TE DEVORO¹
por Lêda Guimarães, Domingo, 20 de Novembro de 2011 às 19:22 ·
Lêda Guimarães (AMP-EBP 22/10/2011)
As neuroses contemporâneas desafiam os analistas. O declínio da operatividade do NP na configuração simbólica da nossa época abre as comportas para um gozo feroz que conduz facilmente à mortificação. O imaginário floresce num esforço espontâneo da estrutura subjetiva para tentar fixar uma suplência, mas o reinado da imagem do Eu não contém os estragos desse desvario.
Se do lado dos homens
a incidência do autismo cresce em proporções alarmantes - engendrando
homens psicóticos que já nascem mortos como sujeito, pois que nem sequer
alcançam a alienação especular - do lado das mulheres a tristeza se
alastra - aspirando no poço escuro da desistência da vida a magnífica
imagem atual d´A Mulher-Toda linda, sensual, poderosa.As neuroses contemporâneas desafiam os analistas. O declínio da operatividade do NP na configuração simbólica da nossa época abre as comportas para um gozo feroz que conduz facilmente à mortificação. O imaginário floresce num esforço espontâneo da estrutura subjetiva para tentar fixar uma suplência, mas o reinado da imagem do Eu não contém os estragos desse desvario.
Os instrumentos clássicos dos analistas para operar uma redução de gozo - a interpretação como enigma, a sessão curta, o corte, o silêncio e o semblante de neutralidade - não operam nenhum efeito analítico nessas neuroses atuais, pelo contrário, expulsam os demandantes dos seus consultórios, deixando-os desabrigados diante da melodia ilusória do canto da sereia das Terapias Cognitivas Comportamentais, estas que amordaçam mais e mais a dimensão viva do desejo sob o império do Eu. Desse modo, o cogito cartesiano 'penso, logo existo' revela sua verdadeira face no predomínio das defesas obsessivas: 'penso, logo morro'.
Como oferecer e acolher esses sujeitos no ato analítico? Ato que vivifica a dimensão faltante do amor e do desejo, instituindo um laço social que resgata os sujeitos da solidão mortífera do gozo. A partir dessa questão, apresentarei nesse trabalho alguns norteadores, a partir do que venho me deixando ensinar em minha prática psicanalítica com as mulheres contemporâneas.
As estratégias na transferência se impõem como o lastro que fixará os efeitos da tática utilizada pelo analista no discurso do sujeito. As estratégias na transferência, quando aliadas a uma política dirigida para o real do gozo, tomam ao seu encargo o trabalho de abertura gradativa da dimensão da falta no Outro. O que não poderá ser instituído nessas neuroses pela via do mutismo do analista, pois seu silêncio, longe de introduzir a dimensão enigmática do desejo do Outro, incide sobre esses sujeitos como um imperativo superegoico mortificante: "você deve estar pensando que eu não tenho jeito mesmo".
Portanto, as neuroses contemporâneas convoca o analista para o uso de estratégias na transferência que reduzam a potência do Outro quase absoluto em seu imperativo superegoico de gozo. O que requer do analista a oferta dum semblante de leveza, docilidade, amorosidade, dedicação, gentileza.
Essas estratégias na transferência seguem numa mesma direção traçada para a tática utilizada pelo analista
Mais aqui.
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