terça-feira, julho 28, 2009

GRIPE SUÍNA- PERGUNTAS E RESPOSTAS:





Respostas de Dra Cláudia Sampaio- Campo Mourão- PR

GRIPE SUÍNA

PERGUNTAS E RESPOSTAS:

PERGUNTA

RESPOSTA

1.-

Quanto tempo dura vivo o vírus suíno numa maçaneta ou superfície lisa?

Até 10 horas.

2. -

Quão útil é o álcool em gel para limpar-se as mãos?

Torna o vírus inativo e o mata.

3.-

Qual é a forma de contágio mais eficiente deste vírus?

A via aérea não é a mais efetiva para a transmissão do vírus, o fator mais importante para que se instale o vírus é a umidade, (mucosa do nariz, boca e olhos) o vírus não voa e não alcança mais de um metro de distancia.

4.-

É fácil contagiar-se em aviões?

Não, é um meio pouco propício para ser contagiado.

5.-

Como posso evitar contagiar-me?

Não passar as mãos no rosto, olhos, nariz e boca. Não estar com gente doente. Lavar as mãos mais de 10 vezes por dia.

6.-

Qual é o período de incubação do vírus?

Em média de 5 a 7 dias e os sintomas aparecem quase imediatamente.

7.-

Quando se deve começar a tomar o remédio?

Dentro das 72 horas os prognósticos são muito bons, a melhora é de 100%

8.-

De que forma o vírus entra no corpo?

Por contato ao dar a mão ou beijar-se no rosto e pelo nariz, boca e olhos.

9.-

O vírus é mortal?

Não, o que ocasiona a morte é a complicação da doença causada pelo vírus, que é a pneumonia.

10.-

Que riscos têm os familiares de pessoas que faleceram?

Podem ser portadores e formar uma rede de transmissão.

11.-

A água de tanques ou caixas de água transmite o vírus?

Não porque contém químicos e está clorada

12.-

O que faz o vírus quando provoca a morte?

Uma série de reações como deficiência respiratória, a pneumonia severa é o que ocasiona a morte.

13.-

Quando se inicia o contagio, antes dos sintomas ou até que se apresentem?

Desde que se tem o vírus, antes dos sintomas.

14.-

Qual é a probabilidade de recair com a mesma doença?

De 0%, porque fica-se imune ao vírus suíno.

15.-

Onde encontra-se o vírus no ambiente?

Quando uma pessoa portadora espirra ou tosse, o virus pode ficar nas superfícies lisas como maçanetas, dinheiro, papel, documentos, sempre que houver umidade. Já que não será esterilizado o ambiente se recomenda extremar a higiene das mãos.

17.-

O vírus ataca mais às pessoas asmáticas?

Sim, são pacientes mais suscetíveis, mas ao tratar-se de um novo germe todos somos igualmente suscetíveis.

18.-

Qual é a população que está atacando este vírus?

De 20 a 50 anos de idade.

19.-

É útil a máscara para cobrir a boca?

Existem alguns de maior qualidade que outros, mas se você não está doente é pior, porque os vírus pelo seu tamanho o atravessam como se este não existisse e ao usar a máscara, cria-se na zona entre o nariz e a boca um microclima úmido próprio ao desenvolvimento viral: mas se você já está infectado use-o para não infectar aos demais, apesar de que é relativamente eficaz.

20.-

Posso fazer exercício ao ar livre?

Sim, o vírus não anda no ar nem tem asas.

21.-

Serve para algo tomar Vitamina C?

Não serve para nada para prevenir o contagio deste vírus, mas ajuda a resistir seu ataque.

22.-

Quem está a salvo desta doença ou quem é menos suscetível?

A salvo não esta ninguém, o que ajuda é a higiene dentro de lar, escritórios, utensílios e não ir a lugares públicos.

23.-

O virus se move?

Não, o vírus não tem nem patas nem asas, a pessoa é quem o coloca dentro do organismo.

24.-

Os mascotes contagiam o vírus?

Este vírus não, provavelmente contagiem outro tipo de vírus.

25.-

Se vou ao velório de alguém que morreu desse vírus posso me contagiar?

Não.

26.-

Qual é o risco das mulheres grávidas com este vírus?

As mulheres grávidas têm o mesmo risco mas por dois, podem tomar os antivirais mas em caso de de contagio e com estrito controle médico.

27.-

O feto pode ter lesões se uma mulher grávida se contagia com este vírus?

Não sabemos que estragos possa fazer no processo, já que é um vírus novo.

28.-

Posso tomar acido acetilsalicílico (aspirina)?

Não é recomendável, pode ocasionar outras doenças, a menos que você tenha prescrição por problemas coronários, nesse caso siga tomado.

29.-

Serve para algo tomar antivirales antes dos síntomas?

Não serve para nada.

30.-

As pessoas com AIDS, diabetes, câncer, etc., podem ter maiores complicações que uma pessoa sadia se contagiam com o vírus?

SIM.

31.-

Uma gripe convencional forte pode se converter em influenza?

NAO.

32.-

O que mata o vírus?

O sol, mais de 5 dias no meio ambiente, o sabão, os antivirais, álcool em gel.

33.-

O que fazem nos hospitais para evitar contágios a outros doentes que não têm o vírus?

O isolamento.

34.-

O álcool em gel é efetivo?

SIM, muito efetivo.

35.-

Se estou vacinado contra a influenza estacional sou inócuo a este vírus?

Não serve para nada, ainda não existe vacina para este vírus.

36.-

Este vírus está sob controle?

Não totalmente, mas estão tomando medidas agressivas de contenção.

37.-

O que significa passar de alerta 4 a alerta 5?

A fase 4 não faz as coisas diferentes da fase 5, significa que o vírus se propagou de Pessoa a Pessoa em mais de 2 países; e fase 6 é que se propagou em mais de 3 países.

38.-

Aquele que se infectou deste vírus e se curou, fica imune?

SIM.

39.-

As crianças com tosse e gripe têm influenza?

É pouco provável, pois as crianças são pouco afetadas.

40.-

Medidas que as pessoas que trabalham devam tomar?

Lavar-se as mãos muitas vezes ao dia.

41.-

Posso me contagiar ao ar livre?

Se há pessoas infectadas e que tosam e/ou espirre perto pode acontecer, mas a via aérea é um meio de pouco contágio.

42.-

Pode-se comer carne de porco?

SIM pode e não há nenhum risco de contágio.

43.-

Qual é o fator determinante para saber que o vírus já está controlado?

Ainda que se controle a epidemia agora, no inverno boreal (hemisfério norte) pode voltar e ainda não haverá uma vacina.




quinta-feira, julho 23, 2009

Um gênio da pintura e a loucura





Reprodução
Obra de Emygdio de Barros


CONTARDO CALLIGARIS

Conversando com Ferreira Gullar

A antipsiquiatria liberou os psiquiatras da função de guardiões da "normalidade"


EM 12 e 26 de abril, nesta página, Ferreira Gullar escreveu contra a lei da reforma psiquiátrica (lei 10.216, de 2001). Na época, muitos leitores pediram que me expressasse sobre o tema. Visto que Ferreira Gullar voltou ao assunto no domingo passado, aproveito a ocasião. A lei é dificilmente discutível em suas intenções. Seu texto (link no fim) garante os direitos do portador de transtornos mentais e, em particular, o direito ao melhor tratamento possível, afirmando que a internação deve acontecer quando "os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes" e que qualquer tratamento deve visar "a reinserção social do paciente".
Como discordar? Não decorre do texto de lei nem que se acabe de vez com a internação psiquiátrica nem que se estabeleça um limite abstrato ao tempo de internação (o qual, Gullar tem razão, só pode ser "o tempo necessário", e não um lapso arbitrário). Em suma, o problema não é a lei, mas sua implementação em curso (disposições e meios concretos).
Na minha história, o movimento antipsiquiátrico (que nasceu, emblematicamente, em 1968, com "A Instituição Negada", de Franco Basaglia, ed. Graal) foi um marco contraditório.
Eu fui conquistado pelas implicações ideais do movimento (o direito de ser radicalmente diferente sem ser confinado por isso, a descoberta de que as instituições e a sociedade podem ser patogênicas a ponto de nos enlouquecer, o esforço para reconhecer a loucura na "normalidade" de nossa vida coletiva e para enxergar o semelhante no louco).
Mas nunca consegui acreditar que a doença mental fosse só a consequência da própria exclusão dos pacientes, e, ainda menos, que todo ato terapêutico fosse necessariamente uma tentativa de enquadrar os "dissidentes" mentais. Tampouco conseguia imaginar que, depois da "revolução" (iminente, é claro), viveríamos num mundo sem doença e sem sofrimento mentais.
Gullar tem razão, o movimento antipsiquiátrico (mas não a lei 10.216) acarretou consigo uma negação da doença mental. Atribuir o sofrimento dos pacientes à repressão manicomial de sua diferença era uma ingenuidade que só se explica considerando o seguinte: o movimento antipsiquiátrico foi, antes de mais nada, um movimento de liberação dos próprios psiquiatras, que se recusaram a continuar exercendo uma função de carcereiros e guardiões da "normalidade". Foi, em suma, a rebelião dos psiquiatras contra uma psiquiatria que era, com frequência, estupidamente convencida de que curar os pacientes significasse conformá-los com o preconceito dos terapeutas e da sociedade.
Coisa do passado? Nem tanto. Ainda hoje, uma psicóloga pode querer "curar" a homossexualidade de seus clientes (Folha, 14/07), ou seja, erigir suas ideias (legítimas, aliás) sobre a "normalidade" social ou sexual em critério da "doença" ou do transtorno, desconsiderando o único critério que importa: o sofrimento singular do paciente e sua queixa.
Agora, Gullar, para defender o valor da internação, evoca o exemplo de Emygdio de Barros, que se realizou como pintor nos ateliês de Terapêutica Ocupacional organizados por Nise da Silveira, no Centro Psiquiátrico Nacional. Quem dera! Raramente o manicômio ordinário foi lugar de cura e amparo; em geral, ele foi lugar de transformação de doenças agudas (eventualmente temporárias) em doenças crônicas incuráveis. Nisso, ele se parecia com um hospital geral no qual, pela acumulação de germes resistentes, morrer de uma infecção hospitalar seria mais fácil do que se curar.
Enfim, a implementação da reforma psiquiátrica mal começou. Concordo com Gullar: ela deve incluir a possibilidade de internação em hospital público -com uma transformação radical dos lugares de internação. Essa transformação é impossível sem fechar hospitais irrecuperáveis e, sobretudo, sem uma redefinição dos cuidados em saúde mental.
Ora, contrariamente às minhas próprias expectativas (que eram pessimistas), o trabalho dos atuais Centros de Atenção Psicossocial tem sido humilde e grandioso. Neles, a cada dia, contra trancos e barrancos, a grande maioria dos profissionais de saúde mental está resgatando a dignidade de sua missão. E quem sabe esse resgate de hoje permita também que tenhamos, um dia, hospitais psiquiátricos em que Emygdio, se estivesse vivo, estaria a fim de instalar seu ateliê.
O texto da lei está disponível em www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm

ccalligari@uol.com.br

quinta-feira, julho 16, 2009

Educar pelo cinema




Educar pelo cinema

CONTARDO CALLIGARIS


Quase sempre, na vida de um adolescente, não basta preparar-se para o futuro; ele quer viver


QUANDO CHEGA uma convocação da orientação pedagógica do colégio de seus filhos, alguns pais já sabem que escutarão queixas: o garoto não estuda e não presta atenção, anda com uma gangue, dever de casa nem se fala etc.
Para mim, a queixa mais alarmante é a que diz que nosso filho é legal, mas não se interessa por nada -não só por nada do que a escola lhe propõe: nenhum esporte, nenhuma atividade extracurricular, nenhum hobby, nada.
Ele pode, eventualmente, ser obcecado com sua aparência (roupas, marcas, corte de cabelo), mas, no mais, ele só gosta de jogar conversa fora num shopping, beber cerveja, ficar no MSN e, às vezes, fumar cigarros ou baseados. O baseado é pior: afasta das tarefas cotidianas e do desejo, e, quando o afastamento se torna angustiante (os adolescentes sofrem com sua própria inércia), volta-se ao baseado para acalmar a angústia.
É um tranco que muitos pais atravessam do jeito que dá: desde as punições (cortar mesada, computador, saídas) até as tentativas desesperadas de envolver o rebento nas atividades dos adultos. "Ele vai jogar bola comigo", "Por caro que seja, se formos para o Quênia, ele vai se interessar, ao menos, pela vida dos elefantes. E pode querer ser veterinário", "E se comprássemos um cachorro do qual só ele se ocuparia?", "E se ele trabalhar na ONG daquela amiga que cuida de crianças de rua?", "Se ele encontrasse uma namorada, não seria o estímulo que lhe falta?".
O fato é que quase sempre chega um momento, na existência de um adolescente, em que, de repente, preparar-se para o futuro não lhe basta. Ele não quer se preparar, quer viver. Só que não sabe bem o que seria "viver": o mundo, como dizia a mãe de Forrest Gump, é uma caixa com chocolates variados, mas, no caso, por não conhecer os gostos e os recheios, o jovem hesita e morre de fome.
Os pais e os adolescentes que passam por essa situação não precisam se desesperar. O tempo cura muitos males, e a vida não é tão curta assim que um adolescente não possa "perder" alguns anos (tanto mais que nem sempre os ditos anos são propriamente perdidos).
Enfim, pais e adolescentes, que estejam ou não em apuros, não percam o livro de David Gilmour, "O Clube do Filme", que acaba de ser traduzido pela Intrínseca e que é uma pequena joia de coragem e sinceridade.
Gilmour conta como, confrontado com um filho de quinze anos que ele adorava, mas que não se interessava por nada, diante do espetáculo intolerável da aflição do garoto com as obrigações escolares, ele decidiu retirá-lo da escola. Mas nada de "Se você não quer estudar, tem que trabalhar; vagabundo não cabe nesta casa". Gilmour inventou uma educação alternativa: nenhuma obrigação, salvo a de não usar drogas (crucial) e a de compor, com o pai, o clube do filme, ou seja, assistir, três vezes por semana, a filmes que o pai escolheria e introduziria com breves comentários. Depois disso, a cada vez, pai e filho conversariam sobre o filme. O garoto, evidentemente, topou.
Começaram assim vários anos em que pai e filho viveram uma relação que não era parasitada pela necessidade de forçar o garoto a estudar, mas não foi nenhum paraíso: o pai, que atravessava um tempo de fracasso profissional, não parava de questionar sua própria decisão (será que ele estava acabando com o futuro do filho, que, aos 16 anos, não sabia onde está a Flórida no mapa?), e o filho não tinha como não sofrer com a sensação de estar sem rumo na vida.
A história acaba bem. Mas, cuidado, não é uma receita praticável, a não ser por quem tenha uma coragem de leão e, sobretudo, consiga amar seu filho mesmo que ele não corresponda aos sonhos dos pais (tipo de amor muito mais raro do que a gente imagina). Além disso, eu me perguntei se não teria sido possível instituir o clube do filme sem que o garoto saísse da escola (talvez não, talvez sim).
De qualquer forma, terminei o livro com dois pensamentos.
1) Há uma coisa que nossos filhos precisam conquistar, e que nunca vai ser uma matéria do programa: é o desejo de viver. Nessa tarefa decisiva, a ficção talvez seja o melhor recurso. E, das ficções, o cinema é a mais facilmente acessível.
2) Os adolescentes devem se preparar para sua vida futura, mas, igual eles estão vivendo, agora. Às vezes, parecemos sacrificar radicalmente seu presente em troca de nossa própria (ilusória) tranquilidade quanto ao seu futuro.

quinta-feira, julho 02, 2009

Contardo Calligaris




Muito bom!


Da Folha de S.Paulo.

CONTARDO CALLIGARIS

Crianças fora da infância

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Amparamos as crianças, mas excluímos as que não têm como encenar um futuro feliz
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A FOLHA de 24 de junho (caderno Cotidiano) relatou uma estranha decisão do Superior Tribunal de Justiça.
Em Mato Grasso do Sul, em 2003, dois adultos, Zequinha Barbosa e Luiz Otávio F. da Anunciação, encontraram num ponto de ônibus, contrataram e levaram para um motel três moças que, na época, tinham 13, 14 e 15 anos. De uma delas, Anunciação tirou e armazenou fotos pornográficas.
Em 2004, em primeira instância, Barbosa e Anunciação foram condenados, respectivamente, a cinco e sete anos de reclusão. Recorreram e, no ano seguinte, foram absolvidos pelo Tribunal de Justiça. Barbosa alegou que não participou do sexo, e Anunciação que ele não sabia que as garotas eram menores de 18 anos.
Foi a vez da Procuradoria recorrer, e a coisa chegou ao Superior Tribunal de Justiça, que decidiu assim: Anunciação é culpado por ter armazenado imagens pornográficas de uma menor, mas ele e Barbosa são absolvidos do crime de ter tido relações sexuais com menores. Por quê? Porque o Tribunal "considerou que não é crime manter relações sexuais com menores de 18 anos que sejam prostitutas". Ou seja, como não foram eles que "iniciaram" as meninas (ao sexo e à prostituição), eles não têm culpa.
Curiosa contradição: se não é crime transar com uma menor que já transou, não se entende por que seria crime tirar e armazenar fotos pornográficas da mesma menor. Afinal, vai ver que alguém já tirou uma foto dela no passado.
Mas isso é o de menos. Na linha de pensamento do STJ, também não haveria por que proibir o trabalho de crianças que já pediram esmola no farol -afinal, já trabalharam, não é? Da mesma forma, não seria crime estuprar uma mulher que já foi estuprada. E o que acontece com assaltar alguém que já foi assaltado? Ainda bem que, por sorte, não dá para matar alguém que já foi morto.
A decisão do STJ não é uma excentricidade. Ao contrário, ela é reveladora de uma verdade que está escondida atrás de nossa "proteção" da criança e do adolescente.
Nossa cultura decidiu separar as crianças dos adultos. Instituímos, por assim dizer, a infância como tempo da vida que deveria ser protegido tanto das necessidades (crianças não devem ganhar seu pão) quanto do desejo (chegamos a negar a sexualidade infantil).
Tudo isso, aos poucos, acabou amparando efetivamente as crianças, mas a intenção inicial não era, propriamente, a de lhes reservar um destino melhor. Tratava-se de responder a uma necessidade dos adultos: mais ou menos duzentos anos atrás, com a progressiva crise de nossa fé no além e na eternidade das almas, as crianças se tornaram oficialmente nossa grande (e talvez única) garantia de continuidade, se não de eternidade. Morremos, e as crianças têm a missão de dar seguimento à nossa vida. Claro, gostaríamos que nosso futuro fosse melhor que nosso presente, portanto queremos que as crianças encenem, para nosso contentamento, uma visão de paraíso que compense nosso purgatório ou inferno cotidianos.
Qual melhor consolação, para nós, cujas esperanças foram frustradas, do que a de contemplar nas crianças a felicidade que nos escapa? Somos infelizes e a vida é dura? Pois bem, faremos o que é preciso para que as crianças sejam (ou pareçam) felizes.
Em suma, amamos nas crianças apenas um sonho de nosso próprio futuro. E as crianças que não são "aptas" a encenar esse sonho não são propriamente crianças, pois o que definiria as crianças (as que queremos proteger) não seria sua idade, mas sua capacidade de encenar uma infância feliz.
Pois bem, a decisão do STJ é fiel a essa inspiração originária de nossa cultura: pouco importa que ela tenha 12, 13, 15 anos ou menos, uma menor que se vende num ponto de ônibus já não tem mais como encenar para nós a vinheta da infância feliz. Portanto, ela não é mais "criança". Transar com ela não é mais transar com uma criança, não é?
Essa lógica, aliás, vale para todas as crianças que, por uma razão ou outra, não podem mais (se é que um dia puderam) encenar o cartão postal sorridente que chamamos infância -por exemplo, as que encontramos nas esquinas ou dormindo debaixo das marquises de nossas ruas.
Em suma, o STJ decidiu como se quisesse proteger não as crianças (como manda a letra da lei), mas o mito da infância. A Procuradoria recorrerá. Veremos como decidirá o Superior Tribunal Federal.

quinta-feira, junho 25, 2009

Contardo Calligaris




CONTARDO CALLIGARIS

Amores e mudanças

Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme "Tinha que Ser Você" dá uma dica preciosa


QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma "mudança de discurso", ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa "sinal" nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme "Tinha que Ser Você", escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma "dica" preciosa sobre as condições que fazem que um amor "engate". É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, "Last Chance Harvey" (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A "cantada" inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu "conforto".
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, "Antes do Amanhecer", de 1995, e "Antes do Pôr-do-sol", de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, "Tinha que Ser Você", é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

Da Folha de São Paulo

Comentário meu:

Eu concordo com ele, mas acho que o desejo de mudança vem antes do encontro- senão você não permite o encontro amoroso. Apesar da literatura mostrar muitas mudanças depois do encontro- há muitos filmes com este tema também.
O que vocês acham? leiam lá.
E eu acredito, sempre- estou envelhecendo e não mudei- que virão novos amores.

Ontem lá na Marina W. achei este link. Ele diz sempre isto. OK a pessoa que se enamora vive aquilo como real, mas e o outro que fica do outro lado,permitindo rolar o afeto sem se enamorar? Na vida aqui fora tambem acontece isto, mas no virtual muito mais. É mais fácil deixar o outro se enamorar de longe, não está na sua porta batendo- é só deletar, bloquear o contato.
Há mais perversidade e dissimulação no mundo virtual, com certeza.

Foto de "Antes do pôr-do-sol"

domingo, junho 14, 2009

O diário de uma anoréxica




Este texto eu copiei de um blog:

06/02/2004 12:14

Um dia horrível

Ontem meu dia foi tumultuado...
recebi diversos emails de amigas querendo saber o que realmente aconteceu comigo pra que eu engordasse 20 kg.
Bem, vamos lá...
Sou ana e mia.
Não consigo comer, e quando como... mio automaticamente, nem preciso me forçar a isso.
o problema...
* meu organismo enfraqueceu ao extremo e acabei com meningite meningogócica (a terceira de minha vida), fui internada e em 15 dias de hospital com direito a soro, corticosteróides e etc... engordei 9 kg, qdo sai do hospital com todo mundo me vigiando e me forcando a me alimentar engordei mais 11 kg.
Meu psiq me apoiando, mas eu cada dia me odiando mais e ao meu corpo, comecei a surtar, veio a depressão e passava meus dias chorando...

na sequencia, parei novamente de comer... não conseguia engolir nada solido e depois... nem liquido...
fiquei 7 dias sem ingestão de nada... veio a crise hipoglicemica e minha familia e meu ex resolveram admitir pra si mesmos meu problema... descobriram meu blog e com ajuda de meu ex que é programador (e infelizmente descobriu minha senha) alem de lerem meu blog, o deletaram...
sobreveio nova crise depressiva... internação... terapia... fluoxetina... etc...
gracas a tudo isto perdi meu emprego. não há patrão q tolere alguem q primeiro falta um monte po meningite depois falte um monte po anorexia... em vez de apoio, tive descaso, sofri preconceito...
Consegui a muito custo um novo emprego, só que temporário... mas o bastante para que saisse de casa e comecasse agora a tentar achar meu caminho. Estou tentando me inserir em algum colegio nesse comeco de ano letivo e colocar meu diploma para trabalhar um pouco (sou professora).
Estou tentando com ajuda psiquiatrica a comer... nem q seja pouco, e por isso fiz a dieta das frutas, que não me agredia muito e mesmo assim emagrecia, depois tentei a Dr Atkins, mas não consigo comer os itens q são sugeridos... me forço a comer; como e mio.

Quero emagrecer... mas não quero mais ser internada, nem ficar doente. Ao mesmo tempo que me alegro por estar tendo finalmente minha vida prórpia, minha casa etc, me apavoro com a possibilidade de me render a ana.

Estou confusa...
Acho q eu queria mesmo é desaparecer...

Copiei daqui.
Mais aqui.
Aqui.

Anorexia e bulimia



Triste demais isto. E não é tão distante da gente, como alguns pensam.
Muitos jovens, principalmente, sofrem em algum grau deste distúrbio.
Há um distorção da realidade, eles se vêem 'gordos' na imagem do espelho.
Pais não sabem como lidar com isto- e é difícil tratar, as pessoas não se consideram doentes.
Bulímicos têm mais consciência de que há algo errado, anoréxicos, não.
Os dois distúrbios estão associados à depressão- o nosso mal do século.
Panacéias como remédios 'milagrosos' têm pouco resultado.
É preciso descobrir através da fala- da escuta-
onde está a dor maior. A rejeição é enorme e recai na rejeição do próprio corpo.
Como conviver com um corpo que você odeia?

sexta-feira, maio 29, 2009

A menina que vivia com os cães

Foto: AFP
A menina Natasha em foto não datada divulgada pela polícia russa. (Foto: AFP)


"Menina russa que vivia trancada com cães e gatos recupera-se, dizem médicos

Resgatada de apartamento, Natasha está bem e adaptando-se.
Aos 5 anos, ela não fala, mas médicos ainda não sabem o motivo."




Daqui.

O que faz uma família: pai, avós, a própria mãe, pois só agora tomou uma providência, deixar uma menininha no meio de cães? Que motivo teriam para excluí-la de forma tão violenta e criminosa?

quinta-feira, maio 07, 2009

Contardo Calligaris




CONTARDO CALLIGARIS

Da Folha


Ahmadinejad e Foucault

Temos a nostalgia permanente de uma coletividade em que poderíamos "descansar"


O PRESIDENTE do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, adiou sua visita ao Brasil. Melhor assim. Ele é uma das figuras mais sinistras da praça política mundial: uma encarnação do ódio assassino como solução para o fato de que sempre há outros que vivem, pensam e sentem de uma maneira diferente da nossa.
Há um problema no Oriente Médio? Simples, basta acabar com os judeus e aniquilar o Estado de Israel. Isso lhe lembra algo que já aconteceu? Não se preocupe: o genocídio é uma invenção sionista. Há iranianos que pulam a cerca? Simples, basta massacrar as adúlteras, mesmo que tenham sido estupradas. Há iranianos homossexuais? Eventualmente, "tinha" - já não tem mais. E por aí vai, para todos os dissidentes, externos e internos.
Ultimamente, em Genebra, quando Ahmadinejad falou, os diplomatas ocidentais deixaram a sala. Os brasileiros apenas emitiram uma nota de repúdio. Três razões:
1) O Irã é um bom comprador no Oriente Médio, e dinheiro não tem cheiro. Discordo desse argumento neoliberal: o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças.
2) Ahmadinejad extrapola porque está em campanha e se endereça à sua base eleitoral. Quer dizer que ele se sustenta numa base que pensa como ele? Pior ainda.
3) Campeão da coexistência de diferenças (étnicas, religiosas e infelizmente econômicas), o Brasil pode ser um valioso mediador de conflitos. Ótimo, mas o que significa mediar? Por uma limitação da qual não quero me desfazer, eu não consigo ponderar os problemas do mundo sem pensar nos indivíduos. E, conversando com Ahmadinejad, seria assombrado pela visão de uma mulher tremendo de medo, num porão, incapaz de invocar seu deus porque, segundo lhe ensinaram, ele está inteiramente com um grupo de barbudos que, sentados no quarto de cima, tomam chá e decidem quando ela será apedrejada. É um pensamento que me dá nojo.
Reli os artigos que Michel Foucault escreveu para o "Corriere della Sera", durante duas viagens ao Irã, em 1978, no começo da "Revolução" Iraniana (em "Dits et Ecrits vol. 2, 1976-1983", Gallimard, e, em inglês, "Foucault and the Iranian Revolution", University of Chicago).
Foucault me ensinou a enxergar a mão furtiva do poder, mesmo nas sociedades aparentemente "livres". Como foi que ele escreveu uma apologia entusiasta do que já prometia ser um regime totalitário como poucos na história?
No sábado passado, neste espaço, Antônio Cicero também voltou a esses escritos de Foucault -talvez inspirado pela visita iminente. Cicero argumentou que o relativismo libertário (a ideia de que não temos o direito de julgar regimes de verdade diferentes do nosso) levou Foucault a defender um fundamentalismo que não reconhece nenhuma verdade que não seja a dele. Concordo. O relativismo só faz sentido se ele for uma exceção à sua própria regra: todos os regimes de verdade são respeitáveis, salvo os que não respeitam a verdade dos outros.
Mas o que mais me impressionou, relendo Foucault, foi que, naquelas viagens, ele não ouviu nenhuma voz de dissenso. Só percebeu a perfeita unanimidade de um povo desejoso de se refundar "espiritualmente", além de suas diferenças políticas. Talvez ele tenha saído de Paris já decidido a encontrar, na "Revolução" Iraniana, o protótipo de uma nova esperança coletiva.
Aparentemente, vale também para Foucault: sermos indivíduos é uma tarefa árdua, que suscita a nostalgia permanente de uma coletividade em que poderíamos, enfim, descansar. Algo assim: que venha a "vontade geral" com a qual sonhava Rousseau e nos permita renunciar por um tempo a nossas responsabilidades singulares!
Pois bem, Ahmadinejad nos lembra que a "vontade geral" se constrói sempre sobre os cadáveres dos que não concordam.
Foucault achava que a psicanálise, levando-nos a falar sobre os desejos sexuais, abre a porta para que o poder se insinue em nossa vida privada. Pode ser, mas, para mim, o legado irrenunciável da psicanálise é sobretudo a necessidade de pensar nas pessoas uma por uma, sem ilusões e entusiasmos coletivos, ou seja, sem esquecer aquela mulher que, no porão, ainda está esperando para saber a que horas será apedrejada.
Presidente Lula, caso Ahmadinejad seja reeleito e venha ao Brasil, na hora da foto oficial, peço-lhe, por favor, que o senhor pense nessa mulher e se abstenha de sorrir.

ccalligari@uol.com.br

domingo, abril 19, 2009

Melanie Klein iniciou-se na psicanálise para curar sua própria depressão

Livro os principais temas da obra da psicanalista Melanie Klein

22/09/2008 - 21h07

Melanie Klein iniciou-se na psicanálise para curar sua própria depressão


da Folha Online

Uma das autoras que mais contribuíram para a compreensão do funcionamento psíquico inconsciente depois de Freud, Melanie Klein teve seu primeiro contato com a psicanálise como forma de tratamento para a própria depressão. Com vários problemas na família, como a morte de dois de seus irmãos, da mãe, dificuldades para criar os filhos e no casamento, ela começou sua primeira análise com um discípulo de Freud, o húngaro Sándor Ferenczi.

Reprodução

Livro sintetiza a obra da psicanalista Melanie Klein

No primeiro capítulo do livro "Folha Explica - Melanie Klein", da Publifolha, os psicanalistas Luís Claudio Figueiredo e Elisa Maria de Ulhôa Cintra traçam uma pequena biografia de introdução à autora, essencial para a compreensão de sua produção científica. Os autores relatam como se deu essa aproximação com a psicanálise e como Melanie passou, então, a experimentar em seu filho caçula (o primeiro "paciente") as teorias psicanalíticas.

O livro explica como, através de seu trabalho de análise com crianças e sem formação acadêmica, Melanie Klein elaborou teorias ousadas que também seriam utilizadas no tratamento psicanalítico de adultos. Um desses conceitos diz respeito ao caráter infantil --insaciável e desamparado-- de todo desejo humano: uma demanda grandiosa de amor, destinada ao desespero e à angústia.

Também no primeiro capítulo, que pode ser lido na íntegra abaixo, os autores mostram o período de rápida ascensão na Sociedade Psicanalítica Britânica, quando começou a se firmar o personagem em torno da autora e suas teorias inovadoras entraram em choque com o método de Freud e sua filha Anna, desencadeando uma polarização inédita até então.

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MELANIE KLEIN: PESSOA, PERSONAGEM E CONTEXTOS

Melanie Klein nasceu Melanie Reizes, nome de família de seu pai. Adotou o Klein só aos 21 anos, após o casamento com Arthur Klein. Ela veio ao mundo em Viena, no dia 30 de março de 1882, em uma família de origem hebraica bastante humilde, embora dotada de certo nível cultural. Era a quarta e última filha do casal Moriz (médico e dentista) e Libussa (dona de casa e proprietária de um pequeno comércio). Dois de seus irmãos, aos quais era especialmente ligada, morreram precocemente: sua irmã Sidonie, aos sete anos, quando Melanie contava apenas quatro, e seu querido irmão Emanuel, quando ela chegava aos vinte. Os temas da perda e da melancolia insinuaram-se bem cedo em sua existência e marcariam profundamente seu pensamento teórico. Mais adiante, a morte acidental de seu filho veio, ao que tudo indica, dar um impulso e uma direção ainda mais importantes em suas teorizações.

Tudo indica que Melanie Klein sofreu muito com as mortes de seus irmãos, especialmente Emanuel, que foi para ela uma espécie de mentor intelectual. Pouco tempo depois desta perda, ela se casaria com um dos amigos do irmão, o engenheiro químico Arthur Klein, de quem estava noiva desde os 17 anos. Ao lado de Emanuel, ou por seu intermédio, Melanie entrara em contato com o riquíssimo mundo cultural, artístico e filosófico da Viena da virada de século; e desde os 14 anos acalentara o sonho de se tornar médica.

Tudo isso foi impedido pelo casamento e nascimento de seus três filhos: Mellita, em 1904, Hans, em 1907, e Erich, em 1914, quando seu casamento já ia mal e Melanie Klein começava a buscar novos horizontes. No entanto, nunca cursou uma universidade: é a única dos grandes criadores da psicanálise que jamais teve uma vida acadêmica de base. Nem médica, como a maioria, nem psicóloga nem socióloga, antropóloga ou lingüista (como foram alguns analistas de renome no seu tempo), ela foi sempre uma pesquisadora autodidata - talvez por isso mesmo absolutamente original, embora um tanto inepta na comunicação escrita de suas idéias.

Após o casamento, o casal Klein deixa Viena e reside em diversas cidades do Império Austro-Húngaro, até chegar a Budapeste, na Hungria, em 1910. Durante esses primeiros anos, Melanie Klein teve dificuldades de cuidar de seus dois primeiros filhos e entrou em estados de profundo desânimo e desespero, o que a aproximou do tratamento psicanalítico. Para ela, a psicanálise, antes de ser uma profissão ou um interesse intelectual, foi uma experiência de crescimento e cura pessoal.

O ano de 1914 trouxe acontecimentos importantes. No âmbito mundial, estourava a Primeira Grande Guerra. No plano privado, morria Libussa, a mãe de Melanie, muito amada e muito invejada - seja por sua força e capacidade de apoio, quando tomava conta dos netos (durante os afastamentos de Melanie por razões de saúde e/ou depressão), seja por sua tendência à intrusão na vida das filhas. Uma "iídiche mama" exemplar.

Por fim, em 1914, já com 32 anos, dá-se o encontro de Melanie Klein com a psicanálise: ela lê um texto de Freud sobre os sonhos e começa a sua primeira análise com Sándor Ferenczi (1873-1933), o grande discípulo húngaro de Freud, buscando livrar-se da depressão. Pouco depois, quando o filho caçula Erich começava a apresentar alguns sinais de inibição intelectual (dificuldade de aprendizagem generalizada), ela daria início a uma intervenção analítica com ele, guiada pelas teorias psicanalíticas. Erich nasceu no mesmo ano em que nascia a psicanálise na vida de Melanie Klein e foi seu primeiro "paciente". Anos mais tarde, a morte acidental de outro filho, na década de 1930, ensejaria a redação do primeiro dos trabalhos mais influentes da autora, dedicado à compreensão dos estados depressivos e maníacos.

Em 1918, Melanie Klein participa do 5º Congresso Internacional de Psicanálise, sediado em Budapeste, e escuta Freud ler um texto sobre os avanços da terapia psicanalítica. No ano seguinte, ela escreve e apresenta seu primeiro texto, baseado no tratamento de Erich, e ingressa na Sociedade Psicanalítica de Budapeste.

Em 1921, muda-se para Berlim, um centro de atividade e formação psicanalítica quase tão importante quanto Viena. Na Alemanha, em 1922 - com 40 anos de idade -, Melanie Klein ingressa como membro- associado na Sociedade Psicanalítica de Berlim e, em 1924, começa uma segunda análise com Karl Abraham (1887-1925), outro dos mais destacados discípulos de Freud.

Já em 1925, ela é convidada a dar algumas palestras em Londres, para onde se mudará no ano seguinte. Essa mudança respondia aos convites dos analistas ingleses - muito impressionados pelo pensamento ousa do e pela singularidade da jovem senhora Klein, que co meça a se converter em personagem - e também ao sentimento de orfandade de Melanie, após a morte inesperada e precoce de Karl Abraham, no final do ano anterior. Sem seu analista e protetor, ela ficava exposta às críticas de membros mais conservadores da Sociedade às suas idéias relativas ao atendimento de crianças, completamente novas e originais, e divergindo do que pensavam Freud e sua filha Anna, que também se dedicava à extensão da psicanálise ao atendimento de crianças.

Em 1927, Melanie Klein torna-se membro da Sociedade Psicanalítica Britânica. A partir de então sua ascensão é fulminante. Os primeiros pacientes infantis eram filhos de colegas que nela já depositavam muita confiança, apesar do caráter revolucionário do que propunha. Havia, de fato, uma oposição radical entre sua proposta para a análise de crianças, que deveria ser o mais próxima possível da análise de adultos, e o modelo defendido por Anna Freud, muito mais conservadora nesse aspecto. Para ela, a psicanálise com crianças se aproximava mais de um trabalho de feição pedagógica e preventiva, enquanto para Klein o atendimento mesmo de crianças muito pequenas exigia modificações técnicas, mas não diferia do tratamento psicanalítico de adultos em seus objetivos e metas.

Em 1932, Melanie Klein publica seu primeiro livro, A Psicanálise de Crianças, que expõe os fundamentos técnicos da análise infantil mediante o brincar, e aborda as ansiedades precoces e seus efeitos no desenvolvimento: em excesso, as ansiedades bloqueiam o desenvolvimento emocional e cognitivo, mas sua ausência também é contraproducente. Como desenvolver a capacidade da criança acolher, experimentar, enfrentar e dominar suas ansiedades de modo a tornar-se apta à vida, à aprendizagem e à criação? É a questões como essas que o livro procura trazer respostas.

No âmbito familiar, a década de 1930 traria duas grandes dores: a morte de seu filho Hans, em 1934, ao escalar uma montanha, e as agressões da filha Mellita, que se tornara analista e ingressara na Sociedade Britânica. A morte de Hans afetou-a profundamente. Foi na elaboração desta perda que Melanie Klein escreveu o seu primeiro texto realmente ousado e totalmente inovador: "Uma Contribuição Para a Psicogênese dos Estados Maníaco-Depressivos" (1935), em que o tema da perda e da melancolia ingressava no campo de sua teorização. No outro front, suas relações com a filha Mellita iam de mal a pior e jamais puderam ser recuperadas.

Freud e Anna Freud não apreciavam as propostas kleinianas. A partir da década de 1940 - depois que os Freud se refugiaram do nazismo em Londres - formam- se dois blocos na Sociedade Britânica: de um lado,os adeptos de Melanie Klein, que aos poucos vai-se tornando uma figura carismática, verdadeira chefe-de-escola; do outro, os adeptos do freudismo clássico e os "inimigos de Melanie", como sua filha. É bom que se diga que muitos analistas importantes da Sociedade Britânica procuraram se manter eqüidistantes e equilibrados, mas o período foi marcado pela polarização.

Tal controvérsia ficará mais intensa a partir do texto de 1935. Durante toda a década de 1940, outros textos de Klein e de seu grupo de seguidores (em sua maioria, analistas mulheres) alimentam a polêmica. O "grupo kleiniano" tinha à frente Suzan Isaacs, Paula Heimann e Joan Rivière; a própria Melanie Klein exerce desde então seu domínio com mão de ferro. A partir desta época, à pessoa da psicanalista sobrepõe-se de fato a personagem "Melanie Klein", representando uma linha evolutiva do pensamento psicanalítico e uma posição institucional.

Apesar da contundência dos debates, é notável o fato de que Melanie Klein e seu grupo permanecem na Sociedade Britânica de Psicanálise e na Associação Internacional de Psicanálise (IPA), não sendo expulsos - como viria a acontecer com Lacan na década seguinte - nem abrindo uma dissidência contra Freud, como haviam feito Adler e Jung anteriormente.

Na segunda metade da década de 1940, Melanie Klein lança mais um texto impactante, uma nova radicalização de seu pensamento teórico: "Notas Sobre os Mecanismos Esquizóides", e no início da década seguinte o grupo kleiniano publica Desenvolvimentos em Psicanálise, com artigos de Melanie Klein, Joan Rivière, Suzan Isaacs e Paula Heimann, produzidos no contexto das Controvérsias Freud-Klein, e que reúne e aprofunda as divergências entre a teoria kleiniana e a freudiana, dando um maior acabamento ao "sistema kleiniano". Desde então, o kleinismo se converte em uma "escola" de pensamento psicanalítico, o que lhe dá grande força institucional e criativa, mas também um impulso na direção do dogmatismo e da auto-referência.

Na verdade, a emergência do kleinismo inaugura a "era das escolas": passaram a existir freudianos (ligados a Anna Freud e aos autores da Ego Psychology, vienenses emigrados para os Estados Unidos, como H. Hartmann), kleinianos e "independentes" (os analistas britânicos não alinhados às duas posições anteriores); mais tarde, surgirão os lacanianos (freudianos a seu modo), os bionianos, os psicanalistas da Self Psychology, como H. Kohut, os intersubjetivos etc. Cada grupo passa a se referir quase só à literatura científica dos que pensam e atuam de forma idêntica ou muito semelhante, excluindo os demais. Três décadas do movimento psicanalítico estiveram sob a égide da "era das escolas" e da dispersão teórica inaugurada pelo kleinismo. Hoje, esta divisão tende a ser superada e o pensamento kleiniano, entre outros, está muito mais integrado ao conjunto da psicanálise contemporânea.

No entanto, enquanto a era das escolas estava em seu apogeu, o kleinismo foi sempre muito atuante, e ainda hoje autores estritamente kleinianos continuam em atividade e publicando. Em 1955, saía uma nova coletânea dos pensadores alinhados com a teoria kleiniana - New Directions in Psycho-Analysis (Novas Direções em Psicanálise) -, incluindo, ao lado de textos de Klein, ca pítulos de autoria de Bion, Money-Kyrle, Elliot Jacques e Herbert Rosenfeld, com artigos de duas novas colaboradoras: Marion Millner e Hanna Segal, esta última uma das mais lúcidas e equilibradas kleinianas, que segue produzindo até os dias de hoje. A obra tem uma parte clínica e outra dedicada à interpretação psicanalítica da vida institucional, da ética e da estética: seu conjunto revela a força e a abrangência das teorizações kleinianas e seu poder de inspiração para novos pensadores.

Finalmente, em 1957, seria publicado o último livro de Melanie Klein com grandes novidades teóricas: Inveja e Gratidão, um livro pequeno em tamanho, mas denso, mostrando as duas disposições afetivas básicas do ser humano, amor e ódio, desde os primeiros anos e ao longo de toda a existência.

Um texto mais antigo, de sua autoria, será logo em seguida editado: Narrativa da Análise de uma Criança, no qual Melanie Klein esteve trabalhando até poucos dias antes de morrer, em 1960. Trata-se do relato, passo a passo, de seu trabalho clínico com um paciente de 10 anos, apresentando graves comprometimentos psíquicos e relacionais, a quem ela atendera intensivamente durante quatro meses. Todas as sessões tinham sido anotadas e discutidas em seus aspectos clínicos e teóricos. A análise fora conduzida no início dos anos 40, durante a guerra, quando analista e paciente se achavam refugiados em uma pequena cidade próxima de Londres, para fugir dos bombardeios.

Durante os anos seguintes, Melanie Klein foi relendo e comentando em notas de rodapé as 93 sessões transcritas, em um grande exemplo de seriedade e honestidade intelectual. No livro, o seu trabalho clínico de duas décadas antes é exposto, revisto e analisado com base em tudo que ela fora descobrindo e elaborando teoricamente nos vinte anos seguintes. É um exemplo excepcional da analista em atividade e evidencia como nunca o processo reflexivo e produtivo de Melanie Klein.

quinta-feira, abril 16, 2009

Lembranças traumáticas- Contardo Calligaris





E, como ele diz no final, é sempre bom lembrar- por isso eu gosto de psicanálise- é isto, lembrar, falar...



CONTARDO CALLIGARIS


Lembranças traumáticas




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Trauma não é uma lembrança muito forte; é um evento lembrado de forma insuficiente
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O "NEW York Times" de 6 de abril passado publicou um artigo de capa sobre pesquisas recentes graças às quais, um dia, será possível "editar memórias indesejáveis" (por exemplo, Heida, Englot, Sacktor e outros, "Neuroscience Letters", vol. 453, nº 5).
Apesar dos progressos da neurociência, estamos longe de entender exatamente o que é a memória. Simplificando, uma lembrança parece depender de substâncias que constroem pontes entre células do cérebro, pontes silenciosas, mas que podem ser imediatamente solicitadas caso um evento venha a ativar uma das células. Por exemplo, se você for Proust, quando der uma dentada numa madeleine, você não vai apenas saber que já comeu uma madeleine no passado: o gosto do docinho vai circular por inúmeras pontes e despertar todas as células relacionadas com as experiências de sua infância em Combray.
Até aqui, pensava-se que uma centena de moléculas estivesse envolvida na construção dessas pontes entre células.
A nova pesquisa encontrou uma substância, a proteína PMKzeta, cujas moléculas, mais do que outras, constituem e fortalecem as ditas pontes que, uma vez ativadas, produziriam uma lembrança. A pesquisa operou assim: escolheu ratos que tinham aprendido (de maneira permanente) a evitar pequenos choques elétricos no chão. Logo, injetou, no próprio lugar da dita memória, uma droga, chamada ZIP, que inibe a PMKzeta. E eis que os ratos voltaram à estaca zero: agiam como se não conhecessem o terreno.
Em tese, se a coisa funcionar nos humanos, deveria ser possível consolidar as lembranças injetando no cérebro PMKzeta (ou estimulando sua produção). Imagine as aplicações possíveis na demência senil ou, simplesmente, no envelhecimento (sem contar que todos começariam a querer injeções de PMKzeta para melhorar a memória deles e a de seus filhos). Até aqui, tudo bem.
O problema está na outra aplicação possível da pesquisa. O articulista do "Times" se entusiasmava com a ideia de que, um dia, com injeções cerebrais de ZIP, poderíamos produzir o esquecimento das lembranças desagradáveis ou traumáticas -claro, se a gente dominar o processo com precisão (para esquecer uma briga de casal, você não quer, ao mesmo tempo, perder a lembrança de seu primeiro beijo). Essa atitude do articulista talvez seja (perigosamente) compartilhada por parte da comunidade científica; ela se funda na ideia de que um trauma seria uma lembrança que nos estorva por ser, ao mesmo tempo, excessiva e desnecessária. Vistas do consultório de um psicoterapeuta, as coisas não estão bem assim.
Primeiro, a ideia de que a lembrança do trauma seria desnecessária e descartável é problemática. Se você foi estuprado na infância, é provável que você tenha construído sua vida inteira ao redor da lembrança dessa violência sofrida. Imaginemos, por exemplo, que, desde então, a figura que dá sentido à sua vida seja a da vítima: suprimir essa lembrança com uma injeção significaria suprimir um dos alicerces de sua personalidade e de sua existência. O que sobrará de você sem aquela lembrança traumática?
Outro problema. Tudo indica que um trauma não é uma lembrança nociva por ser forte demais; ao contrário, em geral, ele é um evento mal lembrado ou lembrado de maneira insuficiente. Mesmo caso: você foi estuprada quando criança; em muitos casos, essa experiência é traumática porque é lembrada SÓ como uma violência penosa que você sofreu. Você não memorizou, por exemplo, sua satisfação em se sentir objeto da atenção de um adulto ou mesmo sua descoberta culpada de emoções e sensações que lhe eram, até então, desconhecidas. O fato de reativar essas lembranças não desculpa o adulto estuprador, mas, para você que sofreu a violência, o sentido da experiência passada muda bastante; talvez não lhe seja mais necessário se conceber para sempre como vítima da vida.
Em suma, a solução do trauma não consiste em apagá-lo, mas, ao contrário, em lembrá-lo melhor. Se quiséssemos usar a técnica da pesquisa citada, eu sugeriria, no lugar onde o trauma está registrado, injeções de PMKzeta para ajudar a memória, não de ZIP para apagá-la.
O tempo das injeções cerebrais nos prontos-socorros ainda está longe. Mas não é cedo para notar que a cura das experiências penosas de nossa vida não está no esquecimento, mas no esforço para se lembrar delas em toda sua incômoda complexidade.

ccalligari@uol.com.br

Daqui

sexta-feira, março 20, 2009

Uma boa notícia




"Estudo liderado por Nicolelis é capa de Science

Uma nova técnica criada por uma equipe liderada por um pesquisador brasileiro e testada com sucesso em camundongos pode dar grandes esperanças aos pacientes vitimados pelo mal de Parkinson. Ela conseguiu, em roedores, eliminar os sintomas da doença ao estimular com eletricidade o sistema nervoso a partir da medula espinhal.

O trabalho foi chefiado por Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte."

Mais aqui.

segunda-feira, março 16, 2009

Vaticano critica excomunhão...

Menina Violentada

Do inblogs: http://inblogs.com.br/news/

Vaticano critica excomunhão no caso de aborto no Brasil

Por Luis Gustavo Chapchap

16,Mar,2009


Em artigo publicado pelo jornal da Santa Sé, o Osservatore Romano, neste sábado, o presidente da Academia Pontifícia para a Vida, Monsenhor Rino Fisichella afirma que os médicos que praticaram o aborto na menina de 9 anos, grávida de gêmeos após ter sido estuprada pelo padrasto, não mereciam a excomunhão.
"São outros que merecem a excomunhão e nosso perdão, não os que lhe permitiram viver e a ajudarão a recuperar a esperança e a confiança, apesar da presença do mal e da maldade de muitos", escreve Monsenhor Rino Fisichella, um dos mais próximos colaboradores do papa Bento 16 e maior autoridade do Vaticano em bioética.

Na avaliação do prelado, o arcebispo de Recife e Olinda, José Cardoso Sobrinho, foi apressado e deveria ter se preocupado primeiro com a menina. "O caso ganhou as páginas dos jornais somente porque o arcebispo de Olinda e Recife se apressou em declarar a excomunhão para os médicos que a ajudaram a interromper a gravidez. Uma história de violência que, infelizmente, teria passado despercebida se não fosse pelo alvoroço e pelas reações provocadas pelo gesto do bispo."

Segundo Monsenhor Fisichella, o anúncio da excomunhão por parte de D. Jose Cardoso Sobrinho colocou em risco a credibilidade da Igreja Católica.
"Era mais urgente salvaguardar a vida inocente e trazê-la para um nível de humanidade, coisa em que nós, homens de igreja, devemos ser mestres. Assim não foi e infelizmente a credibilidade de nosso ensinamento está em risco, pois parece insensível e sem misericórdia", escreve o bispo.

quinta-feira, março 12, 2009

Um arcebispo mais ou menos





Copio o Contardo, diz exatamente o que eu penso.


Um arcebispo mais ou menos


Contardo Calligaris


Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico


NA SEMANA passada, no Recife, descobriu-se que uma menina de nove anos estava grávida de gêmeos. A mãe imaginava que a barriga crescente fosse o efeito de um parasito. Mas não era um parasito; era o padrasto, que abusava regularmente a menina e a irmã (de 14 anos, portadora de uma deficiência mental). O abuso começou quando as crianças tinham, respectivamente, seis e 11 anos.
O padrasto foi preso, e uma equipe médica, autorizada pela mãe, interrompeu a gravidez da menina, seguindo a lei brasileira, que permite a interrupção de gravidez em caso de risco de vida para a mãe e também em caso de estupro. Quem conhece alguma menina de nove anos pode facilmente imaginar o que significaria submeter aquele corpo a uma gravidez completa e a um parto duplo.
Além disso, qualquer um pode intuir que carregar na barriga, parir e "maternar" o fruto de um estupro é devastador para a mãe assim como para os eventuais rebentos dessa catástrofe. Alguém dirá: "Mas a mulher acabará esquecendo o estuprador (que foi gentil, nem a matou, não é?), e o sentimento materno prevalecerá". Esse conto de fada (machista) não se aplica no caso da menina de Recife.
Pede-se o quê? Que ela esqueça que, durante três anos, quem devia ser para ela o equivalente a um pai se serviu de seu corpo de uma maneira que ela não tinha condição de entender e num quadro em que ela não tinha a quem recorrer, é isso? No meio da semana, o arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, declarou que os que estivessem envolvidos na interrupção da gravidez da menina (a mãe, os médicos, os enfermeiros) fossem excomungados. Agora, o padrasto não; pois o crime dele seria mais leve. Isso, segundo o bispo, é a "lei de Deus". O bispo se confundiu: essa não é a lei de Deus, é a lei da Igreja Católica.
E faz alguns séculos que essa igreja não tem mais (se é que um dia teve) a autoridade moral para ela mesma acreditar que seus decretos sejam expressão da vontade divina. Portanto, sua persistência em tentar convencer os fiéis de que a voz da igreja coincide com a voz de Deus se parece estranhamente com a conduta do padrasto da história (e de qualquer pedófilo): trata-se, em ambos os casos, de tirar proveito da "simplicidade" de crianças e ingênuos. Mas voltemos aos fatos. O presidente Lula, "como cristão e como católico", achou lamentável a declaração do arcebispo. Dom José não gostou e afirmou que o presidente Lula é "um católico mais ou menos".
O presidente Lula se expressou numa ordem perfeita: ele é (primeiro) cristão e (segundo) católico. Ou seja, se a igreja diz algo que contraria seu entendimento da mensagem de Cristo, tanto pior para ela. A mensagem cristã da qual se trata não tem a ver com a interrupção de gravidez. Ela é mais fundamental: trata-se da liberdade do indivíduo e da consciência em sua relação com Deus. Explico.
É trivial constatar que, na modernidade, a decisão moral é um questionamento constante e, às vezes, atormentado: cada um, levando em conta as ideias de seu grupo, seus valores mais singulares, seus sentimentos, sua fé (se ele tem uma) e os fatos (caso a caso), chega a uma decisão ou a uma opinião que acredita justa. Um pouco menos trivial é lembrar que esse aspecto da modernidade é o melhor fruto da tradição judaico-cristã e, mais especificamente, da novidade cristã, pela qual Deus pode ser o mesmo para todos porque ele não se relaciona com grupos ou pelo intermédio de grupos, mas com cada indivíduo, um a um.
Ser moderno não significa topar qualquer parada e perder-se no relativismo. Ao contrário, ser moderno (e ser cristão) significa tomar a responsabilidade de decidir no nosso foro íntimo o que nos parece certo ou errado. Claro, é mais difícil do que procurar respostas feitas e abstratas no direito canônico. Mas, contrariamente ao que deve achar dom José, ninguém nunca disse que ser cristão (e moderno) seja fácil.
Felicito o presidente Lula, que falou como cristão, ao risco de parecer "católico mais ou menos". Quanto a dom José, ele falou como católico e se revelou como um "cristão mais ou menos". O dia em que ele quiser ser cristão, ele nos dirá, com suas palavras, por que e como, em seu foro íntimo, acha o gesto de quem interrompeu a dupla gravidez de uma criança de 30 quilos muito mais grave do que a abjeção de um padrasto que, por três anos, estuprou suas enteadas.

domingo, fevereiro 22, 2009

A ciência e as religiões- Marcelo Gleiser





A ciência e as religiões


Marcelo Gleiser


Forçar a rigidez é condenar a congregação a viver no passado


Como escrevi em colunas recentes, neste ano celebramos dois grandes aniversários. O primeiro, o bicentenário do nascimento de Charles Darwin e o sesquicentenário da publicação de seu revolucionário "A Origem das Espécies". O segundo, os quatrocentos anos da publicação do livro "Astronomia Nova", em que Johannes Kepler mostrou que a órbita de Marte é elíptica, inferindo que todas as outras seriam também.
No mesmo ano, 1609, Galileu Galilei apontou o seu telescópio para os céus mudando a astronomia para sempre.
Em ambos os casos, as descobertas científicas criaram sérios atritos com as autoridades religiosas. Atritos que, infelizmente, sobrevivem de alguma forma até hoje, principalmente com as religiões monoteístas que dominam o mundo ocidental e o Oriente Médio: judaísmo, cristianismo e islamismo. O momento é oportuno para iniciarmos uma reavaliação das suas causas e apontar, talvez, resoluções.
Simplificando, pois temos apenas algumas linhas, o problema maior não começa no embate entre a ciência e a religião. Começa no embate entre as religiões. Existe uma polarização cada vez maior já dentro das religiões entre correntes mais ortodoxas e aquelas mais liberais. As diferenças são enormes. Por exemplo, no caso do judaísmo, podemos hoje encontrar rabinas liderando congregações, algo que enfureceria ao meu avô e a seus amigos.
Nos EUA, algumas correntes protestantes, como os episcopélicos, têm pastores e bispos abertamente homossexuais. Nessas correntes mais liberais dentre as religiões se vê também uma relação completamente diferente com a ciência.
Em vez do radicalismo imposto por uma interpretação liberal da Bíblia, as correntes mais liberais tendem a ver o texto bíblico de forma simbólica, como uma representação metafórica de acontecimentos e fatos passados com o intuito -dentre outros- de fornecer uma orientação moral para a população. (A questão da necessidade de um código moral de origem religiosa deixo para outro dia.)
Escuto pastores e rabinos afirmarem regularmente que é absurdo insistir que a Terra tenha menos de 10 mil anos ou que Adão e Eva surgiram da terra. Para um número cada vez maior de congregações, é fútil fechar os olhos para os avanços da ciência.
Para eles, a preservação dos valores religiosos, da coesão de suas congregações depende de uma modernização de suas posições de modo que possam refletir o mundo em que vivemos hoje e não aquele em que pessoas viviam há dois mil anos.
O mundo mudou, a sociedade mudou, a religião também deve mudar.
Insistir na rigidez da ortodoxia é condenar a congregação a viver no passado, numa realidade incompatível com a sociedade moderna. Se o pastor ou rabino ortodoxo tem câncer e recebe terapia de radiação, ele deve saber que é essa mesma radiação que permite a datação de fósseis com centenas de milhões de anos. É hipocrisia aceitar a cura da radiação nuclear e ainda assim negar os seus outros usos.
Fechar os olhos para os avanços da ciência é escolher um retorno ao obscurantismo medieval, quando homens viviam suas vidas assombrados por espíritos e demônios, subjugados pelo medo a aceitar a proteção de Deus. A escolha por uma devoção religiosa -se é essa a sua escolha- não deveria ser produto do medo.
No fim de semana passado, a catedral de São Paulo em Melbourne, Austrália, ofereceu um simpósio sobre Darwin. Nos EUA, outro simpósio reuniu cerca de 800 pastores e rabinos para discutir modos de reconciliação entre ciência e religião. Parece que finalmente um novo diálogo está começando. Já era tempo.


MARCELO GLEISER
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo".

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

A rua da revolução-Contardo Calligaris





A rua da revolução


CONTARDO CALLIGARIS

O problema é a rotina de quem trabalha e cria filhos ou o desejo louco de viver outra vida?

ÀS VEZES, conversava com meu pai sobre sonhos que eu acalentava e que implicariam mudanças grandes na minha vida.
Ele me escutava e, em geral, concluía: "Só que não basta sonhar, é preciso ter coragem". Em suma, havia uma infelicidade específica que ele não queria para mim, a de quem cultiva seus desejos como se fossem "apenas um sonho", sem ter a ousadia de tentar vivê-los. É por isso que não achei ruim o título em português que foi escolhido para o novo filme de Sam Mendes e para o grande romance que o inspira, de Richard Yates (de 1961, agora traduzido pela editora Alfaguara): "Foi Apenas um Sonho".
O título original de ambos era "Revolutionary Road" (rua da revolução). Não é raro que, nos pacatos subúrbios americanos de classe média, o nome de uma rua lembre a revolução pela qual os EUA se constituíram independentes e republicanos. Por uma ideia e um futuro de liberdade, os revolucionários de 1776 arriscaram tudo, apostaram "sua vida, sua fortuna e sua honra sagrada". E o título original de Yates perguntava (ironicamente) se algo daquela coragem sobraria num subúrbio dos anos 50, em que quase todos, como Frank e April, o casal do livro e do filme, vivem sorrindo ou fazendo de conta, embora convencidos de que a vida deveria trazer outras aventuras.
Poucos anos depois da história de April e Frank, aliás, uma nova geração fez outra revolução -desta vez, em nome dos desejos silenciados. Seu moto, inventado por Jerry Rubin (estranha cumplicidade entre ele e meu pai), foi "Do it!", faça-o, ou seja: "Seja lá o que for, não deixe que fique apenas um sonho". Mas voltemos ao tema central do livro e do filme, ou seja, digamos assim, à suposta covardia do desejo.
Para começar, uma curiosidade: eu tinha a sensação de já ter escrito sobre o romance de Yates, mas não sabia quando. Graças ao Google, descobri que, em 1999, na bibliografia de meu livro "Adolescência" (Publifolha), eu citava "Revolutionary Road", de Richard Yates, como "um dos maiores romances americanos do pós-guerra", "em que a monotonia da vida suburbana se torna intolerável por causa da urgência de interromper a rotina adulta para poder "se achar'".
Na época, o livro não existia em português, e eu sugeria que quem não pudesse lê-lo em inglês recorresse ao filme "Beleza Americana", de Sam Mendes, cuja "personagem principal é um herdeiro direto do herói de Yates". Palavras proféticas: logo Sam Mendes acabou adaptando o romance de Yates.
Agora, a inspiração no romance de Yates torna "Foi Apenas um Sonho" um filme menos caricatural e mais tocante do que "Beleza Americana".
De onde vem a infelicidade de Frank e April? Tudo bem, April esperava ser atriz e não é (talvez por falta de talento). Quanto a Frank, ele não tem nenhuma aspiração concreta. Por que razão, então, viver numa casa agradável, trabalhando e criando os filhos, levaria a um "vazio sem esperança"? Sem esperança de quê?
Claro, na saída do cinema, parece óbvio o destino de quem habita o estereótipo de um cartão-postal: apenas seria possível escolher entre a insatisfação existencial e o kitsch melado no qual vive "feliz", no filme e no livro, a corretora de imóveis.
Mas paira no ar uma pergunta: e se o problema não fosse o sossego da Revolutionary Road, mas o próprio desejo insano de viver outra vida? A insatisfação abstrata que assombra April e Frank é o cemitério do amor. A escolha de DiCaprio e Winslet (excelentes) parece querer nos contar o que teria acontecido se DiCaprio tivesse sobrevivido ao naufrágio do Titanic: a vida do casal se tornaria uma misteriosa prisão, em que o cotidiano imporia renúncias covardes a sonhos e desejos "livres".
Mas a qual liberdade eles renunciariam? Nada a ver com a que preocupava os revolucionários de 76: é a liberdade de ir viver em Paris. Sarcasmo: a "loucura" é tão enlatada quanto a realidade. Mais um detalhe. É April que exige de Frank uma coragem sem a qual talvez ela deixe de amá-lo e de reconhecê-lo como (seu) homem. A "trivialidade" das conquistas profissionais não basta; Frank deve inventar outros desejos (que, na verdade, ele mal tem). April se torna assim uma representante feroz daquelas expectativas monstruosas com as quais qualquer homem lida como pode -as expectativas maternas: "Seja extraordinário, meu filho".
Tudo bem, serei extraordinário, mas como? Pois é, caro Frank, ser homem não é mole.

domingo, janeiro 25, 2009

Um novo começo- Marcelo Gleiser

Da Folha

Marcelo Gleiser

Um novo começo

A mensagem de Obama é clara: o futuro pertence aos que pensam com as mentes livres


A cabo de assistir ao discurso de posse de Barack Obama, o 44º presidente dos EUA. Impossível não se comover com a sua eloquência, com a força das suas palavras. O contraste com George W.
Bush, sentado em seu banco com a face infantilmente contorcida em inúmeras expressões, chegava a ser doloroso. Este é o despertar de uma nova era. É o que todo mundo diz por aqui. Na minha universidade, as aulas foram interrompidas e milhares de alunos se reuniram em auditórios e salas de aula para assistir à cerimônia.
Em mais de 20 anos nos Estados Unidos, nunca presenciei algo assim. Nunca vi tantas pessoas, de todas as idades, de todas as raças e religiões, tão empolgadas. (Fora a Copa do Mundo no Brasil, claro.) Dizem que a expectativa, a esperança, é semelhante -talvez maior- do que a que o povo americano sentiu quando John F. Kennedy iniciou seu governo, em 1961. Tinha apenas dois anos e não me lembro.
Mas lembro o choro de minha mãe quando o jovem presidente foi assassinado, em novembro de 1963. A segurança na cerimônia de Obama envolvia 30 mil soldados e policiais; uma força maior do que a que opera no Afeganistão. O mundo continua enfermo. O que encontramos nas palavras de Obama? Felizmente, muita coisa boa.
Claro está que a proposta dele é de virar o país ao avesso; endireitar o que oito anos do governo Bush entortaram. A começar pela inclusão religiosa. Nos EUA, é mais fácil eleger um presidente negro ou judeu do que um ateu. Mesmo assim, Obama chegou até a incluir os não-crentes ("non-believers") no seu discurso, ao lado dos cristãos e os muçulmanos, os judeus e os hindus. Isso não tem precedentes aqui, um país onde os ritos religiosos são parte integral dos ritos políticos, como ficou claro com a escolha de Rick Warren como pastor da cerimônia.
Logo ele, que afirma que a submissão a Deus é fundamental aos homens. Nada mais contrário ao que diz Obama, que quer construir uma nação onde a igualdade é a força chave, onde a educação e a saúde estão ao alcance de todos, e a ciência -aí sim foi que gostei mais ainda- tem o papel principal na luta contra alguns dos desafios mais sérios que enfrentaremos nas próximas décadas: o aquecimento global, a crise econômica, a dependência dos combustíveis fósseis. "Dados científicos, os resultados da pesquisa de profissionais competentes, não se prestam à manipulação política que serve a grupos de interesse", disse ele alguns meses atrás.
Essa é uma menção às vergonhosas distorções feitas em relatórios da Agência de Proteção Ambiental (EPA) e nos resultados de pesquisas sobre o aquecimento global e suas consequências. Podemos esperar mudanças radicais na política ambiental americana. O novo governo promete investir pesado em fontes alternativas de energia. Podemos esperar também um aumento substancial no fomento à pesquisa básica e aplicada.
Espero que nisso o governo brasileiro siga o exemplo, e aumente também o orçamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A mensagem de Obama é clara: o futuro pertence aos que pensam com as mentes livres e mantêm os corações abertos. Talvez esse seja mesmo um novo começo. Apesar de temeroso, mantenho-me otimista.
O mundo precisa agir. PS: Quando esta coluna já estava sendo fechada, fiquei sabendo do absurdo corte de 18% no Orçamento de 2009 para ciência e tecnologia. Exatamente o oposto do que nosso país deveria estar fazendo. O Congresso precisa entender que a ciência é um dos maiores bens nacionais.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo".

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Zoé e o demônio do meio-dia- Contardo Calligaris





Da Folha de São Paulo hoje.

CONTARDO CALLIGARIS

Zoé e o demônio do meio-dia

O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios

DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos "Cahiers du Cinéma". Ela desmontaria os "truques" destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: "Mas por que ela gostaria de pensar assim?"
Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações "que circulam pelas trevas" quanto "do demônio do meio-dia". Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de "troços" inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
"Filosofia do Tédio", de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os "troços" que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências "incríveis". Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista "Época", reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria - pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.