Encontrei este vídeo via blog de Glória Perez. O espaço dela é bom, vão conferir.
domingo, novembro 25, 2007
Surge 3º caso de mulher presa em cela com homens no Pará
Mulher presa entre homensInacreditável!!!!!!!!!!!!!!!
Há dias venho acompanhando o crime cometido contra uma jovem que foi presa entre homens e recebia comida em troca de sexo. Chocante!!!! É inacreditável que isto aconteça no Brasil HOJE. É inadmissível assistirmos impassíveis a um crime desta ordem. Ok, vemos tanta violência por aí, já banalizou, mas por favor... é possível passar por cima disto?
Não choca apenas por ser uma menina ainda, mas por ser uma mulher presa entre homens. A lei proíbe isto. Por que os responsáveis pela prisão da moça deixaram acontecer? Ela foi presa, precisou de um mandato de prisão. Ninguém sabia????? Cadê o delegado, o carcereiro, a juíza (foi uma juíza que a colocou lá)?
Hoje li que os presos- homens- cortaram seu cabelo para despistar os que da rua pudessem ver- a prisão é num galpão separado da rua por um portão de grades, apenas, visível de quem passa.
É demais!
Acho que todos devemos bocar a boca no trombone, não dá para ficar em silêncio. NÃO pode acontecer de novo! Se ficarmos de olho quem sabe este tipo de violência diminui? Há discriminação contra mulheres, gays, índios, negros. Vamos mudar isto. Chega!!!!!
Surge 3º caso de mulher presa em cela com homens no Pará
Está no O Globo
23/11/2007 - 01h47 - Atualizado em 23/11/2007 - 08h47
Crise na Polícia Civil se estende até Tucuruí.
Pais de menina de 15 anos, que dividiu cela com 20 homens, ganham proteção especial.
Um movimento ligado à defesa de mulheres no Pará denunciou, nesta quinta-feira (22), um terceiro caso de jovem presa e colocada em uma cela com homens. A denúncia surgiu em Tucuruí. A governadora Ana Júlia Carepa (PT) disse que esses casos não irão se repetir e que está concluindo a construção de delegacias para receber mulheres.
Veja o site do Jornal da Globo
Já a família da menina de 15 anos, detida e deixada em uma cela com 20 homens, cujo caso detonou uma crise na Polícia Civil de Abaetetuba, foi incluída, por segurança, no programa de proteção a testemunhas.
A cada dia, surge uma nova denúncia de mulheres que dividem cela com homens no Pará. Em Tucuruí, um movimento de mulheres afirma que é comum presas serem colocadas junto dos homens.
“Nós queremos que as nossas mulheres paguem para a sociedade o que elas devem, mas com dignidade”, disse Maria Valente, coordenadora do movimento.
Uma mulher, que não quer se identificar e que diz estar grávida de cinco meses, contou que passou duas semanas presa por tentativa de homicídio. “Sempre com homens”, afirmou.
Em Parauapebas, mulheres também têm dividido celas com homens, de acordo com um promotor. Na quarta-feira (21), uma delas foi transferida para outra cadeia. “Já tivemos outros casos”, disse.
Ameaças
O pai da garota de 15 anos que ficou na mesma cela com 20 homens, em Abaetetuba, diz que foi ameaçado pela polícia para forjar uma certidão de nascimento falsa para a filha. A adolescente confirmou à Corregedoria da Polícia Civil que sofreu abuso sexual e que era obrigada a manter relações com os presos em troca de comida.
“Ela confirmou que em determinado momento recebeu essa proposta. Em princípio, não aceitou. Posteriormente, teve que aceitar por conta da fome”, afirmou Maria Pereira, corregedora-geral da Polícia Civil do Pará.
A certidão de nascimento da menor prova que ela tem 15 anos. Nesta quinta, o pai biológico da menina procurou a Corregedoria da Polícia Civil. Ele disse que três policiais o ameaçaram. “Se eu não cooperasse, poderia ser preso”, afirmou o lavrador.
Investigação
O delegado-geral Justiniano Alves Jr promete investigar. “Isso é grave. Vamos chamar, ouvir o pai. Se algum policial estiver fazendo isso vai responder civil e penalmente”.
Por conta da repercussão do caso e por segurança, a família da adolescente foi incluída no programa de proteção a testemunhas.
Governadora
A governadora do Pará, Ana Júlia, não respondeu se conhecia a prática de que mulheres eram colocadas em celas com homens. Ela prometeu que o caso não irá se repetir. “Determinei, através de decreto, que se estiver numa prisão em flagrante, seja menor, seja mulher, tem que seguir o Estatuto da Criança e do Adolescente. No caso das mulheres cela com condição digna, e, se não tiver, que comunique ao juiz pedindo transferência para outra comarca ou município.”
Ana Júlia afirmou ainda que o estado terá celas para mulheres no futuro. “Como as nossas delegacias não estão todas prontas, o projeto é que as delegacias que vamos inaugurar tenham locais adequados para mulheres”.
JORNAL DA GLOBO
Pai de presa denuncia ameaças
O pai da menina que ficou presa com 20 homens no Pará diz que sofreu ameaças da polícia para forjar uma certidão de nascimento da filha. Entidades dizem que a prática é comum no estado
Veja vídeo aqui
Data: 22/11/07 | Duração: 3m15s|
Leia post anterior.
Um crime diante de todos
Deu na "Folha de São Paulo":
"Todos sabiam que menina estava no meio dos homens"
Moradores dizem que jovem aproveitava proximidade da cela com a rua para pedir ajuda
Segundo tia de um dos presos que foi transferido após caso ser descoberto, população tinha medo de denunciar a situação
LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A BELÉM (PA)
MARLENE BERGAMO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICA
Da rua em frente à delegacia de polícia de Abaetetuba, 130 km de Belém, tem-se visão ampla da carceragem, um galpão de 80 metros quadrados, três banheiros minúsculos e uma cela de segurança, separados da cidade livre apenas por um portão de grades enferrujadas.
Foi lá que, durante pelo menos 20 dias, uma menina de 15 anos, L., acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no dia 15.
"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.
"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento.
"Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.
Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
O mais constrangedor, porém, é que todo esse horror foi patrocinado por instituição do Estado (a Polícia Civil) comandada pela petista Ana Júlia Carepa, governadora do Pará.
L. não poderia estar no sistema penitenciário, menos ainda sob acusação de tentativa de furto e, pior, presa entre homens. "Só se pode internar um adolescente por violência, grave ameaça ou prática reiterada de delito grave, o que não era o caso", diz a advogada Márcia Ustra Soares, 42, da subsecretaria de promoção dos direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República.
Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. "Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas", diz a mãe biológica. "Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha." Mas não funcionou.
L. continuou vestindo as roupas que usava ao ser presa -sainha curta e blusinha que deixava evidentes os seios adolescentes. Seu corpo mirrado, com menos de 1,40 m, tampouco permitia que ela fosse enfiada nas roupas de seus companheiros de cela.
A carceragem onde a menina ficou trancada agora está quase vazia -os homens presos que conviveram com ela foram todos removidos para penitenciárias próximas. Apenas um jovem de 19 anos, Landrisson André Santos Mauegi, acusado de tentativa de furto de uma bicicleta, estava detido no local na sexta-feira (ele foi parar lá depois da libertação de L.). A mãe de Landrisson, Maria Santos, 75, vai ao local todos os dias para levar sanduíches, cigarros e conforto ao seu caçula. Nem precisa passar pelo carcereiro. Basta esticar o braço.
Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"
A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade.
No dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima. A delegada foi afastada de suas funções no dia 20 e a juíza está sendo investigada pela Corregedoria de Justiça. A Folha tentou sem sucesso contatar ambas por telefone na sexta.
"Todos sabiam que menina estava no meio dos homens"
Moradores dizem que jovem aproveitava proximidade da cela com a rua para pedir ajuda
Segundo tia de um dos presos que foi transferido após caso ser descoberto, população tinha medo de denunciar a situação
LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A BELÉM (PA)
MARLENE BERGAMO
REPÓRTER-FOTOGRÁFICA
Da rua em frente à delegacia de polícia de Abaetetuba, 130 km de Belém, tem-se visão ampla da carceragem, um galpão de 80 metros quadrados, três banheiros minúsculos e uma cela de segurança, separados da cidade livre apenas por um portão de grades enferrujadas.
Foi lá que, durante pelo menos 20 dias, uma menina de 15 anos, L., acusada de tentativa de furto, permaneceu encarcerada com mais de 30 homens, submetida a abusos sexuais, violência e estupros seguidos, que só tiveram fim no dia 15.
"Era um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava lá no meio daqueles homens todos, mas ninguém falava nada", disse uma mulher na delegacia, sexta-feira à noite.
"Antes de comer, os presos se serviam dela", lembra inflamada outra mulher, falando alto bem em frente à sala do delegado de plantão. Refere-se ao fato de os presos obrigarem a menina a praticar sexo como condição para lhe darem alimento.
"Ela gritava e pedia comida para quem passava, chamava a atenção para si, e, como ela era conhecida por aqui, não dava para ignorar", afirma outra.
Nos bastidores do governo federal, em Brasília, existe a convicção de que o caso configura-se em uma das mais graves violações dos direitos humanos, uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente, além de ferir os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
O mais constrangedor, porém, é que todo esse horror foi patrocinado por instituição do Estado (a Polícia Civil) comandada pela petista Ana Júlia Carepa, governadora do Pará.
L. não poderia estar no sistema penitenciário, menos ainda sob acusação de tentativa de furto e, pior, presa entre homens. "Só se pode internar um adolescente por violência, grave ameaça ou prática reiterada de delito grave, o que não era o caso", diz a advogada Márcia Ustra Soares, 42, da subsecretaria de promoção dos direitos da Criança e do Adolescente da Presidência da República.
Os presos até que tentaram camuflar a presença daquele corpo estranho no meio de tantos homens. "Minha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam até o meio das costas", diz a mãe biológica. "Cortaram o cabelo dela com um terçado [facão], para disfarçar que se tratava de uma menina. Cortaram é modo de dizer, escalpelaram a minha filha." Mas não funcionou.
L. continuou vestindo as roupas que usava ao ser presa -sainha curta e blusinha que deixava evidentes os seios adolescentes. Seu corpo mirrado, com menos de 1,40 m, tampouco permitia que ela fosse enfiada nas roupas de seus companheiros de cela.
A carceragem onde a menina ficou trancada agora está quase vazia -os homens presos que conviveram com ela foram todos removidos para penitenciárias próximas. Apenas um jovem de 19 anos, Landrisson André Santos Mauegi, acusado de tentativa de furto de uma bicicleta, estava detido no local na sexta-feira (ele foi parar lá depois da libertação de L.). A mãe de Landrisson, Maria Santos, 75, vai ao local todos os dias para levar sanduíches, cigarros e conforto ao seu caçula. Nem precisa passar pelo carcereiro. Basta esticar o braço.
Se era tão flagrante a identidade feminina e quase infantil de L., por que ninguém denunciou antes? "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", diz a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"
A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade.
No dia 14, finalmente, o Conselho Tutelar de Abaetetuba recebeu uma denúncia. Anônima. A delegada foi afastada de suas funções no dia 20 e a juíza está sendo investigada pela Corregedoria de Justiça. A Folha tentou sem sucesso contatar ambas por telefone na sexta.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Lançamento de Livro
ADOTE- Associação de Orientação aos Deficientes,
convida para as comemorações de seus 25 anos, lançando o livro "Pedaços de vida" de Shirley Carvalho- uma de suas fundadoras.
Data: 23 de novembro de 2007
Horário: 17 hs
Local: Av. Perimetral Sul, 270
Cidade da Esperança
Natal
RN
quarta-feira, novembro 14, 2007
Dia Mundial do Diabetes

Dia Mundial do Diabetes: mal atinge cada vez mais crianças e adolescentes
A estátua do Cristo Redentor foi iluminada de azul para lembrar a luta contra o diabetes, nesta quarta-feira, no parque da floresta da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro
Copiei daqui.
sábado, novembro 10, 2007
Women In Art
Maravilhoso!!!!
Uma das coisas mais bonitas que vi na internet.
A árvore do Tom e as outras árvores...

Vi na Tv, ao acaso, um professor da UFRN falando sobre isto.
Uma das coisas que mais estranho aqui é a falta de árvores. A rua onde morei no Rio era arborizada, em Curitiba também. Aqui dizem que não gostam de árvores, porque sujam as ruas e trazem morcegos- juro que já ouvi mais de uma vez isto! Morcegos não fazem mal a ninguém, Ipanema é cheia de morcegos naquelas árvores grandes e velhas.
Deus meu!!!!!
Por favor, vamos nos mover, conscientizar as pessoas sobre a importância da árvores.
Estamos em perigo.
Vejam aqui o plano diretor para a cidade de Natal.
Sigamos o caminho do Tom Jobim, que amava as árvores, a natureza.

Esta é a árvore 'dele', que está no Jardim Botânico do Rio.
sexta-feira, novembro 09, 2007
Contardo Calligaris

Estamira e "Transamérica"
CONTARDO CALLIGARIS
Odiamos o outro não por ele ser diferente, mas para ignorar que ele é parecido conosco
DURANTE QUATRO anos, Marcos Prado escutou Estamira, uma senhora de mais de 60 anos que vivia entre seu barraco (habitado e cuidado com a dignidade devida a uma casa) e seu lugar de trabalho (um aterro de lixo, onde ela passava dias e noites a fio).
Dessa experiência, Prado fez um filme, "Estamira", que é um extraordinário documento sobre a humanidade da loucura. Ele nos apresenta o território de Estamira (o mundo físico pelo qual ela anda), suas relações (de família e de amizade) e seu mundo íntimo, ou seja, o sentido que ela atribui ao seu ser.
Alguns psicólogos reconhecerão nessa tríade (mundo físico, relações e intimidade) as três categorias da psicologia existencial de Ludwig Binswanger. Pensei em Binswanger e na generosidade de sua clínica e de seu pensamento quando, comentando o filme, uma amiga e colega me disse: "Estamira é delirante, mas suas palavras, poéticas, fantásticas ou brutais, são coisas que ela diz não porque é psicótica, mas porque é ela, Estamira".
Que falemos lugares-comuns (como a maioria dos neuróticos) ou expressemos curiosas visões do mundo (como quem parece delirar), de qualquer forma, não há quadro clínico que possa (e deva) anular a unicidade de nossa presença no mundo, a dignidade do que se chamava, tempo atrás, nossa "pessoa". Marcos Prado permitiu que Estamira lhe (e nos) falasse porque quis e soube escutá-la como se escuta, em princípio, um semelhante. Com isso, o filme é absolutamente imperdível para quem, "psi" ou não, esteja disposto a se aproximar da loucura, ou melhor, a descobrir que o "louco" é estranhamente próximo da gente.
A cosmologia de Estamira (o além, o além do além, o mundo abarrotado que transborda) e sua religião (uma briga constante com Deus e com o Trocadilho, face diabólica e maldita do mesmo) não são menos verossímeis do que muitas de nossas crenças. A diferença é que nossas crenças são delírios que tiveram sucesso e ganharam credibilidade por serem compartilhados pela maioria.
Estamira (esse talvez seja o drama fundamental da loucura) deve inventar sozinha os meios de dar sentido à sua presença no mundo. Ela consegue essa façanha atribuindo-se o destino de ter de transmitir o que ela vê.
O Trocadilho, ao persegui-la, lhe deu uma missão, que é (como esperar outra coisa de um deus com esse nome?) um jogo de palavras: Estamira é esta mira, o olhar que tudo vê e tudo deve revelar. Missão cumprida, graças a Marcos Prado.
Corolário: quem não acredita na reforma psiquiátrica veja o filme e se pergunte: será que nossa sociedade pode tolerar a loucura só na margem extrema (o além do além) do lixão ou na clausura dos hospícios?
Quero mencionar um outro filme, antes que saia de cartaz. "Transamérica", de Duncan Tucker, é uma ficção e, à primeira vista, pouco tem a ver com "Estamira". Salvo que ambos os filmes nos forçam a descobrir destinos e jeitos de estar no mundo que são, no melhor dos casos, objetos de nossos olhares compassivos ou, mais freqüentemente, de exclusão, zombaria e ódio. O ódio, nesses casos, é o índice de uma cegueira proposital: odiamos o outro não por ele ser diferente de nós, mas para poder ignorar que ele é parecido conosco.
O herói (ou a heroína) de "Transamérica" é um transexual que, na hora em que obtém, enfim, o direito de ser operado e mudar de gênero, descobre que é pai de um filho adolescente. Difícil assistir ao filme sem entender de vez o seguinte: o drama de quem vive num corpo que lhe parece estrangeiro (por ser de um gênero no qual ele não se reconhece) tem pouco a ver com os avatares do desejo sexual. É um drama de identidade.
Algumas leituras para a fila do cinema. A Martins Fontes publica os seminários de Michel Foucault: no ano passado, "Os Anormais" e, neste ano, "O Poder Psiquiátrico". O Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos acaba de publicar "Política, Direitos, Violência e Homossexualidade, Pesquisa na Nona Parada do Orgulho GLBT São Paulo 2005", de Carrara, Ramos, Simões e Facchini. A pesquisa confirma que, em matéria de discriminação, o transexual, que discorda de seu próprio gênero, é a vítima preferida.
É difícil abandonar o conforto da crença de que nós somos os "normais". Mais difícil ainda é admitir que a anatomia de nosso corpo possa não bastar para nos dar a certeza de que somos homem ou mulher.
Mais "Estamira", e mais aqui.

PS: As fotos são do filme Estamira.
quinta-feira, novembro 08, 2007
Estamira, a excluída

Foto maravilhosa de Marcos Prado, vejam a expressão desta mulher, que olhos! Quem disse que eles são os loucos e não nós?

Leiam o texto no post abaixo.
E vocês conhecem o filme sobre o Museu do Inconsciente de Leon Hirszman? eu vi faz tantos anos... é muito bonito e comovente.
quarta-feira, novembro 07, 2007
Antonioni-Prokofiev- maravilha!
Last minutes of "L'eclisse"
terça-feira, novembro 06, 2007
Que ato falho!

Que saia justa! Ato falho dos brabos. O tal Sérgio existiu mesmo, é só conferir no Google, está lá. O sujeito que encomendou a anúncio devia querê-lo fora do seu caminho.
segunda-feira, novembro 05, 2007
Somos o que comemos?
Descobri um livro jóia agora. Um fotógrafo, Peter Menzel fotografou 30 famílias de 24 países e o que elas comem em uma semana. Vejam estas duas fotos e o site aqui
Esqueceram de nos colocar na lista...seria interessante...
Ah! a ração brasileira seria: refrigerantes, cervejas, batatas fritas, pizzas, carnes, enlatados, biscoitos- todo tipo.
Chocolate em pó, chocolate em pacote, chocolate em barra, bombons, o que mais?
Leite, arroz, feijão, pão, poucas verduras, poucos legumes, quase nada de frutas...
Acertei?
sábado, novembro 03, 2007
A África sob o olhar de Sebastião

Da 'Folha':
Salgado compila suas viagens à África
Fotógrafo reúne cerca de 300 imagens feitas ao longo de 30 anos no continente e apresenta pela primeira vez fotos de natureza
Sebastião Salgado prepara oito livros com 30 grandes reportagens sobre o planeta; regiões do Brasil serão tema de três delas...
Mais na Folha
quinta-feira, novembro 01, 2007
Hoje tem Contardo
"O Passado"
Contardo Calligaris
Nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével, sobretudo em se tratando de amor
"O PASSADO ", de Hector Babenco, estreou na última sexta-feira. O filme, que, antes disso, abriu a Mostra de Cinema de São Paulo, é inspirado no romance homônimo de Alan Pauls (Cosac Naify).
Resumindo a história ao osso, para não estragar o prazer dos espectadores futuros: Rímini e Sofía se juntam muito jovens e se separam, amistosamente, depois de 12 anos. De uma maneira ou de outra, a relação que eles viveram não os deixa tranqüilos.
Na saída do cinema, a conversa era animada. Os amigos (homens) achavam o filme tão apavorador quanto "Atração Fatal", de Adrian Lyne: para eles, Analía Couceyro, como Sofia, era mais inquietante que Glenn Close, justamente por parecer menos louca. Nossos objetos de amor talvez sejam sempre assim, familiares até o dia em que, na hora de uma separação, a própria paixão os torna totalmente estranhos.
As amigas respondiam que a causa do problema era a fraqueza do protagonista masculino. De fato, Rímini (Gael García Bernal) parece seguir o desejo de todas as mulheres que ele encontra, sem nunca descobrir e afirmar o seu.
Outra discussão dizia respeito ao fim do filme: será que Rímini conseguira se livrar do passado, de vez? Eu pensei que não, que talvez ele tivesse conseguido se livrar das atenções incômodas de sua antiga companheira, mas não há amnésia que possa acalmar o passado.
A história de Rímini e Sofía me evocou um trecho da autobiografia de Tchecov ("Minha Vida", ed. Nova Alexandria), em que o escritor comenta que o ditado "tudo vai passar" pode tanto aliviar nossa tristeza com a idéia de que dias melhores virão quanto mitigar nossa euforia com a idéia de que as vacas magras voltarão. Mas, por útil que seja, essa sabedoria é falsa: nada passa, nunca; tudo o que acontece é indelével.
Acrescento: sobretudo os amores, por mais que acabem, continuam vivendo, subterrâneos, dentro de nós, porque, bem ou mal, são essas as vivências que mais nos formaram e transformaram.
A estética do filme de Babenco me tocou tanto quanto a história de Rímini e Sofía. Por exemplo, os personagens circulam por interiores abarrotados de restos do passado: livros, fotografias, quadros, os inúmeros objetos que, a cada mudança de casa, confirmam que nunca conseguimos deixar para trás os vestígios de nossa vida pregressa. Num momento do filme, Rímini se fecha, desesperado, num apartamento vazio; rapidamente, ele se encontra imerso numa montanha de restos: o lixo se acumula como prova irrefutável de que nem na derrelição é possível começar do zero.
À primeira vista, isso pode parecer estranho. Afinal, estamos acostumados a pensar que, na modernidade, os indivíduos são definidos por suas potencialidades futuras mais do que pelo passado. Não é assim?
Pois é, não exatamente. A modernidade começa quando paramos de deixar que a tradição diga quem somos. Não terei necessariamente a mesma profissão que meu pai, não serei nobre porque ele foi, não viverei no mesmo lugar dos meus antepassados, não escolherei meus amores para preservar a integridade de minha casta, religião ou raça e por aí vai.
Mas se o legado da tradição se torna menos relevante, é justamente porque o que me constitui é minha história -não apenas a intensidade do momento e a audácia de meus planos, mas o conjunto das experiências que vivi.
No começo da Revolução Francesa, o povo queria fazer tábua rasa: eliminar os nobres pela guilhotina e seus vestígios pelo fogo. Após um vigoroso debate, os vestígios foram poupados, e foram inventados os museus públicos. Poucas décadas depois, nasciam os conceitos de patrimônio histórico e de preservação dos monumentos. Ao mesmo tempo, surgia um interesse, que nunca mais se desmentiu, pela narração e pela compreensão da história.
Não funcionamos diferente: é possível guilhotinar os amores do passado ou (menos radical) apagar seus números de nosso celular, é possível até queimar fotografias -embora dificilmente sacrificaremos aquele desenho que compramos juntos, num sábado, na praça Benedito Calixto. De qualquer forma, mais que a lembrança, os rastros do passado sempre assombram o presente e o futuro.
Quando decretamos novos começos, ilusórios ou não, nem por isso conseguimos apagar nossa história: podemos apenas contá-la mais uma vez, quem sabe revisá-la ou corrigi-la, para pior ou para melhor.
sábado, outubro 27, 2007
Juarez no domingo às 20 hs no "Conexão"

Eu gosto especialmente dos quadros 'nonsense' dele.
Ontem vi a segunda parte da entrevista com "Conexão Roberto D'Ávila" com Juarez Machado. Será reprisado no domingo(às 20h pela TVE Brasil), vejam no link. Há anos não vejo o Juarez, vendo-o falar, com tanto charme e inteligência, entendi porque eu era encantada por ele. Nos conhecemos quando eu tinha uns 15 anos, sei que se não o conhecesse talvez nunca tivesse desenhado. Tenho influência dele nos desenhos- as figuras não têm pupilas, como as dele. O traço contínuo também é marca de Ju.
Ele é muito divertido.
Contou ontem que o diretor do filme "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain"', Jean-Pierre Jeunet, é seu vizinho em Montmartre e é fascinado pelas cores da palheta dele- vermelho e verde, principalmente. Pediu permissão para usar estas cores no filme, que é todo nestes tons- os tons da palheta do Ju. Disse que a Amélie(personagem principal) não tem os olhos como os nossos, falta o branco, que o diretor fez de propósito, para lembrar as figuras de Juarez. Legal, né?
Eu conheci Juarez em Curitiba, no meio de uma praça onde havia o meu colégio, eu já contei antes aqui esta historinha. Fiquei encantada pelos lindos olhinhos azuis dele. Depois fui morar no Rio e ele também estava ali, o procurei no atelier do Sérgio Rodrigues, em cima da Oca, na praça Gal Osório e nos víamos de vez em quando- eu ia vê-lo pintar. Depois ele foi para a rua Maria Angélica, naquela época fazia análise com Katarina Kemper, me indicou um analista, disse:
"Você vai se apaixonar de cara, ele é lindo." Acertou, o homem era muito lindo, Eduardo Requião, foi um dos homens mais belos que eu vi. Hoje está gordo, mas ainda assim é bonito- é irmão do Roberto, do Paraná. A vida é engraçada... Fiz análise 5 anos com Eduardo.
Juarez casou com uma fazendeira rica no Rio, foi morar em Paris, mas está sempre no Rio, eu o encontrava na rua de vez em quando, da última vez me perguntou quando irei visitá-lo em Paris. Respondi: "Um dia". E vou mesmo. Na época vivia preocupada com os filhos, como o pai é ausente eu tenho que ser pai e mãe, não é fácil. Ainda não é fácil. Um dia será? Acho que sim. O mais velho é super tranqüilo, mas o dan ainda me dá trabalho- é absolutamente indisciplinado em tudo- inteligente demais, curioso demais- aí se perde.
Mas voltando ao Juarez, a entrevista dele é muito boa, quem não o conhece veja e fique conhecendo- conta muitas historinhas ótimas, tem até uma teoria do porquê dos pintores brasileiros não serem valorizados fora daqui: acredita que como fomos colonizados por portugueses, que sabiam navegar, mas não pintar, os pintores de língua espanhola- aqui da América são mais valorizados na Europa- por estarem inseridos na cultura hispânica. Acho que faz sentido. A gente sabe o quanto eles- pintores, artistas- sofrem por um reconhecimento lá fora- pouquíssimos têm. E um Botero, que é colombiano, faz sucesso- eu não gosto dos quadros dele.
Não dá pra repetir o que ele conta, é muito bom, fazia tempo não via uma entrevista tão boa, vejam o programa.
*
Horário alternativo: aos domingos às 20h pela TVE Brasil.

sexta-feira, outubro 26, 2007
Juarez Machado no "Conexão Roberto D'Ávila"

Juarez era assim quando o conheci. Ele é o loirinho em pé, era uma graça.
Foto daqui.
Hoje, dia 26, tem "Conexão Roberto D'Ávila" com a segunda parte da entrevista com Juarez Machado. Vai ser reprisado no domingo, vejam no link. Está uma delícia o programa, Ju está super à vontade, eles são amigos, conta muitas historinhas. Muitas eu já conhecia, eu o conheço desde adolescente.
Aqui uma historinha que ele conta no site também:

Abbesses St. Workshop
Edifício construído em 1896, projetado pelo arquiteto Besnard, especialmente para a função de atelier de artista. Situado nas colinas de Montmartre, na rue des Abbesses, onde ilustres moradores viveram, como Theo e o seu irmão Van Gogh. Toulouse Lautrec, Picasso, Modigliani, Van Dogen, Max Jacob e tantos outros que também nesta região viveram, deram ao quartier, a fama e o prestígio da "Cidade Luz", onde as pedras falam de arte.
Após incessante procura de um verdadeiro "atelier d'artiste" em 1991 o encontrei, e consegui adquiri-lo. A partir do pós-guerra estes atelieres, que são um símbolo de um tempo em Paris, tornaram-se cada vez mais raros no mercado imobiliário, pois deixaram a sua função original e passaram a ser a habitação de pessoas que buscavam um lugar especial para viver. Com alta janelas voltadas para a fachada norte onde a luz é ideal, por ser constante, grandes espaços com volumes de seis metros de pé direito se intercalam por mezzaninos.
No 2º e 3ª andar onde trabalho, tenho os meus cavaletes, tintas, livros telas e um rádio que jamais é desligado, mesmo quando saio.Muitas pessoas acendem velas ou incenso, eu uso a música para purificar. Lá pintei tantos quadros, para tantas exposições, entre eles a coleção
Copacabana, inspirado na poesia e na música de seus anos dourados, especialmente para as comemorações de seu Centenário em 1992. Esta exposição foi mostrada nas principais capitais brasileiras e ainda em Paris, Nova York e Miami. Moro nos 4º, 5º e 6º andares do edifício. No último andar, por isso não jogo pedra no telhado do vizinho, o teto é de vidro. De lá se vêem os telhados da velha Montmartre, com sol, chuva ou neve, é sempre um prazer se olhar.
Da janela grito ao Mr. Frédéric, do restaurante em frente "La Mascotte" que me traga as ostras, "Fine Claire nº3", que o champagne já está no gelo. Lá embaixo a rua é viva e musical. Com som próprio, orquestrada com os gritos dos comerciante anunciando suas ofertas, a conversa animada nos bistrôs, o choro de acordeons e a melodia dos "chansonniers". Por entre bancas de frutas, legumes, queijos, flores e peixes seus moradores circulam com a baguete debaixo do braço e na sacola o bom vinho.
Numa esquina, algum pintor com seu cavalete registra o "Village Lepic-Abbesses" para qualquer dia ser visto em algum museuo, o retrato da continuação deste tempo, que é assim há cem anos, pois muitas vezes olho no calendário para ter certeza do ano em que estou.
Quando compro o sagrado pão nosso de cada dia, a jovem padeira, gentil me cumprimenta: "bonjour monsieur le peintre", como certamente fazia sua avó para algum pintor do bairro na sua época. Feliz, sinto que juntos estamos apenas cumprindo a bela tarefa de dar continuidade à história da vida.
quinta-feira, outubro 25, 2007
Hoje é dia de Contardo

"Infiel"
A tolerância não impede de reconhecer e recusar a diferença quando ela é inimiga de nossos valores
A COMPANHIA das Letras acaba de publicar a autobiografia de Ayaan Hirsi Ali, "Infiel - A História de Uma Mulher que Desafiou o Islã".
Hirsi Ali nasceu na Somália (país muçulmano) em 1969, viveu o horror da guerra civil e da luta entre clãs que levaram o país da pobreza à miséria, passou partes da infância e da adolescência na Arábia Saudita e no Quênia e, enfim, adulta, fugiu para o Ocidente. Na Holanda, ela se tornou cidadã e, logo depois, foi eleita deputada. Pela sua história e pela coragem de suas palavras, ela continua sendo alvo de um fanatismo assassino.
O livro, além de tocante, é imprescindível para quem queira, hoje, perguntar: "Vigia, como está a noite?".
As primeiras 300 páginas tratam da progressiva metamorfose de Ali: uma menina definida pela sua ascendência e pela obediência aos homens e ao Alcorão se transforma numa jovem pessoa atormentada por dúvidas sobre sua fé e pela vontade de escutar seus sentimentos e de escolher livremente seus objetos de amor.
Essas páginas deveriam estar nas bibliografias de introdução à antropologia cultural: elas explicam perfeitamente quem somos nós, ocidentais. Na história da jovem somali, a oposição à autoridade tradicional do clã e do texto sagrado não está nos grandes textos do Ocidente -está nos romances.
Fragilidade e grandeza de nossa cultura: a liberdade do indivíduo moderno é, antes de mais nada, liberdade de amar e de romancear o amor. "Romeu e Julieta" e Barbara Cartland nos definem melhor do que "O Contrato Social".
Li as últimas 200 páginas do livro na noite de sábado, sem parar, madrugada adentro. Nelas, Ali, ao contar as peripécias de sua vida na Holanda, expõe sua crítica do Islã.
Depois de 11 de setembro de 2001, talvez você tenha lido "Choque de Civilizações?", de Samuel Huntington, e, como eu, tenha resistido à idéia de que o terceiro milênio seja destinado a encenar um conflito cultural sangrento entre o Ocidente e o Islã. Talvez você, como eu, sem examinar de perto os textos e os fatos, tenha se juntado ao coro da tolerância e à visão otimista do Islã paz-e-amor, convencido de que aceitar a diferença seja (como é, de fato) uma prerrogativa crucial e gloriosa de nossa cultura.
Só a tolerância -você pode ter pensado, como eu- permitirá a integração que confirmará a humanidade comum de todos, realizando o sonho ocidental moderno. Pois bem, Ali pensa diferente.
Para ela, o fundamentalismo e o terrorismo islâmicos de hoje não se fundam numa distorção do Islã, eles estão inscritos na letra do Alcorão e do Hadith.
Só será possível evitar um embate frontal se o mundo islâmico passar por uma revolução interna comparável com a que sacudiu o cristianismo no começo da modernidade, quando o indivíduo (com sua liberdade e seu foro íntimo) se tornou um valor bem mais importante do que a instituição e o texto religiosos.
Portanto, para Ali, sobretudo nos lugares de maior fricção entre o Islã e o Ocidente, como na Europa, a estratégia de uma convivência possível não passa pela simples tolerância, mas pela exigência ativa de uma integração dos imigrantes na cultura para onde se mudaram ou fugiram. Essa exigência inclui a capacidade de recusar a diferença quando ela for inimiga de nossos valores.
Não há espaço, no Ocidente, para a submissão das mulheres, o ostracismo das minorias sexuais, o poder patriarcal indiscriminado e, sobretudo, não há espaço para a confusão entre religião e Estado de direito.
Theo Van Gogh, holandês, dirigiu um documentário, escrito por Ali, sobre a submissão da mulher no Islã. Ele foi assassinado e degolado por um fundamentalista islâmico, que cravou no peito de sua vítima uma mensagem para Ali, perguntando se ela estava disposta a morrer por suas idéias como ele, o assassino, estava pronto a se sacrificar pelas suas.
É um argumento freqüente nos comunicados exaltados dos terroristas: o Ocidente estaria fadado a desaparecer porque preza a vida do indivíduo.
Ora, Van Gogh, diante de seu assassino, antes de ser morto, perguntou: "Será que a gente não pode conversar?". O assassino deve ter pensado que se tratava de mais uma demonstração da fraqueza e da covardia ocidentais. Ele se enganou. Era a maior demonstração de fé nos valores do Ocidente e, portanto, de força.
PS: Mais aqui
sobre a autora.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Teste seu cérebro

Achei este teste hoje no blog do Fernando Stickel.
A boneca rodava no sentido horário, aí eu pensei:"Como faço para copiar o endereço?" Ela passou a rodar para o outro lado. Incrível!
O nosso cérebro...tantas coisas desconhecemos...
domingo, setembro 23, 2007
O sétim selo/ Teresa Sampaio comenta

Trailer do filme aqui.
O Sétimo Selo
Ingmar Bergman
Dia 28 de Setembro de 2007, às 20:00 hs, na Casa da Ribeira, Natal.
Ficha Técnica
Título Original: Det Sjunde Inseglet
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em peça de Ingmar Bergman
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (Suécia): 1956
Atores: Max Von Sydon
Bibi Andersson
Gunnar Björnstrand
Bengt Ekerot
Nils Poppe
Inga Gill
Estúdio: Svensk Filmindustri
Produção: Allan Ekelund
Música: Erik Nordgren
Direção de Fotografia: Gunnar Fischer
Figurino: Manne Lindholm
Comentário de
Tereza Sampaio*
Este é um filme sobre o silêncio de Deus e as tentativas de respostas dos homens frente às trevas e ao caos apocalíptico que reinam na Idade Média. Entretanto, ele também tem elementos de comédia em diversas seqüências e muitos contrastes entre o sombrio e o burlesco. O roteiro do filme é fascinante, tendo merecido um emocionado prefácio de Bergman, que o considerava o seu filme favorito.
Na seqüência da abertura ouvimos o Dies irae e em seguida vemos uma ave negra sobrevoando a praia em meio a densas nuvens, enquanto uma voz serena narra uma passagem do Apocalipse. Isso faz com que o filme comece com beleza e suspense.
“Quando o cordeiro abriu o sétimo selo... houve um silêncio no céu por cerca de meia hora. Eu vi sete anjos diante de Deus... e a eles foram dadas sete trombetas.
O cavaleiro Antonius Block e Jons, seu escudeiro, retornam de uma desastrosa Cruzada e dormem na praia. Ao lado deles, um jogo de xadrez. Com sobriedade, compenetração e lentidão nos gestos, Antonius Block lava o rosto e ora ao som forte das ondas batendo nas pedras. Ao se voltar, o silêncio se faz e ele se depara com a figura da Morte.
Utilizando-se de uma alegoria, Bergman materializa a Morte numa personagem que vai se revelando um tanto patética, trapaceira e próxima aos humanos, principalmente no que diz respeito à ignorância . Ela acompanha Antonius Block há muito tempo e vem avisá-lo de que é chegada a sua hora. Então ele propõe à Morte uma partida de xadrez. ‘Como sabe que jogo xadrez?’, pergunta a Morte. Ele responde: ‘Vi nas pinturas e escutei nas canções’ . Um toque de humor é colocado no sorteio das peças. A Morte sorteia as pretas e diz: ‘bem apropriado, não acha?’.
Antonius Block tenta adiar o seu fim, esperando obter respostas e compreender o silêncio de Deus.: ‘Quero conhecimento, não fé ou presunções. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre o seu rosto, que fale comigo. Mas ele fica em silêncio.’ E a Morte retruca: ‘talvez não haja ninguém’.
Assim, Antonius Block coloca a sua questão; o silêncio de Deus diante da morte e do caos o angustia, ele acha que a Morte tem essas respostas, embora desde o início da partida de xadrez ela tenha dado sinais de que, assim como os humanos, ela também nada sabe; ela é apenas silêncio e escuridão.
Muitos acreditam que há um Outro, no caso Deus, que tudo sabe a respeito da vida e da morte, e tentam interpretar o silêncio diante disso na tentativa de preencher esse indizível, de dar uma consistência imaginária a Deus, tamponando o seu silêncio. Para estes não há enigma; Deus envia sinais, fala o tempo inteiro, tem os seus desígnios, o que faz da religião um delírio compartilhado, como sublinha Freud.
Antonius Block é aquele que não pára de questionar, como lhe diz a Morte. Vindo das Cruzadas, tendo tudo perdido, vendo a população ser dizimada pela peste, tendo ele mesmo matado pessoas em nome de Deus e se afastado de Karin, a mulher a quem ele amava, precisava saber de onde vinha aquele vazio e encontrar um sentido que aplacasse a sensação da inutilidade de tudo aquilo.
Jons, seu irônico escudeiro pensa diferente. Ele é o contraponto de Block. ‘Dez anos em terra sagrada sendo mordidos por cobras, mosquitos e animais selvagens, assassinados por pagãos, envenenados pelo vinho, infestados por piolhos que nos devoravam e a febre que matava. Tudo pela glória de Deus’, diz ele. Jons é aquele que despreza a morte, zomba de Deus, ri de si mesmo e sorri para as mulheres. Num diálogo entre o ferreiro Plog e sua mulher, Jons antecipa a fala desta, mostrando que conhece as mulheres. Esta é uma cena bastante divertida do filme.
A morte está por toda a parte, túmulos são abertos, restos de cadáveres estão espalhados, a terra está devastada pela peste. A peste e a devastação poderiam ser desde já uma resposta de Deus, resposta que levaria à concepção de que Deus é tenebroso ou que nos odeia, ou que fizemos algo pelo qual precisamos ser punidos.
Na belíssima cena de uma procissão ao som de canto gregoriano, mulheres se chicoteiam, padres blasfemam, acreditando que Deus mandou o seu enviado, que o diabo está encarnado na feiticeira, uma menina acusada de ter feito sexo com o diabo e que, portanto, precisa ser crucificada e queimada. As cenas da procissão procuram fixar a câmera no rosto das pessoas que expressam horror e êxtase, numa fé cega e desesperada. Essa cena contrasta com a anterior, na qual a trupe de teatro trata do mesmo tema com bastante humor...negro. ‘Alguém de negro dança na praia, corre na praia, se agacha na praia, defeca na praia, permanece na praia’.
Como diz Freud em ‘O Mal-Estar na Cultura’, descobrir que a vida não tem um propósito traria uma perda de valor, o desencantamento do homem em sua extrema presunção. Para afastar o sofrimento e o desamparo, as pessoas recorrem ao que Freud chamou de ‘técnicas de vida’, entre elas a arte, o trabalho, a ciência, a religião e o amor. Todas elas, entretanto são falhas, deixam furos, algo indizível aparece sob a forma de sofrimento, de incerteza e angústia.
No desenrolar da trama de “O Sétimo Selo”, Bergman vai mostrando algumas técnicas de vida como a arte, o amor, a fantasia e a religião.
Em meio à terra desolada, Mia e Jof, um casal de artistas de teatro, se destaca como um sopro de vida e de alegria no universo da obscura religiosidade da Idade Média. Eles se salvam pelo amor, pela arte, pelo humor e pela fantasia. Vale lembrar que Jof está longe de ser um herói. Ele sofre humilhações numa taverna, mostra-se frágil, não se ocupa de questões solenes. O casal acolhe Antonius Block e Jons, e o cavalheiro se mostra comovido com tudo – a simplicidade, o amor, a ausência de pretensões filosóficas, o estilo de vida: ‘Não me esquecerei disso: o silêncio... a tigela de morangos e o leite. Seus rostos na luz do entardecer. Mikael dormindo na carroça e Jof com a sua canção. Tentarei lembrar do que dissemos e levar essa lembrança com cuidado, como se fosse uma tigela de leite’. Jof tem visões, algumas das quais correspondem à realidade.
A religião, outra técnica de vida não se mostra como uma saída muito amena. Raval, o antigo estudante de teologia, conhecido pelo nome de Doutor Mirabilis Celestis et Diabolis, transforma-se num ladrão que rouba dos mortos, em instigador de desavenças e estuprador. Foi Raval quem convenceu Antonius a partir na Cruzada para a terra sagrada. Em nome de Deus padres investigam a causa das mortes violentas e repentinas, deduzindo que são fruto do castigo divino. São dias marcados pela ira de Deus. Mulheres se flagelam pela glória de Deus.
A religião, neste caso, dá consistência ao silêncio de Deus, uma vez que este responde pela fúria.
Uma seqüência interessante do filme é a de Antonius Block diante de um confessionário falando sobre o vazio, que se espelha em seu rosto. Depois de algum tempo ele se dá conta de que é a Morte o seu estranho confessor. Esta lhe pergunta: ‘Como pretende vencer a Morte’? Ao que ele responde: ‘Tenho uma jogada com o bispo e o cavalo que ela não conhece. Quebrarei sua defesa’. A Morte, trapaceira, traiçoeira mostra o seu rosto e Antonius sente ou finge indignação ou surpresa.
Era um blefe para adiar a Morte ou a Morte o enganou? Em outro momento, diante do tabuleiro de xadrez, a Morte lhe diz: ‘você me enganou?’ E ele responde: ‘caiu na minha armadilha’. Não seria a única vez que ele tenta enganar a Morte. Nessa mesma jogada, ele descobre que a Morte pretende pegar Mia, Jof e o filhinho Mikael. Antonius tenta distrair a Morte de todas as maneiras até ver a carroça sumir de vista. Ninguém me escapa, diz a Morte. Mas ainda não foi dessa vez que ela conseguiu pegar a família da trupe de teatro. Jof, Mia e Mikael foram salvos pela visão de Jof, que os fez fugir enquanto Antonius Block distraía a Morte.
Em outra seqüência do filme, Antonius e Jons aproximam-se da “feiticeira”. O cavaleiro tenta descobrir algo sobre o diabo, pois ele deve saber sobre Deus. Ela está tomada pela certeza de que o fogo não a tocará, pois o diabo não vai permitir. Antonius Block tenta saber o que ela vê, quem cuida dela: ‘é um anjo, o diabo, Deus ou é apenas o vazio?’ Mas parece que ela vê o mesmo que eles e teme o mesmo que eles. Nesse instante Jons e Antonius invertem os papéis. Tomado pela comoção, Jons quer acreditar que a menina realmente está vendo algo, enquanto Antonius se desespera ao se dar conta de que provavelmente ela não está vendo nada.
Após uma jogada, a Morte anuncia que o xeque-mate será na próxima. O diálogo crucial que ela e Antonius Block então estabelecem define claramente a busca inútil de respostas ao silêncio divino. Diz a Morte:
- Quando nos encontrarmos novamente, seu tempo e o de seus companheiros será encerrado.
- E você me revelará seus segredos.
- Não tenho segredos.
- Então você nada sabe.
- Não tenho nada a dizer.
A cena final parece uma pintura: é a dança da morte que arrasta a todos. Ela é descrita por Jof, em uma de suas visões: ‘E a Morte, o severo mestre, convida-os a dançar. Quer que todos dêem as mãos para formarem uma longa fila’...
Tereza Sampaio*
Natal, 20 de setembro de 2007
Teresa Sampaio é psicanalista.
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