidados do RN
Lançamento do livro - BELVEDERE – do poeta Chacal


04/12 –Terça-feira - 18h00



Recital Poético (Poesia / Musica)
Diálogos Literários – GABRIEL O PENSADOR & Convidados do RN
Lançamento do livro – Um Garoto chamado Rorbeto – Gabriel O Pensador


05/12 – Quarta-feira - 19h00



Recital (Musica / Poesia)
Diálogos Literários – MÁRCIA TIBURI & convidados do RN
Lançamento do Livro - A Mulher de Costas – Márcia Tiburi
Mediadora: ElianneDiz de Abreu



Copiei daqui do Chacal